Lifeline — Before the End
33 O fim
Notas iniciais
• NATALIE COOPER •
Poucas pessoas tem o privilégio de saber quando será o fim. Poucas tem tempo de se preparar para a dor que virá. No geral "o fim" é um monstro sorrateiro, que chega sem avisar, ele invade nossa vida e deixa tudo em ruínas. Onde haviam sorrisos, só sobram lágrimas. É como se um lindo jardim florido virasse uma terra árida, não há mais flores, não há mais vida, apenas metros e metros de terra seca e infértil, onde o vento corre livremente tornando ainda mais alto os ecos da solidão.
Todas as expectativas inesperadamente se esvaem, os planos são destruídos, como um lindo castelo de areia, feito perto demais do mar...
Tudo que eu conseguia pensar no momento, era que eu devia ter previsto isso, eu devia ter visto cada sinal, tanto de uma, como de outra coisa, mas eu estava ocupada demais brincando com a areia, para perceber que a maré subia aos poucos e que o castelo, que eu passei tanto tempo construindo, cedo ou tarde, desmoronaria.
Respirei fundo e encarei o teto, estava escuro, eu nem vi a manhã passar e, de repente, a noite tinha caído. As horas se arrastavam sem serem contadas, mas eu podia ouvir os galos cantando ao longe para anunciar que a madrugada já estava acabando.
Eu não tinha me movido desde que Daryl saiu, simplesmente deixei meu corpo cair no chão logo abaixo da janela e ali estava desde então, olhando para o teto, chorando todas as lágrimas que eu ainda tinha.
Quanto mais eu tentava entender as decisões dele mais eu chorava, menos eu entendia.
Eu estava presa entre duas perdas, totalmente sozinha. O que será que eu tinha feito de tão errado para merecer aquilo?
Nas primeiras horas eu pensei que ele se arrependeria, que veria o quão estúpido tudo aquilo era e que voltaria. Ele não voltou.
A tarde veio e eu revivi pela milésima vez nossa conversa, repassei cada detalhe, desejei ser um pesadelo causado pelos remédios. Mas não era. Era real. Eu sequer tinha tomado remédios naquele dia.
Quando a noite chegou, outro tipo de desespero começou a me abater, não era mais sobre a perda, era sobre o que eu faria a seguir...
Suspirei, o ar saindo aos solavancos pelos meus pulmões cansados. Só havia uma certeza naquele instante: eu não podia ficar em Dawsonville, tanto pela promessa, quanto pelas coisas que Daryl tinha dito.
Me perguntei por um instante se eu devia ter contado o que descobri... Mas se ele já tinha deixado claro o que pensava sobre o assunto, aquela revelação não mudaria nada. Apenas complicaria as coisas.
E, no fundo, eu sabia que nunca aceitaria que ele ficasse comigo por obrigação. Daryl tinha tomado a decisão dele, era hora de eu tomar a minha.
Obriguei minhas pernas a me obedecerem, e me coloquei de pé. Com passos lentos e incertos eu me aproximei da minha penteadeira e, desejando que algum tipo de milagre acontecesse, eu abri a primeira gaveta.
A caixa de remédios, que eu tinha guardado ali na noite anterior, me saudou, fiquei parada encarando as letras do rótulo, sabendo que não condiziam em nada com o que havia lá dentro. Os remédios que minha mãe dera não estavam ali. Era outra coisa...
O que eu faço agora? Um desespero incontrolável começou a bombear minhas veias, era como se eu não conseguisse respirar, como se eu estivesse sufocando no meu próprio pânico. Eu nunca tinha me sentindo tão sozinha e perdida como naquele momento.
Fechei a gaveta bruscamente, como se aquele movimento pudesse impedir a realidade de me alcançar, mas não tinha como eu fugir daquilo. As lágrimas voltaram, dificultando ainda mais minha respiração, tentei sugar todo o ar do quarto, mas parecia em vão. Era como se uma mão invisível apertasse minha garganta e essa sensação aumentou ainda mais meu desespero.
O que eu tinha feito da minha vida? Onde eu tinha errado? Onde é que eu tinha me perdido?
Meu estômago deu uma volta inteira em torno dele mesmo e, por puro instinto, corri para o banheiro. Me debrucei sobre o vaso e senti todos os meus músculos se contraírem enquanto eu vomitava minha própria bile, já que não tinha nada no meu estômago.
