Notas iniciais

Demorei mais do que pretendia para postar este capítulo. Apesar de estar pequeno espero que gostem.

A jovem foi ganhando seus sentidos, os que ainda restavam em seu corpo frágil. O formigamento usual foi tomando seu corpo, anunciando-a que havia despertado. Acordar não era desejado por ela, os sonhos o vazio, eram fáceis, o viver, era o difícil. Provavelmente se pudesse diferenciar uma lâmina ou o cano de uma arma, acabar com aquele sofrimento, e retirar uma boca morta a ser alimentada do mundo. Ou talvez, diferenciar um local, alto suficiente, para se entregar aos céus, jogando-se, pois em seu punho não havia força o bastante para rasgar sua pele, ou apertar um gatilho.

O silêncio era prudente para que não sucumbisse à loucura novamente. Qualquer reflexo mais elaborado faria retornar aquelas lembranças do desespero que havia passado, e que não tinha qualquer intenção de recordar. Sendo assim um tempo incontável se passou, não saberia dizer mesmo que abrisse os olhos ou tivesse sua visão novamente quanto tempo dormira, se o dia já raiava, ou o céu noturno pairava sobre as cabeças dos chineses.

— Sakura – Sussurrou uma voz quebrando o momento.

A única reação que poderia ceder era não reagir de forma alguma. Aquela voz que mesmo em meio ao horror que presenciara em Tomoeda, dentro de seu próprio lar, pôde ser reconhecida por ela. Eriol era um de seus mais caros amigos, depois de Tomoyo sua presença era essencial e sofrera em demasia quando ele partiu, porém, como o próprio disse, o sofrimento de um coração apertado pela falta que uma amizade propõe não se compara aos frangalhos de um coração destroçado.

— Sei que está cansada, entendo sua dor, ouvir palavras tão rudes saírem da boca daquele que você mais preza.

As recordações fizeram a garota começar a tremer insistentemente.

— Jovem Sakura, você nunca irá conquistar nada desta forma, seja forte. – Houve uma pausa – Porém, creio que deve haver cooperação de ambos os lados... Mesmo assim, faça sua parte. Você é uma visita, está aqui de favores, ao menos esteja presente no jantar de Yelan.

O tremor persistiu, porém seu corpo recolheu-se mais um pouco, tentando se proteger e impedir que fosse levada à sala de jantar.

— Ruby Moon já te vestiu com as roupas cedidas por Yelan, então não há motivos para que continue trocada em sua cama.

Então toques que não foram percebidos por seus sentidos a despertaram, bufou internamente por não ter sido capaz de notar que alguém a despira.

— Sakura – Continuou Eriol – Vamos, não podemos nos atrasar, Ruby Moon fora na frente para que se algum imprevisto contigo acontecesse, ela poderia driblar um pouco Yelan, entende? Não posso deixá-la aqui, nem desejo.

Mãos puderam se notadas, um formigamento maior do que o normal se espalhou na parte em que seu corpo sentiu-as, e uma pressão sobre suas costas a fez perder o apoio horizontal, e troca-lo por um vertical e irregular. Seu estado de gelatina era perturbador, tanto que forçou suas mãos contra o braço daquela conhecida forma de cadeira. E pensar que uma vez, num único toque de seu báculo, e numa deliciosa performance ela poderia quebrar o que fosse, e tornar real o que desejasse.

Não esperava que fosse ficar naquela situação, sentada e indefesa, novamente tão cedo, os dentes de Sakura trincaram, e ela os rangeu com a maior força que pode numa tentativa se frear os pensamentos que invadiam sua escuridão. Suas lembranças após tornar-se cega costumavam ser fracas, inexistentes, e diversas vezes esqueceu-se em poucas horas coisas que haviam lhe dito. Porém, após sua chegada em Hong Long tudo o que ocorreu era fresco, e martelava em sua mente.

Sentiu o choro subir pela garganta, graças aos pensamentos inoportunos, um soluço que não seria capaz de conter estava irrompendo por seus lábios quando sentiu algo segura-la, era tão preciso que não havia como deixar passar despercebido por qualquer sentido.

— Sakura, nós já nos encontramos em frente à sala de jantar, você está belíssima como sempre, vestindo uma tradicional roupa chinesa, porém, para que faça jus a tal tradição, terá de se portar todas as noites de forma respeitosa, mostre seu agradecimento.

A roupa de seda era leve, não agredia sua pele sensível, porém o manto negro em frente aos seus olhos a impediam de apreciar o corte suave banhado de cores fracas, que realçavam os olhos de Sakura. Eriol abaixou-se em frente da cadeira, limpando o rosto da jovem que estava maculado por poucas lágrimas e gotas de suor.

