Lifetime
17 Capítulo Dezessete
Sherlock só conseguia olhar para aquela imagem, tão distorcida e distante de John e Amy à sua frente.
Tentava pensar em algo, qualquer coisa. Precisava!
Mas o medo começava paralisá-lo por inteiro e aquilo era pior do que qualquer pesadelo.
Porque mesmo fazendo tudo que Moriarty dissesse, ele sabia que este era completamente psicopata e que poderia mudar sua mente e suas ideias de uma hora para outra.
– Oh. É tão divertido vê-lo tentando racionalizar e engolir o seu sentimentalismo, Sherlock Holmes! — este riu de maneira esnobe – Sabe, quando eu soube que você e John estavam casados eu pensei...que desperdício! Quero dizer, ver você limitado a uma vida de fraldas e contas para pagar! Eu tive muito tempo para pensar em tudo, Sherlock...e devo dizer que sua vida não será a mesma quando terminarmos...sim, porque eu farei você escolher.
– Escolher? – Holmes repetiu agora encarando-o.
– Sim, mais spoilers! Pois bem, vamos começar? Você deve primeiro confessar que jamais suspeitou de Adam...ele é excelente, não é? Eu achei o meu próprio John! – Jim vibrou.
– Adam...
– Sim, ele foi uma peça fundamental no plano. E você nem ao menos suspeitou...como?! Devo dizer que o médico te distrai muito? Oh, já sei...vocês ficam sempre muito ocupados entre um crime e uns amassos no armário de limpeza, estou certo? Eu sei absolutamente tudo da sua vida...e vejo o blog do John. O seu reconhecimento por causa de todos os crimes resolvidos...mas não foi por isso que você resolveu vir, não é?
– Van Gogh...- Sherlock respondeu entredentes.
– Claro! “O crime do século”! Adoro jornais e seus títulos baratos para pessoas facilmente impressionáveis. Você saberá logo como eu, bem, as pessoas que eu contratei fizeram o roubo já que eu não sujo minhas mãos com poucas coisas. – Moriarty sorriu. – Foi tão óbvio, eu não sei como você não descobriu também...
– Como poderia? Eu vim aqui exatamente para isso.
– E caiu como um patinho! Você foi tão...tão..limitado. Oh, chega a ser angustiante! Bem, não lamentemos mais! Aqui está o seu celular, provavelmente John te ligará dentro de algumas horas já que você não ligou...
Sherlock segurou seu celular e viu a foto de John segurando a pequena ruiva no colo. Ele vestia um suéter verde musgo e sorria de maneira contagiante. Aquela foto havia sido tirada um dia depois da Amy ser levada para casa.
Holmes sentiu um aperto no coração. Como ele pode ficar tão vulnerável? Como ele não viu aquilo chegar?
– Estou faminto. Vamos eu, você e Adam...assim você pode conhecer melhor a cidade enquanto eu te explico sobre o que exatamente eu quero que você faça. Oh, vamos...não faça essa cara, Sherly. Você passou muitas horas naquele quarto...aposto que está com fome também. Eu disse para o Adam não exagerar na quantidade de Clorofórmio, mas você sabe...ele não sabe dosar muito bem e eu bem que gosto de uma entrada dramática! – Moriarty respondeu enquanto cinco seguranças entravam porta adentro, levando-o de volta pelo corredor.
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Sherlock olhava atentamente ao seu redor e tentava encontrar algum tipo de ajuda ou alguma forma de fugir. Mas como? Era possível ver os cinco seguranças da mesa de restaurante onde estavam sentados agora ele, James e Adam, sem contar nos outros clientes que pareciam ser suspeitos também.
Um prato foi servido e James e Adam o devoraram, mas Sherlock por razões óbvias preferiu não se arriscar, o que divertiu Jim.
– Envenenamento? Sério, Holmes? Eu evolui...e não estamos mais nos tempos de faculdade.
– Para algumas pessoas os tempos de escola...ou se preferir, de faculdade nunca terminam. – Sherlock respondeu e isso fez os dois rirem.
Neste momento o celular de Sherlock tocou, mas ao ver que era John ele hesitou e apenas isso fez Adam pegar o aparelho e atender.
– Alô? Watson? – este disse tentando disfarçar a risada – Oh. Ele foi ao banheiro...e pediu para eu cuidar. Estamos jantando. Posso te ajudar?
