Notas iniciais
Cheguei!!! E trago novidades! Lifeline foi indicada ao The Walking Dead Emmy Awards (uma premiação para as fics do fandom) em DUAS categorias Melhor Fic Daryl x Oc e Melhor Enredo (imaginem euzinha dando pulos de alegria e chorando de felicidade) Os vencedores são escolhidos por voto popular, então vou deixar link nas notas finais pra quem quiser votar. Mas independente de ganhar ou não, se apontada ao lado de fics que eu adoro e que eu sei que são ótimas, já é uma honra e tanto. Tenho que agradecer a cada um de vocês por me incentivarem nessa história e por darem tando carinho aos meus personagens, se Lifeline está lá no meio de tanta coisa boa é por causa de vocês que comentam, recomendam e favoritam (tô até emocionada aushaushu) Falando em comentários. Não posso esquecer de agradecer as minhas lindas que comentaram no cap passado: Dreamer Girl, safira laufeyson, NandaNascimento, Menta, Valarie Lockwood e Duda Borges. OBRIGADA SUAS PERFEITAS!! Falando em Menta, eu queria dedicar esse cap para ela: Sinta que esse é o meu jeitinho de te enviar força e amor, sua linda s2 Agora vamos a esse cap que eu amei escrever, e to muito orgulhosa do resultado, não vou mentir não. Deborah Spelman arrasou. Falamos mais lá embaixo. Boa leitura.

• DEBORAH SPELMAN •

Paciência. Algumas pessoas nascem com ela, algumas não. Mesmo as que nascem com essa virtude tem que enfrentar, hora ou outra, o espreitar da ansiedade. A ansiedade é um bichinho pequeno, muitas vezes confundido com empolgação, mas enquanto o último sentimento explode dentro de você, o primeiro te come pelas beiradas. De início é sútil, mas se deixarmos, a ansiedade desenvolve uma velocidade assombrosa e nos devora por inteiro.

Eu diria que a ansiedade é o mal da nação, por isso manter a paciência, mesmo quando se nasce com ela, pode ser um trabalho duro. Mais árduo, no entanto, é desenvolver e cultivar paciência, quando você não nasceu com ela, quando passou metade de sua juventude sendo ansiosa.

Posso não ter nascido paciente, mas nasci perseverante, e isso fez toda a diferença quando percebi que precisava aprender a arte da paciência. Na minha profissão essa virtude tão subestimada pode ser a diferença entre ganhar ou perder um caso.

Se teve alguma coisa que aprendi com a vida, foi a respirar fundo e tomar decisões de cabeça fria. A última vez que fui impulsiva gerou dor o bastante para uma existência toda.

Respirei profundamente enquanto sentia a luz do sol atravessar a janela do hotel e tocar meu rosto. Mantive a postura ereta e as mãos apoiadas nas pernas, que estavam dobradas sobre o carpete.

Cinco dias... Eu estava no limite das minhas forças. Exausta. Minha preocupação com Natalie apenas aumentava, mas eu não podia negar que aqueles dias, apesar de demasiadamente demorados e doloridos, haviam sido essenciais para o reestabelecimento do meu equilíbrio emocional.

Abri os olhos e me coloquei de pé, bastava de meditação por um dia, era hora de agir. Tomei uma ducha gelada e vesti um terno cinza.

Ao lado da mala, sob o pequeno sofá que aquele quarto de hotel disponibilizava, a roupa que eu usei no enterro de Peter parecia gritar para mim. Nossa última conversa me voltou a mente. Fechei os olhos e respirei fundo, jogando as roupas dentro da mala e a fechando de qualquer jeito, apenas para tirar aquilo da minha vista.

Parei em frente ao espelho e simplesmente encarei meu reflexo, não era hora de remoer aquela conversa, nem nada mais do meu passado, eu precisava adicionar aquele episódio à minha lista de arrependimentos e voltar a esconder tudo no fundo da minha mente. Não era importante. O presente era.

