Lifetime

4 Capítulo Quatro


John entrou no laboratório onde Sherlock trabalhava avidamente lhe entregando um copo de café. Era um caso difícil o que estavam cuidado e o detetive não se alimentava a mais de dez horas.

– Está sem açúcar. – Holmes respondeu fazendo uma careta após tomar um generoso gole.

– De nada. Então, já temos alguma pista de onde o casal possa estar?

– Não. Nada. Ajude-me, temos essas estas amostras de solo encontradas no tapete do apartamento deles.

– Claro. Você acha que é um caso simples de sequestro?

– Nenhum caso de sequestro é simples, John. Mas não. O fato de uma família inteira ter sido sequestrada. Uma família pobre de holandeses que havia chegado ilegalmente ao país a menos de duas semanas, sem grandes posses ou condições financeiras.

– É, eles vieram para trabalhar. Karel, o marido tinha conseguido um trabalho de garçom há três dias e Ester, a esposa, estava em casa cuidando da filha Amélie, até onde sabemos. Eles estão com suas documentações todas irregulares e ainda assim conseguiram vir de trem, sabe-se Deus como.

– Amélie? É francês. – Sherlock respondeu ainda muito concentrado.

– Sim...Ester é de origem francesa...mudou para Amsterdam quando tinha quinze anos e dois anos depois conheceu Karel. Os dois são de origem muito humilde. A família de Karel pertence a um circo itinerante e foi em uma das apresentações que os dois se conheceram...ele já foi equilibrista. Mas a pergunta que não quer calar é...por que alguém sequestraria os dois e deixaria pistas sobre isso?

– John, veja. O primeiro resultado saiu. Esse aqui é de uma plantação. Nada comum por aqui...

– Você acha que eles foram levados para o interior?

– Não. Eu acho que os sequestradores vieram de fora do país. Essa plantação é originária dos países baixos.

– Como, por exemplo, a Holanda. – o médico respondeu.

– Exatamente. Os sequestradores são de lá também. Ou pelo menos querem nos fazer acreditar que são.

– Certo. Os policiais investigativos que o Greg mandou, falaram com todos na vizinhança que disseram que não viu ou ouviu nada.

– A casa não estava revirada. Tudo estava em seu perfeito estado, exceto pelo tapete sujo da sala e as marcas de sapato perto da porta... – Sherlock disse.

– Certo. Vou ver o que consigo com essas amostras então. Ei, quer algo para comer?

– Não. – Holmes respondeu automaticamente.

– Certo. Macarrão parece uma ótima ideia mesmo. Vou pedir a porção grande para nós dois e já volto. – John respondeu saindo do laboratório.

Sherlock então olhou para o seu relógio. 16h40. Sentia-se cansado, mas sua mente estava mais rápida do que nas últimas horas.

Tirou suas luvas e lavou suas mãos, colocando cuidadosamente sua aliança depois de fazer isso.

Esfregando as mãos em seu rosto ele tentou pensar melhor. Não se encaixava. Havia algo. Um detalhe que não fazia sentido. Mas qual detalhe era esse?

Tudo aquilo era uma espécie de quebra cabeças. Um incompleto. A peça que faltava ironicamente é a que completava a misteriosa figura.

Indo até sua mala ele pegou o livro biográfico que havia encontrado na casa do casal de vítimas na madrugada anterior. “The Van Gogh Book: An A-Z Of Vicent Van Gogh” estava caído no chão da cozinha, atrás da geladeira.

Folheando as páginas na tentativa de encontrar a solução ele encontrou em uma das páginas a letra “M” em cor vermelha de sangue. Nesta mesma página havia a explicação técnica do quadro “Noite estrelada sobre Rhone”, o mesmo desaparecido do museu há um mês.

– “M”. Hm.

– Com licença...como estamos? – Lestrade disse entrando.

– Nada ainda.

– A imigração holandesa disse que terá que intervir. Eles já estão desaparecidos há mais de 48 horas e a família terá que ser notificada.

– Eles farão o que terão que fazer. Isso não ajudará na investigação e eu duvido que eles ainda tenham contato com suas famílias.

– Que livro é esse? Van Gogh...Adam foi até a Holanda para ver se vocês conseguem ajudar, né?

– Sim. Voltará dentro de dois dias.

– Esse quadro sumiu mesmo...

– Isso seria impossível. – Sherlock respondeu.

– É, eu sei...mas tantas linhas de investigação e nada! É tudo muito estranho. Bom, vou ver a Donovan tem novidades. Te vejo mais tarde! – Greg saiu após ver que o detetive não estava para papo.