Simplesmente continuei ali, no chão frio no banheiro, enquanto derramava todas as lágrimas possíveis. Deixei sair, como se meu desespero escorresse de mim e, aos poucos, minha respiração foi normalizando.
E então acabou. Apenas eu e o silêncio. Foi quando me dei conta de uma coisa muito importante: eu não era daquele jeito e não podia começar a ser, justo naquela hora.
Eu tinha feito uma promessa, ela precisava ser cumprida. Seria desonrar a memória do meu pai ser fraca e não cumprir uma promessa, quando ele tinha cumprido a dele, mesmo a beira da morte.
Seja lá o que eu fosse decidir sobre minha vida, eu decidiria depois. Eu arcaria com as consequências dos meus atos. Depois.
Primeiro eu cumpriria minha promessa.
Respirei fundo, fechei os olhos, contei até dez e me levantei. Caminhei até o quarto, encontrei o celular e teclei uma mensagem curta para minha mãe, o dia estava nascendo e eu disse que estaria lá ao entardecer, para ela deixar as malas prontas. Apenas isso.
Desci as escadas e tentei desligar minha mente de todas as lembranças que me saudavam de cada canto. Era como se em cada cômodo, em cada móvel, houvesse um fragmento dos dois homens que eu havia perdido, era como tortura. Eu soube naquele instante que, mesmo que pudesse, eu jamais conseguiria viver ali, com o tempo todas aquelas lembranças felizes seriam engolidas pela dor. Não podemos viver com fantasmas para sempre.
Peguei algumas caixas na oficina e comecei a guardar o que era mais importante, poucas coisas, como fotos e objetos pessoais, nem ao menos sei como consegui forças para me manter de pé.
Subi as escadas e voltei para o meu quarto. Era a segunda caixa. Coisas do Daryl. Algumas roupas, ferramentas, era como se eu estivesse colocando partes do meu próprio coração em caixas, sabendo que elas não ficariam comigo.
Me olhei no espelho e percebi que ainda havia duas coisas dele em mim: a camisa azul e o colar de asas que ele me deu. Tirei a peça de roupa, em seguida desprendi o colar, colocando os dois na penteadeira e me olhando no espelho outra vez. Eu estava nua, muito magra. Ri daquela ironia.
— Parece que ainda tem uma parte sua em mim afinal, Daryl Dixon. — Ri meio histérica, até que o riso de tornou mais lágrimas.
E ali estava a pergunta crucial: o que eu faria com aquela última parte?
— Promessa primeiro, decisões depois. — Repeti, erguendo a cabeça e reunindo uma força que eu não tinha, para poder me vestir.
Terminei de guardar minhas coisas, colocando a gaita do meu pai na bolsa, e tive que me segurar muito para não me sentar ali no chão novamente e chorar.
Me sentei em frente a penteadeira e abri meu diário, que há muito eu não usava, escrevi uma carta e a coloquei sobre o móvel. A carta, a camisa e o colar. Não fui capaz de impedir as lágrimas. Mesmo assim, continuei me movendo.
Abri a gaveta e encarei a maldita caixa de remédio. Mas que merda eu tinha feito da minha vida?
Não parei para pensar naquilo, eu não podia parar, apenas joguei a caixa na bolsa e voltei a encarar as três coisas sobre a penteadeira.
Tremi. Tudo que eu e Daryl tínhamos vivido estava bem ali.
Coloquei a carta na caixa de coisas dele e segurei o colar. Encarei a caixa de remédio na minha bolsa aberta e decidi ficar com o pingente de asas. Dependendo do que eu decidisse sobre aquele outro assunto, era melhor manter aquele presente.
Legado de família.
Faltava apenas a camisa azul, segurei a peça na mão e sorvi seu perfume, apertando-a contra mim. Ainda cheirava a Daryl, terra, tabaco e algo mais, selvagem. Um soluço doído escapou da minha garganta e eu desabei em lágrimas novamente, quer dizer, será que eu tinha mesmo parado de chorar em algum momento?
Não fui capaz de colocar a peça na caixa, jogando-a na minha mala, mesmo sabendo que eu não devia manter certas lembranças, mesmo não encontrando motivo algum para ficar com aquilo...
Desci tudo, coloquei coisa por coisa no porta-malas do carro. Voltei para dentro da casa e peguei, sobre a estante da sala, a urna que continha as cinzas do meu pai, coloquei-a no banco da frente junto com a minha bolsa e olhei a oficina, tudo ainda estava lá, a casa inteiramente montada, exceto pelas poucas coisas que eu estava levando comigo.