– Aposto que ele já está imaginando o nosso Sherly debaixo da mesa, enquanto o amante atende ao telefone! – Jim cochichou e isso fez ele e Adam rirem.
– Me de agora isso. – Sherlock disse enquanto encarava Adam.
– Vamos, Adam...vamos deixar os pombinhos se falarem...eles não terão muito disso daqui para frente. – Moriarty respondeu tomando seu vinho.
O loiro então sorriu e piscou levemente entregando o aparelho para Sherlock que respirou fundo antes de dizer:
– John.
“– Pelo amor de Deus! Você quer me matar? Por que não me ligou? Só me mandou aquela mensagem idiota? Você está bem?”
Aquela voz fez o coração do detetive parar e pulsar rapidamente em menos de um segundo. Aquela voz. E agora desesperada por respostas. Como sair daquilo, daquele lugar sem machucar quem tanto amava?
– Eu estava no banheiro. Tenho que ir. Nos falamos depois. – respondeu de maneira rápida, desligando logo em seguida enquanto Jim o encarava com um sorriso cínico.
– Bem, bem, bem...isso foi interessante. – Adam comentou enquanto o observava.
– Muito, e ainda assim previsível. Logo logo o médico fiel estará aí e finalmente a sua parte do plano começará, Adam. Oh, John...sempre tãoo chato!
Sherlock então começou a entender tudo finalmente. Independente do que fosse acontecer ele sabia que teria que fazer uma difícil escolha e que ele jamais seria o mesmo. A questão era: o que ele perderia? Qual seria o preço?
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Assim que Holmes foi levado de volta para a casa onde estavam, logo foi o fizeram entrar em um quarto onde viu roupas caras esperando por ele.
Queria falar com John, com Amy. Sentia falta de casa. E sabia que James agora percebia isso.
Ele não sabia o que estava acontecendo, mas de uma coisa Moriarty estava certo: John iria até lá para encontrá-los.
Sherlock tinha certeza disso, pois conhecia o médico e seu ciúme por Adam. Sua desconfiança e sua insegurança com relação a ele próprio, algo que Sherlock nunca havia compreendido.
Deitando-se sobre a cama ele encarou o teto e se sentiu ainda mais triste.
Sabia que aquelas ameaças com John, Amy e todos os outros era apenas o começo de algo muito ruim.
Fechando os olhos ele tentou se recordar do médico e a última lembrança que veio à sua mente foi a dele com Amy no colo no aeroporto.
Ele deveria ter visto tudo aquilo chegando. Mas como não percebeu? Sequer notou?
Não poderia. Não agora. Com uma filha pequena. Com uma família. Com John preenchendo todos os espaços de sua mente. Sendo pai e um homem casado, algo que jamais poderia prever.
Sim, Sherlock estava vulnerável. Havia sido daquele jeito desde que conhecera o loiro ainda na época da faculdade, em uma manhã comum de sábado.
Completamente vulnerável e ainda assim, plenamente feliz.
Pensar daquela maneira fez Sherlock sorrir ainda que seus olhos estivessem entregando seus verdadeiros sentimentos, porque pela primeira vez ele reconhecia o quanto havia mudado com John na sua vida. E quanto tudo agora era mais rico, melhor. Vibrante. Alegre.
E entre pensamentos melancólicos e planos de como sair daquele lugar, Sherlock adormeceu.
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No dia seguinte, Holmes acordou com Adam abrindo a porta de seu quarto.
– Bom dia! Já são quase meio dia, querido...vamos. Temos que nos apressar. John virá a qualquer momento e temos que estar perfeitos para este instante, certo?
– John? Onde ele está? – este respondeu se levantando num sobressalto.
– Não sei...mas ele já te ligou algumas vezes e até já sabemos que ele quer antecipar sua vinda! Vamos, tome um banho...precisamos sair. Oh, ele está ligando de novo...
Adam então jogou o aparelho para Sherlock que muito nervoso, atendeu.
“Alô. Ei...Sherlock, tudo bem?” a voz disse do outro lado.
– Estou ocupado agora, John. – Sherlock respondeu, seu coração disparado enquanto encarava Adam sorrir para ele, se aproximando e ameaçando tirar o celular.
“Oh. Quanta consideração de sua parte. Você ao menos sabe que a nossa ida para aí foi cancelada?”
