Lies

22 Script?



Todos aguardavam ansiosamente pelo início da peça de teatro mais esperada do semestre. O auditório estava lotado, e o burburinho das conversas preenchia o ambiente com uma atmosfera de expectativa.

Seungmin, o roteirista da peça, havia trabalhado incansavelmente no projeto, que abordava uma temática LGBTQIA+ de forma sensível e envolvente. O enredo era emocionante, repleto de reflexões sobre amor, identidade e aceitação, e seria apresentado como parte de seu projeto semestral.

No entanto, encontrar atores dispostos a interpretar os protagonistas gays não havia sido tarefa fácil. O roteiro incluía um beijo entre os personagens masculinos, e muitos rapazes recusaram o papel. Para não comprometer a realização da peça, Changbin, seu amigo de longa data, prontamente se ofereceu para ajudá-lo.

Agora, com tudo pronto e os holofotes prestes a se acender, Seungmin sentia o coração bater acelerado. Aquela não era apenas uma peça, era a realização de algo importante para ele. E com Changbin ao seu lado, sabia que estavam prestes a entregar uma apresentação memorável.

Atrás das cortinas, Seungmin e Changbin aguardavam ansiosos, trocando olhares cúmplices enquanto tentavam controlar a adrenalina que pulsava em seus corpos.

Nos bastidores, a movimentação era intensa. Uma aluna do curso de Publicidade retocava suas maquiagens, garantindo que estivessem impecáveis para as fotos que seriam usadas nas artes do making of. Próximo dali, um rapaz do T.I ajustava os últimos detalhes do som, enquanto a responsável pela Cenografia fazia a checagem final das luzes, certificando-se de que tudo estava perfeito para o espetáculo.

Ao redor, vários alunos de Fotografia ajustavam suas câmeras, preparando-se para registrar cada momento da peça, tanto em fotos quanto em vídeo. A peça não era apenas um projeto de Seungmin, era um trabalho coletivo onde cada aluno, de diferentes cursos, contribuía para tornar a apresentação inesquecível.

Respirando fundo, Seungmin fechou os olhos por um instante, absorvendo toda a energia ao seu redor. Era agora ou nunca.

— Nervoso? — perguntou Changbin.

— Um pouco — Seungmin sorriu, mas estava tremendo.

— Vai dar tudo certo, Minnie — Changbin pegou em sua mão e a beijou com delicadeza.

— Obrigado, Binnie. — Seungmin murmurou, lançando um olhar cheio de gratidão para o amigo.

Às vezes, um simples toque de Changbin fazia seu coração acelerar ainda mais, aumentando sua tensão. Mas, em momentos como aquele, era seu maior calmante.

Quando as cortinas se abriram e a peça começou, o silêncio tomou conta do auditório. O público foi instantaneamente cativado, mergulhando na trama emocionante que se desenrolava no palco.

A história do casal protagonista era intensa e real, mostrando a luta contra o preconceito, o ódio e a homofobia, ao mesmo tempo em que explorava o amor genuíno que existia entre eles. Cada cena era carregada de emoção e significado, e a entrega de Changbin e Seungmin tornava tudo ainda mais envolvente.

Seungmin não conseguiu segurar a emoção em diversos momentos da peça, e isso tornou a apresentação ainda mais intensa. O público sentiu cada palavra, cada gesto, cada lágrima derramada no palco, e logo muitos na plateia choravam junto com ele.

Mas agora, o clímax da peça se aproximava — o beijo final e a tão esperada declaração de amor.

Seungmin respirou fundo, tentando controlar os nervos. Haviam ensaiado essa cena inúmeras vezes, mas era diferente diante de uma plateia lotada. Claro que, em muitos dos ensaios, ele havia "errado" propositalmente, só para repetir o beijo diversas vezes. Noventa por cento das falhas foram intencionais, um pequeno privilégio que aproveitou ao máximo. O mais engraçado era que Changbin nunca reclamou disso. Pelo contrário, parecia não se importar nem um pouco.