Sabia que nunca voltaria. Era um adeus...
Eu já estava de saco cheio de despedidas.
Fechei a porta do carro e coloquei a chave na ignição, mantive minha mão ali, sem virá-la. Foi o primeiro momento em que senti raiva do Daryl, veio como um raio e da mesma forma passou. Seria mais fácil se eu simplesmente o odiasse, mas eu não conseguia...
Olhei a fachada da casa uma última vez e girei a chave. Dirigi sem pressa pelas ruas que eu conhecia bem, minha primeira parada foi em frente ao antigo trailer da Shannon, fiquei olhando a casa de Daryl dali. A caminhonete não estava, exatamente como eu já tinha previsto. Ele devia estar enfiado em alguma floresta ou algo assim.
Parte do meu coração se partiu um pouco mais, no fundo talvez eu ainda tivesse esperanças que, se nos víssemos novamente, as coisas poderiam se ajeitar, mesmo que eu estivesse ali apenas para entregar uma caixa.
Olhei o terreno vazio ao meu lado e foi impossível não pensar na Shannon. Tragédia era a palavra que queimava na ponta da minha língua.
Respirei fundo e acelerei os metros restantes, parando em frente a casa e descendo para colocar as coisas de Daryl logo ao lado da caixa de correio. Fiz aquilo rapidamente, fugindo de cada memória ou lembrança que pudesse me pegar no percurso.
Já tinha virado as costas em direção ao carro novamente, quando uma voz, que eu com certeza não queria ouvir, surgiu em um tom debochado, que fez meus pelos do braço se arrepiarem de ódio:
— Eu pensei que duraria mais.
Não me virei para encarar Will Dixon, decidi que naquele instante era melhor ignorá-lo. Sequer me dei ao trabalho de questionar como ele já sabia, Daryl já devia ter passado ali, e para qualquer bom entendedor um pingo é letra.
Continuei caminhando, mesmo que pela visão periférica tenha visto o velho sair da casa e dar alguns passos na minha direção.
— Talvez seja melhor assim... — Soltou, desprovido de seu tom habitual, como se fosse apenas um comentário aleatório.
Detive meus passos, antes mesmo de pensar realmente sobre isso.
— Pra você deve ser melhor mesmo, assim pode fazer o Daryl de capacho e usá-lo como seu caixa eletrônico particular. — Foi minha vez de cuspir as palavras com sarcasmo, dando meia volta para encará-lo de cima a baixo, com minha cabeça erguida.
Eu nunca tinha odiado alguém da forma como odiava Will Dixon naquele momento. Talvez eu até tivesse noção que tinha jogado sobre ele toda minha frustação com os últimos acontecimentos, mas foi inevitável, eu atribuí toda culpa da minha desgraça àquele homem.
Vai ver o ser humano tem essa necessidade de vilãnizar outras pessoas, porque acreditar que somos culpados por nossa própria tragédia pode ser devastador.
— Acho que você não entendeu. Então vou reformular minha frase. Talvez seja melhor assim, pra você. — Ele cruzou os braços e encarou o nada por um instante, partindo para um tom irônico/depreciativo que me lembrou um pouco do Daryl. — Nunca ouviu o que dizem dos Dixon por aí? Somos amaldiçoados. Você vai estar melhor longe de qualquer um de nós.
— Eu já sou grandinha, não tenho medo de histórias de terror, e você só pode ser um velho idiota se realmente acredita nessas coisas. — Soltei um riso estrangulado, sentindo meu ódio escorrer por cada palavra.
O homem deu outro passo na minha direção e eu senti que não queria ouvir mais nada, que não queria mais fazer parte de tudo aquilo, era uma sensação desesperadora de desejar fugir, mas, ao mesmo tempo, estar pregada no chão, incapaz de dar um passo.
— Eu não preciso acreditar, eu vivi, essa é a minha vida... — Will me encarou, desviando os olhos logo depois e eu estranhei o modo como a expressão dele mudou, como uma máscara trincada por onde podemos ver a verdadeira face de alguém. — Minha avó levou um tiro na cabeça do meu próprio avô, logo antes dele estourar os próprios miolos, enquanto meu pai assistia escondido debaixo da cama. Minha mãe morreu quando eu nasci. A mãe do Daryl definhou depois que ele nasceu. Aquela garota que morava ali... — Apontou o local onde ficava o trailer de Shannon. — ...sua amiga garçonete, morreu porque se engraçou com o idiota do Merle. Não é preciso ser um gênio pra saber que você seria a próxima. Ser amada por um Dixon é uma sentença de morte, uma maldição.