– Fiquei sabendo sim. – Holmes respondeu.
“Aham. Só que tudo isso está muito estranho, não? Então estou indo para aí...” Watson respondeu e Sherlock sentiu todo o ciúme, toda a insegurança e ódio escorrer sua voz.
– John, não. – foi a única coisa que conseguiu responder. Agora Jim havia chegado e junto com o loiro, o encaravam como um exótico animal de circo.
“Agora que eu vou mesmo. Eu não tenho dinheiro, voos de última hora são quase três vezes mais caros, mas peguei da poupança que fizemos para a Amy...espero que não se importe. Não me deram visto, mas o seu irmão conseguiu dar um jeito para mim. Eu quero ir. Eu sinto que você precisa de mim aí...que precisa da minha ajuda...com o caso do Van Gogh obviamente, quero dizer. Tenho tanta saudade sua, você não quer que eu vá, meu amor?”
– Tanto faz. – Sherlock respondeu, o mesmo desespero anterior crescendo novamente.
“Em qual hotel você está hospedado?” o médico perguntou, mas neste instante Moriarty se aproximou tirando o celular de sua mão, desligando-o.
Em um ato de fúria inesperado, Sherlock avançou para cima dele, acertando-o com um soco no nariz que o fez cair perto da cama.
– POR QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO ISSO? – Sherlock gritava enquanto avançava ainda mais, chutando-o, segurando por seu paletó enquanto Adam tentava separá-los. – Por que eu e John?! Você é completamente louco!
Adam então o empurrou com força para longe enquanto Jim se levantava. Neste momento viu que os dois tinham uma arma e isso o fez recuar.
– Shh...calma. Já dissemos para não tentar bancar o espertinho. – o primeiro deu uma risada.
Moriarty agora com seu nariz sangrando muito, sorriu assim mesmo e se aproximou, encarando-o Sherlock de perto.
– Isso é tão divertido! Essa versão do Sherlock Holmes humano. Adam...tudo deverá ser perfeito. Eu vou adorar ver a cara do John.
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Depois de ser obrigado a se arrumar, Sherlock foi levado para um hotel. NH Grand Hotel Krasnapolsky, localizado no Centro pelo que pode perceber pelas construções, tipicamente do século XIX.
Não tinha noção de onde estava, já que todo o percurso havia sido feito com seus olhos vendados, seus braços amarrados e com a boca amordaçada.
– Finalmente só eu e você, uh? – Adam comentou enquanto saiam da limusine e subiam até o primeiro andar.
Neste momento viu à sua frente um restaurante luxuoso e cheio de turistas. Caminhando apenas os dois pelas mesas, ele sabia que não havia somente os dois, de fato.
– Por aqui. – este pediu mostrando uma mesa perto da janela, onde o moreno pode ver os seguranças de Moriarty, à espreita.
Ao se sentarem, Sherlock continuou observando a tudo e a todos e isso fez Adam sorrir.
– Você é adorável mesmo, não é?
Sherlock então o encarou de maneira furiosa e isso apenas o divertiu. Ele continuou.
– O John, assim como qualquer homem que preze a moral e a integridade, preza por lealdade também. Por valores. Pela verdade. Ele é tradicional. Quer uma família. Uma casa, um lar. Filhos. Uma vida medíocre...em resumo. Mas querer isso com você? É, até ele mesmo sabe que é um tanto quanto pretencioso. É um desperdício e você, mais do que ninguém deve saber. Sherlock...eu estudei vocês dois...por um bom tempo. E posso dizer se há uma coisa nessa vida que o John preza é isso que vocês chamam de relacionamento. Mas eu sempre achei tão limitado. Quero dizer...você não precisa disso...
– Você não me conhece...então, cale a boca. — Sherlock respondeu secamente enquanto mal o escutava, apenas continuava procurando John.
– Eu preciso te conhecer? Está estampado nesse seu belo rosto. – Adam respondeu e então os dois se encararam novamente e demoradamente. – Não se pode ter tudo, Holmes. E hoje você vai escolher. O que é mais importante para você. Sua família...ou sua vocação, seu verdadeiro talento? Você é um gênio! Tem realmente certeza de que passar a vida ao lado de um homem comum, numa casa comum, tendo sexo comum, tendo uma filha adotada comum? É o que você realmente almeja na sua vida?