Agora, ali no palco, com os holofotes brilhando sobre eles e centenas de olhares atentos, não havia mais espaço para erros ensaiados. Era o momento da verdade.

O público foi levado por uma montanha-russa de emoções ao longo da peça. Riram nos momentos leves, choraram com as dores dos personagens, sentiram raiva do preconceito e suspiraram ao ver o amor florescendo.

Cada abraço, cada toque e cada olhar trocado entre Seungmin e Changbin carregava tanta sinceridade e intensidade que muitos começaram a se perguntar se eles eram simplesmente atores incríveis ou havia algo real ali.

Quando o momento decisivo chegou, Changbin segurou as mãos de Seungmin, seus dedos entrelaçados com firmeza, como se quisesse dizer que não soltaria por nada.

Seus olhos brilhavam com ternura ao encará-lo. E então, num gesto inesperado, Changbin se aproximou e depositou um beijo suave na testa de Seungmin. Um beijo delicado, íntimo, carregado de algo que nem o melhor dos roteiristas poderia prever. Aquilo não estava no script.

— Eu não posso mais controlar isso — Changbin começou suas falas, Seungmin arqueou as sobrancelhas, não era aquilo que tinha escrito — Não posso mais controlar o que sinto por você. Eu tentei ser só seu amigo, tentei de verdade, mas não consigo. Cada vez que você olha pra mim, meu coração acelera e denuncia o óbvio que meu cérebro tenta camuflar. Você tem noção do quanto você ocupa meus pensamentos? Do quanto você é dono do meu coração? Do poder que você tem sobre mim? — Tentei esconder isso por medo de perder sua amizade, mas eu não aguento mais. — A voz de Changbin tremia levemente, carregada de emoção. — Não aguento mais fugir, não aguento mais fingir que posso gostar de outras pessoas só para tentar diminuir esse amor absurdo que sinto por você… — Ele respirou fundo, seus olhos brilhando com uma intensidade que Seungmin nunca havia visto antes. — Eu só quero você. Eu te amo, Seungmin.

Seungmin arregalou os olhos, seu corpo inteiro congelado. Por um segundo, sua mente tentou racionalizar a situação. Changbin tinha confundido seu nome com o do personagem?

O olhar dele não era de atuação, a forma como sua voz quebrou no final não parecia ensaiada. Mas Seungmin não teve tempo de processar. O espetáculo precisava continuar, mas ele sequer lembrava suas falas. Todo o roteiro que havia treinado desmoronou em questão de segundos, porque Changbin tinha acabado de alterar toda a cena. Parecia que ele estava improvisando.

Antes que pudesse reagir, sentiu mãos firmes segurando sua cintura e o puxando para perto. Seu coração disparou violentamente. O beijo. Eles já tinham ensaiado tantas vezes, mas dessa vez, parecia diferente.

Os segundos que antecederam o beijo pareciam se desenrolar em câmera lenta, como se o tempo tivesse desacelerado apenas para eles.

Aquela cena era muito mais do que teatro, muito mais do que qualquer ensaio. Era real. A plateia, o palco, as luzes, nada mais existia. Apenas eles dois, presos naquele instante que parecia suspenso no ar.

O silêncio preencheu o espaço entre eles, abafando qualquer som externo. Só conseguiam ouvir as batidas aceleradas de seus próprios corações, ritmadas como se chamassem um ao outro.

Changbin se aproximou ainda mais, os olhos refletindo um turbilhão de sentimentos. E então, com delicadeza, selou seus lábios aos de Seungmin em um beijo terno e genuíno. Tão puro e sincero. Seungmin sentiu os olhos marejarem, seu peito apertou. Queria dizer o quanto amava Changbin. O quanto sempre o amou. E o quanto iria amá-lo para sempre.

