Lifeline — Before the End
30 Adeus
Notas iniciais
• NATALIE COOPER •
Alguém disse que a morte é a única certeza nessa vida, crescemos sabendo disso, somos criaturas cientes de que nossa existência é efêmera, somos filhos conscientes de que, pela lei natural da vida, um dia enterraremos nossos pais.
Então por que, quando a fatídica hora chega, mesmo estando a par de tudo isso, ainda sofremos? Por ser um acontecimento natural, a morte não devia ser indolor?
A palavra "indolor" me parecia até uma piada naquele momento, quando recobrei a consciência a realidade me atingiu de imediato, mesmo antes que eu abrisse os olhos. Não tive aquele segundo de "não sei onde estou e o que está acontecendo". Eu sabia de tudo...
Eu tinha sido sedada, por isso estava naquele quarto de hospital, embora não lembrasse exatamente o momento em que isso tinha acontecido.
Era como se o som ensurdecedor do monitor cardíaco, acusando a falta de batimentos, ainda ecoasse nos meus ouvidos. Eu tinha plena certeza que aquele bip infernal me assombraria para sempre.
Suspirei e abri os olhos, mantê-los fechados não mudaria a realidade. O teto branco e sem graça me disse "olá". Era como se eu pudesse ver perfeitamente o sorriso sádico do destino nas imperfeições da massa corrida.
O hospital de Dawsonville tinha se tornado o meu lugar mais odiado, minhas duas vezes ali tinham se tornado sinônimo de tragédia e o mais ridículo foi que eu acabei com soro no braço das duas vezes.
Aponte uma garota mais fraca e tonta e falhe miseravelmente.
Levantei meu corpo, olhando ao redor e percebendo que eu estava sozinha. O que eu faço agora? Arranquei o cateter preso ao meu braço e não senti dor. Era isso. Não tinha dor. Só um imenso vazio. Era como ser jogada no vácuo e ficar flutuando ali no meio do nada.
O que eu faço agora?
Respirei fundo e tentei colocar as coisas em ordem de forma prática, mas era como se minha mente também estivesse jogada no vácuo, era tudo vazio, inclusive meus pensamentos. Eu estava prestes a me irritar com a minha própria inercia, quando minha mãe passou pela porta, falando ao telefone.
— Certo, então mande todas as informações que conseguiu sobre o... — Ela cortou a frase no meio assim que me viu. — Tenho que desligar. Mande tudo que conseguiu para mim imediatamente.
Nos encaramos por três segundos, minha reação padrão para minha mãe costumava ser raiva e um tanto de revolta, mas eu não senti coisa alguma.
— Como está se sentindo? — Perguntou, me examinando com um olhar cuidadoso, embora não tenha se aproximado. — Você entrou em choque, os médicos acharam melhor te sedar por segurança.
Assenti, me sentindo um tanto idiota, entrar em choque me parecia uma reação ridícula.
— Quanto tempo eu fiquei apagada? — Devolvi neutra, vazia. Eu teria me revoltado comigo mesma, mas era como se eu tivesse me tornado algo inanimado, incapaz de emoções.
No entanto, minha incapacidade de sentir me assustou menos do que a resposta de Deborah Spelman.
— Um dia.
Como assim? Eu não podia ter apagado por tanto tempo. Isso é, tinham questões a serem resolvidas, eu tinha que... tinha que enterrar meu pai.
Como é que eu vou fazer isso? De repente eu me senti sozinha e pequena, como uma criança sem rumo. Aos poucos eu me sentia caindo, não era mais vácuo, era só queda. A capacidade de sentir voltava aos poucos e me arrependi de ter reclamado da inercia sentimental.
— Eu não posso ficar aqui. — Me coloquei de pé, falando para mim mesma.
— Mas você vai ficar, ainda está em observação. O médico precisa te dar alta. — Minha mãe soou prática, como sempre foi, e aquela raiva conhecida se agitou sob a minha pele.
Raiva era melhor que todo o resto, com certeza.
— Você não entende, não é? Eu tenho que enterrar o meu pai! — Cuspi rudemente, sentindo o peso daquelas palavras direto no meu estômago, era como se eu tivesse acabado de socar a mim mesma.
— Eu já cuidei disso, Natalie. O corpo está sendo preparado na funerária agora, depois vai ser velado na capela da cidade. Eu também já acertei tudo com o crematório. Você não tem que se preocupar com nada — Explicou, usando aquele tom profissional e desprovido de emoções, que ela geralmente usava com os clientes do escritório.
— Você não pode mandar queimar o meu pai.
