Light and Shadow

6 Bem-Vinda a Armada Locus


Notas iniciais
Aqui está mais um capítulo, dirvitam-se!

Kayn ainda encarava a garota desacordada a sua frente. Estava de volta a sua cabine e já fazia algumas horas desde que a tinha recuperado das mãos da Estrela da Manhã e retornado em segurança para sua nave, mas Sona ainda não demonstrava sinal de acordar. O capuz dela havia abaixado enquanto a transportava em seu ombro. Seus fios azuis claros, longos e brilhantes, agora estavam espalhados por todo o chão aos seus pés, formando um leque ao redor da mulher caída. O rosto, antes parcialmente escondido, estava perfeitamente visível e mostrava uma expressão serena, com os lábios entreabertos e os olhos delicadamente fechados. A respiração era lenta e ritmada, e Kayn se pegou algumas vezes quase que hipnotizado enquanto assistia a constante movimentação de inspirar e expirar daquele pequeno corpo.

Ela era bonita, e isso não podia negar. Mesmo que quisesse. Desde o dia em que a encontrara pela primeira vez no distante planeta Ionan até o presente momento, estar na presença de Sona era, de certa forma, inquietante. Mesmo sem voz, sentia como se aqueles grandes olhos dourados da garota falassem por si só quando o olhavam, fazendo-o se sentir exposto e estranhamente frágil.

Desde que ingressara no treinamento militar do Império, Kayn não tivera contato com nenhuma forma de relacionamento afetivo. Diferente da milícia Demaxiana tradicional, as leis criadas para o seleto grupo de Ordinais proibiam veemente qualquer tipo de vínculo estreito para com alguém que não fosse o próprio Imperador ou alguém pessoalmente designado por ele. Afinal, o afeto era a morte do dever, e dever era a única coisa que importava na vida de um Ordinal.

Kayn nunca tivera problema com tal restrição. Muito pelo contrário, orgulhava-se de não precisar de tais prazeres mundanos e, assim, nunca oferecer nada que seu inimigo pudesse usar contra ele. Afinal, a longa lista de missões bem-sucedidas e sua impecável fama ao redor da galáxia partiam desse princípio: emoção é fraqueza, e Shieda Kayn odiava fraqueza.
Por esses motivos, a estranha sensação que lhe tomava o corpo e a mente enquanto olhava para Sona o irritava profundamente e acabava o tirando dos ocasionais transes, enquanto esperava impacientemente aqueles grandes olhos se abrirem novamente.

“Pare com essa agitação, ela já vai acordar. Mas antes, pensou no que eu lhe disse?”

Aquela maldita voz. De novo.

— Não. E nem vou pensar, então não perca mais seu tempo. — Rhaast estava mais barulhento do que nunca desde que Sona fora recuperada. Insistia na ideia de não a entregar para o Imperador e mantê-la aqui, afim usar as informações dela sobre o Ora para uso próprio. Kayn não negava que apreciava a ideia do poder, mas seu dever vinha antes de qualquer desejo, e isso era irrefutável.

“Eu escolhi ser portado por um homem ou por um inseto? Se tem algum pingo de raciocínio lógico dentro dessa cabeça azul inútil, mostre! O dever que você tanto diz amar, sabe aonde ele vai lhe levar? A lugar nenhum! Sabe o que você irá ganhar? Nada! Você não passa de um peão usado por pessoas mais inteligentes para fazer o trabalho pesado e será descartado assim que conseguirem o que querem. E no fim, sabe quem levará o crédito pelo seu sangue e suor? Eles!”

— Eu não me importo. Se esta foi a missão designada a mim, eu irei cumpri-la até o fim, não importa o que diga. O Imperador Jarvan conhece o meu poder e sabe que só eu posso fazer o que faço. Sona não é como os outros, a entrega dela para o império me renderá mais glórias que qualquer tentativa inútil de retirar informações de uma mulher muda sobre um lugar que provavelmente nem existe.

“Com aquele interrogatório patético de antes, nunca irá conseguir qualquer informação. Mas se me emprestar o seu corpo por alguns instantes, lhe dou garantia total que-”

— Isto está fora de cogitação — Kayn o interrompeu de imediato. Aquela conversa novamente. Já havia perdido as contas de quantas vezes Rhaast lhe havia proposto tomar controle do seu corpo. Isso nunca iria acontecer – Agora fique quieto, chegamos.

Do outro lado da grande janela de sua cabine, Armada Locus já estava visível, com todo o esplendor digno de uma grande capital. As imponentes estátuas que acompanhavam as muralhas da capital do império Demaxiano se erguiam cada vez mais altas de acordo com que a nave se aproximava da pista de pouso, e as belas construções brancas da cidade começavam a tomar forma.

Vassur fizera seu trabalho, pois do lado de fora já era possível ver uma pequena recepção se aproximando da nave que recém aterrizara. Os novos sons vindos da movimentada cidade em contraste ao silencio do espaço pareceram ter sido o suficiente para despertar a mulher adormecida, que se levantou com um pulo ao olhar para as janelas e ver a imensidão de pessoas e construções que agora a rodeavam. Seus olhos estavam arregalados, os cabelos emaranhados e seu corpo recém acordado quase voltou ao chão se não tivesse sido apanhada por Kayn.

— Bem na hora. Bem-vinda a Armada Locus. — o Ordinal não conseguiu evitar um abafado riso ao ver a situação em que a assustada garota se encontrava.