Senti que ele não costumava falar sobre aquilo, era como se eu pudesse tocar suas vulnerabilidades, mas essa sensação ficou perdida no meio do meu ódio, porque minha raiva era maior que qualquer senso de empatia que eu pudesse ter.
— A única maldição nessa família é você! — Apontei, erguendo meu tom de voz e cortando a última distância entre nós, batendo minhas duas mãos em seu peito, empurrando-o pra trás a cada frase seguinte, como se, de alguma forma, aquele ataque de pura violência pudesse aplacar a dor dentro de mim. — Você é um péssimo homem, um pai horrível e tenho certeza que foi um marido abominável. Você machucou seus próprios filhos e continua fazendo isso continuamente. Acha que não sei o que fez com o Daryl? Você é um criminoso, um estuprador, acha que se fazer de coitado comigo vai...
— Acha que eu gosto disso?! — interrompeu, três tons acima do meu, apertando os dedos em torno do meu braço, me obrigando a parar de atacá-lo. Havia um transtorno palpável em cada traço da sua expressão, se eu não estivesse tão descontrolada, talvez percebesse que ele estava a um fio de virar a mão na minha cara. — Acha que eu durmo bem todas as noites? Eu bebo pra tentar esquecer, para apagar as coisas por, pelo menos, algumas horas.
Arrependimento. Puro e cru. Mas aquilo não me comoveu, apenas me fez ter mais raiva, algo tão visceral e incontrolável que eu cheguei a sentir medo de mim mesma.
— Você não merece esquecer! — Abaixei meu tom, ainda sentindo o aperto dele no meu braço, desejando que cada palavra que saísse da minha boca fosse uma faca que o atingisse em cheio. — Você merece ser assombrado por seus próprios fantasmas até o dia em que você morrer totalmente sozinho. Por sua causa seu filho não aceita qualquer felicidade, simplesmente porque ele não acha que é digno dela. — Senti meus olhos marejarem e as mãos de Will tremerem, mas não havia dó ou remorso em mim, eu realmente desejava apenas o pior para aquele homem. — Você não merece paz ou perdão. Você só merece a cadeia e o inferno.
Cinco segundos, foi esse o tempo que Will Dixon demorou para soltar meu braço, totalmente em silêncio. Eu o tinha atingido, vi em seus olhos. Mas não me senti vingada, não me senti bem. Eu continuava sentindo raiva. Não era uma vitória, afinal como podemos derrotar alguém que já acreditava estar derrotado desde sempre?
Daryl não estava de volta só porque eu tinha dito algumas verdades ao pai dele. Aquela exposição de ódio apenas tinha me feito ver que Daryl Dixon estava no meio de um ciclo de auto-ódio, causado por um abuso que vinha de gerações. Enquanto o pai usava a lama do passado para amenizar e justificar seus erros e crimes, Daryl usava a mesma lama como motivação para afastar as pessoas.
Ele achava que, ao me arrancar da vida dele, estaria evitando que eu me machucasse, incapaz de ver que era exatamente essa atitude que me feria.
Talvez tenha sido exatamente naquele momento que eu admiti minha derrota, eu vi que nunca tive chances realmente. Afinal, não há como salvar alguém que não quer ser salvo.
Era uma guerra perdida, mesmo antes de entrarmos em batalha...
— Volte pra sua casa, criança, arranque meu filho do seu coração e agradeça todos os dias por não estar carregando um Dixon no seu bucho. — Foram as últimas palavras de Will Dixon, antes e me dar as costas e voltar para sua casa, e ele jamais poderia imaginar a forma como elas me atingiram.
Voltei para o carro e dei a partida, mesmo ainda tremendo dos pés à cabeça. Aquele desespero estava de volta, mal sei como dirigi até meu próximo destino, passando pelo lago de pesca e parando em uma ponte que passava sobre ele.
Seja lá de onde eu estava tirando forças para seguir, essas forças estavam se esgotando também. Era o limite do limite. Tudo que eu sabia, era que tinha que continuar me movendo, porque se eu parasse eu cairia, e se eu caísse, eu não conseguiria levantar outra vez.