O ato imaginário de adicionar um item naquela maldita lista, fez-me relembrar todos os outros itens e eu percebi, com desgosto, que a maior parte de meus arrependimentos tinham a ver com Peter Cooper. E, o pior de tudo, era constatar que meus arrependimentos eram frutos de decisões que eu tomei levando em conta quem eu queria que Peter fosse, não quem ele era de verdade.

Ou seja, no fim das contas, talvez a culpa fosse toda minha por querer mudar quem ele era. Eu não o perdoei, porque não estava preparada para perdoar a mim mesma.

Respirei fundo e contei de dez até um, pausadamente. Não era o momento para uma autoavaliação, eu devia ter feito isso anos atrás, quando algo ainda podia ser mudado. No momento aquilo tudo não era mais importante.

Eu tinha que focar em Natalie, pois sabia bem que ela não tinha suporte algum para lidar com a morte. Desde pequena ela nunca foi capaz de entender e aceitar essa fatídica parte da existência de todo o ser vivo.

Recordava-me perfeitamente de quando ela era mais nova, trouxe um filhote doente para casa e foi incapaz de perceber que o bichinho, mesmo com todas os esforços dela, morreu durante a tarde. Qual não foi minha surpresa ao chegar em casa e a ver carregando um cadáver para todo o lado? Natalie só se deu conta que o cachorrinho tinha morrido quando ele caiu do topo da escada, em um acidente lastimável.

Claro que ela me culpou por isso, e a pior parte foi perceber como ela tinha montado aquele incidente em sua cabecinha de forma ilusória. Foi quando as terapias começaram, e, mesmo que os psicólogos dissessem que era normal uma criança daquela idade suprimir um modificar um evento traumático em sua cabeça, eu não aceitei aquilo. Eu a forcei a continuar fazendo acompanhamento por toda a adolescência.

Acredito que eu tenha pecado por excesso de zelo, mas ser mãe é isso mesmo, não é? Nunca saber se estamos fazendo a escolha certa...

Não importava mais. Eu tinha outra crise nas mãos e tinha que fazer o possível para não repetir meus equívocos, ou pior, cometer erros ainda mais graves.

Era hora de voltar a focar no presente.

Na manhã anterior eu havia recebido a encomenda que aguardava, e os dados contidos dentro da pasta amarela tinham me surpreendido um pouco.

Depois de uma noite inteira em claro, pensando no meu próximo passo, eu tinha tomado minha decisão inicial e feito algumas ligações pela manhã. Mas preferi esperar o entardecer para levar o restante de meus planos adiante.

Tudo se tratava de controlar os danos, colocar as coisas de volta nos trilhos, fazendo o que fosse necessário para isso. Eu não podia deixar minha filha afundar no sofrimento, principalmente, porque ela estava me arrastando junto... Dawsonville não era boa pra nenhuma de nós.

Alcancei o celular e disquei rapidamente. Era hora de agir e fazer o certo, mesmo que isso significasse segurar o destino de Natalie nas minhas mãos.

No terceiro toque a voz rouca do outro lado da linha me atendeu.

— Boa tarde, Daryl Dixon. Como vai? — Perguntei, usando de um tom cordial que me acostumei a usar com ele naqueles dias.

— Natalie está do mesmo jeito. Aqueles remédios que você trouxe só a fazem dormir... — Respondeu prático, como era sempre.

Daryl não era o tipo de rapaz que gostava de conversas telefônicas, na verdade eu desconfiava que ele não gostava de conversas de modo algum. Aquele era apenas um dos muitos pontos irônicos na relação dele com minha filha, os dois era totalmente opostos.

Como eu e Peter.

— Dormir é melhor do que ter que encarar as paredes da casa de um pai morto. No entanto, eu não telefonei para saber da Natalie, telefonei pois preciso falar com você, Daryl. — Eu não podia reclamar da praticidade de Daryl, eu gostava de ser prática também.