— Ele não queria ser enterrado, Natalie... — Respondeu no mesmo tom, mas desviou os olhos dos meus, seguindo para o pequeno sofá de dois lugares sob a janela. — Peter dizia que cemitérios eram um desperdício de espaço e que enterrar pessoas mortas era como deixar comida velha em um pote na geladeira: "Você não vai usar pra nada, é só um criadouro de bichos. Ame e honre as pessoas enquanto estão vivas, diga tudo que tem que dizer, assim você poderá levá-las no coração, e não vai precisar de uma cova com lápide pra se lembrar delas".
Percebi que ela parecia triste, talvez até abatida. Novamente minha raiva estava indo embora e isso me assustava.
— Eu não sabia... — Admiti, abaixando a cabeça. — Obrigada, mãe.
Senti um certo alívio, honestamente eu não queria cuidar daquilo, na verdade eu nem saberia como cuidar exatamente. Eu tinha acompanhado as questões do enterro da Shannon, mas não era a mesma coisa. Meu pai estava lá comigo. Uma sensação poderosa de solidão se apossou de mim, como uma criança de cinco anos que se perde em um mercado cheio de gente e chora, porque em meio à multidão quer apenas os pais.
— Onde está o Daryl? — Perguntei, sabendo que a presença dele me faria sentir um pouco menos solitária.
— Eu pedi que ele avisasse os amigos do seu pai, e fosse descansar um pouco, tomar um banho, dormir. Ninguém devia passar mais de dois dias direto no hospital. — Ela explicou, voltando ao seu tom habitual, como se aquilo fosse apenas um detalhe com o qual ela não se importava realmente.
Apenas concordei, um tanto apática, eu odiava ter que concordar com a minha mãe, mas ela estava certa.
O doutor veio depois. Perguntas básicas. Uma lanterna irritante no meu olho. Rabiscou algumas coisas em um prancheta e saiu. Resolvi sentir raiva do médico idiota e caladão também, raiva era fácil de sentir, dentre todos os sentimentos que se agitavam dentro de mim aquele era o único que eu sabia que não me puxaria pra baixo.
Fiquei sentada por um tempo, apenas encarando o nada, até que vi, na pequena mesinha, ao lado da cabeceira do leito, a gaita cromada do meu pai. Peguei-a na mão e corri o dedo pelas letras gravadas na superfície. "Seductora".
— Ela tem esse nome porque não é daqui, trouxemos do México. — Minha mãe comentou, antes mesmo que eu perguntasse.
— Vocês viajaram para o México? — Tão logo fiquei surpresa, percebi que era um reação descabida. Meus pais tiveram uma vida juntos, terem viajado não devia ser uma novidade.
Eu nunca tinha pensado nos dois juntos realmente, como uma casal que fazia coisas comuns e era feliz.
— Não foi bem uma viagem... — Deborah Spelman deu de ombros, um gesto bem pouco característico dela. — Foi só uma das loucuras do seu pai, nada demais.
— Pode contar? — Pedi, tirando os olhos da gaita e os erguendo para ela. — Eu sei que que não gosta de falar dele, mas acho que agora eu não... não posso mais perguntar direto pra fonte.
Abaixei a cabeça novamente, era como se uma tristeza imensa tivesse sido jogada nos meus ombros. Eu nunca mais poderia falar com o meu pai. Nunca. Na minha mente, aquilo soou verdadeiramente assustador. Ainda parecia mentira.
— Um dia ele apenas me fez entrar no carro, disse que seria divertido, então dirigiu horas a fio e passou pela fronteira. — Minha mãe começou, me obrigando a retornar do meu desespero momentâneo, para prestar atenção nela. — Peter tinha essa mania de fazer as coisas do nada. Naquela altura, depois de seis meses que eu o conhecia, já estava acostumada com os bate e voltas na praia apenas para almoçar, Cooper não era o tipo de cara que planejava, ele apenas fazia.
Os olhos dela focaram em um ponto fictício, como se estivesse contemplando as próprias lembranças, o esboço de um sorriso percorreu seus lábios, antes que continuasse.
— Tínhamos visto um filme na noite anterior, falava sobre um cartel de drogas mexicano, e nós discordamos sobre como o povo estava sendo retratado, assim como discordávamos de qualquer coisa. Então ele achou divertido simplesmente ir até lá em dia de semana para tirar a prova. Vimos que eu estava certa, como já era de se esperar... — Havia uma ponta de presunção em sua voz, mas não era a habitual presunção da doutora Deborah Spelman, era algo mais jovial e leve.
