Light Devotion
7 Expectativas
Notas iniciais
Um visível avanço fora constatado pelos parceiros que observavam todo o processo que stava prestes a ser concluído. No alto da construção, uma área é reservada apenas à matriarca, proibida para qualquer outro membro da família ou empregados. Sua companhia não era ninguém além de Eriol, uma presença de suma importância naquele momento, e que partilhava dos mesmos interesses. Ambos ansiavam pelos dias que viriam daquele ponto em diante, esperando que seus objetivos fossem alcançados, objetivos que não dependiam de suas próprias capacidades, mas sim, daqueles jovens que haviam trabalhado juntos em harmonia no passado.
— Sakura precisa atingir o nível que Syaoran alcançou. – Comentou Eriol ao suspirar – Confesso que não considero uma tarefa fácil. Mesmo quando seus sentidos estavam perfeitas condições, ela jamais treinara tanto quanto ele. – Concluiu.
Sua companheira inspirou profundamente, fechando os olhos de forma pesada e exausta.
— Apesar de suas conclusões, Syaoran está focando suas energias na frustração que toma conta de si. Ambos possuem um caminho com vários obstáculos. Sakura, porém, possui uma reserva de energia infinita, podendo se expandir com muita elasticidade, enquanto meu filho possui uma energia limitada que ele procura explorar ao máximo. – Contrapôs Yelan.
Eriol concordou silenciosamente, mantendo o momento cedido unicamente para a reflexão de ambos. Apesar de tantas constatações e anseios, naquela fase onde se encontravam, não era permitido tirar muitas certezas. As ambições dos colegas se apoderaram do ambiente, mesclando-se a diversos sentimentos que se dirigiam a um único tema, aquele casal que era observado.
Era possível ser notada uma drástica mudança no tempo. As portas no interior na mansão eram jogadas violentamente contra os rodapés, fazendo barulhos estrondosos, acompanhados pelas janelas, que chacoalhavam seguindo a ventania que se alastrava. Na parte externa, além do som das folhas farfalhando produzindo um alto chiado, a forte brisa também carregava o odor da terra úmida por onde havia passado, indicando o que estaria por vir.
O anuncio de chuva alarmou os jovens que prosseguiam seu treino no jardim. A sensibilidade de Sakura seria ferida pelas diversas sensações que estariam por vir, e que não seria capaz de identificar separadamente, levando-a ao desespero. O tutor ignorou inicialmente aquela mudança, procurando adiar o término dos exercícios que realizava. Não era do feitio de Syaoran ser interrompido, porém, jamais arriscou ir contra os planos que a natureza havia programado, mesmo que estes fossem atrapalhar os seus próprios. O inconveniente, então, o obrigou a dar as atividades por encerradas contragosto. Deveria providenciar um ambiente interno para momentos como esse.
Syaoran bufou de forma audível, irritado com aquela situação. Os dentes de Sakura, que batiam um contra o outro e o ranger de sua mandíbula, antecipou o término antes mesmo que a tempestade realmente se materializasse sobre suas cabeças. A sensação térmica havia caído, porém, não o bastante para uma reação como a garota estava tendo. Seu corpo inteiro se contorcia de forma desengonçada sobre a cadeira, enervando o jovem que assistia toda aquela cena dramática da aprendiz. Suspirou alto, sentindo-se de certa forma derrotado e deu a volta por trás de onde a garota estava sentada.
— Irão me julgar mal caso eu queira continuar com tudo isso. Além de que você irá se tornar mais imprestável. – Resmungou Syaoran, enquanto empurrava Sakura para um caminho feito por lascas grossas de madeira.
Sakura sentia o vendo rasgar seu rosto ao puxá-lo para trás, como se pretendesse levar sua pele consigo. Sem qualquer força de sequer sentir-se incapacitada, sua única preocupação, era em tentar manter-se estática, ao invés de deixar seu corpo mandar em sua mente. Deveria haver forças para enviar um comando simples, se havia o suficiente para mover tanto.
— Acho que assim facilitará. – disse Syaoran parando de empurrar – Também devo me aquecer, manter meu corpo parado poderá me deixar indisposto. Irei chamar alguém para levá-la aos seus aposentos e lhe dar um banho. Não é agradável vê-la se debatendo aí.
As palavras eram tão frias quanto a brisa. A decisão do jovem foi de jogar o fardo nas mãos de alguma outra pessoa. Como se não bastasse aquele ser desprovido de qualquer auto-controle ter sido um dos fatores que interromperam algo que estava determinado a concluir naquele dia. Ao chegar no pé da porta, virou-se para se certificar de que Sakura permanecia tremendo, talvez fosse um sinal de que não tivesse morrido com o frio que apenas ela parecia ser capaz de sentir.
O vento havia mudado sua direção horizontal, para assoprar verticalmente sobre a cabeça de Sakura, acompanhado por gotículas de chuva que pendiam da escuridão aos olhos da garota. Seu peito doía, comprimido pela solidão em que havia sido deixada, dificultando sua respiração. As pontas de seus dedos formigavam mais do que já se habituara, juntando-se aos fatores que geraram um desespero dentro de si, jogando suas migalhas de auto-controle ao longe.
— Ah, como pôde ficar nesta situação? – Exclamou uma voz irreconhecível.
Não houve resposta por parte de Sakura, apenas continuara no mesmo estado como se ignorasse aquela possível presença ao seu lado.
