Light Devotion

6 Colaboração


Notas iniciais

Desta vez demorei menos para postar. Infelizmente o capítulo ficou menor, mas espero que gostem.

A noite passou vagarosamente. O usuais sonhos agitados e emocionantes, foram substituídos pelas palavras de Syaoran, que se repetiam interruptamente na mente de Sakura. A dor de se lembrar do pai, era mesclada com a reflexão de seus atos após o incidente. A palavra acidente não era o bastante para classificar o que havia acontecido, pois de maneira alguma o que ocorrera fora não-intencionado. Até aquele momento havia apenas temido por seu futuro, sem sequer pensar em mudá-lo. Mesmo com segundas intenções aquela família lhe acolhia, treinava, e alimentava para que pudesse se proteger e lutar por sua vida.

-Muito bom dia Sakurinha – Gritou a voz estridente de Nakuru.

Sakura gemeu com o som que invadira sua cabeça. Apertou mais as pálpebras, numa tentativa de demonstrar o desgosto por estar sendo acordada. Suspirou ao sentir um movimento sobre si, cessando o conforto e o calor moderado que lhe aquecia.

— Vamos! Não seja teimosa. Você está extremamente bem hoje, e teremos um ótimo dia. – disse Nakuro — Agora, ajude-me a levantá-la.

Nakuru retirou a garota da cama, levando-a diretamente para a banheira a fim de desperta-la. Colocou Sakura cuidadosamente na banheira, deitando-a, sem retirar suas roupas, com a cabeça embaixo da saída de água. Abriu a torneira, jogando um jato direto na face e pescoço da jovem, visando não molhar seu cabelo.

Sakura debateu-se irritada com o modo que estava sendo acordada, nunca houve um dia em que realmente lhe foi prazeroso sair de sua cama, principalmente às pressas, quanto mais sendo orçada a isto, e sem qualquer capacidade de relutar.

O ser de cabelos negros vestiu Sakura com uma blusa tradicional acinzentada, comprida o bastante para cobrir parte de sua calça legging preta, que daria a ela mais mobilidade. Prendeu o cabelo ressecado da garota num coque alto, que ficava um tanto deformado, graças aos fios quebrados. For final, suspirou olhando o resultado de seu trabalho, um tanto orgulhosa de si mesma.

— Perfeita, ou quase. Não importa, vamos comer! – Disse animadamente.

A empolgação de Nakuru era reconfortante, e dolorosa ao mesmo tempo, o desejo de ver as luzer e imagens que iluminavam seu dia, tornaria qualquer sentimento em pura inveja.

— Contenta-me que tenham chegado cedo. – Comentou uma voz distante.

Sakura presumiu ter chegado na sala onde seria servido o café da manhã ao escutar aquela voz.

— Ni Hao – Cumprimentou Nakuru.

— Muito bem Ruby Moon, alegra-me vê-la tão interessada por nossa língua. Sentem-se, vamos começar a comer neste momento.

Novamente a cadeira ao lado de Yelan permanecia vazia, aquela presença faltando incomodava a mulher, que transparecia ignorar o fato. Seu filho não costumava desobedecer a suas ordens, porém, naquelas circunstancias ela apenas deveria suportar, desde que não se tornasse algo rotineiro. Wu Shun se dispôs novamente a ajudar Sakura após os pratos serem postos, e a comida em frente a todos. A garota por sua vez, apenas esperou como de costume que aquele momentos constrangedor chegasse.

— Jovem Sakura, está animada esta manhã – Pronunciou Eriol.

Aquele que até então não havia dito uma palavra sequer, com poucas, fez com que Sakura engasgasse. Não havia tido nenhuma conclusão da noite anterior para sequer considerar-se animada, apenas decidira que faria o bastante para não ouvir tantas palavras rudes serem ditas pela voz aveludada do jovem que um dia lhe proferiu apenas carinhos e incentivos.

— Eriol, não tente arrancar qualquer coisa dela, ou manipula-la. – Disse Yelan com uma voz mais desinteressada do que suas palavras.

Sakura continuou a tossir, enquanto o chinês tentava ajuda-la segurando seu queixo.

— Sakura, não quero que nada de ruim aconteça. Antes que você se mate com seu alimento, por favor, queira se retirar. – Concluiu Yelan.

Sakura aliviou-se por um breve momento, até relacionar o fim de seu café da manhã com o início de seu treinamento. Tencionou cada um de seus músculos fazendo-os protestar.

