Lights In The Camp
2 Desculpe mãe, explodi uma companhia de energia
Notas iniciais
A vida de Júlia Martinez era normal até uma certa tarde comum em sua cidade natal. Tudo parecia bem, ela se preparava para fazer doze anos e nada podia dar errado. E não teria dado, se ela tivesse escutado seu pai e ficado em casa, ao invés de marcar com seu melhor amigo em um parque perto dali.
Quer um aviso antes de começar a ler essa história? Nunca subestime o poder de Júlia Martinez de se meter em confusão.
Agora, quer um conselho? Desista de tentar ser racional ou no mínimo lógico. Pois, Júlia já desistira de ser a partir daquele dia.
E ele começa assim.
Os passos rápidos e a respiração descompassada indicavam uma coisa: fuga. As pupilas dos olhos de Júlia só davam um toque mais chocante ao seu rosto exausto. A garota corria o máximo que podia por entre as árvores e arbustos, com os galhos arranhando seus braços e pernas, mas ela não podia parar. Do que estava fugindo, ela não sabia. Mas, a coisa já tinha vindo antes. Ouviu gritos horrendos atrás de si, cada vez mais perto.
— Você não pode fugir de mim, Júlia. – Uma voz arrastada como se o emissor tivesse falando com a língua entre dentes, ou melhor, entre presas, ecoou atrás das árvores ao seu redor. O som de bater de asas começou a chegar aos seus ouvidos. Mas, não podia ser. Não existem mulheres-pássaros no Brasil. E nem nessa dimensão. E como raios aquela criatura que nem queria olhar sabia o seu nome?
A garota olhou para trás apenas para ver a criatura horrenda que lhe perseguia. Não pode ser real. Isso é impossível. É uma variável da espécie humana que não existe. Júlia repetia para si mesma enquanto tentava esquecer do cansaço que já a dominava. Mais duas baforadas e se lançou para a esquerda, contando com a sorte para que a criatura não estivesse naquela direção, seus instintos diziam que ela estava a sua extrema direita. Pegou o celular no bolso e tentou digitar rapidamente no teclado, sem sucesso. Não estava nem enxergando os números de tão nervosa. Colocou de volta no bolso e diminuiu a velocidade inconscientemente. Chegava “perto” de um muro. Ótimo, eu ao menos sou boa em escalada. Correu mais um pouco pegando impulso enquanto, de rabo de olho, viu a mulher-pássaro se movimentando ao seu lado. Só aguente mais um pouco, Ju.
— A princesa realmente acha que pode me vencer. Você é só um bebê, garotinha. Nem sabe os poderes que tem. – A imagem da mulher se tornou mais nítida quando Júlia olhou para a mesma. Os olhos eram flamejantes e sua cabeça imitava a forma humanoide de uma cobra. Ela até soltou sibilos por entre as presas.
— Quem é você? – Júlia gritou por cima do ombro sem olhar para trás. O muro ainda estava longe. Isso mesmo, sua idiota. Com tantas perguntas, porque o nome dela faria diferença? A morena se xingou.
— Eu. – A mulher-morcego voou por cima de sua cabeça e pousou em um grosso e grandioso galho de uma árvore a sua frente. – Sou Tisífone. Fúria vingadora de assassinatos. Pra você é Erinia. – Ela sorriu com as presas com cores escuras. Ela tinha cáries ou era impressão?
— Certo, eu sou a Júlia. – Ela não tinha saída, então porque não conversar e puxar um papinho ao invés de correr para se salvar? – Uma garota normal do Rio de Janeiro. – Ela abriu os braços indicando que era onde estavam. – Curso o Ensino fundamental II.
— Interessante, mas eu não ligo. – A fúria, Erinia ou seja lá quem ela fosse, sorriu como se dissesse: ela acha mesmo que vai escapar?
— Antes de me matar, não pode dizer o que quer comigo? Eu jurei pra mim mesma que se um dia eu fosse assassinada, que ao menos tivessem motivos pra isso. – Ju abriu os braços, dando de ombros, como se seu coração não estivesse saindo pelos cotovelos.
— Não vou matar você, garota tola, mesmo querendo muito. Ao menos não agora. Qualquer titã, gigante ou monstro vai me dar uma bela recompensa por seu pescoço divino. – Pescoço divino? Seu pescoço era tão bonito assim?