Desci, enchendo meus pulmões de ar. Olhei a água calma por um tempo, tentando limpar minha mente do pesadelo que era Will Dixon. Não era mais problema meu. Tentei repetir aquilo como um mantra, mas honestamente não fez muito efeito.
Voltei ao carro e peguei a urna com as cinzas do meu pai. A coloquei na grade de proteção ao meu lado.
— Uma vez você me disse que os Dixons eram PhD em estragar tudo, lembra, pai? — Ri sozinha, enquanto encarava as leves flutuações que o vento fazia no lago. — Acho que você estava certo...
Eu não queria dizer adeus para o meu pai novamente, eu não queria mais dizer adeus para ninguém. Eu estava cansada de perder pessoas.
— Não sei se Dawsonville é o meu lugar, pai, acho que não vou poder descobrir, mas eu sei que era o seu e eu me senti parte disso enquanto você estava aqui. Obrigada. — Joguei todas as cinzas no lago.
Dawsonville era o lar do meu pai, eu tinha que partir, mas ele não, eu não podia levar as cinzas dele em uma urna, eu apenas podia manter a memória dele no meu coração.
Sequei algumas lágrimas, mas me obriguei a seguir em frente. Era hora de ir.
Era o fim da minha jornada em Dawsonville.
Dirigi mais alguns minutos e parei em frente ao hotel em que minha mãe estava hospedada. Dei apenas um toque no telefone e ela saiu em instantes, colocou sua mala no carro alugado e seguiu até onde eu estava estacionada, sua postura era um tanto aliviada, mas assim que bateu os olhos em mim a preocupação tomou conta de cada músculo dela.
— Pode pedir para alguém do escritório devolver a casa e fazer o fechamento da oficina depois? Eu não quero ter que lidar com isso. — Pedi, através do vidro aberto, sem realmente olhá-la nos olhos.
— Claro. — Minha mãe assentiu, encarando o espaço vazio ao meu lado. — Natalie onde...
— Eu vou na frente, paramos na locadora de automóveis e depois te levo ao aeroporto, eu volto de carro pra casa. — Avisei, interrompendo-a e fechando o vidro antes de qualquer resposta.
Eu não queria conversar sobre a ausência de Daryl, não queria pensar nele. Sabia que, se pensasse, eu não teria forças o suficiente para acelerar o carro.
Apertei o volante e segui na frente, havia um gosto amargo de fracasso na minha boca, não era só sobre estar voltando para casa com a minha mãe, era sobre me sentir derrotada e sozinha, sobre saber que eu tinha uma lista de erros para lidar e nenhum deles era culpa dela como eu adorava apontar sempre. Não era culpa de ninguém, só minha...
No fim eu tinha quebrado a cara, como Deborah Spelman sempre disse que eu faria.
Alguns metros à frente avistei algo que fez meu coração falhar uma batida, pensei simplesmente em frear o carro, mas me mantive firme, o choro preso na minha garganta.
"Você está deixando Dawsonville" um soluço dolorido escapou dos meus lábios, quando a placa passou por mim. Do outro lado da pista, pelo retrovisor, eu pude ver a placa que dizia "Bem-Vindos a Dawsonville" ficando para trás...
Era o fim. Todas as memorias daquele lugar passaram pela minha mente, como um filme triste em preto e branco que eu tinha visto uma vez.
Conforme eu avançava na estrada, era como se minha alma fosse se tornando aquele jardim árido e infértil. Era como se eu própria fosse aquele castelo de areia, demolido a beira do mar.
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— Pula para o outro banco, eu vou dirigir. — Minha mãe bateu no vidro, me tirando do meu estado de inercia.
Eu encarava as ruas movimentadas de Atlanta, estacionada em frente a locadora de carros, de onde ela tinha acabado de sair, mas na verdade não via movimento algum na minha frente, era tudo um borrão.
— Não tem necessidade de você dirigir daqui até o aeroporto. Eu posso fazer isso. — Retruquei no automático, usando meu tom padrão com minha mãe, me sentindo repentinamente cansada, mesmo para o meu esporte favorito, que era discutir com ela.
— Eu não vou dirigir daqui até o aeroporto, vou dirigir daqui até em casa. — Devolveu, me fazendo pousar os olhos nela de forma surpresa. — Não discute, pula pra lá.
