Lifetime
18 Capítulo Dezoito
Notas iniciais
Alguns anos antes...
Sherlock e John caminhavam por um pequeno centro de compras. Era o último dia da primeira viagem ao campo dos dois juntos e nada poderia ter sido mais romântico. Exceto pelo fato de ser com Sherlock, naturalmente.
– Eu não entendo o por quê sua mãe precisa desses chocolates. – o moreno disse fazendo Watson sorrir – Eles são os mesmos que vendem na confeitaria perto da casa dela. E são ainda mais caros aqui. Aliás, tudo por aqui é muito caro. Somos estudantes, John. Não faz sentido gastarmos tanto dinheiro.
– Deixe de ser rabugento, Sherlock. Ela não precisa, mas são lembranças da viagem...você nunca viajou antes e teve que comprar lembrancinhas para quem ficou?
– Não. Porque isso não tem importância. – o moreno respondeu suspirando de maneira entediada enquanto observava um gato feito de cerâmica balançar sua em uma loja perto deles.
– Gostou? Quer um gato da sorte? Eu compro para você. – Watson se aproximou beijando rapidamente seu rosto.
– Hm. Não é gato da sorte, John. É um Maneki Neko, ou seja, “gato que acena”. Aqui no ocidente nós traduzimos desta forma. O que não é errado, mas está incompleta. Observe: ele está acenando com a mão esquerda...o que quer dizer que na verdade ele está querendo atrair clientes, plausível no caso de comércio. Se fosse a direita, seria sorte. Ou o contrário, depende da região do Japão, de onde ele se originou.
– OK, enciclopédia. Você quer ou não?
– E para que eu iria querer? Não precisarei de clientes...muito menos boa sorte. Por quê, você quer um? Eu poderia comprar.
– Bem, eu também não preciso. Mas eles são bonitinhos e eu pensei que você tivesse gostado, você sempre diz que admira a cultura oriental...
– Eu gostei deles...- Sherlock disse sem jeito e então John então abriu um enorme sorriso e o puxou pelas mãos para a loja.
– Isso é o suficiente! Compremos dois então. Um para mim e outro para você...eu posso ficar com o de clientes, porque você sabe...eu serei médico, então...serão meus pacientes e você pode ficar com o de boa sorte. – o loiro explicou enquanto os dois já observavam os diversos modelos na prateleira.
– Por que não ao contrário? – Holmes questionou.
– Porque eu já tive sorte o suficiente ao te encontrar. – John sorriu enquanto o encarava.
– Sempre tão clichê...- este respondeu sorrindo de lado.
– Olá meninos, vão levar os gatinhos da sorte? – a vendedora se aproximou cortando o clima, o que fez Sherlock revirar os olhos e o loiro sorrir.
– Claro. Esses dois. Por favor. – respondeu já se aproximando do caixa enquanto Holmes continuava olhando toda a loja.
Ao saírem Watson entregou os dois gatos para Sherlock que sorriu de maneira satisfeita.
– Obrigado. Eu te amo, John. – este disse em seu ouvido, segurando rapidamente em sua mão. – Mas poderia segurá-los de novo? Preciso ir ao banheiro.
Sherlock piscou e lhe entregou de novo a sacola, deixando John completamente transtornado. Aquela era a primeira vez que ele dizia “Eu te amo” e bem, não havia sido perfeita, mas como tinha valido a pena a espera!
Se aproximando de uma loja de joias, observou as alianças e pensou que ele um dia, mesmo que parecesse absurdo nas circunstâncias atuais, se casaria com Sherlock.
Não sabia explicar, simplesmente sabia. Porque se não fosse com ele não seria com mais ninguém, e disso tinha certeza disso.
Naquele mesmo instante então entrou e comprou as alianças, aproveitando que o moreno não retornava.
–----------------------------------------------------------------------
John andava de um lado para outro em seu quarto quando Mycroft bateu à porta.
– Finalmente você voltou! – exclamou enquanto o mais velho entrava, desligando seu celular.
– Vim quando pude. E então? Descobriu algo? Parece ainda mais apreensivo.
– Nada concreto, quero dizer...estive pensando sobre tudo. Sobre mim. Sobre eu e Sherlock. Mycroft, eu temo pela vida dele...
– Mas ele está com o Adam...desculpe se estou sendo controverso mas aquele cara é praticamente um santo. E braço direito de Lestrade. Sherlock não saberia?
– Eu não tenho a menor ideia. Mas precisamos encontra-lo. Eu...preciso.
– Naturalmente. Estou com o meu carro, podemos voltar no hotel onde eles estão...talvez estejam lá ainda.
– Eu estive vendo este livro sobre Amsterdã...é um guia que Sherlock estava anotando sobre a cidade. Veja, algumas anotações...mas não consigo compreendê-las. Fazem sentido, mas não no contexto em que se encontram...