As pernas dela estavam bambas e o olhar estava fixo nas janelas, mas pouco a pouco seu corpo foi recuperando a força necessária pra se manter de pé. Após se certificar que ela conseguia andar, dirigiram-se para a entrada principal da nave, onde Vassur e mais quatro tripulantes de sua guarda pessoal já se encontravam a sua espera.

Saíram para a claridade da ensolarada cidade e Kayn levou um susto ao ver quem lhe aguardava bem no meio do pequeno grupo de recepção: o imperador Jarvan IV em pessoa, em sua lustrosa armadura dourada. Já fazia algum tempo desde a última vez que o encontrara pessoalmente, mas ao vê-lo ali parado com aquele sorriso bobo no rosto, parecia que tinha sido ontem.

Ambos sempre haviam sido próximos, tanto em idade quanto em amizade, mesmo antes de Jarvan ter sido coroado ou Kayn ter entrado pra a ordem de Ordinais. Porém, desde que Kayn apresentara algumas sugestões de soluções para a problemática do Ora e dos templários, a alguns anos atrás, tinha a impressão que Jarvan passara a se mostrar mais frio e desconfiado em relação a ele. Acusara suas ideias de cruéis e pragmáticas, mas honestamente, Kayn não entendia o motivo do choque. Afinal, para com seus inimigos, ideias cruéis e pragmáticas são as únicas ideias viáveis.

Apesar disso, Jarvan não demonstrou nenhum rancor aparente quando veio a passos largos na sua direção e, pra surpresa de Kayn, lhe puxou de repente pra um abraço apertado.

— Shieda! Que bom te ver. Você não mudou nada.

— O senhor também não — o mesmo sorriso bobo, Kayn pensou, enquanto Jarvan o afastava do abraço e olhava alegremente para seu rosto, ainda segurando firmemente seus braços.

— Hahaha pare com a bajulação, você nunca foi bom nisso. Temos a mesma idade, mas quem vê de fora parece que tenho 20 anos a mais. Se eu soubesse que junto com esta coroa viriam tantas rugas e fios brancos, eu já a teria arremessado longe e fugido para o espaço, na primeira nave que eu encontrasse, em busca de verdadeiras aventuras. Quem sabe assim eu não estaria com o rosto tão conservado quanto o seu.

“Ele acha que o você faz é uma grande aventura, Kayn. Você caça seus inimigos, mantém a ordem na galáxia, mas quem envelhece de tanto estresse é ele, sentado em uma cadeira velha enquanto você faz o trabalho sujo.”

Kayn fitava impassível os olhos azuis do seu imperador enquanto escutava Rhaast. Não era de seu costume dar atenção aos grunhidos de sua arma, mas, dessa vez, aquelas palavras o espetaram como agulhas. Enquanto engolia a raiva que lhe subira a garganta, forçou um breve sorriso antes de responder.

— Bom, não seja por isso, a minha nave está logo ali.

— Há! Só os Deuses sabem o quanto eu queria. Mas o meu dever está neste lugar. Nosso povo precisa de mim aqui e de você lá fora, e cabe a nós encarar nossos sacrifícios. — Jarvan se mostrava distante e cabisbaixo enquanto falava, até que seus olhos encontraram Sona, parada atrás de Kayn, que ainda olhava ao seu redor com os mesmos olhos arregalado de antes. — Mas e quem seria essa bela senhorita aí atrás escondida? Venha, dê um passo à frente pra eu poder te ver melhor.

Kayn chegou para o lado para dar espaço a Sona, que veio relutantemente para a frente. A garota agora encarava Jarvan com desconfiança.

— Esta é Sona, minha prisioneira. – adiantou-se Kayn — Fazia parte do grupo de seguidores de templários em Ionan, que foram capturados por mim.

— Oh, aquela que escapou? Esta não é uma garota qualquer, lhe digo, se conseguiu fugir das mãos de Shieda Kayn! É uma pena que, no fim, só ela tenha restado.

“Hahahahah finalmente alguém que entende a piada que você é.”

A raiva agora fervilhava dentro de si. Precisou de alguns segundos pra finalmente se recuperar.

— Devido, é claro, ao traidor Yasuo, que armou contra o império, assassinando Yone e meus prisioneiros e, logo após, capturando a garota. Ele se uniu à seita dos templários, ao que parece, nos privando de acessar seus segredos. Ele fugiu quando o encontrei, mas recuperei a prisioneira em segurança, como falei que iria. — Kayn se atentou a contar sua história da forma mais cuidadosa possível. Jarvan podia ser ingênuo em muitos aspectos, mas sempre fora atento a mentiras.

— É claro, você não me decepciona em seus deveres. Yasuo, quem diria... o conheci a alguns anos atrás, nunca imaginei que chagaria a esse ponto... lamentável.

Desde que Kayn começara a contar sobre Yasuo, Sona gesticulava e movia a boca em desespero para ser ouvida, mas Kayn logo a posicionou atrás de si novamente, a segurando firmemente pelo braço.

— Bom, o dever chama. Temos uma senhorita para interrogar. Sigam-me, por favor.

Quando Jarvan se virou, Kayn se certificou de dar uma rápida olhada em direção a Sona. Não precisou falar nada, mas o olhar letal que lhe deu foi o suficiente pra a garota cessar os esforços e o seguir quietamente, enquanto Kayn escutava o som de seu nariz fungando baixinho atrás de si durante todo o caminho até o seu interrogatório.

Notas finais
Para caso não nos encontremos aqui de novo antes, Feliz Natal para todos!!!