— Qin Mei – Chamou a mulher.

Yelan disse algo em uma língua que Sakura não compreendia, e a jovem chinesa assentiu com uma reverência. Virou-se para a garota japonesa novamente e antes que pudesse efetuar dois passos, Wu Shun segurou a cadeira com mais força.

— Não me incomodo em levá-la senhora. – Protestou o jovem.

— Mas eu me incomodo, este não é seu trabalho, você está dispensado. – Retrucou Yelan.

A funcionaria voltou a seguir seu curso, esperou que o colega soltasse a cadeira, pediu licença a todos os presentes e levou Sakura porta afora. As rodas rangiam sobre o chão, numa mistura de som metálico e borracha.

O baque da porta de correr indicou onde se encontravam à Sakura.

— Senhorita Kinomoto – Disse a mulher com um sotaque estraho.

Goras as únicas palavras que a moça direcionou à Sakura, não dominava plenamente o japonês, apenas tendo conhecimento de poucas e simples palavras. A chinesa andou mais a frente segurando os braços da cadeira, puxando-a de costas para o jardim. Mesmo que a garota não pudesse vê-la, Qin Mei reverenciou-a, dizendo algo incompreensível e virando-se em seguida.

— Xie Xie – Agradeceu uma voz masculina.

Qin Mei virou-se novamente em reflexo à voz autoritária, fez a devida mesura, mais demorada do que a anterior, retirando-se enfim. Sakura mordeu os çábios ao ouvir a voz de Syaoran, não podia vacilar, faria o que fosse preciso para se mostrar capaz ao menos de não convulsionar.

— Espero não ter de presenciar mais um ataque histérico. – Zombou Syaoran.

Sakura apenas permaneceu em silêncio, sendo este a melhor resposta para aquele momento. Falar iria requerer um esforço muito maior.

— Acho que superestimei você. Hoje iremos apenas trabalhar com sentidos básicos, já que você se encontra um estado fetal. – Continuou.

Syaoran puxou a cadeira para o meio do jardim, poucos metros antes do riacho que passava por baixo da ponte. Um local estratégico para o que havia planejado.

— Quer saber o motivo da localização desta casa? – Perguntou o jovem.

Houve uma pausa de milésimos de segundos.

— Não importa, direi de qualquer forma. Esta casa difere de muitas outras aqui na China, que fazem um lago artificial para enfeitar tradicionalmente seus jardins. Este pequeno córrego, de água limpa, cristalina e calma, nasce em nossas terras, para depois expandir-se ao longe. – Terminou.

Sakura se lembrava da aparência da água corrente, de quando viajou com sua família para a casa no campo. De alguma forma aquele local fazia com que ela se sentisse anestesiada, como ficara naquela ocasião.

— Seu problema é se concentrar demais na sua vida do passado, tentando encarar e julgar tudo como as lembranças que possui de cada coisa. Você terá de mudar, esquecer o que aprendeu.

A voz de Syaoran era fria, porém, não se exaltava como no dia anterior. Contudo, o coração de Sakura ainda doía ao ouvi-la ser tão indiferente, como se não significasse nada além de uma simples pupila, e não alguém próxima, uma amiga, alguém especial.

— Agora quero que tente ouvir tudo à sua volta. Diga-me o que você puder escutar. E devo ressaltar que fale ao invés de apenas murmurar. Sua garganta não falha ao gritar como demente não é?

Sakura rangeu os dentes graças ao nervosismo. Apertou os olhos e tentou escutar qualquer coisa que viesse em sua mente.

— Riacho – sussurrou ela – Posso ouvir água.

Sua cadeira tremeu, e Sakura guinchou com a desestabilidade que houvera.

— Eu pedi que me dissesse o que ouve, e não cuspir qualquer merda que pensa dever escutar.

Syaoran empurrou a cadeira, jogando-a cerca de quarenta centímetros ao longe. Sakura pressionara o corpo contra o encosto, esperando abrir um buraco para que pudesse escapar daquele local.

— Um chiado. – disse em meio às lágrimas – Mas não tão continuo falho... Com uma consistência... Mais líquida, porém não se compara ao que deveria ser.

O jovem andava de um lado para o outro sem encará-la.

— Muito bem. Sei que estes sons não fazem qualquer sentido, mas de agora em diante terá que começar a associá-los. – Disse Syaoran.