— Pode falar então... — Sua voz chegou a mim como um misto de surpresa e impaciência.

— Não por telefone, tem algum lugar onde podemos nos encontrar?

Ouvi alguns segundos de silêncio, como se o rapaz pensasse em uma resposta, ou apenas digerisse a situação.

— Tem um bar chamado Joe's há algumas quadras daqui, podemos nos encontrar lá em meia-hora. — Uma resposta direta, com um certo tom de desafio, o garoto era interessante, não dava para negar.

— Perfeito. Até breve.

Desliguei sem esperar retorno e encarei o arquivo sobre a mesa, pensando se era mesmo a melhor forma de fazer tudo aquilo e chegando a conclusão repetida de que aquele era o jeito que menos causaria danos colaterais. Tinha que ser feito daquela forma.

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O tal bar era uma bela espelunca. O tipo de lugar que me lembrava meus tempos com Peter e que deixava claro o quanto eu tinha mudado.

Peguei uma mesa mais reservada e uma garçonete me entregou o que devia ser o cardápio, mas era apenas o projeto disso.

Encarei as alternativas escassas e terríveis, e, levando em conta a gordura que havia grudado nos meus dedos, apenas por segurar o cardápio, decidi não comer nada que fosse feito naquele lugar. No entanto algo dentre todas as opções de bebidas vagabundas chamou minha atenção.

— Me traga essa cerveja aqui. — Apontei, entregando o cardápio para a garçonete, que se retirou em seguida.

Antes mesmo que ela voltasse, Daryl Dixon entrou no salão, nos dez segundos que ele demorou para me encontrar eu o analisei com atenção.

Ele parecia, pelo menos, uns três anos mais velho do que sua idade indicava, cada um de seus trejeitos provava o quão rústico era. Seu físico definido, não de quem malhava e sim de quem tinha uma rotina pesada. Daryl Dixon era um garoto selvagem, mas acima disso, algo sútil em sua postura fazia parecer que ele carregava o mundo nas costas.

Quando os olhos azuis, encapsulados pelas pálpebras, me encontraram através do local eu soube exatamente o que Natalie vira nele.

Não era apenas a postura selvagem ou o sexy appel bruto, era o que ele escondia. Minha filha tinha enxergado um animal ferido dentro dos olhos frios. E eu sabia bem que ela tinha uma necessidade latente de cuidar de seres maltratados ou indefesos.

— Então, disse que queria conversar comigo, qual o assunto? — Ele foi direto ao ponto assim que se aproximou. Nada de cumprimentos ou boas maneiras. Havia raiva em seu tom de voz, como se Daryl soubesse exatamente o que eu queria com ele.

— Por que não começa se sentando? — Apontei a cadeira a minha frente.

O barulho do objeto sendo arrastado pelo chão sem a menor sutileza fez algumas pessoas voltarem seus olhos para nós. Tentei disfarçar minha expressão de desgosto com aquela total falta de modos, mas não faço ideia se obtive sucesso.

— Eu já estou sentado. — Daryl avisou o óbvio, não fazendo questão de disfarçar seu descontentamento em estar ali.

— Estou vendo... — Devolvi neutra, observando a garçonete colocar uma garrafa long neck sobre a mesa. — Você bebe cerveja?

— Não quero nada. — Respondeu rapidamente e eu percebi que ele tinha uma dificuldade absurda em parar quieto.

— Traga uma cerveja dessas pra ele também, por favor. — Pedi diretamente para a moça que me servia, desconsiderando a negativa de Daryl.

Ela se afastou e eu fitei minha própria garrafa por um longo momento, ainda sem tocá-la. Revivi um mundo de memórias naquele curto instante.

— Você sabia que essa é a cerveja preferida do Peter? — Comentei, sendo incapaz de conter um sorriso triste. — Era, quer dizer.

— Não sabia... — A postura do rapaz mudou um pouco, como se ele estivesse compadecido de mim.