Tisífone deu mais um sorriso careado e desceu do galho, recolhendo suas asas. Não é possível. Estavam em um parque estadual e NINGUÉM ESTAVA VENDO AQUILO? E porque tinha brigado com seu pai logo naquele dia? Se não tivesse saído de casa com raiva por algo que nem se lembrava mais, ela não estaria em frente a uma besta que queria seus olhos fora. Droga, pense Júlia. Você é boa de papo, FAÇA ALGO!
— E o que eu fiz de tão errado pra ter a matadora de assassinos atrás da minha cabeça? – Júlia errou seu nome de propósito. Precisava pensar em algo. E rápido.
— Vingadora de assassinatos, princesa. – Ela fez uma carranca. O que era impossível, pois sua cara já era horrorosa. – Sabe o que fez? Nasceu.
Que péssimo argumento.
— Eu não tive culpa de nascer. A culpa foi dos meus pais que perderam o dia da tabelinha e...
A fúria ou Erinias se aproximou rindo alto, o que mais parecia um grito de dor. Olhou para baixo, para a garota pequena, e dessa vez não sorriu.
— Deuses não controlam gravidez por tabelinha. – E seu semblante não era de quem estava brincando. Mas, deuses? Ela era o quê? Filha de Odin ou coisa parecida? Pelo menos tinha um irmão muito gostoso.
— Não sei de quem você está falando, e eu sei que meus pais não me queriam, porque eram muito novos e tal. – Júlia fez uma careta e enrugou o nariz. — Mas, eles me amam então eu fico de boas e...
— Os deuses nunca, NUNCA, pretendem ter vocês, vermezinhos. Mas, vocês insistem em vir à tona. – Tisífone abriu as duas mãos e de lá apareceram garras enormes com manchas nas pontas. Que aquilo não fosse sangue, por favor. – Chega de enrolar. O papo está bom, mas eu...
BUM! Uma bomba, brasileiramente falando, rojão, explodiu ao lado da cabeça de Tisífone. Júlia não perdeu tempo. Enquanto a Erinia estava desorientada, ela se lançou rapidamente para a esquerda da fúria e correu o máximo que suas pernas conseguiam. Ela sorriu para Theo, o melhor amigo de toda sua vida. Ele já corria ao seu lado, com uma caixa de fósforos na mão.
— Eu nem vou perguntar quem era aquele brutamontes. – Theo gritou enquanto os dois tentavam alcançar o muro que nenhum dos dois sabia o que havia por trás.
— Espera, você não está vendo uma mulher-morcego? – A cabeça de Júlia estava a mil. Ela sabia o que tinha visto. Como...
— Não. Está brincando comigo? – Theo fez cara de confuso. – Joguei um dos fogos de artificio que trouxe pra te assustar naquele homem enorme. Achei que era um assaltante ou coisa parecida. Mas, que história é essa de mulher-morc...
— Corre, Theo. Explico depois. – Júlia ouviu os urros da mulher-morcego/brutamontes. Ela já estava bem perto dos dois agora.
— Você não vai escapar de novo, princesa. – A mulher-morcego gritou e mais uma sequência de bater de asas foi ouvido atrás dos dois que corriam a toda.
— Princesa? – Theo perguntou, mas não foi ouvido por Júlia.
Pegaram mais um impulso e Júlia colocou as duas mãos em um tronco de árvore e Theo se dirigiu a uma árvore próxima. Ambas tinham galhos que passavam por cima da cerca-elétrica que percorria todo o topo do muro esbranquiçado. Os dois pré-adolescentes escalaram o mais rápido que puderam e caminharam, tentando não cair, pelos grossos galhos das árvores. Júlia conseguiu passar pelo muro primeiro do que Theo. A sorte dos dois era que uma grande caixa de concreto estava um pouco abaixo deles, amortecendo a queda. Um líquido desceu pelas costas de Júlia. Suor. Nossa, que show.
— Ok, agora me explica o que... – Theo foi interrompido por mais um urro de Tisífone.
— Temos que sair daqui. Pedir ajuda a alguém.
— Porque esse cara está gritando? – O garoto loiro com olhos azuis bem brilhantes enrugou o nariz.
Eles olharam ao redor enquanto conversavam. Várias caixas de concreto e metal estavam espalhadas por ali, com fios e mais fios negros e vermelhos interligados. Torres de ferro pesado foram erguidas com fios entre elas. Ali era uma companhia de energia que distribuía energia elétrica para a parte leste do Rio de Janeiro. Como não havia nenhum segurança ali para ajudá-los? Aquilo só podia ser um pesadelo dos grandes.
— Não é um cara, Theo. – Júlia olhou fundo nos olhos do amigo, ela sabia que assim ele acreditaria nela. – É uma mulher. Meio humana, meio morcego, meio cobra. Sei lá.