Sherlock passou um bom tempo apenas com o livro e seu amontoado de pensamentos quando John voltou uma sacola que ele sabia que era o almoço deles.

– Demorei? — John sorriu após seus olhares se encontrarem.

– Até que nem tanto. – este respondeu após olhar para o seu relógio e ver que este marcava 17h20.

– O resultado dos testes que me pediu deve sair só em seis horas. – o médico contou lhe entregando seu macarrão com queijo e uma garrafa de água.

Enquanto almoçavam em silêncio, John via seu email pelo celular.

– Então, o macarrão está bom? – perguntou após notar que o outro não havia quase tocado na comida.

– Já foi melhor. Menos gorduroso e com mais sal.

– Isso é bem uma verdade. Que livro é esse?

– A biografia de Van Gogh que encontrei na casa do casal. – Sherlock contou.

– Greg te matará! Você pegou um objeto de uma cena de crime...

– Mas é um objeto que não servirá de nada a para a investigação. Pelo menos a deles.

– O que quer dizer?

– Coincidências não existem, John. Você sabe muito bem. E se eles tivessem ligados de alguma forma ao furto do quadro?

– Confesso ainda não ter ligado um fato ao outro. Quero dizer, eles são de Amsterdã e o museu fica lá, mas até aí...

– Eles não possuem condições e nem perfil para serem ladrões de obras valiosas. Eu sei disso, é essa parte que não encaixa. Mas veja, essa letra “M” marcada exatamente na página que fala sobre a obra que foi furtada.

– Foi feita com sangue...

– Sim.

– “M”...de morte?

– Oh John, por favor. – Sherlock respondeu revirando os olhos e fechando o livro.

– Ei, nem você sabe! Não me julgue...e estou almoçando. Com licença! – Watson respondeu enquanto comia novamente.

Neste exato instante Greg, Sally e Anderson entraram apressadamente.

– Agora que eu perdi o apetite mesmo. – o detetive disse ao ver os dois últimos.

– Pessoal, precisamos de ajuda. Acreditamos ter encontrado Ester e Karel. Através de uma denúncia anônima feita pelo telefone. Bom, eles acreditam que eles foram levados para 200 km ao leste. – Lestrade contou.

– Mas isso não faz sentido algum. – Sherlock respondeu incrédulo.

– Vamos gênio, você não resolveu desta vez. Grande coisa!– Sally provocou.

– Vocês vão ou não? – Anderson questionou impaciente.

– Claro que vamos. – John respondeu após o consentimento de Holmes.

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Cinco viaturas da policia chegaram seguidos pelo carro do inspetor que trazia Sherlock e John. Já era a noite e a casa que havia sido alvo da denúncia encontrava-se abandonada com sua plantação crescida até acima dos joelhos.

Tudo estava desligado e silencioso e à noite deixava tudo mais complicado.

– POLÍCIA! – um dos homens anunciou entrando pela frente da casa enquanto homens seguiam as instruções e tentavam invadir pelos fundos.

Holmes segurou rapidamente as mãos de John e o médico soube o isso queria dizer. Com o que eles trabalhavam, as pessoas que lidavam cada dia poderia ser o último.

– Vamos ficar aqui até entrarem e se certificarem que a casa está de fato vazia. – o loiro respondeu segurando em sua cintura após se certificar que ninguém olhava.

– Eles saíram há pouco tempo. Eu vi pegadas na entrada, perto da calçada assim que estacionamos. – Sherlock contou.

– Então é aqui mesmo? Ester e Karel estão aqui?

– É o que veremos. – Sherlock respondeu enquanto cortava um pedaço da grama e guardava em seu bolso.

– Watson! Pode vir até aqui, por favor? – Anderson gritou da porta e então os dois caminharam juntos pelo jardim.

Ao entrarem viram uma casa com poucos móveis, todos muito antigos e empoeirados. Subindo pelas escadas avistaram o corpo de Karel. De bruços. Parecia querer fugir, pois seus braços estavam estendidos, como se arrastasse por ajuda.

– Ela ainda está viva...- Greg saiu nervoso de uma das portas do andar de cima. – Vamos continuar a busca, eles não devem ter ido tão longe! Preciso de três viaturas.

Sherlock se agachou perto do corpo do homem e com luvas e uma lanterna começou a examiná-lo enquanto John seguiu até a porta que Lestrade havia saído e avistou uma mulher caída no chão, com seus cabelos vermelhos, rosto virado para a parede.