Quando se separaram, um silêncio absoluto pairou sobre o auditório. A plateia prendia a respiração, absorvendo o impacto daquele momento. O beijo, tão representativo, tão cheio de significado, parecia transcender a cena, ganhando vida própria. Aos olhos alheios, parecia incrivelmente real. E, na verdade, era.

Seungmin ainda sentia o gosto do beijo nos lábios, seu peito explodia em emoção, e seu rosto corado denunciava a felicidade que transbordava dentro dele. O sorriso apaixonado que estampava seu rosto era impossível de conter.

Changbin havia abandonado o roteiro há muito tempo. Nada daquilo estava no script. A declaração, as palavras carregadas de emoção, não foram escritas por Seungmin. E talvez esse fosse o detalhe mais importante de toda aquela peça. Porque, pela primeira vez, Changbin estava falando diretamente do coração.

Depois do beijo, da declaração e da troca de olhares intensos que fizeram o público prender a respiração, os dois sorriram um para o outro. Um sorriso cúmplice, carregado de algo que nenhum deles conseguia nomear naquele instante.

Mas então, Seungmin caiu em si. Aquilo era bom demais para ser verdade. Seu coração dizia que era real, mas sua mente tentava encontrar uma explicação lógica. Talvez Changbin tivesse travado, talvez tivesse esquecido as falas e improvisado na hora.

Seungmin não podia se permitir acreditar em algo além da atuação. Então, decidiu seguir o jogo. Se Changbin improvisou, ele faria o mesmo. Ainda com o coração acelerado, ajustou sua expressão e retomou o controle da cena, guiando o momento de volta para o roteiro.

Por fim, de mãos dadas, seguiram para a frase final.

— Juntos? — perguntou Changbin.

— Juntos. — respondeu Seungmin.

As cortinas caíram, e o público foi ao delírio. O auditório explodiu em aplausos ensurdecedores, acompanhado de gritos entusiasmados, ovacionando cada detalhe da peça. Alguns pediam por mais, outros simplesmente batiam palmas sem parar, incapazes de conter a emoção.

O elenco voltou ao palco, recebendo o carinho da plateia com sorrisos e reverências graciosas. A felicidade transbordava nos rostos dos atores, cada um deles sentindo o peso da realização. No meio de tudo, Seungmin e Changbin se olharam, compartilhando um sorriso cúmplice, um sorriso de alívio e vitória. Tinham feito um bom trabalho. A peça foi um sucesso, e tudo correu perfeitamente bem.

Enquanto Changbin sorria, acenando para o público, imerso na energia vibrante do momento, Seungmin não conseguia tirar os olhos dele. Discretamente, o observava, seu coração inquieto, admirado, apaixonado… e esperançoso. Se perguntava se aquelas palavras de Changbin foram apenas um improviso bem-feito ou se carregavam a verdade que Seungmin sempre sonhou em ouvir.

…

Jeongin não era alguém que se emocionava facilmente, mas a peça que acabara de assistir deixou uma sensação estranha em seu peito. Quase uma inquietação.

Sem pensar muito, pegou o celular, sentindo uma súbita vontade de mandar mensagem para Hyunjin. Queria saber o que ele estava fazendo, se estava bem, talvez jogar conversa fora com assuntos aleatórios, sem muita importância.

A relação deles era perfeita, pelo menos do ponto de vista de Jeongin. Eles eram amigos, colegas de trabalho… e amantes. Basicamente, amigos com benefícios. Nada de cobranças. Nada de expectativas. Nada de compromisso. Quando tinham vontade de transar, eles transavam. Se procuravam e saciavam seus desejos. Sem complicações. Sem rótulos. Era perfeito.

Ou seria, se não houvesse aquela sensação incômoda de que algo estava faltando.

Depois que Hyunjin o pediu em namoro logo no início e Jeongin recusou por medo, nunca mais tocaram diretamente no assunto. Pelo menos, não de forma explícita.