— Essas coisas não existem. – O loiro falou a ela enquanto eles continuavam a correr, procurando qualquer coisa que ajudasse.
— Acha que eu estou inventando? Eu também não quero acreditar, mas é o que eu vejo. Não sei por que você vê diferente...
— Talvez porque seja mesmo um cara e não uma mulher-morcego, Júlia! – Ele falou um pouco mais alto, como se quisesse que ela parasse com a brincadeira de mal gosto.
— Eu não estou brincando. – Júlia o olhou, séria. – Não sei o que é, nem o que quer comigo, mas você precisa me ajudar...
Tisífone voou por cima de suas cabeças e se apoiou em uma das torres de ferro que transmitiam energia. Júlia não precisava ser formada naquilo pra saber que se ela mexesse em um fio errado, todos os três explodiriam aquela companhia inteira. E ai, tchau tchau.
— Você vem comigo agora. E eu deixarei seu amigo mortal viver. – Mortal? Tisífone sorriu novamente. Só agora, Júlia reparou em seu tronco e pernas. Eram todos negros como suas asas, com garras nos pés e tronco musculoso. Ai caramba.
— Viver? – Theo disse, nervoso. Ai, ela não ia matar ele, ia?
— Você não vai encostar nele. – Júlia gritou.
Como se só para desafiar a baixinha, Tisífone agarrou Theo pelos ombros e subiu com ele. Júlia apertou os punhos com raiva, enquanto gritava para Theo ficar calmo. Droga. Como ela se sentia inútil. O que faria? Escalaria atrás dele? Levaria um choque daqueles e não seria tão rápida quando as asas de Tisífone. A raiva aumentou. Odiava se sentir inútil. Então correu por entre as caixas de concreto e subiu em uma delas. Elas estavam enfileiradas. Tisífone não estava voando tão alto, como se estivesse desafiando-a para uma briga. Theo tentava chutar e bater na mulher-morcego. Talvez ele soubesse o que Júlia pretendia. Os dois tinham uma sintonia incrível. A garota correu e pulou por entre as caixas de concreto, para pegar impulso. Os punhos cerrados, os dentes trincados, a mandíbula travada. Todos sinais da raiva enorme daquele morcego idiota que estava brincando com a vida do seu amigo. Tisífone não estava olhando pra ela, já que Theo estava machucando suas pernas. Então, uniu isso a sua raiva e coragem e correu mais um pouco. Ao chegar à última caixa da fileira, pulou e agarrou-se a uma das pernas do monstro. Já que Tisífone segurava Theo pelas garras dos pés, o garoto caiu com o impacto de Júlia em uma delas e bateu com as costas no chão. Ele gritou e Júlia pediu desculpas mentalmente.
— Garotinha ousada. – Ela sacudia o pé direito na tentativa de fazê-la soltar. – Agora eu vou machucar seu amiguinho.
E foi nesse momento que Júlia não entendeu absolutamente nada. Ela nunca entendia nada, na verdade. Mas, aquilo foi estranho. Um dos fios ligados a uma das torres de energia acertou a fúria na cabeça fazendo-a levar um choque. Júlia e Theo sabiam que aquele fio devia ter bem mais de 220 volts. Júlia se soltou das pernas de Tisífone e ainda no ar, escutou explosões enormes. Os fios começaram a se soltar da torre, puxando outros fios de outras torres. Barulhos de choques invadindo o ar passaram pelo topo das cabeças dos dois, assim que Júlia caiu por cima de Theo. Eles viram o ar se encher de energia mortal. A fúria gritou com fúria (trocadilho engraçado pro momento, né Júlia?). Fios vieram em direção a eles. Mas, nenhum dos dois foram atingidos. Eles se olharam, assustados. Deveriam estar mortos. Mas, não estavam... O que ninguém entendeu foi: Como aquele fio movimentou-se sozinho? Como Júlia não sofrera com os choques que atingiram a fúria e com certeza a atingiram também? E principalmente... Como ela e Theo haviam saído ilesos após uma explosão provocada pelo desligamento misterioso de alguns fios da torre de energia? Ela não sabia explicar.
E mesmo após o tiroteio de descargas elétricas ter cessado, após os bombeiros e a polícia chegarem e após os dois saírem do hospital com vida, eles não conseguiram entender o que havia acontecido ali dentro.
Até um homem numa cadeira de rodas e mais dois adolescentes baterem em sua porta no dia seguinte.
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