Ao se aproximar ele viu que junto com ela havia uma criança. Em seus braços ela abraçava a menina, que parecia dormir ou estava fraca demais.

– Me ajude...- a mulher sussurrou ao vê-lo se agachando perto dela.

– Ester, me escute: vamos tirar você daqui.

– Não...vê? – ela mostrou seu braço e então ele viu suas veias saltadas. Envenenamento.

– Eu preciso de ajuda aqui! – John gritou e depois se voltou novamente para a mulher que mesmo muito fraca começou a chorar.

– Eles não vão querer Amélie. Não depois de tudo.

– Quem? Tudo o que? Ester, acalme-se e tente me dizer para que possamos achar os culpados.

– Cuide dela...senão eles vão pegá-la. Cuide dela...minha Amélie.

Neste momento a criança começou a chorar com toda força que ainda tinha em seus pulmões. Estava fraca, provavelmente porque, assim como os pais, não havia se alimentado há dois dias, mas não apresentava sinais de envenenamento.

– Posso pegá-la, Ester? – ele perguntou para a mulher que agora não conseguia mais falar, mas que assentiu com os olhos.

Sally neste momento se agachou perto de John e os dois trocaram um olhar. Não havia mais nada a ser feito com a mãe. Ela agora agonizava.

Watson olhou para a menina em seus braços, cujos olhos verdes estavam muito abertos e olhavam em sua direção, com expressão de dor. Ela havia parado de chorar.

– Quer que eu a leve? – a Sargento Donovan sugeriu.

– Oh. Sim. Claro. Por favor. – John consentiu e entregou o bebê que recomeçou a chorar enquanto se afastava.

Olhando de volta para Ester, o médico viu que esta não respirava mais e seus olhos igualmente verdes como o da criança, já não tinham mais nenhum brilho.

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John sentou-se no parapeito da janela e encarou a Rua Baker completamente vazia. Era de madrugada, provavelmente por volta das quatro da manhã, mas ele não conseguia dormir.

Tentou escrever algo para seu blog, mas não conseguiu. Bebericando seu leite com chá ele agora passava seus dedos pela poeira que começava a formar no vidro.

– Não vai dormir? – Sherlock disse baixinho, mas apenas isso o fez se sobressaltar.

– Oh. Estou sem sono.

– Foi uma pergunta retórica. Só a fiz para ver se você me conta o que está acontecendo. – o moreno respondeu sentando-se ao seu lado e de frente para ele.

John respirou fundo e tentou falar. Não tinha como fugir. Sherlock o conhecia melhor do que ele mesmo.

– OK. Eu sei que...bem, é nosso trabalho, mas...- tentou dizer mas as lágrimas começavam a se formar em seus olhos.

– Era só um bebê.

– Sim. Exatamente. Obrigado...

– De nada.

– E eu sei que...bem, eu tenho que ser forte porque eu sou médico e...oras, eu trabalho com isso...mas é que...eu não consigo acreditar que no mundo possam existir pessoas que consigam maltratar um bebê. Que jamais conseguiria dizer que está com dor. Que precisa da mãe. Que não conseguiria nunca gritar por ajuda. – ao responder, John começou a chorar.

Sherlock se aproximou e então este o abraçou muito forte.

– Infelizmente nem sempre vamos acertar, John...nem sempre vamos chegar a tempo. – Holmes disse beijando seu pescoço, acariciando seus cabelos.

– É, eu sei. É que...estou tão cansado. Quero dizer, foi um caso longo e...por pouco não conseguimos.

– Ainda não conseguimos. Não sabemos o motivo de tudo isso. Isso ainda não terminou.

– É...Deus. É verdade. – John suspirou fundo limpando suas lágrimas rapidamente e se afastando. — Eu te amo, você sabe disso, certo?

– Eu te amo também. – Holmes respondeu acariciando seu joelho.

– Eu acho que eu não estou a fim de conversar muito agora, Sherlock...eu preciso absorver isso tudo sozinho, se você não se importar. Não quero atrapalhar seu sono e eu...

– Então, eu não falarei uma palavra. Prometo. – Sherlock o interrompeu pacientemente.

Os dois trocaram um olhar e então Watson se aproximou do moreno e encostou a cabeça em seu colo. Enquanto Sherlock acariciava seus cabelos, John pode perceber que dali era possível ver o céu estrelado do lado de fora da janela.

Notas finais
Gostaram!? :3
Espero que sim! *_*
Voltarei muito em breve com novidades...um beijinho! :D