Shayera já havia terminado seu trabalho e arrumava uns últimos detalhes. A porta atrás dela se abriu e ela virou-se por reflexo. Deu um suspiro quando viu quem era e voltou a se concentrar na tela.

John passou a mão pela nuca antes de começar a falar.

– Posso falar com você?

Sem olhar para ele, ela respondeu:

– Não. Estou ocupada, não está vendo?

– Shayera...

– Mãe, vamos logo...

Claire parou no meio do caminho, olhando para sues pais do passado, sabendo que havia interrompido alguma coisa. Shayera olhou da adolescente para John e respondeu:
– Vamos.

Ela começou a andar na direção de Claire, segurando seu braço. Claire fincou-se no lugar onde estava e disse:
– Eu posso esperar mais um pouco.

Shayera olhou mais uma vez para John e ele também a olhou nos olhos. Por uns segundos, ele viu uma certa dor nos olhos dela e teve uma vontade imensa de mandar Claire sair e prender Shayera na sala até que ele pudesse dizer tudo o que estava sentindo.

Shayera desviou os olhos.

– Vamos. – Ela disse mais uma vez para Claire.

–***-***-***-

– As coisas estão muito tensas, galera. – Claire disse para os outros jovens do futuro.

Todos assentiram.

Eles estavam em uma mesa no refeitório da Torre da Liga, seus pais estavam sentados na mesa ao lado.

Vixen passou próxima a mesa deles, com um curativo no nariz. Claire sorriu para ela e disse:

– Oi, VV. Como vai seu nariz?

Vixen lançou um olhar mortal para a menina e seguiu para a mesa mais longe dela possível. Desde que Claire havia quebrado seu nariz, ela nutria um ódio por ela. Claire era o mais falsa possível, sempre sorria e perguntava pelo machucado, agora havia até adquirido o apelido VV. John achava que a filha estava começando a gostar da namorada, mas o que só os jovens do futuro sabiam, era que VV, significava Vixen Vadia.

– Eu preciso fazer compras. – Claire declarou.

Ela levantou-se e caminhou até a outra mesa, parando ao lado de John.

– Papai. – Ela disse com a voz doce que ela sempre usava com o pai. – Eu preciso de dinheiro para comprar umas roupas.

John levantou os olhos para ela e respondeu um simples:
– Não.

Os olhos de Claire se arregalaram em espanto, seu ar faltou e ela sentiu uma súbita tontura.

– O que? – Ela perguntou num fio de voz.

John sorriu. Todos os outros jovens pararam de comer e ficaram observando a cena. Era tudo muito inédito para eles.

– Não. Eu não vou te dar dinheiro.

– Não. – Ela repetiu como seu não conhecesse a palavra.

Ela olhou para trás, para seus amigos em busca de conforto.

– O que ele quis dizer com isso? – Depois voltou-se para o pai, com os olhos marejados. – Por que você está falando assim comigo? O que eu te fiz? Pai, isso não é legal de se falar para as pessoas. Quem é você? Você não é meu pai, seu andróide.

– Claire. – Disse John calmamente. – Me parece que você não está acostumada com uma negação, mas eu não vou te dar dinheiro.

Ela tremeu o beiço, seu olhar era inconsolável.

– Ma-ma-mas e o meu Jimmy Choo? E a minha Chanel? – De repente, ela engoliu o choro e disse determinada. – Escuta uma coisa, John Stewart, eu estou em um outro tempo, longe de casa, longe da minha família, até agora tudo o que eu usei foram as roupas da minha mãe e ela não tem o melhor dos gostos. Saca só, pai, você tá tipo assim destruindo a minha vida. Destruindo a minha vida, cara! Isso é simplesmente um absurdo! Custa dizer um “sim, minha filha, vai ser feliz”? Você me quer tão mau assim que não vai me deixar ter uma roupa nova?

Os outros não faziam idéia, mas os jovens sabiam que aquilo não iria acabar tão cedo, então Sam levantou-se e gritou por cima da voz da amiga:
– Cala a boca, Clarence!

Todo mundo deixou de prestar atenção no discurso de Claire e prestaram atenção em seu verdadeiro nome. Wally riu e perguntou:
– Você tem nome de menino?

Os olhos verdes de Claire marejaram mais uma vez e ela não pode ser conter, chorou. Samantha se arrependeu, ela sabia como Claire era frágil e como ela se sentia a respeito do nome.

– Desculpa, Claire.

Claire a fitou.

– Você me prometeu que nunca me chamaria assim. – Ela disse.

Ela deixou os braços caírem ao lado de seu corpo e andou em direção a porta. John, sem saber o que fazer, levantou seu cartão de crédito. Sem levantar os olhos do chão, Claire deu meia volta, pegou o cartão e saiu do refeitório.

–***-***-***-

– Então, por que mesmo você me chamou para vir ao shopping?

Claire olhou para os olhos azuis questionadores do garoto ao seu lado, tomou mais uma colherada de seu sorvete e respondeu:
– Eu estou me sentido para baixo. E você é o único amigo que eu tenho aqui que não conta meus segredos para todo mundo.

Todd assentiu compreensivo. Ele olhou para o lado do banco onde estavam sentados, um monte de sacolas estavam empilhadas lá. Ele perguntou mais uma vez:

– Não tem nada ver comigo carregando suas compras?

Claire olhou para ele sem saber o que responder, olhou para as compras e, tentando se desviar do assunto, disse:

– Nah. Então, como vai a loja?

– Tudo ótimo.

– E a vida?

Todd corou. Corou por que pensou em dizer que também estava ótima porque Claire estava ali com ele e era verdade, nenhuma garota havia pedido para acompanhá-la no shopping, na verdade, ninguém nunca havia pedido que ele fosse seu acompanhante no shopping. E o fato de Claire ser tão bonita, só fazia ele sentir que ela era muita areia para o caminhãozinho dele.

Claire riu e Todd levantou os olhos quando ouviu o som de sua risada.

– O que foi? – Ele perguntou.

– Você ficou vermelho. Foi fofo.

O sorriso dela morreu de repente e ela desviou o olhar.

– O que? – Todd perguntou preocupado, tentando saber se ele havia feito alguma coisa errada.

– Nada.

Todd continuou encarando-a e Claire acabou olhando para ele de novo. Ela deu um suspiro e começou a falar:

– É que eu gosto de você, mas nós logo não vamos nos ver de novo.

É, claro, tudo estava bom demais para Todd para ser verdade. Claire pareceu entender isso, ela se inclinou para frente e colocou uma mão na perna dele.

– Não é nada com você, Todd. O problema sou eu. Eu sou... – Por uns instantes ela viu Rex atrás de Todd, ele a olhava desaprovador e dizia: “Não fale nada, Claire, não fale nada”. Ela olhou da ilusão de Rex para Todd e depois para Rex de novo e disse: — Vai se ferrar, Rex.

Todd olhou para trás assustado, pelo o que ele se lembrava, Rex era o irmão de Claire e ele não estava preparado nem psicologicamente nem fisicamente para conhecê-lo, mas, felizmente, não tinha ninguém lá. Ele virou-se novamente e sentiu os lábios macios de Claire junto aos seus, em um beijo que durou mais que o primeiro. Ela abriu sua boca e explorou cada canto da boca de Todd, suas mãos foram para a o pescoço dele e as dele para a cintura de Claire.

Os dois se separam a procura de ar, suas testas coladas. Todd sorriu e Claire não pode agüentar mais.

– Eu sou do futuro, Todd.