Eu consegui imaginar cenas dos dois discutindo por bobagens, como todo casal normal e por um momento desejei ter crescido no meio daquilo.
— Então enquanto eu comemorava minha vitória, me gabando com o bom e velho "eu disse" O Peter apenas me beijou e me pediu para casar com ele... — Havia um sorriso de verdade no rosto da minha mãe, mesmo que seus olhos estivessem alagados de tristeza. — Ele disse que não podia imaginar uma vida sem perder todas as brigas e discussões para mim.
— Eu não sabia que meu pai era tão romântico — Comentei, não conseguindo evitar sorrir também.
— Ele não era. — Ela se apressou em corrigir, fazendo um movimento displicente com a mão esquerda. — Ele se achava um badboy/Dom Juan, mas na verdade era um cara meio hippie. Estávamos no meio de um mercado de rua, incomodamente colorido, cercados de gente que misturava espanhol com inglês e o ar fedia a uma mistureba sem fim de comidas. Era um local totalmente inapropriado para um pedido de casamento.
Aquela sim era a Deborah Spelman de sempre, mas sei lá, por algum motivo, naquele momento, aquilo me pareceu uma máscara e não quem ela era de verdade.
— Perto da gente tinha essa barraca, com um cara vendendo diversos instrumentos musicais de sopro, e eu disse que, se ele conseguisse tocar alguma coisa direito, eu casava com ele. Ele comprou essa gaita e tocou, então eu aceitei o pedido dele e nunca contei que ele tinha tocado muito mal, muito mesmo... — Ela virou o rosto, se levantando do sofá rapidamente. — Depois disso ele guardou a gaita e tocava para você sempre.
— Isso não parece "nada de mais" pra mim. — Constatei, enquanto minha mãe estava de costas olhando pela janela.
— Algumas coisas perdem o significado quando se tornam passado. — Jogou no ar, como se não fosse nada.
Não acreditei. Passado ou não, uma história daquelas sempre seria importante, tinha que ser... E quanto mais eu sabia da vida dos meus pais, menos eu entendia a separação deles, menos eu entendia a mágoa da minha mãe.
Eu ainda não compreendia por que o amor não podia ser o bastante, simplesmente não fazia sentido.
Algumas batidas na porta mudaram meu foco de atenção, assim que minha mãe ordenou que a pessoa entrasse, Daryl apareceu ali e se encostou no batente. Nossos olhos se encontraram, mas ninguém sorriu.
— Que bom que você chegou — Deborah cumprimentou prática. — Eu vou tentar conseguir a alta antecipada da Natalie, pode ficar com ela enquanto isso?
Daryl assentiu minimamente, e minha mãe saiu, sem me lançar um segundo olhar, como se o ar do quarto fosse tóxico e ela precisasse desesperadamente sair dali.
Ele ainda ficou parado ali na porta, como se alguma coisa o impedisse de entrar, eu sentia que tinha algo invisível entre nós dois.
— Oi. — Acenei, erguendo um pouco a mão e encolhendo os ombros.
— Oi. — Daryl fechou a porta atrás de si, mas continuou encostado nela. — Como está se sentindo?
— Acho que as pessoas vão começar a me fazer bastante essa pergunta, não é? — Abaixei a cabeça e neguei sutilmente, eu não conseguia achar algo pra dizer. — O que eu devia responder?
Nossos olhos se encontraram e ele deu três passos na minha direção.
— A verdade. Você devia dizer a verdade. — Aquele conselho me pareceu um pouco com uma acusação, mas preferi deixar aquela passar.
Me arrumei na cama de modo que Daryl pudesse sentar do meu lado.
— Quando as pessoas perguntam sobre como nos sentimos, elas não querem ouvir a verdade, elas querem uma resposta curta e simples. — Dei de ombros.
— Eu não sou como as outras pessoas, eu quero a verdade. Sempre. — Foi outra acusação. Eu estreitei os olhos, mas acabei meneando a cabeça, seja lá o que estivesse irritando Daryl, daquela vez eu não queria me envolver.
— A verdade é que eu não sei, não sei como eu estou, não sei o que sentir, eu só não... — Não soube como terminar, era como se nada fosse real, como se fosse apenas um sonho ruim do que eu sabia que acordaria a qualquer momento. — Mas e você, como está se sentindo?
— Ele era seu pai, não meu. — Daryl encarou o teto por três segundos. Internamente eu ri da ironia daquela situação, ele estava sendo evasivo, mas era eu a acusada por mentiras.
Quando é que tínhamos tomado aquele caminho?
— Mas você o conhecia há mais tempo que eu, então... — Encorajei, me sentindo meio cansada daquela conversa, tudo simplesmente me pareceu inútil, eu não conseguia explicar, mas era o que eu sentia.