Fiz o que era ordenado, ainda digerindo a decisão dela. Deborah Spelman odiava viagens longas de carro, ela costumava dizer que era uma total perda de tempo e que aviões existiam para serem usados, então, vê-la decidida a fazer uma viagem de quinze horas ao meu lado era, no mínimo, curioso.
Mas eu estava cansada demais para conversas ou perguntas, por isso apenas deixei estar. Fiquei totalmente calada pela próxima meia hora, mesmo quando minha mãe colocou o tipo de música que eu odiava para tocar. Era um daqueles toques tediosos que são o som ambiente de restaurantes chiques.
Percebi os olhos dela sobre mim vez ou outra, como se procurasse uma brecha qualquer, mas eu mantinha os meus na estrada.
— Qual foi a última vez que você comeu? — Foi a primeira pergunta que ela me fez, depois de todo aquele tempo.
— Faz diferença? — Dei de ombros, mas a lembrança de que faziam praticamente dois dias ilustrou meus pensamentos.
Eu podia sentir o vazio na boca do meu estômago, no entanto eu sabia que aquilo nada tinha a ver com fome.
— Você emagreceu uns cinco quilos desde o funeral. — Apontou naquele tom crítico, bastante usual, e eu revirei os olhos, soltando uma risada seca.
— Não era você mesma que dizia que eu precisava emagrecer uns quilos?
A resposta dela foi um suspiro profundo, seguido de silêncio. Continuei olhando o nada, ignorando a música e a mulher sentada do meu lado.
Mas, minutos depois, quando minha mãe tomou uma saída inesperada na rodovia, eu fui obrigada a sair do meu estado de apatia.
— O que está fazendo? — Perguntei, sabendo que aquele não era o caminho.
— Vamos parar, comer alguma coisa e descansar essa noite, retomamos a viagem ao amanhecer — Explicou naquele tom profissional, que me causava revolta imediata.
— Eu não quero comer, ou descansar, eu quero sair logo dessa merda de estado e voltar pra casa. — Retruquei mal-educada e, diferente da raiva que eu teria causado em outros dias, minha mãe apenas continuou olhando a estrada de forma compassiva.
— Isso é irônico, dado o fato de que você fugiu dessa mesma casa para vir pra essa merda de estado. — Comentou neutra, usando minhas palavras contra mim.
Touché. Voltei meus olhos para a estrada, sem vontade de continuar aquela conversa. Encarei os carros passando rapidamente logo abaixo do viaduto pelo qual trafegáramos. Se eu simplesmente abrisse a porta e me jogasse lá em baixo, me pouparia de uma porção de problemas... Seria fácil.
Ri da ironia daquele pensamento ridículo, justo eu pensando em coisas fáceis? Se eu gostasse mesmo de facilidade teria mantido Daryl Dixon o mais longe possível da minha vida.
— Então, vai me contar o que aconteceu? — Minha mãe me tirou dos meus devaneios sobre as facilidades e dificuldades de viver ou morrer.
— Aconteceu exatamente o que você sempre falou que aconteceria na minha vida: Eu quebrei a cara. — Respondi, com meu humor ácido no máximo. — Está feliz?
— Não. Eu não estou feliz. — Deborah Spelman tirou os olhos da estrada por um momento para me observar e, talvez, aquela tenha sido a primeira vez que eu me senti verdadeiramente mal por atacar minha própria mãe.
Suspirei. Talvez ela não fosse a vilã que eu tinha montado na minha cabeça, talvez eu é que fosse...
De alguma forma eu a entendi um pouco melhor, porque pela primeira vez eu parei para pensar em como tinha sido difícil para ela partir.
Na ânsia de ter a liberdade de cometer meus próprios erros, eu a fiz confrontar os dela, eu só trouxe dor, mas lá estava minha mãe preocupada comigo, depois de tudo que eu tinha feito. Ela não estava ali para dizer "eu avisei", ela apenas estava ali.
Ter dado a ela o prêmio de pior mãe do ano fora um tanto precipitado, ou talvez fosse apenas mais um dos meus erros. Ri novamente da minha capacidade de fracassar e passei o resto do percurso em silêncio. Eu ainda teria algumas consequências dos meus atos para lidar...
Não demorou muito para chegarmos a um hotel logo na fronteira da Georgia, eu mal notei o lugar, me jogando em uma das camas, enquanto minha mãe fazia o pedido do jantar.
