Lies
21 Tofu

Lee Know tentou reunir ânimo para sair de casa naquele dia, mas, se não fosse pela peça de teatro de Seungmin, teria ficado no conforto do lar sem pensar duas vezes. Nem mesmo a visita de sua querida amiga Dahyun era suficiente para alegrá-lo. Conversavam pelo WhatsApp com frequência, e ele já sabia exatamente o motivo de sua vinda.
“Mais um casal feliz para eu invejar” — pensou, revirando os olhos.
Dahyun, sem dúvida, viera lhe entregar pessoalmente o convite de casamento com Sana — sua outra amiga, a quem ele mesmo apresentara anos atrás. As duas se tornaram inseparáveis e, eventualmente, se apaixonaram.
O fim do relacionamento com Dahyun não foi doloroso por amor, mas pela convivência. Ele estava acostumado a tê-la por perto, mas nunca realmente apaixonado. O namoro, no entanto, teve um papel importante: ajudou Lee Know a se entender melhor e a aceitar, sem dúvidas, que era gay. Apesar da distância, a amizade entre os três permaneceu firme, mesmo agora, morando em cidades diferentes.
Suspirando, terminou de se arrumar, pegou as chaves do carro e saiu. No caminho para a universidade, fez um pequeno desvio até uma loja de doces e comprou o bolo favorito de Dahyun. Quando ela ainda morava ali, costumava presenteá-la com seus doces preferidos.
Ao chegar ao local do encontro, avistou de longe a figura espalhafatosa de Sana, agitando os braços freneticamente para chamar sua atenção. Ele acelerou os passos, mais por vergonha daquele espetáculo público do que por vontade de chegar mais rápido.
— Dahy — Lee Know a abraçou, fazendo carinho em seus longos cabelos escuros.
— Ei! — Sana protestou — Vou ficar com ciúmes!
— Você não precisa ter ciúmes de mim e do Lino porque…
— Quem disse que eu tô com ciúmes de você? Tô com ciúmes dele. Divide esse boy comigo, poxa — Sana invadiu o abraço dos dois e abraçou Lee Know, o agarrando como se fosse um troféu — Tofu, a gente pode levar ele pra casa? Diz que sim, por favor. Eu cuido dele, levo pra passear, compro a ração. Podemos até castrar ele — Lee Know fez careta.
— Pelo amor de Deus, Sana. Claro que não.
— Mas ele é bonitinho.
— Tô me sentindo um objeto — Lee Know choramingou — Trouxe bolo pra vocês.
— Meu deus, além de gostoso e lindo, ele ainda é útil pra comprar quitutes.
— É, eu treinei ele bem — Dahyun deu uma risadinha sutil enquanto Sana deu uma gargalhada.
— Vocês não prestam. Eu tenho sentimentos, ok?
— Verdade. Tofu me disse que você está namorando. Cadê seu boy sortudo?
Lee Know suspirou tristemente e Dahyun já entendeu tudo.
— Amor. Compra uma bebida pra mim, por favor. Estou com a garganta seca — Ela sorriu para Sana.
— Compro sim, minha linda Tofu.
Após um beijo de língua intenso e apaixonado, que pegou Lee Know completamente desprevenido, Sana se afastou saltitando, cantarolando uma melodia animada.
Dahyun permaneceu no lugar, observando a noiva se afastar com um sorriso encantado, os olhos brilhando de amor e admiração. Enquanto isso, Lee Know ainda tentava processar a cena, piscando lentamente e sentindo uma certa inveja, queria estar assim com Jisung.
— Quer me contar o que houve? — Dahyun desmanchou o sorriso bobo e olhou seriamente para Lee Know.
— O Han me odeia. É isso o que houve.
— Como assim? Até ontem vocês se amavam. Ninguém deixa de amar de um dia pro outro. Você fez alguma coisa?
Lee Know cerrou os olhos.
— Como você sabe que fui eu que fiz alguma coisa?
— Preciso nem falar, né?
— Tá, você tá certa. Eu menti pro Hannie e agora ele me odeia.
— Eu não sei o que houve, mas imagino que ele só esteja chateado. Você precisa dar um tempo pra ele, é muito triste quando a pessoa que amamos mente pra nós. Tenha paciência, ele vai voltar pra você.
— Eu sinto tanto a falta dele. Cada minuto sem ele parece que meu coração se despedaça mais. Eu só quero ficar com meu Hannie.
Dahyun riu e balançou a cabeça negativamente com todo aquele drama.