— Eu... Eu acho que ainda não acredito. A ficha simplesmente não caiu. — Aquela era uma resposta verdadeira, Daryl tinha acabado de colocar para fora palavras que eu mesma não conseguia colocar.
Simplesmente o abracei, e quando ele me segurou firme em seus braços, como se temesse que eu simplesmente escapasse, como areia entre os dedos, por um segundo eu achei que ficaria tudo bem, eu não me senti mais sozinha, era como se alguma coisa ainda fizesse sentido no meio de tudo aquilo.
Minha mãe chegou um tempo depois e Daryl saiu de perto de mim como se tivesse cometendo um pecado.
— Falei com o seu médico, ele acha que você tem que ficar em observação por mais tempo. — Ela explicou passando os olhos de mim pra ele, porém mantendo a postura de sempre. — Mas eu sabia que você não ficaria aqui nem por um decreto, então assinei um termo de responsabilidade. Vamos para o hotel, você toma um banho e...
— Eu vou pra casa, mãe. — Respondi de imediato.
— Não acho que voltar lá sozinha seja uma boa escolha. — Deborah cruzou os braços, e de todas as coisas que eu queria naquele instante, discutir não era uma delas.
— Eu não vou sozinha, Daryl vai me levar. — Apontei naturalmente e Daryl olhou de uma para outra sem reação.
— Eu não vou discutir com você agora, não mesmo. — Suspirou, e eu percebi que nunca tinha visto minha mãe tão abatida, mesmo quando ela passava horas no escritório.
Ela procurou algo na bolsa e segundos depois estendeu um de seus celulares extra para o Daryl.
— Aqui. Meu número pessoal está na discagem rápida, ela não vai ligar para mim caso algo aconteça, posso confiar que você vai? — Claro que aquele pedido mais parecia uma ordem, porém, fiquei surpresa mesmo assim.
Daryl demorou alguns segundos para finalmente pegar o aparelho e assentir, mesmo que parecesse realmente incerto sobre aquilo.
Eu o puxei pelo corretor em direção a saída, sem me dar ao trabalho de uma despedida.
— Natalie? — Me virei quando minha mãe chamou. — Escreva algo para dizer no velório, certo?
Foi como ser jogada na correnteza e me afogar lentamente, mas eu apenas segurei o ar e concordei, dando as costas novamente e seguindo para o estacionamento com Daryl.
Fizemos todo o percurso calados, até que eu vi a caminhonete alguns metros à frente, totalmente suja de barro.
— Você não foi pra casa dormir, não é? — Apontei, vendo a crossbow na carroceria.
— Eu precisava caçar. — Daryl respondeu simplesmente.
Aquilo dizia muito sobre o estado de espirito dele, na verdade, Daryl ter ido caçar dizia bem mais que todo aquele silêncio que nos acompanhou pelo caminho.
Ele não estava bem, o que me fez ver que eu também não estava bem, infelizmente, diferente de Daryl Dixon eu não podia simplesmente sair pra caçar, não adiantaria nada no meu caso...
Quando a caminhonete parou na frente de casa eu tremi involuntariamente. Quase admiti para mim mesma que minha mãe estava certa e eu devia ter ido par o hotel. Quase.
Entrar em casa foi estranho, eu ainda podia me lembrar da felicidade que eu estava vivendo ali da última vez, praticamente podia ver cada bom momento. Mas, quando eu deixei meu corpo cair no sofá, jogando meus sapatos em um canto qualquer, era como se simplesmente aquele lugar não parecesse mais um lar.
Fiquei vários segundos olhando para o nada, enquanto Daryl andava de um lado para o outro, remoendo algo que eu desconhecia.
Eu podia sentir um tipo intenso de desespero se apossar de mim, começando pela ponta dos dedos, fazendo-as formigar dolorosamente.
— Fala comigo. — Praticamente implorei.
— Falar o que? — Daryl parou de andar para me encarar, embora eu não tenha feito o mesmo e ainda escarasse o nada.
— Qualquer coisa, só fala, eu quero pensar em outra coisa, qualquer coisa...
A resposta não veio de imediato, como se Daryl tivesse pensado muito antes de dizer as próximas palavras. Honestamente, pra mim, pareceu uma eternidade.
— Por que não me contou que meu pai veio aqui? — A frase demorou alguns segundos para fazer algum sentido na minha cabeça.
Era como se fosse uma outra realidade, uma outra vida. Como se décadas houvessem se passado desde a tarde em que vi Will Dixon.
