Light and Shadow
5 O Estrela da Manhã
Notas iniciais
O Estrela da Manhã era incrível. Desde o momento em que Sona pisara no interior da nave, não conseguia deixar de se impressionar com cada cômodo em que entrava. A decoração interna era extremamente colorida e divertida, e Sona suspeitava que isso era obra da excêntrica pilota dos cabelos laranjas.
Estava a bordo da nave a quase dois dias, desde que partiram de Miraxes às pressas depois de milagrosamente encontrar a tripulação do Estrela da Manhã, como Yone a havia instruído a procurar, antes que algum ordinal ou caçador de recompensas do império a encontrasse. Passara o dia anterior praticamente todo dormindo em sua recém designada cabine, já que seu corpo clamava por um bom descanso depois de todos os exaustantes acontecimentos recentes, desde sua captura no planeta Ionan. Acordara hoje revigorada, e aproveitou o dia para conhecer melhor a nave e os tripulantes a bordo.
O capitão era Yasuo, irmão mais novo de Yone, aquele que a salvara das mãos do impiedoso Ordinal. Nunca esqueceria daqueles olhos bondosos, e se perguntava se um dia voltaria a vê-lo. Yasuo era fisicamente bem parecido com seu irmão mais velho, com cabelos compridos presos em um rabo de cavalo. Porém, enquanto o irmão tinha seus fios acinzentados, os de Yasuo eram de um branco puro. Tinha um rosto bonito e um corpo atlético, típico de alguém que não perde nenhuma oportunidade para treinar seus saltos e golpes de espada.
A pilotagem da nave era de responsabilidade de Jinx, uma garota magricela e extrovertida que falava por horas e horas sem se cansar. Sona gostava disso. Escutar sempre fora seu forte. Jinx, aparentemente, também gostava de falar com alguém que não a interrompesse. Segundo rumores, a única coisa que Jinx gostava mais do que falar, era de explodir coisas. Porém, Sona esperava que tal característica continuasse como apenas um rumor, pelo menos enquanto ela estivesse a bordo.
O último integrante da Estrela da Manhã era Malphite. Apesar de parecer à primeira vista um ser violento e de temperamento explosivo, não precisou de muito tempo para que Sona percebesse que ele era na verdade uma criatura muito doce. Bom, com aqueles que o tratassem bem, é claro. Preferia não testar o contrário. Jinx lhe contara que ela e Malphite se conheceram em uma operação de mineração e que, desde então, nunca mais se separaram. Parece que o motivo de eles terem saído, ou expulsos, deste antigo trabalho, teve a ver com a partição de um asteroide em dois, mas Sona preferiu não saber dos detalhes.
Estava distraída assistindo Malphite e Jinx tentarem, pela vigésima oitava vez, construir um pequeno navio dentro de uma garrafa de vidro, quando Yasuo entrou e pediu para que todos se reunissem. Estava cabisbaixo e com uma expressão séria no rosto, muito diferente da costumeira postura elegante e despreocupada que o capitão lhe havia mostrado até agora.
— Recebi uma mensagem agora a pouco. Um comunicado. O império... já sabe sobre seu paradeiro, Sona. Sinto muito.
Estava realmente tudo muito tranquilo pra ser verdade. Estava cansada de fugir, mas parecia que as coisas sempre acabavam voltando para o início, não importava o que fizesse. Olhou para Yasuo para poder lhe dizer, a sua maneira, que não se preocupasse consigo, mas este ainda olhava para baixo. Sona viu que ainda não havia terminado com as más notícias.
— E... outra coisa. Estou sendo acusados de matar...Yone, o meu próprio irmão, tripulante da nave de um Ordinal, e um grupo de seguidores de templários que se encontravam a bordo, com a ajuda de vocês. Nos aguardam em Armada Locus para o julgamento
Sona sentiu seu coração apertar. Não, ele não podia estar morto. Poderia ser uma mensagem falsa, uma invenção para enganar seus protetores e capturá-la. Tinha que ser. E os seus companheiros...pensar que os havia deixado para trás para morrerem lhe doía tanto o peito que mal conseguia respirar
— Quê?! — Jinx levantou do sofá abruptamente- Mas dãa, nós estávamos a bordo aqui nesses dois últimos dias, e antes disso, comíamos ensopada em Miraxes, é claro que isto é um truque idiota. Quer dizer, eu me lembro de cada coisa que já explodi, e definitivamente eu me lembraria de um bando de templários, são pessoas esquisitas. — Começara a andar de um lado para o outro enquanto descartava a possibilidade de ter explodido algo sem que se lembrasse.
— É óbvio que não fomos nós. A questão é que... foi alguém. Mas para o resto do Império, fomos nós, então não importa o que dissermos. Olhem isso.
Yasuo pôs um dispositivo de reprodução na grande tela em frente à onde estavam sentados. Depois de alguns segundos, aquele rosto apareceu diante de Sona, mais cruel e frio do que se lembrava. Uma ponta de raiva surgiu em seu peito. Não precisou ouvir o que ele tinha a dizer para saber quem havia massacrado seus seguidores e seu libertador.