— Como o meu senhor fora capaz de me dar tal responsabilidade? – A voz parecia mais alta do que anteriormente. – Não se preocupe senhorita Kinomoto, irei levá-la para dentro. A senhorita está tremendo.
No decorrer dos segundos, uma outra sensação, um tanto melhor do que a que estivera sentindo no jardim, estava tomando conta de seu corpo. Enquanto a voz desconhecida tentava lhe acalmar com palavras que nem sequer conseguia focar sua atenção para compreender. A cadeira onde estava chacoalhava, emitindo um sutil barulho metálico contra o couro que revestia o assento. Sakura cedia à exaustão que se apoderara dela naquele momento.
— Não há motivo para tumulto. – Bradou uma voz mais suave, porém, imperativa.
A pessoa que havia levado a jovem para dentro da mansão se recolheu em um passo e reverenciou a mestra daquela família. Yelan se aproximava com passos calmos, porém firmes, seus olhos fixos em Sakura, que tombava para os lados, ainda tremendo, como quem desmaiaria a qualquer momento.
— Wu Shun, você tomou a responsabilidade para trazer Sakura, ou lhe foi pedido este favor? – Questionou Yelan.
O jovem que se encontrava com os olhos mais baixos do que os de Yelan, mostrou-se seguro.
— A responsabilidade chegou em mim pelas palavras do senhor Syaoran, mestra. – Respondeu Wu Shun.
Yelan olhou rapidamente para o chinês.
— Muito bem. Irei tomar parte nisso. Está dispensado. – Finalizou Yelan.
Wu Shun reverenciou novamente a mulher imponente, dando mais uma passada de costas antes de se virar. Ao vê-lo tomar seu caminho, Yelan interrompeu-o novamente, enquanto este virou-se imediatamente.
— Queira fazer o favor de chamar Fuutie. Talvez ela possa cuidar melhor da Kinomoto do que Nakuru neste momento do que a senhoria Akizuki.
Mais um vez o procedimento de respeito fora feito pelo servente, que se retirou para obedecer as ordens o mais rápido possível.
Sakura se encontrava no quarto antes mesmo do que pôde dar por si. Futie, que até então fora responsável pela sua nutrição, agora também procurava manter a consciência da jovem maga. Sakura ainda estava trêmula, porém, limpa e aquecida por alguns edredons, que tinham a função de manter sua temperatura corporal no conforto térmico, sem aquecê-la em demasia. Futie procurava tratá-la de forma que estivesse completamente disposta no dia seguinte, e isso incluía evitar que a garota sentisse febre.
— Espero que entenda o motivo de tudo isto, Sakura. – Sussurrou Fuutie.
A chinesa sorria de forma fraternal. Desde a ultima vez a vira sentiu, assim como suas irmãs, uma boa energia emanando daquela garota de olhos esverdeados, que agora tinham as íris num tom mais claro e um tanto brilhante, efeito de sua cegueira. Naquela época era impossível não se apaixonar por Sakura, as vibrações eram passadas de forma natural, como osmose para qualquer pessoa que chegasse perto dela. Esta transferência não mudara após seu sofrimento e alguns anos, porém, agora sua tristeza era também a tristeza de todos. Não importava apenas que ela fosse a figura mais importante para proteger a terra de uma destruição, mas também, a preservação de uma boa alma, capaz de transformar outras.
— Não culpe Syaoran por suas atitudes. Ele está tão confuso quanto você, e desacostumou de como é sentir-se perto de alguém com uma presença tão forte como a sua. – Suspirou – É terrível vê-la debilitada.
Fuutie se retirou do quarto para que a jovem tivesse um momento sozinha, enquanto se recuperava de toda a confusão. A moça caminhou sem rumo pelos corredores que ecoavam seu sapato tradicional, ignorando a presença de guardas entre outros trabalhadores que passavam a sua volta. Quase instintivamente, chegou na área externa, onde a chuva caia como uma cascata sobre o gramado, negro pela falta de luz.
— Não me julgue. – Disse a voz cansada e rouca.
Fuutie apenas deu um passo à frente.
— Não vim aqui para julgá-lo. Apenas para lhe dizer que Sakura está melhor – Respondeu sorrindo com o canto da boca.
Uma risada de deboche irrompeu o ambiente.
— O que te faz pensar que estou preocupado com isso? Quero apenas concluir aquilo que me foi designado o mais rápido possível. – Jogou Syaoran.
— O que te faz pensar que eu acredito nisso? Você é o único confuso, Syaoran. “Isto” é uma jovem que deverá arcar com responsabilidades, assim como você possui as suas. Não pense que é o único a carregar um peso. – Alterou-se Fuutie.
Syaoran remoeu as palavras ditas pela irmã mentalmente. Apertou o punho sentindo cada dedo protestar contra o movimento brusco.
— Creio que você entenda sobre tudo isso, Fuutie. – Sussurou.
— Não sei mais do que você. Mas não sou eu quem está inserindo mais problemas numa mente completamente cheia. Você deve esvaziá-la , e não o contrário.
O silêncio tomou conta por um momento, até Syaoran se levantar e dar alguns passos em direção à chuva torrencial.
— Já contribuí com a minha parte de retirar algo da sua memória. – Respondeu por final, sumindo no breu à sua frente.
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