— Você estava feliz, eu não queria estragar isso falando do seu pai. — Respondi simplesmente, deixando meu corpo cair no sofá.
Me pareceu um assunto besta, mas eu tinha dito que podíamos falar de qualquer coisa...
— Então você preferiu mentir pra mim? — A nova indagação veio com um tom de acusação que eu não consegui entender.
Pisquei algumas vezes e passei a mão pelos olhos, tentando encontrar um ponto naquela conversa, mas honestamente aquilo me pareceu um assunto muito idiota naquele momento.
— Foi mais uma omissão que uma mentira... — Dei de ombros, enquanto Daryl parecia impaciente andando de um lado para o outro.
— É a mesma maldita coisa, você não pode me pedir pra confiar em você e depois mentir pra mim! — Ele jogou a mão na minha direção e elevou o tom de voz.
O encarei por três segundos inteiros, pensando se era Daryl quem estava dando muita importância àquilo, ou se era eu que não estava dando importância alguma.
Talvez não fosse um momento bom para termos aquela conversa. Senti vontade de responder à altura, dizendo que eu teria contado, mas não tive tempo, afinal meu pai morreu. Contudo preferi engolir aquilo e apenas erguer as duas mãos em sinal de rendição.
Eu e Daryl claramente tínhamos preocupações diferentes naquele momento, e estávamos lidando com a dor de formas diferentes.
— Tudo bem, você está certo, me desculpa. — Tentei apaziguar, discutir não era nem de longe a minha vontade. — Eu não pretendia esconder isso de você, eu só não queria te contar naquela hora. Seu pai não é exatamente um assunto saudável pra você.
— Mas ele ainda é meu pai. Ele precisa de mim às vezes, sempre vai ser assim, ele sempre vai ser minha família. — Aquilo me atingiu como um ataque pessoal, talvez não fosse, mas foi como eu senti.
Respirei fundo e contive minha vontade de revirar os olhos. Não era só o fato de estarmos discutindo a posição daquele homem na vida do Daryl, era o fato de estarmos fazendo aquilo justamente quando o meu pai estava morto. Não era justo.
— Acho que as coisas que ele fez com você, meio que o exoneram do cargo de família. — Defensiva nunca foi meu forte e por um segundo eu me esqueci que Daryl Dixon precisava do dobro de paciência e compreensão do que as outras pessoas e ataquei.
Talvez, em um outro momento, eu jamais tivesse jogado aquela verdade de maneira tão acida na cara dele. Na verdade eu me arrependi assim que terminei a frase.
— Do que você está falando? — Ele parou próximo a mim, me encarando de cima enquanto eu ainda estava sentada.
— Você sabe do que eu estou falando... — Deixei minha cabeça tombar no encosto e suspirei. Me senti repentinamente cansada de tudo aquilo.
— Não, eu não sei e você também não sabe. — A resposta veio imediata, enquanto Daryl caminhava para longe, agarrando as chaves da caminhonete e a jaqueta jogada sobre uma das poltronas.
— Aonde você vai? — Perguntei, endireitando o corpo no sofá.
— Pra casa trocar de roupa. — Devolveu irritado, sem sequer olhar na minha direção.
Ele não precisava ir realmente, era só uma desculpa.
— Daryl... — Tentei, passando a mão pelo rosto jogando o cabelo pra trás. — Não faz isso... Você está abrindo um abismo entre a gente bem agora.
Daryl não me lançou um só olhar, tive que me levantar e correr até a porta, antes que ele saísse.
— Me perdoa pelo que eu fiz e disse que magoou você... — Segurei o braço dele, impedindo-o de avançar. — Não é um bom momento pra conversarmos sobre essas coisas, mas ainda podemos resolver tudo. Juntos. Eu sei que podemos. — Pronunciei cada frase pausadamente, tentando acalmar as coisas.
Eu ainda achava tudo aquilo sem sentido, aquele assunto, aquela briga... Mas eu não estava no meu melhor, tão pouco Daryl, então criar um ambiente neutro era o mais sensato que eu podia fazer naquele momento.
Daryl focou os olhos azuis em mim por um segundo, antes de negar minimamente e tirar o braço da minha mão. Ele não estava bem, havia algo o perturbando muito, algo que talvez nem fosse aquela história do meu encontro com o pai dele.
O problema é que eu também não estava bem, portanto era incapaz de ver a figura como um todo e entender as coisas.
— Eu passo pra te pegar... — Avisou, antes de viras as costas.