– Como qual? – questionou enquanto o loiro abria as páginas mostrando escritos.
– Esta, por exemplo, temos uma coordenada geográfica. Mas ela está na página onde temos os preços dos museus principais.
– À primeira vista. E se estas duas informações não tiverem ligação? Talvez meu irmão tenha utilizado este trecho em branco para fazer uma breve anotação relevante.
– Certo...mas existem outros, como este “The Van Gogh Book: An A-Z Of Vicent Van Gogh”. Deus, eu nunca vou conseguir entender isso! – o loiro se desesperou ainda mais.
– Acalme-se John. O que o fez achar que Sherlock corre perigo? Quando sai de manhã você estava crente que ele havia traído você.
– Sim, isso foi antes...é como eu te disse. Eu pensei muito sobre e, bem...existem coisas, momentos...só meu e de Sherlock que me fazem acreditar nisso. E se alguém armou tudo isso? Eu sei, soa absurdo...mas eu sei que Sherlock corre perigo, de uma maneira ou de outra. Eu sinto isso! E antes de eu sair do hotel, Adam disse que chamaria a embaixada ou a polícia. Ou seja, Mycroft...ele não está sozinho. Ele está trabalhando com alguém muito poderoso que sabe que eu só entrei na Holanda por ajuda. Quem sabe se não foram eles que me impediram de vir antes?
Holmes então o encarou e ainda que desacreditado ligou para sua assistente, pedindo que ela pesquisasse sobre a tal coordenada o quanto antes.
– É como uma caça, Mycroft. E eu concordo com você. Cada minuto é importante agora.
–----------------------------------------------------
No dia anterior...
Sherlock observava o cenário passar por seus olhos, mas não prestava atenção em nada. Mesmo assim sabia que Adam ao seu lado o observava.
Não responderia a provocações. A única coisa que ele pensava era precisava falar com John. O loiro precisava saber que tudo aquilo era uma armação. Mas como poderia fazer isso sem arriscar suas vidas?
Ele sabia que tinha que arrumar uma maneira de se livrar de Adam e de Moriarty antes que fosse tarde. Mas como? Estava desesperado ao concluir que não havia saída que não arriscasse a vida daquele que mais amava.
– Onde estamos indo? – questionou ao reparar que passavam pela mesma rua pela terceira vez.
– Na verdade para lugar algum, estamos apenas esperando as próximas cartas serem colocadas à mesa. – este lhe respondeu com um sorriso assim que o moreno o encarou.
– Por que não corta logo esse suspense idiota? Vocês não sabem fazer isso. Só acabe logo e me digam o que estou fazendo aqui!
– Oh...repense suas palavras, Holmes. Pois agora será ainda mais difícil. Tome, vamos...ligue para John. – este respondeu lhe entregando um celular
Sherlock apenas segurou o aparelho e isso fez Adam gargalhar.
– É tão bom vê-lo assim. Humilde. Com medo. Você não fica tão atraente, devo te dizer, mas ainda assim...bem. Você vai ligar para John e perguntar se ele já chegou. Ele provavelmente estará muito nervoso, mas não conseguirá te evitar. Ele está em estado de choque. Busque-o no aeroporto e leve-o até o hotel...até o nosso quarto. Sim, você ouviu certo, “nosso quarto”. Só vocês dois...e ele terá a certeza de que tudo que viu é verdade. Bem , ele é bem nervosinho, não? Vocês vão discutir e é nisso que você confessa que estamos juntos e é aí que eu entro.
– Eu não vou fazer isso. – Holmes respondeu entredentes enquanto se olhavam.
– Tem certeza? Bem, vocês ficarão a sós no aeroporto, no táxi e no quarto...chances você terá. Mas tem certeza que quer se arriscar? Sem saber quais são consequências? É melhor você fazer exatamente o que eu estou te dizendo.
O detetive então pensou por alguns instantes e não disse mais nada. Adam então continuou:
– Ótimo. É interessante como você se coloca na linha de fogo por aqueles que ama. Você nem ao menos sabe se o perigo é real e ainda assim...prefere não arriscar. De fato, o amor é uma fraqueza. Bem, não nos demoremos então. Ligue agora para o Watson. – este respondeu enquanto apontava uma arma.
Sherlock digitou rapidamente os números e prendeu sua respiração até que o médico respondesse do outro lado.
“– A-alô“ este respondeu nervosamente do outro lado.
– John? Você já chegou? – perguntou fechando os olhos, tentando se manter calmo.
“– Sim. Eu...e-eu acabei de embarcar. Onde você está?” – mentiu.
– Te buscarei no aeroporto.
“– Oh. Certo.”
– Está tudo bem? – teve que perguntar após sentir a respiração de John muito pesada.
