Light Devotion
4 Ansiedade.
Notas iniciais
A tensão pulsava no ar do cômodo, o discurso repercutira diferentes conseqüências em cada um presente. Sakura usou todas as articulações que encontrou para encolher-se na cadeira em que se encontrava, havia alcançado o auge da angústia por ser incapaz de sair correndo daquele local. A bile ácida subia por sua garganta indicando que seu estomago estava vazio, não foram poucos os esforços que usou para engolir o gosto cítrico que alcançaria suas papilas em pouco tempo.Sakura sabia a quem pertencia àquela voz, seu tom manso, porém mais grave pela idade girava em sua mente causando um irritante sentimento de deja vu.
- Syaoran Li – Bradou Yelan.
Houve uma pausa.
- Você envergonha a família mostrando tal educação para com uma convidada. Não lhe dei o direito de falar, quanto mais se dirigir à jovem Kinomoto. Seus direitos são muito baixos nesta sala, peço para que permaneça em silêncio até que eu termine de dizer como funcionará desde momento em diante.
Uma bufada cortou o ar negro.
- Jovem Sakura – começou Yelan – Devo dizer que fico realmente triste que esteja em um estado tão deplorável, felizmente antes mesmo de você chegar minha decisão já havia sido tomada, você irá receber uma sessão de treinamento diariamente com Syaoran – a mulher ignorou os protestos to garoto ao seu lado – Todas as manhãs estará à mesa conosco para o desjejum,já vestida adequadamente para seu treino, após estar alimentada irá se retirar para o jardim, onde Syaoran estará a sua espera para iniciarem o treinamento. O sino irá indicar o horário para almoço, sendo assim vocês irão poder dar uma pausa e comerem novamente, para logo depois retornar ao treino. Às cinco horas você poderá voltar para seus aposentos, se trocar devidamente e às sete horas iniciará o jantar.
Ao terminar de passar à sua convidada o itinerário Yelan levantou-se mansamente, olhou para o filho ao seu lado, este não retornou o olhar, sua face estava contorcida em pensamentos de raiva. A mulher ignorou o filho e virou-se novamente para seus convidados com um sorriso terno.
- Creio que neste momento o que a jovem Kinomoto deseja é apenas um pouco de paz. Shiefa irá levá-los aos seus devidos aposentos, espero que os agradem. É uma honra ter todos vocês conosco, digo em nome de todos, é claro.
Shiefa irrompeu a sala sorrindo para sua mãe, cumprimentou novamente Eriol e então pediu permissão para se retirar. Dirigiu-se até a grande porta dupla abrindo-a passando primeiro e sendo seguida pelo jovem mago e Nakuru que empurrava Sakura. Passaram por longos corredores onde algumas portas que davam passagem à outros cômodos se encontravam fechadas,a decoração da casa era mantida onde quer que olhassem, extremamente tradicional, com detalhes dos rodapés. A madeira escura e os vitrais coloridos predominavam, enquanto o chão de pedra amenizava o ambiente. O piso foi reclinando levemente até se depararem com uma curva, seguida por uma rampa num estreito corredor. Ao fundo era possível ver uma pequena porta de madeira mais escura do que as demais que haviam visto, de uma aparência mais moderna, porém, seus detalhes em verdes escuros mantinham a linha tradicional.
- Bom, aqui estamos – A voz de Shiefa quebrou o silêncio – Este será o quarto de Sakura.
A garota estava num torpor causado pela voz ouvida na sala que acabara de deixar, porém as palavras rudes a confundiam e alfinetavam seu coração, agora tão frágil quanto o resto do corpo. Sua garganta ardia pela tentativa de diálogo que tentara ter, não conseguia reproduzir palavras com tanta freqüência, era como se algodões brotassem em sua traqueia impedindo qualquer passagem de som, e quando Sakura vencia essa barreira o algodão criava espinhos para vingar-se de sua perda.
- Não é um grande aposento, porém estará bem protegida, o local não possui escadas ou janelas, não há qualquer objeto pontiagudo ou inflamável. Creio que Sakurinha estará bem.
O local possuía iluminação artificial, uma grande cama de casal com grades de madeira em cada lado se encontrava de frente para a porta de entrada, ao lado esquerdo daqueles que entravam havia outra porta, onde provavelmente seria o banheiro, uma penteadeira estava colada no mesmo lado em que estava a porta de entrada, e à direita da vista havia um grande armário contendo três portas duplas.