E simplesmente saiu, o barulho da porta batendo ainda ficou ecoando na minha cabeça por vários segundos. Em qualquer outro dia minha mente estaria a mil, tentando achar uma explicação e uma forma de resolver aquilo. Contudo, naquele momento eu estava oca, minha mente tinha dado pane, simplesmente desligado.
De alguma forma aquilo conseguia ser benéfico, porque o silêncio era acolhedor, o vazio era confortável. Eu sequer me preocupava por não estar preocupada.
Eu fiquei parada ali no meio, flutuando no vácuo. Não sei dizer quanto tempo fiquei na mesma posição, mas quando o toque do celular me tirou do meu estado de letargia eu mal podia sentir minhas pernas.
Peguei o aparelho como se todas as minhas ações estivessem no automático, era uma mensagem da minha mãe, dizendo pra eu usar algo apropriado e não esquecer do discurso.
Era Deborah Spelman, claro que ela tinha que me preocupar com o que eu vestiria. Estava demorando até.
Joguei o celular em um lugar qualquer e peguei um bloco de notas que ficava na sala, tendo que seguir até a cozinha para pegar um lápis, que meu pai guardava com os livros de receita, afinal eu fui totalmente incapaz de encontrar uma caneta.
Fiquei encarando o papel em branco e nada me vinha a mente, era tudo vazio, eu tentava acessar alguma tristeza interior, mas não havia nada lá, sentimento algum.
Forcei a ponta do lápis contra a superfície branca e ela se quebrou, deixando um risco negro no lugar que eu devia colocar palavras.
Que tipo de pessoa perdia o pai e não ficava triste? Não chorava? Por que eu não tinha derramado uma só lágrima? O que tinha errado comigo?
Arranquei a folha e a amassei, jogando o pequeno amontoado de papel longe. Esbarrei em um copo no balcão da cozinha e o som de vidro se espatifando no chão ecoou pela casa vazia.
Me abaixei para pegar os cacos e obviamente me cortei no processo. Desgraça pouca é bobagem...
Foi simplesmente como ser empurrada de um abismo e estar em queda livre. Nenhuma lágrima, apenas raiva e frustração, uma vontade cortante de gritar, colocar tudo pra fora, mesmo que eu não soubesse o que esse "tudo" era. Foi exatamente o que eu fiz.
Uma após outra, eu comecei a jogar cada louça no chão, havia um prazer selvagem em ver a cerâmica se partir em vários pedaços quando atingia o solo.
Eu sequer sabia o motivo da minha raiva, mas sentir alguma coisa é melhor do que sentir coisa alguma, não é? Mas tão logo aquele momento de fúria veio, ele passou, simplesmente se esvaiu de mim e me deixou flutuando no vácuo novamente.
Deixei meu corpo escorregar pela bancada, minhas costas repousando ali, enquanto minhas pernas abriam espaço entre os cacos no chão, eu ainda tinha um copo na mão e, totalmente apática, o deixei rolar pelo piso, erguendo o braço em seguida, apenas para observar, sem qualquer reação, meu próprio sangue pingar e pouco a pouco manchar o piso claro de vermelho.
Me perdi no tempo outra vez, os olhos saindo de foco, os últimos segundos do meu pai passando na minha mente como um looping infinito e o som do monitor cardíaco sendo a trilha sonora macabra da minha desgraça. No fundo, ainda não parecia real. Não podia ser real...
Uma mão quente no meu ombro e uma voz muito distante foram me trazendo de volta, enquanto, minha vista aos poucos voltou a focar no que era real. Quanto tempo será que eu tinha ficado naquele estado catatônico?
Daryl me examinava apressado, agachado bem na minha frente, eu não tinha visto nem ouvido ele chegar.
— O que aconteceu? — Perguntou, enquanto envolvia minha mão cortada com pano que estava jogado sobre uma das cadeiras.
— Nada. Eu só me cortei. — Dei de ombros, totalmente apática.
Ele continuou me olhando fixamente, uma das mãos no meu rosto, a preocupação latente em cada traço. De alguma forma aquilo aqueceu meu coração.
— Vem, eu vou te tirar do meio de todo esse vidro, antes que você corte os pés também.
Assenti e Daryl me pegou no colo, saindo comigo da cozinha, enquanto eu deitava a cabeça na curva de seu pescoço e aspirava seu cheiro como uma droga. Podia ouvir sua pulsação acelerada, indicando que ele estava assustado.
— Eu não quero brigar com você... — Falei baixinho, como uma confidência.
— Nem eu... — Devolveu, me colocando gentilmente no sofá.
Quem via Daryl Dixon de longe jamais desconfiaria o quão cuidadoso ele podia ser, era quase um balsamo saber que eu conseguia despertar aquele lado dele.