– Onde está o John?- o moreno perguntou, seus pulsos cerrados agora.
– Oh, não me odeie. Pense nisso como um tratamento de choque...eu estou fazendo repensar sobre suas decisões...e no final das contas, você vai decidir por vir comigo. Eu prometo que vou te tratar muito bem.
– Quando eu sair daqui...eu vou te matar.- Holmes respondeu muito sério.
– Oh, ok. Mas agora, vamos ao que interessa...está vendo essa mensagem que acabei de receber da recepção? O seu John acabou de chegar...é agora que vamos começar. A sua queda, Sherlock...o doutorzinho não suportaria isso, suportaria? E ainda assim...você não escolherá a outra opção.
– Do que você está falando?! – Sherlock se agitou olhando para todos os cantos.
– Shhh..shh. Sherlock. Olhe para mim agora, ok? E só para mim. – Adam disse enquanto segurava com força sua mão – O John entrará por aquela porta em menos de três minutos. Levará quase mais um até que ele nos encontre...então você tem quatro minutos para decidir o que quer fazer: me beijar ou correr na direção dele e pedir por ajuda.
– Te beijar? Nunca. — Sherlock respondeu secamente se livrando de sua mão.
– Pense bem. Qualquer decisão que tomar terá sua consequência...- ele sorriu e neste momento Holmes pode ver os seguranças entrarem através das vidraças. Estavam à paisana, mas ainda assim sabia que eram os mesmos. – Este lugar, por exemplo...poderia estar cheio de bombas. Estes grandalhões podem estar armados! Se você não me beijar algo muito ruim pode acontecer com o seu amado, John. Ou com vocês dois. Você quer se arriscar e deixar a pequena Amy órfã pela segunda vez? Poderíamos até explodir este lugar e matar um monte de inocentes! Você não sabe do que realmente somos capazes!
Sherlock então se desesperou ainda mais, pois sabia aonde aquilo chegaria. Sim, fidelidade era tudo para o loiro e se fizesse aquilo ele sabia que o perderia.
Ele sabia que John não suportaria traição. Muito menos vindo dele. Ainda por cima com Adam.
– Ops! Ele entrou...tic-tac...Sherlock. – Adam sorriu olhando para a porta e olhando para ele.
Tentou racionar, pensou em sair correndo em direção do loiro, mas não poderia suportar a ideia de arriscar a vida de John por aquilo. E se tudo terminasse ali? Não, impulsos não eram permitidos agora e ele sabia disso agora.
Estava em um jogo então deveria primeiro aprender as regras. Tudo até agora havia sido conforme Adam e Moriarty queriam. Suas ações eram apenas reações baseadas em seus sentimentos e ele precisava ser cauteloso, frio. Um arrepio subiu por sua coluna e ele não conseguiu se mexer.
– Então? Eu acho que o Watson já nos viu...espere. Já sim, está vindo! E então? – Adam disse animadamente.
Sem hesitar mais, Sherlock se inclinou e encarando Adam bem de perto, disse:
– Isto é o máximo do que você jamais conseguiria ou conseguirá comigo. Sabe por quê? Você é completamente nojento. – foi o que disse antes de se inclinar e encostar seus lábios na boca de Adam, deixando este o beijar enquanto segurava seu rosto com força agora.
Ainda encarando-o, Sherlock o viu sorrir enquanto avançava no beijo agora, de olhos de fechados.
Aquilo era completamente errado.
– Hm. Não é a toa que o John veio até aqui só para saber com quem estava...você vale a pena mesmo. – o loiro sorriu, mas Holmes se virou e conseguiu ver a tempo John saindo de maneira apressada – E você tomou a decisão certa. Porque eu não estava blefando quando disse que fosse qual fosse sua decisão ela teria sua consequência. Ainda bem que decidiu a menos...mortal.
Neste instante Sherlock viu os seguranças saírem do local. Sim, de fato sua decisão havia sido a melhor e ainda assim ele não poderia se sentir pior.
– Qual é! Eu não beijo tão mal assim...- Adam riu ao ver que agora o moreno encarava a aliança dourada em seu dedo anelar esquerdo. – Vamos, pois a partir de agora só ficará mais divertido.
Se levantando, ele pensou que John jamais o perdoaria por aquilo. Mas concluiu que fosse qual fosse a consequência, ele queria apenas que o médico e Amy ficassem sãos e salvos.
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