Eu teria me irritado com isso, mas estava muito ocupada observando uma gota d'água escorrer pelo gargalo da garrafa, ainda incapaz de pegá-la.

Nesse meio tempo a garçonete voltou e serviu Daryl.

— Ao Peter então. — Ele ergueu a própria cerveja para um brinde simbólico e eu fui obrigada a pegar a minha para fazer o mesmo.

Virei um gole pequeno e assim que o gosto amargo se espalhou pelo meu paladar foi como se uma luz se acendesse em um quarto escuro cheio de memórias.

Os beijos de Peter tinham exatamente aquele gosto...

Ri internamente da ironia daquela lembrança, eu me recordava precisamente do gosto de beijos que haviam acontecido há anos, mas não saberia descrever o beijo do meu próprio marido, que eu tinha provado há uma semana.

— Então, vai me dizer por que me chamou aqui? — A voz impaciente de Daryl me trouxe de volta para a realidade.

Sim, realidade. Era necessário manter os meus pés no chão e a minha mente focada, eu nunca fui uma mulher dispersa, não podia começar naquele instante.

E isso era apenas outro motivo para adicionar na lista das razões pelas quais eu tinha que tirar Natalie daquela cidade o mais rápido possível.

— Vou. — Assenti, endireitando minha postura e pousando minhas mãos sobre a mesa. — E eu vou ser honesta e perfeitamente clara com você, Daryl Dixon, apenas a verdade. Começando por isso.

Peguei a pasta amarela e a empurrei para o rapaz, mantendo a cabeça erguida e a expressão calma.

— O que é isso? — Ele questionou antes de sequer tocar no conteúdo.

— É um arquivo sobre você, tudo que eu consegui levantar sobre sua vida nos últimos dias. — Respondi calma e diretamente, como se não tivesse nada de mais naquela informação.

— Você estava me investigando? — Daryl se levantou imediatamente, o tom subindo algumas oitavas, apoiando as duas mãos sobre a mesa e se aproximando ameaçadoramente de mim.

— Sim eu estava. — Mantive o volume e o tom da minha voz, nada intimidada pela postura dele. — E não me envergonho disso. Você não faz ideia do que eu estou disposta a fazer pela minha filha... Mas você vai saber já já.

— Eu não tenho que ficar aqui e ouvir essa merda toda! — Empurrou a cadeira para trás com tanta força que ela tombou no chão, atraindo os olhares de algumas pessoas ali por causa do barulho.

— Não, você não tem, mas acho que seria do seu interesse ficar. — Bebi outro gole da minha cerveja, mantendo minha postura e reação totalmente contrárias as de Daryl.

Ele estava tão irritado que eu desconfiei, que só não me agrediu por eu ser mulher. Jogou uma nota qualquer sobre a mesa, para pagar a cerveja e me deu as costas, estava mesmo decidido a ir embora.

— Você tem um irmão, não tem, Daryl? — Joguei minha última cartada, apostando em um palpite, baseado nas coisas que eu tinha lido nos arquivos. — Sabe onde ele está agora?

Daryl parou onde estava, se virou na minha direção e mesmo que seus olhos fossem azuis era como se pegassem fogo.

— Ele está em Atlanta. — Respondeu entredentes.

— Sabe o que ele está fazendo lá? — Pousei novamente as duas mãos na mesa, entrelaçando meus dedos.

— Isso não é da sua conta! — Foi rude, pronto para me dar as costas novamente.

— Presumo que certamente sabe que ele está preso, não é? — Ignorei a resposta anterior e lancei minha última frase, esperando a reação final de Daryl.

Ele voltou dois passos, ele não sabia, vi isso claramente em sua expressão. Eu estava certa em minhas suposições, como na maior parte das vezes.

— Do que você está falando? — O tom ainda era rude, mas tinha preocupação ali também.

Sem nenhuma pressa eu abri a pasta amarela em uma página especifica.