— Não seja exagerada – Disse sorrindo.

As portas se abriram, dando passagem aos dois que aguardavam. Três das filhas de Yelan já estavam sentadas em seus respectivos lugares, esperando com uma expressão branda, como era de costume. Ao lado direito do salão uma sombra estava encostada na porta aberta, no mais imerso silêncio.

— Não preciso de uma escolta, sendo assim, não há motivos para que você permaneça empoleirado nesta porta – Bradou uma voz feminina – Sente-se ao invés de fugir, não foi para isto que eu lhe criei.

Yelan passou pela porta aberta, sendo seguida por seu filho mais novo, que deixou de ser uma sombra, passando a ter um corpo material como todos.

A sala já estava completa por todos aqueles que ficavam naquela mansão. Num toque de sino, os funcionários começaram a entrar no cômodo, carregando deliciosos pratos individuais, porém, igualmente enfeitados, e com alimento bem distribuído. Um dos pratos se destacava dos demais, o de Sakura, que fora entregue pelo jovem chinês daquela manhã, era mais fundo comparado aos outros, e possuía uma papa marrom esbranquiçada. O chinês reverenciou a garota, que encarava assustada um ponto morto. Logo após retornar à posição ereta, houve uma risada abafada cortando o ar, tal som não fora captado por Sakura, porém quebrou a freqüência do tinir de talheres sobre a mesa.

— Syaoran, se há algo tão divertido, gostaria que compartilhasse conosco. Creio que todos gostariam de rir assim como você. – Disse Yelan numa voz entediada.

Não houve resposta, apenas o silêncio de Syoaran, exatamente como era esperado por sua mãe.

— Espero que apreciem o jantar, estes camarões são os mais frescos possíveis, o gengibre que os tempera é uma iguaria simples, porém acentua o sabor sem modificá-lo. Quanto o prato da Kinomoto, é um caldo de fejão-java, especial para caldos e sopas, temperado com bastante alho, para balancear. – Comentou a matriarca.

Todos agradeceram pela comida oferecida antes de começar a saboreá-la. Sakura apenas esperou que fosse servida, temendo o momento. Havia estado estática até aquele momento ao ouvir a menção do nome “Syaoran” alto o bastante para que todo seu sangue circulasse mais rapidamente. Apesar desta aceleração de seus sistemas, seu corpo não obedecia a qualquer um de seus comandos. Gostaria de ter saído correndo, sem olhar para traz, porém, suas pernas continuavam paradas, e são suportariam o peso exercido sobre elas. Temia que se abrisse a boca para ingerir alimentos, perderia seu estado físico imóvel, que tanto lutava para manter, o espaço entre a lucidez e o desespero era curto, um passo em falso poderia acabar com aquele momento.

— Senhorita Sakura, caso não se recorde de mim, sou Wu Shun. Estarei mais uma vez servindo-a. – Disse cautelosamente aproximando-se novamente.

Yelan pigarreou.

— Kinomoto, Wu Shun possui muitas tarefas, desta forma, ele não poderá estar sempre aqui para te servir. Sugiro que comece a se alimentar sozinha em poucos dias.

Uma bufada vinda do lado direito da mulher que falara rasgou o ar. Syaoran apenas ignorou os olhares de desaprovação, e abaixou a cabeça para sua mãe, numa demonstração de falso arrependimento.

— Sakurinha, sendo eu quem prepara o cardápio visando todas as vitaminas diárias peço para que faça um esforço e coma. – Disse Futie em tom de preocupação.

As filhas raramente se manifestavam, apesar de suas personalidades hiperativas, todas respeitavam a atual situação, o único motivo que fizera com que Futie incentivasse a garota que se recusava a comer.

— Você está fraca. – Disse agora num sussurro.

Sakura sentiu-se pressionada pelas boas intenções da jovem, o único motivo que a fez abrir a boca. O medo subiu por sua espinha, e suor escorreu por sua testa, tudo por temer gritar novamente. Estaria abusando da sorte caso perdesse o controle, Syaoran nunca a aprovaria novamente.

Os esforços da jovem para permanecer em silêncio renderam um jantar razoavelmente agradável. Eriol manteve o rumo da conversa em tradições chinesas, e questionou a procedência e idade de alguns móveis da mansão que lhe chamou a atenção. Ao tinir do último talher posto em posição indicando que todos estavam satisfeitos, os funcionários, que até então haviam estado parados lado a lado esperando, começaram a recolher a mesa. Sakura suspirou internamente, aliviada por não estarem mais colocando aquele objeto de metal em sua boca para que comesse aquilo lhe causava ânsia e várias vezes teve que segurar como pôde a comida que insistia em voltar por seu esôfago.