- A troca de ar é feita por um ducto, então ar fresco entrará à cada segundo neste quarto. Tudo foi pensado, devo me gabar por eu mesma ter dado algumas idéias para a reforma. – Shiefa sorriu presunçosa.
- Está ótimo Shiefa, obrigado novamente por estarem fazendo tudo isto por mim. Aqui será muito mais seguro.
Os dois trocaram olhares de agradecimento.
- Nakuru. Você poderia ajudar Sakura a se instalar? Irei levar Eriol até seus aposentos. Quando Sakura estiver melhor prometo levá-la aos seus também, porém no momento ajudaria se você permanecesse aqui por mais um tempo. – Disse Shiefa.
- Sem problemas. – Respondeu Nakuru.
Assim Shiefa fechou as portas às suas costas deixando o quarto. O silêncio permaneceu enquanto Nakuru desfazia a mala de Sakura, colocando suas roupas em uma prateleira que permanecia vazia na porta do meio do armário. Sakura por sua vez esperava imóvel em sua cadeira, seus pensamentos a levavam apenas ao passado como sempre, um passado que a cada dia se tornava mais turvo e triste.
- Ah – exclamou Nakuru – Me desculpe Sakura por deixá-la sentada por tanto tempo. Irei deitá-la em um segundo, espere.
Nakuru correu balançando suas mechas às suas costas levemente. Postou-se ao lado de Sakura levantando-a com cuidado sustentando pelas dobras de seu joelho e sua nuca. Apoiou sua cabeça sobre o travesseiro e colocou o resto de seu corpo em cima do edredom sobre a cama.
Sakura deu por si em uma superfície horizontal, mesmo com a falta de direção e tato pôde perceber esta brusca mudança. Mesmo que estivessem dirigindo a palavra à ela, naquele momento nada nem ninguém iria quebrar o momento de felicidade em que se encontrava, o torpor subiu, acalentando e tornando o momento terno por um longo tempo que, para Sakura, deveria durar a eternidade.
Seus ouvidos detectavam um tom agudo, intruso e inconveniente que invadia seus deliciosos sonhos. A reação que desejava ter era a de empurrar para longe, e para sempre, aquele barulho que maculava seu sono inocente. Sempre odiou despertadores, essa era uma memória divertida que podia estampar um sorriso interno, seus dias de aulas em que tinha de acordar às pressas e correr atrás de seu irmão e Yukito. Novamente o som invadiu sua mente, mais alto do que fora na ultima vez, mais inconveniente. Sakura contorceu-se movendo os poucos músculos que obedeciam ao seu comando.
- Sakura! – gritava a voz exaustivamente.
A contração da face da jovem alertou que havia acordado.
- A senhora Li me deu um horário para que eu seguisse à risca enquanto você não pode fazê-lo. Ontem ainda conseguimos burlar um pouco permitindo que você dormisse a noite inteira. Você não tomou banho, não se arrumou. Se não o fizer rápido irá chegar atrasada ao desjejum. – Disse Nakuru.
A criatura de belas faces femininas levantou Sakura de seu leito, levando-a em direção à porta que no dia anterior estava fechada e de fato conduzia ao banheiro. Sakura permanecia indefesa nos braços de Nakuru esperando sentar-se em sua cadeira como de costume. Tudo acontecera relativamente rápido, o frio perturbador afugentou tudo o que pudesse estar presente em seu corpo, afundando no desespero, a água entrou por seus poros e pesava em suas roupas fazendo com que se sentisse irritada. A jovem se encontrava dentro de uma banheira de água fria.
- Perdoe-me, mas não vou deixar que vá com estas roupas e este cheiro encontrar-se com a família Li novamente. Yelan me deu ordens para que você tomasse banhos de agora em diante em água fria. – Disse Nakuru indiferente.
Sakura se debatia enquanto suas roupas eram retiradas, o sentimento de lar permanecia nelas, e se fossem retiradas seria o mesmo que abandonar sua própria casa. As mãos de Ruby Moon agiam rapidamente, efetuando apenas o necessário e retirando a jovem encharcada da banheira. O banheiro seguia os mesmos padrões do quarto, porém, neste havia mais pedra do que madeira.