“- Yasuo, seus dias de irresponsabilidade chegaram ao fim. Assassinar seu próprio irmão para roubar meus prisioneiros? Isso é baixo, até para você. Você pagará pelos seus crimes e devolverá o que é meu. Eu sou a justiça, e é a ela que você responderá.”
O vídeo terminou com um clique, e o único som que restava na sala era de Jinx, que, por algum motivo, não conseguia conter seu entusiasmo e dava pequenos pulinhos sem sair do lugar, com os grandes olhos verdes ainda vidrados na tela agora apagada.
— Ai meus Deus, é Ele. E Ele está vindo até nós. Isso não podia ser melhor. Ei, como eu estou? Algum fiapo no meu dente? Droga, sabia que eu não devia ter comido aquele frango hoje mais cedo...
— A questão é que, os Ordinais tem todas as informações disponibilizadas pelo Império para realizar suas caças. — Yasuo a interrompeu — Passe livre. Ou seja, a essa altura, ele provavelmente não terá dificuldades em nos encon...
Yasuo terminava de falar quando alguma coisa do lado de fora colidiu com força na lataria externa da Estrela da Manhã, causando um barulho ensurdecedor. Sona, que havia sido arremessada contra a pequena mesa de centro pelo impacto, recuperou-se o mais rapidamente que pôde e correu para a grande janela. Seus olhos se arregalaram de terror quando se deu conta da quantidade de naves imperiais que voavam ao redor da Estrela da Manhã, os cercando por todos os lados. Logo ao seu lado, a maior e mais ameaçadora nave tinha seus canhões em posição de ataque e se preparava para um novo tiro. Era ele, e não viera sozinho.
Sona olhou para trás a procura de seus companheiros e viu que Jinx já não estava mais lá, provavelmente já tendo ido para a cabine de pilotagem tentar, de alguma maneira, os tirar do meio do fogo cruzado. Yasuo a segurou firmemente pelo braço e a conduziu com pressa pelas rampas internas da nave, enquanto novos tremores e batidas, que pareciam vim de todas as direções, os seguia. Pararam de repente em frente a uma pesada porta de metal.
— Fique aqui. Esta é a minha cabine e também o lugar mais seguro para você. — Um novo tremor veio do piso, e Sona podia ouvir passos pesados vindos do andar de baixo — Jinx nos tirará daqui, mas alguns de nossos perseguidores já subiram a bordo. Não faça barulho e se esconda atrás da terceira estante, há um compartimento escondido no qual você conseguirá entrar e se manter segura. Quando tivermos nos livrado das forças do Império, voltarei.
Após um relutante aceno de cabeça de Sona, Yasuo se virou e rapidamente desapareceu. A idéia de precisar novamente ser protegida e salva por aqueles ao seu redor lhe trazia uma sensação de impotência. Mesmo tendo uma imensa força dentro de si, foram poucas a ocasiões em que Sona pôde externalizar seu poder sem risco de pôr em perigo a segurança de sua organização sagrada. O fato de alguns já desconfiarem de sua identidade templária já era risco suficiente, sem precisar que ela fosse vista por dezenas de imperiais soltando ondas de Ora pelos dedos. Além disso, sabia que todo aquele teatro sobre Yasuo ter matado o irmão e ser um criminoso fugitivo, era só uma fachada para o real objetivo das naves que os perseguiam. Era atrás dela que estavam, e, mais especificamente, do Ora que protegia.
Não demorou pra achar a estante que havia sido instruída a se esconder e, a primeira vista, parecia realmente um móvel como qualquer outro. Se espremeu até o fundo do compartimento, o fechando atrás de si de volta ao lugar que antes estava, sem deixar resquícios de que um dia havia se movido. E esperou. Esperou pelo que pareciam longos minutos, quando escutou o familiar barulho de portas de metal sendo abertas. A proximidade do som não deixava dúvidas de que alguém acabara de entrar no quarto.
Nos segundos de calmaria mortal que se seguiram, até mesmo a respiração da mulher parecia acusar sua localização, e se pegou tentando prender o fôlego o máximo que suportava. Passos pesados e ritmados vindos do outro lado cortaram o silêncio e uma voz baixa e afiada murmurava, como se em um diálogo com alguém, enquanto o som de seus passos se aproximava mais e mais.
— E então? Você disse que ela estaria aqui. Se isto for mais um de seus jogos, eu juro....se sabe tanto assim, diga logo. O quê? Seu... chega, estou farto de suas piadas.
O homem claramente falava com alguém, mesmo que não aparentasse ter mais ninguém no quarto. Sona não se esquecera daquela voz. Rouca e assustadoramente fria, ouvi-la novamente, na situação que se encontrava, lhe dava calafrios. Sabia que o Ordinal Shieda Kayn estava a poucos metros de distância.
Os passos pararam. Sona se perguntava como ele tinha conseguido chegar até a cabine e seu peito doía ao pensar que algo podia ter acontecido com Yasuo e a tripulação. Não suportaria que mais pessoas morressem por sua causa, não outra vez
Quando um riso afiado cortou o silêncio, vindo diretamente do outro lado da estante, Sona soube que havia perdido. No instante seguinte, o móvel foi partido em dois e aquele sorriso louco de triunfo foi a última coisa que Sona viu antes de tudo ficar preto.
Fale com o autor