Percebi os olhos dela em mim todo o tempo e embora eu quisesse ficar sozinha, eu não me irritei com aquilo.
Vai ver as pessoas estão certas, quando você se machuca, tudo que você quer é a sua mãe...
— Talvez seja melhor você ver o Doutor Wale, quem sabe na semana que vem? — Sugeriu, depois que a comida chegou e eu mal toquei no meu prato.
Doutor Wale era o terapeuta dela, um velho careca de bochechas redondas e olhos quadrados, eu costumava fugir dele mais do que o diabo foge da cruz.
— Pode ser... — Respondi, dando de ombros.
— Pode ser? — Aparentemente minha falta de negativa a deixou bastante surpresa.
Se eu tinha aprendido algo em Dawsonville, era que certas coisas não podemos resolver sozinhos, aceitar ajuda de um profissional não me faria mais fraca ou louca. Talvez se Daryl tivesse procurado a ajuda de um profissional, nosso fim teria sido diferente.
Os profissionais existiam por uma razão, se eu quebrasse um osso eu iria no médico, quando um carro quebra o levamos ao mecânico, então, se minha cabeça estava uma bagunça, por que não procurar alguém qualificado que me ajudasse com isso?
Além disso, eu teria uma decisão importante para tomar, eu precisava estar estável emocionalmente para fazer o certo.
— É, pode ser. — Confirmei, com um aceno.
Percebi que minha mãe também mal tocou em sua própria comida e que continuava a me olhar com preocupação
— Sabia que tem universidades ótimas em Atlanta? E os imóveis são um bom investimento por lá... — Comentou como quem não quer nada. — Quer dizer, podemos conseguir um apartamento legal...
Ela estava disposta a largar tudo em Washington para se mudar o mais perto de Dawsonville possível comigo. Apenas porque pensou que isso me faria feliz. Sim, eu sempre estive essa sobre a minha própria mãe.
— Eu não quero ficar na Geórgia — Interrompi de forma exausta. — Não posso...
— Tudo bem, entendi. — Minha mãe assentiu, parecendo satisfeita por eu ter dado minha primeira resposta concreta. — Então, o que você quer?
Quero coisas que eu não posso ter. A resposta veio imediatamente na minha mente, mas eu não a coloquei em palavras.
Simplesmente fechei os olhos e ergui a cabeça para o teto, fazendo o possível para conter as lágrimas nos meus olhos. Aquele desespero voltou com tudo, me fazendo questionar em que tipo de buraco existencial eu tinha enfiado minha vida.
— Podemos voltar. Se você falar com o Daryl eu sei que... — Minha mãe recomeçou, e eu ri um tanto descontrolada, interrompendo-a em sua tentativa de consertar tudo.
Ela provavelmente me mataria quando soubesse. Fiquei ainda mais triste, eu via que minha mãe estava se esforçando para me ajudar e eu estava prestes a jogar uma bomba daquelas na cabeça dela, mas eu não aguentava mais guardar pra mim mesma.
— Eu estou grávida. — Despejei de uma vez, em um fôlego só.
— O que? — O queixo dela caiu e eu tive que me segurar para não desmoronar junto.
— Eu estou grávida, mãe. — Repeti pausadamente, reunindo o mínimo que ainda me restava de controle.
— Tem certeza? Quer dizer, pode ser uma falsa suspeita e...
Não a esperei terminar, alcancei a minha bolsa e tirei de lá a caixa de remédios, que outrora estivera dentro da gaveta da minha penteadeira, abri e joguei o conteúdo sobre a cama: sete testes em formato de fita, todos com o resultado positivo.
— Ah, meu Deus! — Exclamou em meio a um suspiro, enquanto eu desabava bem ali.
Eu finalmente tinha dito em voz alta, embora ainda guardasse dentro de mim todo o desespero de ter descoberto aquilo dois dias antes, e de ter ouvido Daryl dizer com todas as letras que não era o que ele queria pra vida dele.
Apenas quando ele disse aquilo, foi que eu me dei conta que, independente da decisão dele, acabaríamos não dando certo.
Daryl não queria ser pai, mas eu já estava com uma criança dele na barriga. Tudo porque eu era uma estúpida inconsequente, que tinha esquecido a utilidade de uma camisinha.