Ao voltarem para o quarto Nakuru vestiu a jovem com as roupas que havia separado; um conjunto de blusa e calça de seda amarela, com detalhes em vermelho vibrante. Com a escova de cabo e cerdas de madeira trabalhada, escovou o cabelo castanho molhado. A cada passada as pontas quebravam pelos maus-tratos recebidos nos últimos tempos.
- Vou amarrar seu cabelo num rabo-de-cavalo, assim você poderá treinar sem suar. – Anunciou Ruby Moon.
Estando pronta Sakura foi empurrada em sua cadeira em uma direção que jamais seria conhecida graças à sua cegueira. Rodou novamente como no dia anterior pelos longos corredores.
- Ni Hao. – Yelan deslizou pela sala em direção de Nakuru e Sakura — Agora podemos sentar-nos.
Nakuru segurou novamente a cadeira de Sakura impulsionando-a para frente.
- Senhorita Nakuru, deixe que Wu Shun leve Sakura para o seu lugar na mesa. – Disse Yelan.
A mulher virou-se para o jovem que se encontrava às suas costas, o garoto possuía cabelos negos, repicados e lisos ajeitados formalmente com gel. Wu Shun trajava vestes tradicionais com detalhes verdes em todas as costuras e em outros detalhes, estas balançavam enquanto o jovem se movia em direção à Sakura, empurrando-a logo em seguida ao lado esquerdo de Yelan que, por sua vez, se encontrava na extrema ponta da longa mesa entalhada. O lado direito da matriarca encontrava-se vazio, fato que fora notado pelos demais no local tendo seus olhos voltados à bela cadeira que mesclava o estilo europeu. Yelan notou onde os olhares pararam ao seu lado, sorrindo um pedido de desculpas.
- Perdoem a deselegância de Syaoran, ele está preparando os treinos para a jovem Kinomoto – houve uma pausa e sua voz voltou mais grave – Espero.
- Não se preocupe senhora Li, estamos cientes da situação, não ousaríamos pensar ou julgar Syaoran de maneira alguma. – Sorriu Eriol em resposta.
Após poucos segundos duas garotas passaram pelas portas, pendendo suas cabeças levemente à frente cumprimentando a todos em forma de respeito. Ambas as jovens levavam um carrinho contendo pratos diversos que foram postos na mesa em frente à cada um que se encontrava nela.
-Preparamos uma dieta balanceada para Sakura, espero que possa seguir à risca. Hoje decidi que para um bom começo seria perfeito algo menos sólido, sendo assim batemos banana com aveia, pois além da fibra fornecida pela aveia a banana é uma das maiores fontes de vitaminas variadas.
O jovem que antes havia auxiliado Sakura aproximou-se novamente, agachando-se para ficar mais perto da garota.
- Com sua licença senhorita. – Disse Wu Shun.
Sakura que até o momento havia estado alheia ao assunto assustou-se ao ouvir alguém dirigindo a palavra a ela. Quando a jovem deu por si, dedos tocavam sua boca, firmes, mas de maneira alguma rudes. Seu corpo desejou rejeitar aquele ato, era errado alguém colocar qualquer alimento dentro de sua boca contra sua vontade. Um purê nada palatável invadiu sua cavidade oral, não era difícil ingerir aquilo quando ignorava a falta de sabor do alimento.
- Wu Shun freqüentou algumas aulas de japonês quando mais jovem, sua família vem trabalhando conosco fazem gerações. – Disse Yelan.
- Não sabia que a família Li possuía alguém que a servisse tão fielmente. – Comentou Eriol.
Yelan sorriu.
- Não funciona deste modo. Eles nos prestam serviços quando solicitados, como foi o caso. – Explicou a mulher.
Outras conversas diversas deram continuidade ao desjejum. Sakura permaneceu em silencio enquanto a ansiedade pulsava em doses cada vez maiores de seu coração, irrigando pelo resto de seu corpo fazendo-a vibrar de medo e desespero. Houve um arrastar surto no chão de pedra, e logo após um breve silêncio. A comida já não mais entrava por sua boca insistentemente, seu estomago revirava e digeria o que fora consumido contra a vontade.
- Creio que todos já estão satisfeitos. – Disse a voz feminina pertencente à Yelan.