Eriol levantou-se após a matriarca fazê-lo, demonstrando muito respeito. Esperou que todas as filhas, e Syaoran, se retirassem do cômodo, para então poder sair junto com Nakuru e Sakura. Deu a volta até chegar onde Sakura estava sentada, encostada em sua cadeira de olhos fechados.

— Eriol. – Chamou Yelan.

Naquele momento apenas os três permaneciam no local. A mulher apenas abaixou o olhar para encontrar a frágil imagem de Sakura.

— Esta garota deve estar exausta, porém, como dormiu a tarde inteira não é interessante que vá dormir tão cedo. Poderia deixá-la na varanda? – Perguntou.

O jovem hesitou.

— Não terá problemas?

— Sem preocupações. Ela estará segura por enquanto. Além disso, Sakura precisa se acostumar com seu local de treinamento. – Concluiu Yelan.

Eriol apenas assentiu e empurrou a cadeira porta afora. Sakura permaneceu sem demonstrar qualquer objeção, estava imersa demais em seus pensamentos, e permanecer sozinha em algum local fresco poderia ser a solução para suas tensões. O ranger das rodas havia parado quando notou um novo ruído indecifrável, iniciando o barulho novamente, desta vez não fora contínuo.

— Não irei demorar em buscá-la. Confie em Yelan, estará bem sozinha. – Eriol disse deixando o local.

Incontáveis segundos ou minutos passaram. Tudo naquele ambiente era suave em demasia, o ar, os cheiros e os barulhos, então nada era completamente captado pela garota que fitava apenas a imensidão negra, mais negra do que a noite. Apenas passos relativamente altos feitos pelo couro na madeira puderam ser notados por Sakura, que mordeu o tecido interno da boca sentindo gosto de sangue em seguida.

— Minha mãe lhe enviou aqui? – Perguntou uma voz após os passos cessarem.

Sakura se encolheu com um guincho.

— Não importa, sei que ela o fez. – Suspirou a voz.

A jovem poderia reconhecer aquela voz, um pouco mais calma do que sua ultima recordação, quase se aproximava do que podia recordar de sua infância. Syaoran.

— Espero que não esteja esperando um pedido de desculpas. Pois não irei me desculpar por nada, afinal, nada fiz. Acredito que você mesma não se arrepende por estar sendo tão ridícula- Bufou Syaoran.

Os nervos de Sakura pulsavam tão forte que pareciam deslocar-se.

— N... Não sou ridícula. – Sussurou a jovem.

Syaoran arregalou os olhos.

— Ora, este vegetal também fala.

— Eu...

— Sofreu um acidente? Um mísero acidente. – Retrucou Syaoran.

Sakura silenciou-se.

— Tem qualquer noção estatística de quantas pessoas cegas existem neste mundo? A única coisa que difere você de todos é por possuir magia nesta sua cegueira, ela não será curada com qualquer tratamento. As pessoas nascem cegas, nunca puderam ter a chance de saber o que são cores, ou o quão lindas são as estrelas banhadas pela luz do sol. Pessoas nascem paraplégicas, sem qualquer chance de poderem se movimentar, outras não possuem olfato, audição ou fala. Você teve a sorte de possuir tudo isso, e esta jogando sua vida fora, pela morte de seu pai.

A jovem apenas deu um grito abafado por suas mãos, lágrimas roliças desceram por sua face, encharcando a seda.

— Acertei? Seria este o motivo por estar tão mimada? A morte de um ente querido, que não lhe abandonou, nunca lhe faltou com respeito, e que você teve a graça de conhecer. Devo repetir sua ignorância sobre a estatística de quantas crianças morreram de fome na rua, abandonadas por seus pais. Mas você, Kinomoto, ganhou uma casa, uma família, e um irmão... E está jogando sua vida fora... Pela morte de alguém que lhe amou, assim como todo o fruto deste amor.

Sakura não mais gritava, não havia expressão para a dor que sentia, nem nome para aquele sentimento. Sentia-se mais suja, patética e nauseante, do que já havia sentido em qualquer momento de sua vida.

Syaoran inspirou profundamente, apoiou-se na ponta de sua bota, agachando-se, fitando Sakura.

— Não desejaria tanto sua visão se pudesse ter a oportunidade de se olhar no espelho, e ver a figura que se tornou. – Disse Syaoran.

Dizendo isto, o jovem apenas deixou-a sozinha, sumindo por entre a escuridão de seu jardim.

Notas finais

Não sei o motivo de ter demorado tanto assim para postar. Demorei algumas semanas apenas para escrever o primeiro parágrafo, e então em dois ou três dias consegui escrever todas as outras páginas. O tédio em minhas aulas de Fisiologia e Parasitologia me levou a isto. Espero que tenham gostado. Reviews onegaii?