“– Tudo ótimo. Venha daqui uma hora. Vou comer alguma coisa antes de irmos para o hotel, seja qual for ele”. John respondeu desligando em seguida.
Sherlock suspirou fundo deixando o aparelho de lado. Pensou em muitas coisas nos minutos que se sucederam enquanto seguiam para o aeroporto.
Pensou em Amy e no quanto ele queria estar longe dali. Pensou em matar Adam e em no que Moriarty deveria estar fazendo naquele instante.
– Chegamos. Vá e faça exatamente o que eu disse. Está vendo aquele táxi? É nele que vocês entrarão. Não dê uma de espertinho, Sherlock. Ou melhor, dê e você sabe o que está em jogo. –Adam disse e logo após o carro seguiu e ele se viu aparentemente sozinho.
Olhando ao seu redor agora, ele observou as milhares de pessoas que existiam e estavam alheias ao seu desespero. Aquilo era sufocante.
Entrando no aeroporto ele procurou por sinais que pudessem dizer se ele estava sendo vigiado, e ele sabia que estava.
Pegou seu celular e ligou para John que logo atendeu de maneira distante. Após dizer que estava na cafeteria, Sherlock caminhou apressadamente para lá e logo o encontrou. Seu tão amado, John.
Assim que ficaram muito próximos, Sherlock viu que John o ignorava. A esperança que ele tinha de que John tivesse descoberto sobre tudo se esvaiu neste instante.
Pegando sua mala menor, seu desespero aumentou quando seus dedos se tocaram mesmo que um breve segundo. Juntos e ainda assim muito distantes.
Enquanto caminhavam para o lado de fora, não pode deixar de fixar seus olhos no médico que parecia exausto, triste, confuso. Aquilo só podia ser um pesadelo sem fim.
– Onde está Adam? – John perguntou e Sherlock percebeu que este segurava sua raiva.
Os dois se olharam por um tempo que pareceu uma eternidade.
– Ficou no hotel. Muito trabalho. – respondeu sentando-se ao seu lado no táxi, suas mãos muito próximas.
– Oh, eu imagino. Imagino também que vocês tenham descoberto quem foi o ladrão que roubou a obra? Você já falou com o tal suspeito? – John respondeu já não conseguindo esconder sua raiva e isso deixou Sherlock ainda mais incomodado – Você está neste lugar tem quase uma semana, não é possível que não tenha descoberto.
Os dois então se encararam mais uma vez antes dele olhar cada centímetro do táxi, além do motorista que o observou de volta. Estavam sendo vigiado.
Todo o percurso foi feito em silêncio. Sherlock gritava por dentro, desejando que John soubesse, sentisse, adivinhasse sua situação.
Não conseguia mais. Tinha que falar. Sabia que poderia ser a última vez e mesmo assim lhe faltava coragem para arriscar tudo. Não podia olhar o loiro que o encarava ao seu lado, pensando o pior dele.
Será que em algum momento John saberia que nada estava certo?
Assim que chegaram, caminharam pela recepção e apenas o fato de andar ao lado do médico o fez querer segurar sua mão.
Subindo um elevador cheio, eles ficaram próximos, mas nunca trocando sequer olhar.
– Sétimo andar. É aqui. – disse Holmes aliviado ao descerem e seguirem por um largo corredor.
A chave dentro de seu terno abriu a porta do quarto e ele pode ver o quanto Moriarty podia chegar longe em sua loucura, em sua descabida vingança. Em sua brincadeira perigosa.
Havia apenas uma cama, lençóis pelo chão e duas taças sujas além de uma garrafa de vinho vazio.
– O serviço do quarto ainda não veio. – comentou após assistir os olhos do loiro se encherem de lágrimas.
Ambos trocaram mais um olhar e apenas alguns centímetros o separavam. John então disse em um quase sussurro:
– Não precisa mentir mais para mim. Eu sei sobre você e o Adam...pelo amor de Deus.
Era isso. Fosse que fosse, mas ele não suportaria mais aquilo. Indo até a janela ele tomou fôlego, mas algo o impedia. O medo, ele sabia.
– Fale comigo! Olhe para mim, Sherlock...o que pensa que está fazendo?!
Virando-se e se encostando ele engoliu seu pedido de socorro e disfarçou o choro que ameaçava entregá-lo.
– Como pôde? Por quê?! De todas coisas...de tudo que podíamos suportar juntos, você fez a única coisa que sabe que não sou capaz de perdoar...traição, ainda por cima com um imbecil qualquer como o Adam! Desde quando vocês estão juntos?! – Watson gritou enquanto esmurrava um pequeno armário perto da porta agora.
– Não vejo como isso tem importância agora... – respondeu forçadamente calmo.