Novamente um silêncio com ar mais descontraído se seguiu. Todos agradeceram a comida que havia sido oferecida, enquanto Sakura já era empurrada para fora da sala rumo a um lugar ainda desconhecido por ela.
Constrangida, amedrontada e preocupada, como poderia enfrentar o que estava por vir? Syaoran a humilhara em frente a todos, caçoou de sua impotência e da quão ridícula ela era. Perguntas como o sentido de ainda estar respirando, e viva invadiram sua mente, seu destino era ter morrido junto com seu pai assim poderia ver, não só o que estava limitado ao seu corpo, mas sim se tornando incorpórea e proteger a todos, ao menos isso. Evitar mais desgraças.
- Chegamos senhorita Sakura. – houve uma pausa – Senhor Syaoran...
Wu Shun cumprimentou seu superior sem olhar em seus olhos e deixou a jovem na porta aberta que dava passagem a um belo jardim. A varanda em que Sakura se encontrava possuía piso de madeira, onde uma mesa feita do mesmo material do piso, e com a mesma cor se encontrava à direita, acompanhando cadeiras no conjunto. Ao descer um único degrau o paraíso para aqueles que podiam ver estava bem diante de seus olhos. Um campo de grama escura e vívida, um lago ao fundo, rodeado por Ginkos entre outras árvores densas, harmoniosas e de caules escuro. Pedras circulavam a área do lago só interrompendo onde uma pequena ponte de pedra levava a belas flores róseas.
Syaoran estava sentado em uma das cadeiras ao lado. Fitou Sakura com o canto do olho, suspirando entediado em seguida. Levantou-se e andou até chegar ao seu lado.
- Você fará o que eu disser. Sou seu tutor e nada mais. Não irei fazer além do que me foi ordenado então não espere que eu sinta pena de você.
Sakura sentiu sua boca secar e seus ouvidos zumbirem. Aquele sentimento de medo era incomum para as lembranças que possuía da voz do jovem.
O garoto empurrou a cadeira da jovem até descer o degrau de madeira, chegando à grama. Deu a volta por ela, sentando-se e ficando de frente encarando o vazio.
- Agora quero que você se levante e caminhe com suas pernas. – Disse Syaoran ainda entediado.
Sakura permaneceu imóvel e incrédula.
- Inacreditável! Não posso aceitar que você não possa se levantar.
A jovem somente assentiu. Não podia nem desejava levantar-se, viver como um vegetal era uma opção muito melhor.
Syaoran grunhiu em irritação, segurou os ombros da garota bruscamente para que esta se levantasse comprimindo-os. Sakura encolheu-se, a ação doera externa e internamente, constatando que aquela pessoa que estava perto de si, não era quem ela um dia conhecera. Iriam todos se irritar com sua inutilidade e tornarem impacientes como ele? Syaoran levantou-a da cadeira pairando ela sobre o chão, em seguida pousou-a bruscamente na grama deixando seus pés paralelos.
- Agora ande de uma vez! – Gritou Syaoran soltando-a.
Sakura não possuía sentidos aguçados naquele novo corpo vazio que ganhara. No momento em que fora solta ouviu o ar assoviar à sua volta, sentindo um gosto metálico na boca, esperando a queda, sem se importar em proteger-se dela. O grito brotou em sua garganta, passando pela barreira de algodão. O baque fora doloroso, porém não houve qualquer concussão, a grama era alta e fofa amortecendo a curta queda. Syaoran observava a cena de forma indiferente, mesmo que a garota estivesse aos gritos e se encolhera levemente esticada no chão. O jovem apenas desviou o olhar e andou em direção à casa, onde Eriol corria para verificar o motivo dos gritos, parando ao cruzar com Syaoran.
- Ela caiu, não pode se manter de pé. Não houve reflexo de defesa, sendo assim bateu a cabeça diretamente no gramado. – suspirou – Não houve danos... Como pode ser tão inútil.
Eriol deu de ombros e correu deixando Syaoran em seu caminho de volta. Sakura gritava histérica e tentava se debater para levantar.
- Acalme-se Sakura, seja forte. Assim você não vai conseguir o respeito dele – Sussurrou Eriol.
O jovem passou ou braços em volta do ombro de Sakura, levantando-a para que pudesse sedá-la, retirando o medicamento da maleta que havia levado. O ultimo pensamentosde Sakura antes de ficar inconsciente foi “Porque?”.
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