— Você continua dramático e sentimental, mas continua sendo um homem carinhoso e apaixonante. O Han também deve estar sentindo sua falta.
— Você acha?
— Claro. Veja bem, Sana e eu somos completamente diferentes. Quando ela faz algo que me deixa chateada eu simplesmente não aguento ficar brigada com ela por muito tempo. Eu amo demais essa doidinha e não consigo ficar longe dela. Então, o Han deve estar da mesma forma, sentindo sua falta. Mas o orgulho às vezes fala mais alto e ele deve estar pensando que está no direito de ficar com raiva porque você fez merda.
— Você nem conhece o Han mas parece que sabe exatamente como ele é.
— Não conheço o Han mas conheço a Sana. Relacionamentos são assim. Deixam a gente louca — Dahyun deu risada e seus olhos brilharam ao ver Sana se aproximando, alegre como sempre — Mas valem a pena.
…
Assim que Han entrou no auditório, pronto para assistir à peça de Seungmin, seu humor desmoronou instantaneamente. O que viu ali foi como um soco direto no estômago. Lee Know, sorridente, abraçando uma garota bonita, de cabelos longos e escuros, com intimidade demais para seu gosto. Han sentiu os músculos enrijecerem, seus punhos se fechando instintivamente. Seu maxilar travou, e ele percebeu que estava rangendo os dentes de tanta tensão. Era ridículo, inacreditável. No dia seguinte. Apenas um dia depois. E Lee Know já estava nos braços de outra pessoa. O peito de Han pesou, mas ele não deixaria transparecer. Engoliu em seco, respirou fundo e se obrigou a desviar o olhar. Mas, por dentro, sentia-se queimando.
— Isso só pode ser brincadeira — disse com raiva, Jeongin o olhou preocupado — Isso só prova que ele estava brincando comigo.
— Pelo amor né Han. Pare de tirar conclusões precipitadas.
— Precipitada? Olha o jeito que ele olha pra ela, como ele faz carinho no cabelo dela, como ele abraça ela. Está tudo muito claro pra mim.
— Só pra você. Pode ser qualquer coisa, pode ser uma amiga, uma prima, uma parente distante ou até uma ex que ele gosta como amiga e não tem absolutamente nada de errado nisso. Pode ser qualquer coisa mas você prefere criar cenários na sua cabeça ao invés de conversar com ele.
— Conversar? Pra que? Além de ser um mentiroso, ele não me deve satisfação.
— Até onde sei, você não terminou o namoro. Comunicação é tudo, não custa nada você ter uma conversa franca e adulta. Se o Lee Know for um babaca pelo menos você se livra logo.
— Não quero conversar com ele.
— Então pare de ficar sofrendo com suas fantasias doidas.
— Não tô sofrendo — Han fez bico e segurou o choro, odiava ver Lee Know sendo tão carinhoso com a moça.
— Claro que não — Disse Jeongin com sarcasmo.
Quando anunciaram que a peça iria começar, todos se encaminharam para seus devidos lugares. Para a infelicidade de Jisung, Lee Know estava sentado na fileira ao lado, e bastava inclinar um pouco a cabeça para vê-lo. Foi exatamente o que fez, diversas vezes, disfarçadamente.
Na primeira espiada, viu Lee Know sentado ao lado da moça bonita de cabelos pretos. Eles conversavam e riam animadamente, e para Jisung aquilo parecia mais do que uma simples amizade. Na sua cabeça, eles eram um casal que tentava esconder um relacionamento. Na segunda espiada, viu que Lee Know segurava a mão dela, admirando o anel em seu dedo. Seu coração apertou ao notar que se tratava de uma aliança de casamento. O choque foi imediato. Não era possível que Lee Know estivesse comprometido esse tempo todo.
Na terceira espiada, outra moça apareceu. Dessa vez, uma loira sorridente que fazia gestos exagerados ao falar, mas que, de alguma forma, ainda conseguia ser fofa e delicada. Ela se sentou do outro lado de Lee Know e agarrou seu braço com uma intimidade absurda. Jisung começou a sentir o sangue ferver. Começava a se questionar se Lee Know estava, na verdade, em um trisal. Respirou fundo, se acomodou melhor na poltrona, fechou os olhos e tentou acalmar seu coração, mas não conseguiu.
Olhou novamente, e dessa vez, Lee Know também estava olhando para ele. Quando seus olhares se encontraram, Lee Know sorriu. Um sorriso genuíno, sereno e sincero. E naquele instante, toda a raiva, os ciúmes e as dúvidas sumiram do coração de Jisung. Ao menos aquele sorriso nunca mentiu.
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