— Merle Dixon. Preso há menos de um mês, por invasão e agressão, os donos da casa não quiseram registrar queixa de furto. Ele está em uma penitenciaria de Atlanta, aguardando julgamento, pois recusou o primeiro advogado enviado pelo governo. Presumi que não soubesse, já que o prisioneiro não recebeu ou fez ligações desde que foi detido. — Fui o mais clara possível.

Não era um caso grave, o irmão de Daryl tinha passagem por alguns delitos leves e já poderia estar respondendo em liberdade, caso não tivesse demitido o advogado. Ele tinha a vantagem de ter servido ao exército e não era considerado perigoso, apenas um arruaceiro, claro que graças a algumas outras informações eu sabia que Merle Dixon tinha envolvimento com mais coisas ilegais do que a justiça tinha conhecimento.

Daryl continuou parado no mesmo lugar, ele claramente não sabia o que fazer a seguir, quase senti pena do garoto, aquele olhar de animal ferido estava ali outra vez.

— Felizmente, eu conheço o juiz dessa jurisdição e ele me deve alguns favores. — Apontei a cadeira novamente e esperei, pacientemente, um minuto inteiro até que Daryl decidisse se sentar.

— O que você quer? — Ele foi direto, aquela situação não o agradava em nada.

Era nítido que ele tinha uma opinião formada sobre mim e sobre o que eu queria dizer, como se já soubesse de tudo.

— Por que você não começa me escutando? — Sugeri ainda calma, e Daryl entornou a cerveja toda de uma só ver.

— Quer saber, eu sei o que você quer. Quer levar a Natalie de volta para Washington e vai me chantagear pra... — Não deixei que Daryl terminasse, erguendo a mão esquerda, antes que ele dissesse algo que fosse mudar minha forma de pensar sobre ele e sobre as decisões que eu já tinha tomado.

— O ato de chantagear requer que eu te prometa algo em troca de outra coisa. Não é isso que estamos fazendo aqui, eu não vou te prometer nada, Daryl Dixon. — Retruquei incisiva.

— Mas você acabou de dizer que...

— Eu já telefonei para o juiz. Essa manhã, na verdade. O habeas corpus do seu irmão deve chegar na delegacia em, no máximo, dois ou três dias. — Prossegui, interrompendo novamente.

Daryl balançou a cabeça sutilmente, como se não estivesse conseguindo acompanhar minha linha de raciocínio. Eu virei o resto da minha cerveja e decidi que tinha que falar de uma vez o que eu queria, eu estava protelando, porque aquilo tudo não era exatamente do meu agrado, mas era a opção mais acertada e que menos faria Natalie sofrer, no presente ou no futuro.

Era a decisão que uma mãe de verdade tinha que tomar, mas não era a decisão que eu teria tomado meses atrás, antes dela fugir de casa, antes da morte do Peter...

— Eu quero que você coopere comigo, Daryl Dixon. Você está certo, eu quero levar Natalie de volta para casa, onde ela vai poder ser cuidada e amparada nesse momento difícil. Ficar na casa do pai dela não vai ser benéfico, mas ela nunca vai me escutar e eu admito que isso é minha culpa... Mas ela vai ouvir você. — Esclareci, fazendo um sinal para que a garçonete trouxesse outras cervejas.

Daryl deixou o corpo bater no encosto, soltando uma risadinha irônica e abafada, como se eu tivesse falado exatamente o que ele previa, porém eu não me importei com isso, eu tinha que terminar primeiro, depois me preocuparia com as reações dele.

— Dawsonville não é uma cidade apropriada para uma pessoa jovem construir um futuro, as oportunidades aqui são inexistentes, e acho que sabe disso, rapaz. Natalie vai estar jogando todo o potencial dela fora se ficar aqui por mais um ano. E vamos ser sinceros, as chances do relacionamento de vocês vingar, na rotina desse lugar, são praticamente nulas. E nem precisa se incomodar em dizer que vocês não tem um relacionamento, porque está bem claro que tem. — Ergui o dedo em riste, antes mesmo que ele pudesse pensar em dizer alguma coisa. — Em Washington as coisas serão melhores, a vida será significantemente mais fácil, quando vocês dois estiverem vivendo lá.