O vi se afastar e subir as escadas, voltando logo depois com uma caixa de primeiro socorros.
— Vai ficar tudo bem... — Afirmou depois de fazer o curativo na minha mão. — Vai ficar tudo bem...
Ele beijou a minha testa e eu sorri fraco dando-lhe um beijo casto nos lábios e subindo para me trocar, algo em mim sabia com toda certeza que ele não acreditava nadinha no que tinha acabado de dizer.
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Daryl estacionou a caminhonete e eu respirei fundo, observando a capela de Dawsonville. Era um lugar discreto, rodeado por um grande gramado, com árvores imponentes e bancos de madeira, que chamava muito mais a atenção do que a própria construção. Na verdade a única coisa que chamava atenção na arquitetura do lugar eram as diversas vidraças, com mosaicos coloridos de santos católicos.
Na entrada uma porta dupla de madeira estava aberta e Deborah Spelman nos esperava, parada em um dos três degraus que compunham a fachada do lugar.
— Estão atrasados. — Acusou, se equilibrando em saltos discretos e vestindo um terninho negro.
Ela parecia mesmo a imagem da sobriedade, mas algo em seus olhos acusavam um caos puro e arrebatador.
— Foi minha culpa. — Daryl mentiu, tocando levemente minhas costas, antes de seguir para a parte interior da capela, nos deixando sozinhas.
— Como você está se sentindo? — Minha mãe indagou, me analisando de cima a baixo.
Continuei calada, eu ainda não sabia qual resposta eu devia dar para aquela pergunta.
— Quando voltarmos pra Washington você vai se sentir melhor. — Ela estava prestes a tocar meu braço quando eu me esquivei.
— O quê? — Dei dois passos para trás. — Eu tenho uma vida aqui, mãe, eu não vou embora.
Ela suspirou, desviando os olhos de mim, como se já esperasse por aquela resposta.
— Natalie, pensa bem, tudo que...
— Não. — Interrompi, antes que ela pudesse formar a frase, erguendo a mão direita — Eu não vou ter essa conversa com você. Não aqui, não agora.
Passei por ela, entrando na capela com passos firmes, percebi que conhecia praticamente todo mundo ali, clientes e amigos do meu pai, que eu vi uma vez ou outra.
Estanquei assim que avistei o caixão no fim do corredor. Eu não podia fazer aquilo. Eu não queria ver meu pai deitado naquela coisa.
Dei um passo para trás e fui amparada pela minha mãe. A mão esquerda dela estava firme nas minhas costas, enquanto a direita segurou meu braço.
— Você não precisa se aproximar se não quiser. — Ela tremeu levemente, e percebi que aquilo era mais uma afirmação que ela estava fazendo para si mesma, do que um consolo pra mim.
Assenti e a deixei me conduzir pra uma das fileiras do fundo. Senti os olhos de Daryl em mim, lá na frente, mas ele não se aproximou, deve ter julgado que aquele era um momento nosso. Honestamente eu preferia mesmo que ele estivesse ao meu lado, segurando minha mão.
O sermão do padre foi sobre céu e inferno. Sobre sempre ter nossos entes queridos conosco e outras coisas assim, palavras que não significaram nada para mim, principalmente porque eu sabia que ele já tinha falado aquilo dezenas de vezes em diversos funerais.
A impessoalidade daquele discurso me fazia sentir estranha, era como ver um filme, como se eu fosse uma mera espectadora da minha própria vida.
— Creio que agora a filha do falecido vai nos dizer algumas palavras. — Os vários pares de olhos que se voltaram para mim após o anuncio do padre me tiraram do meu estado de letargia.
Levei quase um minuto inteiro para finalmente tomar uma decisão, levantei devagar, sentindo a expectativa das pessoas me esmagar a cada passo.
Vagarosamente eu fui me aproximando do altar, onde o caixão aberto parecia gritar meu nome. Não faço ideia de onde tirei forças para permanecer de pé, tampouco de onde saiu a coragem para continuar andando.
Prendi a respiração, e pousei os olhos no corpo rodeado por flores brancas. Quinhentas emoções me chicotearam ao mesmo tempo. Eu queria correr dali, gritar, socar alguma coisa, ao mesmo tempo em que me sentia prestes a desabar, sentindo o desejo intenso de nunca mais levantar do chão, meu estômago revirou e uma lágrima pesada escorreu pelo meu resto.
Meu Deus. Ele não vai voltar mais... Levei a mão até a boca pra reprimir um soluço.