— Tudo bem, tudo bem, não se preocupa, 'tá bom? — Minha mãe passou para a minha cama, tentando me acalmar, enquanto me abraçava, e aquilo só me fez chorar ainda mais. — Vai ficar tudo bem, vamos voltar e conversar com o Daryl e...
Segurei os braços dela no mesmo instante, a impedindo de continuar.
— Eu não posso voltar, eu prometi. Ele não sabe de nada, e não quer isso na vida dele, você não entende... — Soltei sem respirar, o desespero palpável em cada sílaba. Eu me sentia perdida, como se todo meu mundo estivesse desmoronado. — Eu não posso voltar, mãe, eu fiz uma promessa, eu estou sozinha.
Ela me abraçou forte, e eu me senti livre para chorar finalmente e audivelmente. Eu tinha perdido tudo, estava mais sozinha que nunca, mesmo não estando sozinha de fato, já que tinha uma vida crescendo dentro de mim. Todas as minhas certezas e os meus planos tinham caído por terra, era como se a vida tivesse cuspido na minha cara e dito que eu era apenas uma criança tola que não sabia de nada.
Uma confusão de sentimentos e inseguranças, e uma solidão profunda, era apenas isso que tinha restado de mim.
— Você não está sozinha, Natalie. Eu estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum, certo? — Minha mãe segurou o meu rosto com a mão e fez olhar para ela.
Deborah Spelman falava sério, em meio a todo o meu caos e desespero ela se manteve firme, como uma rocha.
— Se você realmente não quiser contar pra ele tudo bem, você não precisa contar, podemos cuidar disso. Não importa o que você decidir, eu vou estar do seu lado. — Ela foi clara e decidida, era um porto-seguro em meio a tempestade.
Suponho que tenha sido um daqueles momentos em que suas convicções na vida mudam de perspectiva. Eu tinha fugido da minha mãe, mas era justamente ela que estava do meu lado quando tudo deu errado.
Simplesmente me encolhi em seus braços, e admiti para mim mesma que não tinha mais forças para seguir, eu estava cansada e infeliz e o pior de tudo, era que eu mesmo tinha assinado essa sentença.
Se minha vida fosse um filme, aquele seria o momento em que a vilã da minha história se tornaria uma heroína, mas aquilo não era um filme, era apenas a vida real, era apenas eu descobrindo que não sabia nada sobre nada.
— Eu não sei o que fazer... — Confidenciei, deixando que ela me acolhesse em seu colo, colocando o peso dos meus problemas nos ombros dela, mesmo não sendo certo ou justo. — Me diz o que fazer, eu prometo que faço.
— Não posso dizer o que você tem que fazer, filha. Essa decisão tem que ser sua, e você tem que pensar bem, porque não importa o que você decidir não será fácil. Se você decidir que não vai levar isso a diante, eu te conheço, esse peso vai te acompanhar pra sempre. E se você decidir se tornar mãe, você vai ter que se acostumar a nunca saber se está fazendo a coisa certa ou a errada. E você tem que saber que toda vez que olhar pra essa criança, ela vai te lembrar do seu passado. — Foi meio frustrante que o primeiro conselho da minha mãe, que eu estava realmente disposta a ouvir, fosse algo que, de uma forma ou outra, me deixava ciente que eu teria que arcar com as consequências dos meus atos.
Eu entendi o que ela quis dizer. Talvez se eu estivesse em outro país, ou se tivesse outro tipo de situação financeira, eu simplesmente não pudesse escolher se estava pronta ou não para ser mãe, mas dada as minhas condições eu podia. E muito embora aquela possibilidade me assustasse, e muito, a outra possibilidade, ser mãe e sozinha, também assustava.
Por isso eu precisava colocar minha cabeça no lugar e pensar sobre aquilo com calma e clareza, em todas as implicações morais, e em toda a responsabilidade. Era uma decisão que podia, e iria, mudar minha vida toda, de um jeito ou de outro...
— Eu sei que é uma escolha difícil, mas tente se perguntar apenas uma coisa: você quer esse bebê? — Deborah Spelman colocou a última carta na mesa, a pergunta de um milhão de dólares.
Então era isso, aquela era a decisão da minha vida. Eu era um jardim árido, onde uma flor brotou sim aviso e só cabia a mim tornar "o fim" definitivo, ou fazer dele um recomeço. Mas será mesmo que eu teria coragem de viver com a lembrança dolorida e constante de tudo que eu tinha que esquecer?
Será que eu estava pronta pra ser mãe?
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