Por um segundo pareceu que o garoto levara um choque, tamanha a velocidade com a qual ele se desencostou da cadeira.

— "Vocês dois?" — Repetiu, entre a incredulidade e a surpresa.

— É. — Concordei. — É por isso que estamos aqui agora, quero que convença Natalie a ir pra casa, dizendo que vai pra Washington com ela.

A garçonete chegou trazendo mais duas cervejas e, enquanto colocava as garrafas sobre a mesa, ficamos em silêncio absoluto.

— É bem óbvio o quanto minha filha gosta de você, assim como é bem óbvio que ela não está nada bem, talvez o certo fosse arrastá-la daqui a força, arrancando-a dos seus braços, mas isso faria de mim a vilã que ela acha que eu sou. E eu estou farta de ser a vilã... — Dei de ombros, era uma ideia louca, eu sabia disso, mas também sabia que era a escolha com a qual Natalie menos sofreria.

Daryl parecia em choque, toda aquela postura agressiva e de quem sabia exatamente o que esperar de mim tinha desmoronado. Ele não conseguia pronunciar uma só palavra, tudo que fez foi virar a própria garrafa de cerveja de uma só vez.

— Claro que você tem que querer isso, é uma passo importante. Deixar a família para trás, mudar de estado e assumir que seu relacionamento com a minha filha é bem sério. Se bem que esse último não deve ser complicado, afinal um relacionamento sério é exatamente o que vocês estão vivendo agora. — Argumentei neutra.

Ter minha filha com aquele rapaz não era uma coisa que me agradava realmente, eu preferia que ela tivesse escolhido alguém do nosso círculo, encaminhado na vida e o mais diferente possível do pai dela. Todavia eu tinha que admitir para mim mesma que era muito melhor vê-la envolvida seriamente com Daryl Dixon, do que pulando de cama em cama, como fazia antes.

Daryl continuava mudo, eu não o conhecia o bastante para sequer suspeitar o que estava passando pela mente dele. Que tipo de dilemas ele estaria enfrentando naquele momento?

— Se você decidir fazer isso, eu asseguro que vou te dar todo o suporte...

— Eu não preciso do seu suporte, ou da sua ajuda, eu nunca precisei da ajuda de ninguém. — Foi a vez dele me interromper e voltar ao tom rude.

Vi que ele e Natalie tinham algo em comum, enfim, os dois costumavam agir com aspereza em conversas comigo. Que ótimo...

Se apegar ao orgulho e a raiva era mais fácil, eu sabia bem disso, por isso não me ofendi com o tom dele.

— Eu sei que não precisa, Daryl — Concordei, curvando um pouco meu corpo sobre a mesa. — Quando pedi que o pessoal do meu escritório fizesse um levantamento sobre a sua vida, eu pensei que encontraria uma lista de coisas erradas e imperdoáveis. Mas o que eu encontrei foi um garoto que, mesmo com todas as dificuldades e contra todas as probabilidades, conseguiu se manter longe de grandes encrencas. Eu não tenho dúvidas que você tem potencial para acertar sua vida por seus próprios méritos, mas as coisas são diferentes quando você faz parte de um casal... Então, se eu posso ajudar, por que deixar o destino de vocês nas mãos do "talvez"?

— Você não entende... — Daryl negou, focando os olhos em um ponto fictício atrás de mim, mordendo o canto do polegar, enquanto a outra mão remexia nervosamente sobre a mesa.

Ele era a imagem do caos, era perceptível o quanto estava confuso e perdido, embora eu não soubesse por que. Daryl me lembrou um pouco de mim mesma, quando comecei a ver minha vida saindo dos trilhos, quando tudo que eu tinha como certo se provou errado...

Foi a primeira vez que o vi como um garoto assustado, e senti empatia por ele. Novamente tive a impressão que Daryl carregava o mundo nas costas, e eu sabia exatamente como era se sentir daquela forma.