Tudo o que ouvia era confuso demais, baixo demais, distante demais, não tinha qualquer noção de tamanho ou distância do que lhe era pedido para identificar. Não passavam de ruídos e assovios.

— Algo ondular – Arriscou Sakura.

Syaoran suspirou.

— Escute, este é um dos meios para identificar as coisas à sua volta, já que não poderá enxergar.

O jovem se aproximou de Sakura pela direita, estalou os dedos na orelha correspondente ao lado que se encontrava da garota. Sakura se jogou para o lado oposto com um grito após o reflexo, tremendo e assustando-se com o som.

— Não seja patética – gritou Syaoran – Preste atenção, o som não é alto, apenas você o faz ficas assim. Não irá agredi-la.

Sakura voltou poucos centímetros na direção de onde estava. Seu corpo ainda tremia insistentemente. Houve um novo estalido, e logo em seguida o mesmo som se repetiu, tornando-se contínuo. Seu ouvido se acostumara com aquele barulho, e ao notar isto, Syaoran afastou a mão e começou a estalar os dedos novamente.

— Perceba a diferença, agora o som está diferente em relação ao anterior. Pode notar? – Perguntou Syaoran.

Sakura não entendera, apenas tentava concluiu pelas palavras do tutor que o som deveria, de alguma forma, ter mudado.

O jovem irritou-se por não obter a resposta, contornou Sakura, colocando a cabeça da jovem entre suas mãos, apoiando os cotovelos na cadeira. A proximidade de ambas as cabeças se tornara maior. Syaoran decidiu que sussurrar seria a melhor maneira de evitar novos gritos histéricos por estar mais perto de Sakura.

— Note a diferença de cada mão. – Pediu o chinês.

A garota assustou-se com a pressão por trás de sua cadeira, e com a mudança dos estalos, que agora eram feitos em ambas as orelhas, e juntavam-se em sua cabeça.

— Preste atenção. – Repetiu Syaoran.

Sakura tremeu com a intensidade da voz, que lhe parecera próxima de si, encolheu-se timidamente, talvez por parecer tão incapaz aos olhos alheios. Syaoran suspirou novamente.

— Você notou minha proximidade? – Perguntou.

A reação do corpo de Sakura respondeu por ela. Seu reflexo ao sentir a mudança da voz de o calor de um outro corpo mais perto do seu fez com que Syaoran recuperasse um grão de esperança, que havia se perdido no segundo em que elaborara aquela atividade.

— Então perceba isto. – houve uma pausa – Direita e esquerda.

A cada palavra, Syaoran falava por traz da orelha respectiva, e Sakura se encolhia e escorregava pelo banco de sua cadeira. Com o tempo se acostumara a ouvir a palavra e a associar ao lado respectivo, e passara a encolher-se inconscientemente para o lado oposto.

— Bom – Disse Syaoran sem se exaltar.

Pegou as mãos de Sakura impacientemente e as colocou entre a cabeça, da mesma forma que havia feito com suas próprias.

— Sabe estalar os dedos? – Perguntou o garoto.

— Não sei se consigo. – Sussurrou Sakura em resposta.

— Ótimo, pois não foi esta a minha pergunta. – retrucou – Quero apenas que estale. Talvez isso possa ajudá-la a desenferrujar estas suas mãos. – Finalizou em tom de zombaria.

Syaoran fitou Sakura por um breve instante, a atenção direcionada apenas para as mãos da pupila que tremiam ao serem ostentadas. Fechou as pálpebras, especulando que aquela atividade iria mantê-la ocupada até o resto de sua tarde. Virou-se para o lado oposto de onde estava, deixando Sakura sozinha. Iria pedir para que naquela noite alguém fornecesse algo para banhar as mãos da jovem no gelo

Metros acima do local onde se passava o treinamento duas pessoas assistiam atentamente, atentas ao que ocorria.

— Finalmente começaram – Disse a foz feminina.

— Eu acredito que tudo se resolverá. Syaoran poderá ajudar Sakura. – Completou a outra voz, agora de timbre masculino.

— Meu filho também será tocado por aquele coração novamente. – Concordou.

— Assim esperamos. Yelan – Concluiu a voz doce, porém forte do jovem.

Notas finais

Agradeço a todos que estão acompanhando "Light Devotion", foi uma de minhas primeiras histórias, comecei a anos, porém, nunca tive a inspiração necessária para continuar, fico feliz que agora estou conseguindo termina-la.