– Oh, me poupe...não seja insuportável agora. Me diga! Vocês dois...me diga que aquele beijo que eu vi no restaurante foi o primeiro. Que isso começou hoje...
O loiro começou a chorar silenciosamente ao ver seu silêncio e isso quase fez Sherlock correr para seus braços. Não, ele não podia.
– Eu precisava de um tempo, John. – foi a única coisa que conseguiu dizer ao ver que Watson agora sentado na cama, estava mais perdido do que nunca.
– Oh! Claro. Porque assumir um compromisso...estar em um relacionamento sério deve ser angustiante para você, não? “Tedioso” como costuma dizer. Por que não me disse? Por que não me procurou? Por que esperou a Amy entrar na nossa vida? Somos casados...e depois de sete anos você simplesmente decide fugir como um adolescente? Eu nunca poderia esperar isso de você!
Aquelas palavras. Aquele jeito. Não, John nunca falaria daquele jeito. Com aquelas palavras. Tudo estava de fato acabado agora.
Sherlock se virou novamente para a janela e isso enlouqueceu o loiro que foi até onde este estava, puxando-o pelo braço com violência, ambos se olhando muito próximos agora.
– Me diga o motivo! Me diga com todas as letras, Sherlock! Porque eu necessito ouvi-las. Eu preciso acreditar...eu preciso te conhecer de verdade!
Adam neste instante surgiu encarando John, que partiu para cima, golpeando-o com um soco que o fez cair com tudo em cima de uma pequena cômoda.
– Pare, John! Pare...- Sherlock o segurou tentando agora tirá-lo dali, afastando-o do falso investigador de polícia que agora revidava.
– Eu vou matar você, seu cretino! – Watson gritava mas Sherlock, que sabia que Adam tinha uma arma, então o empurrou contra a cama com força.
– John, pare! E me escute bem o que eu vou dizer: finalmente acabou. Aceite isso. Eu não vou voltar com você...- declarou da maneira mais convincente que conseguiu, seu coração a mil por hora.
– O quê?! Você enlouqueceu...o que este cara fez com você...- este ainda tentou responder entre lágrimas.
– O que você não soube fazer, John. Não é mesmo...meu amor? – Adam provocou enquanto o sangue escorria de seu nariz.
– Eu quero isso agora, John. Eu não quero mais você ou Amélie...ou Baker Street. Não vê? Isso jamais daria certo e eu nunca quis isso de verdade. – Sherlock completou enquanto John se levantava de volta.
– Mas...isso só pode ser uma piada...o que você pensa que vai fazer? Com esse cara aqui na Holanda? Eu e você somos casados, Sherlock! Temos uma família juntos! Você perdeu a noção da realidade?!
Enquanto encarava John completamente destruído na sua frente, Sherlock se arrependeu.
Se arrependeu por ter decido ficar com um caso fascinante ao invés de escolher sua família. Se arrependeu de ter exposto a pessoa que mais amava a tal humilhação.
– Amy não é sua filha, John. Muito menos minha. Não consegue ver? Eu não consigo mais mentir para mim mesmo. Eu tentei, mas eu não posso. – completou, dizendo exatamente aquilo que sabia que feriria Watson e convenceria Adam.
– Mas nós...
– Não insista mais...está muito claro até mesmo para alguém como você! – insistiu, seu desespero aumentando – Eu não quero mais! Vá embora. Eu sempre te disse, não disse? Eu não queria nada disso...e eu não vou querer nunca. Me esqueça...vá embora.
Sherlock então encarou aqueles olhos que tanto amava e em sua mente apenas suplicava que este fosse embora.
– Tem que ser assim. Nunca daria certo. Sentimentos...apego...são uma mentira, John. E sempre acabam. Uma perda de tempo. Ilusões. – completou odiando a si próprio.
John o encarou com raiva para e ele e para Adam e com as lágrimas em seu rosto, disse:
– Você, Sherlock, é de longe a maior decepção de todas. Um covarde. Uma máquina. Um ser sem coração. Você trocou sete anos verdadeiros de felicidade, que eu sei que foram verdadeiros mesmo você negando eles agora , por um cara que nem ao menos te conhece ou te merece. E nem ao menos é capaz de me dar uma razão. Beleza? Poder? Tédio? Sexo? Eu tenho nojo de vocês...
– Não está vendo? Não tem mais nada para você aqui. Vá embora antes que eu chame a polícia ou até mesmo a embaixada para te levar de volta! – Adam disse interrompendo o olhar que estes trocavam.
Watson pegou suas malas, abrindo a porta com tudo e então Sherlock se desesperou. Então, seria aquilo? O fim.
E se ele nunca mais visse John? Ou Amélie. Lágrimas surgiram nos seus olhos, mas agora o médico não podia vê-las.
– Tudo isso era muito óbvio, John. – disse antes do loiro bater a porta.
Fale com o autor