Escorreguei minha mão pela mesa e segurei a dele por um momento, o que causou uma reação de total surpresa nela.

— Talvez eu não entenda mesmo os motivos do seu receio, ou de qualquer outra coisa que estiver passando pela sua cabeça — Admiti calma, usando um tom que eu costumava usar com Natalie. — Mas quer saber o que eu entendo? Não importa o quão forte o sentimento de vocês seja, viver uma crise financeira, todos os dias, por meses, pode destruir e separar vocês mais eficazmente do que qualquer outra coisa.

Os olhos dele focaram nos meus e eu soube que ele entendia aquilo. Talvez entendesse bem demais...

— Foi isso que aconteceu comigo e com o Peter e é por isso que eu estou tomando essas decisões agora. — Tirei minha mão da dele, antes que aquilo ficasse estranho.

Eu não sei exatamente por que, mas me senti impelida a contar minha história para Daryl Dixon. Talvez fosse o fato de ter me visto nele por um segundo, ou talvez meu equilíbrio emocional simplesmente não estivesse tão equilibrado assim.

— Nós éramos jovens, como você e a Natalie. Eu estava na faculdade e o Peter... Bom o Peter era o que sempre foi... — Eu apoiei meu queixo nas costas da mão direita, encarando o vazio enquanto me recordava de cada detalhe. — A gente se apaixonou, ás vezes eu sentia que estava vivendo um filme e realmente pareceu o clímax cruel de um, quando meus pais descobriram e foram totalmente contra. Mas eu sempre fui teimosa e o Peter tinha um espirito rebelde, não nós importamos com os meus pais. Quando eles viram que a coisa era séria, pararam de pagar minha faculdade e de me mandar qualquer ajuda financeira...

Daryl arrumou sua postura na cadeira, mas nada disse. Aquele garoto era o melhor ouvinte que eu já conhecera na vida, então eu fiz a única coisa que podia: continuei falando...

— O amor é lindo na teoria, e continuou tudo bem por um tempo, mas eu tive a Natalie, e o amor teórico virou prático, a rotina era esmagadora... As brigas aumentavam na mesma proporção que as contas e eu não queria que Peter se virasse do jeito dele pra resolver. Eu não gostava das amizades dele. Eu estava no limite, ele também estava. Então, um dia, ele chegou em casa com dinheiro o bastante para pagar todas as nossas contas, mas eu não aceitei que ele tivesse pedido emprestado para um daqueles amigos malditos.

Parei um momento, fechando os olhos e sentindo a raiva correr nas minhas veias, exatamente como naquela noite. Aquela maldita noite.

— Eu arrumei minhas coisas, peguei a Natalie e parti. Mas eu nunca quis deixá-lo realmente. Eu sempre quis que ele viesse atrás de mim, mas ele nunca veio... — Aquela foi a primeira vez que eu disse aquilo em voz alta para qualquer um.

Em todos aquelas anos eu nunca admiti que queria Peter de volta. Eu esperei por meses, talvez anos. Eu fui cultivando mágoa dia a dia, por mim e pela Natalie. Chegou um momento em que todo o amor que eu tinha sentido se transformou em um rancor tão profundo e corrosivo, que cada memória boa parecia corrompida.

Mas rever Peter foi como percorrer o caminho inverso em uma velocidade assustadora. E, se deixá-lo tinha me mudado, revê-lo tivera o mesmo efeito. Mas tudo isso não importava mais, porque ele estava morto e, de repente, minha vida parecia um longo e doloroso desperdício de tempo.

Respirei fundo e contei decrescentemente, tentando recobrar meu controle. Natalie não podia ficar naquela cidade e eu não podia ser uma mãe como a minha, essas eram minhas únicas certezas.