Meu pai parecia em paz, a imagem da calmaria e ao mesmo tempo era aterrorizante. Totalmente contraditório. Era o fim.
O padre me estendeu um lenço e eu me lembrei que todo mundo estava olhando pra mim, esperando que eu falasse alguma coisa.
Me virei de frente para as pessoas, caminhando até o pequeno púlpito de madeira. Encarei minhas próprias mãos sobre a bíblia que estava ali em cima e fechei os olhos por um segundo. Tentando recobrar o controle e parar de tremer.
— Era pra eu ter escrito algo bonito e inspirador pra dizer agora, mas eu não escrevi... — Comecei, ainda encarando os dedos que eu retorcia nervosamente. — Eu não sabia quais palavras colocar no papel, assim como eu não sabia com quais palavras responder o "como você está se sentindo?" das pessoas. Eu não queria mentir, mas eu também não queria dizer a verdade. Eu não queria estar naquele hospital, eu não queria entrar nessa igreja, eu não queria encarar esse caixão atrás de mim, e eu, com certeza, não queria que meu pai estivesse morto...
Respirei fundo, meneando a cabeça enquanto sentia vários pares de olhos em mim, a pena deles pesava uma tonelada sobre os meus ombros.
— Mas se tem uma coisa que eu aprendi nesses últimos dias foi que: a vida não é sobre coisas que queremos, porque se fosse, então eu teria mais tempo, porque isso era tudo que eu queria: Tempo... — Fiz uma pausa e finalmente ergui a cabeça. Reparei que minha mãe, lá no fundo, tinha o rosto parcialmente escondido pela mão direita. — Tempo pra construir mais memórias, tempo pra conhecê-lo melhor, porque eu sei que, de todas as pessoas aqui hoje, eu sou quem o conhece há menos tempo.
Ri nervosamente da ironia daquela merda toda e então pousei os olhos em Daryl, ele tinha as íris azuis fixas em mim, era impossível decifrar o que passava pela mente dele.
— Felizmente, outra das coisas que eu aprendi é que o amor não pode ser medido pelo tempo que você passou com alguém, o amor é sobre pequenos momentos que ficarão na nossa mente pra sempre. — Declarei, dando prosseguimento, tirando meus olhos de Daryl e os passando por todos os outros, a esposa de Joe me encarava pesarosa do banco da frente. Senti falta do Merle, meu pai gostaria dele ali. — Não sei quantos desses momentos vocês compartilharam com meu pai, mas eu sei que eu vivi alguns muito preciosos ao lado dele. Eu honestamente não sei se alguém aqui nessa sala o ama tanto quanto eu.
Observei minha mãe e ela fechou os olhos, jogando um pouco a cabeça para trás e arrumando o cabelo enquanto dava um suspiro profundo. Quanto de dor ela estava escondendo?
— Meu pai costumava dizer que o amor não é o bastante, eu nunca entendi isso, eu ainda não sei se entendo... Eu não sei se consigo aceitar essa filosofia de vida...
Deborah Spelman finalmente olhou pra mim, mas eu não a reconheci, aquela não era a minha mãe, era apenas uma mulher abalada e triste, muito triste. Ela segurou as lágrimas e eu deixei que as minhas caíssem, por nós duas.
— Eu queria que meu pai prometesse que ficaria vivo, mas a única coisa que ele prometeu foi que sairia vivo da cirurgia. — Revivi aquele momento enquanto falava, e nada doeu mais. — Eu acho que a maior parte de vocês aqui não conseguem entender o peso e a ironia disso pra mim. Eu... Eu...
Parei de tentar explicar, não tinha como, ninguém ali seria capaz de entender como eu me sentia triste e traída, era como ter sido enganada no meu próprio jogo, e o pior de tudo é que eu não podia, ao menos, sentir raiva disso, afinal meu pai tinha cumprido a promessa, ele tinha saído vivo da cirurgia.
— Ele morreu feliz, isso devia servir de consolo... Mas eu não estou feliz, eu não estou sentindo consolo algum, eu não vou me conformar com isso. Não foi justo. Isso é provavelmente a coisa mais egoísta que eu já disse na vida, mas é a pura verdade. — Fechei os olhos e respirei fundo. — Então, querem saber como eu estou me sentindo? Eu estou devastada, eu estou furiosa, estou inconformada, e, honestamente, acho que nunca mais serei eu mesma outra vez. Isso é um adeus, e eu sempre odiei despedidas.
Dei uma última olhada no caixão antes de descer do altar e praticamente correr para fora.
Dali algumas horas o corpo do meu pai estaria no fogo, minha vida viraria cinzas, literalmente...
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