— Eu quero ajudar vocês, eu não vou abandonar minha filha. A única coisa que eu quero em troca é que ela volte para casa. Não estou pedindo muito. E se for isso que vocês quiserem, eu estou pronta para apoiar você também. — Terminei, sabendo que aquela conversa tinha exigido de mim muito mais do que eu esperava de início. — Eu estou cansada de ser vista como uma vilã pela minha filha, então, decidi parar de agir como uma. Entende?

Daryl moveu a cabeça lentamente, como se ainda estivesse processando cada uma das muitas coisas que eu tinha dito.

— Pense nisso com calma e me ligue quando estiver pronto. — Me levantei, era o suficiente por um dia ou por uma vida toda. — Diga a Natalie que eu mandei um beijo. Tchau, Daryl.

Paguei a conta e saí, seguindo para o carro, que eu aluguei logo quando desci do avião em Atlanta, antes mesmo de ir até Dawsonville. Dirigi sentido ao hotel, mas parei algumas quadras depois, em uma rua vazia. Estacionei e segurei o volante, apoiando minha cabeça ali.

Comecei a contar de dez até um calmamente, e quando mais a contagem decrescia, mais minha respiração descompassava. Quando cheguei ao número cinco eu já estava chorando.

Dolorosamente eu deixei que cada lágrima escorresse, liberando um choro preso por anos na minha garganta. Eu estava chorando tudo que nunca me permiti chorar, finalmente colocando para fora a dor de um dia ter pegado minha filha e ido embora, deixando o homem que eu mais amei na vida para trás.

E, mesmo que fosse tarde demais, eu nunca tivera tanta certeza do meu arrependimento como naquele instante. Ver que minha vida podia ter sido muito diferente se eu fosse um pouco menos orgulhosa acabou comigo.

Eu tinha lutado a vida toda por perfeição e acabei com nada. Minha vida profissional era ótima, mas meu casamento era nada mais que uma parceria de negócios, eu não amava o Daniel e ele não me amava. Minha própria filha me odiava e Peter, meu único e verdadeiro amor, estava morto.

De todas as coisas da lista a última era a pior. Não havia conserto ou remédio para a morte, tudo que tinha restado eram lembranças, arrependimentos e as lágrimas que eu derramava sobre o volante do carro. Para piorar, eu desperdiçara nossa última chance de resolver as coisas quando me neguei a perdoá-lo.

E isso era tudo.

Aquele era o limite da impotência e a única coisa que eu conseguia desejar é que Natalie nunca tivesse que passar pelo mesmo... Mais uma vez eu teria que reconstruir minha vida das cinzas que Peter tinha deixado, daquela vez de forma literal.

Notas finais
Deborah é uma mãezona da porra, não é? Obviamente ela assustou um pouco o Daryl por ser tão direta, mas isso não tira o mérito dela de tentar fazer o melhor pela filha. Dona Natalie tem que reconhecer que pegou pesado com a Mamys a vida toda. Daryl estava pensando que a Deborah ia pedir que ele terminasse tudo com a Natalie e fizesse a menina ir embora (vcs pensaram isso também?) mas a Debby é cheia dos plots twist. Começando pelo cachorrinho morto, não é? Foi muito interessante fazer a desconstrução da Deborah nesse capitulo, de uma personagem controlada e calma para alguém que perdeu totalmente o rumo. Peborah teve um final muito trágico, separados apenas por orgulho. Eu nunca pensei que faria um OTP injustiçado, mas taí um que merecia bem mais. Peter é o dono da fic, mesmo quando não tá mais nela, meu bolinho uahsuahsuahs No próximo tem Dixchechas e todo o drama que tá rolando na cabecinha do Daryl. o que vocês acham que ele vai decidir? Vou tentar não demorar tanto na postagem dessa vez, afinal faltam só 3 para o fim agora. Bjss e até. PS: Aqui o link da votação do concurso pra quem quiser, não se sintam obrigados a votar em Lifeline, mas participem porque tem muita fic maravilhosa ali e isso incentiva muito os autores. (https://goo.gl/c8uGrS)