Hyunjin, no entanto, sempre deixava escapar aqui e ali seus desejos de ter algo sério, soltando comentários sutis. Jeongin sempre se esquivava, fugindo das entrelinhas, se agarrando à ideia de que continuar solteiro era o melhor caminho. Pelo menos, era o que tentava acreditar.

Até que um dia, a máscara caiu. Jeongin adoeceu, e Hyunjin, como sempre, apareceu em sua casa sem nem precisar ser chamado, pronto para cuidar dele. E Jeongin, fraco, febril e sem forças para erguer suas muralhas emocionais, acabou cedendo. Naquela noite, eles dormiram de conchinha. E, mesmo que o calor da febre o dominasse, Jeongin se lembrava da sensação nítida do corpo de Hyunjin colado ao seu, do jeito instintivo como se encaixaram.

Sorriu sozinho, um pouco envergonhado, ao lembrar de como foi ridiculamente fofo e carente naquela noite. E, mais do que isso… como foi bom.

Jeongin digitou uma mensagem simples, sem pensar muito:

"Boa noite, Hyun."

Não esperava uma resposta imediata, mas seu telefone tocou quase que instantaneamente. Era Hyunjin.

Ele olhou para Han, que imediatamente fez uma careta ao ver o celular tocando, claramente descontente por ter que ficar sozinho naquele momento. A peça tinha acabado, mas muitas pessoas ainda estavam se dispersando, e Han tinha um receio óbvio de esbarrar em Lee Know e sua suposta nova namorada perfeita.

Jeongin percebeu a expressão azeda do amigo, mas ignorou solenemente, segurando o riso.

— Não vai morrer se ficar sozinho por dois minutos, Hannie.

E, sem esperar resposta, se afastou para atender a ligação.

— Boa noite, minha raposinha — disse Hyunjin com sua voz suave de sempre, Jeongin conteve o sorriso.

— Boa noite, Hyun. Só queria ver como você está… não nos falamos hoje e… enfim…

— Sentiu minha falta, né?

— Sim claro, estava morrendo de saudades, quase chamei o SAMU pra me levarem pro hospital de tanto que eu estava morrendo.

Hyunjin deu risada, estava acostumado com a forma como Jeongin tentava sempre esconder o que realmente sentia.

— Eu também senti sua falta, Innie. Não te liguei antes porque sei que estava assistindo a peça de teatro na sua faculdade, ia te ligar depois mas parece que minha raposinha não estava se aguentando de saudades — Hyunjin riu.

— Muito engraçado — respondeu Jeongin tentando parecer desinteressado mas a verdade era que sentia um frio na barriga cada vez que Hyunjin sorria ou dizia algo.

— Innie, posso ir te ver?

Jeongin franziu a testa, pego de surpresa.

— Agora?

— Sim. Você vai sair? Se for pra casa, posso ir ficar com você? Nada demais, só pra jogar conversa fora.

Hyunjin soava casual, mas Jeongin conhecia aquele tom de voz. Era um convite. E, pior, era exatamente o que ele queria.

Por um momento, quase cedeu sem pensar, mas se lembrou da pilha de trabalho esperando por ele. Mesmo num fim de semana, tinha prazos a cumprir. Precisava terminar sua proposta para entregar a Felix na segunda-feira, e sabia que se Hyunjin fosse até lá, não conseguiria se concentrar em absolutamente nada.

Devido ao término de Lee Know e Han, Jeongin acabou se envolvendo demais na assistência ao amigo, o que o deixou atrasado com seu projeto.

Ou seja, não teria tempo para distrações. E, definitivamente, não teria tempo para sexo.

Ele mesmo havia estipulado essa regra, de que só permitiria a presença de Hyunjin em sua casa se fosse com esse intuito, nada de encontros casuais, nada de momentos banais. Só se encontrariam para transar e satisfazer seus desejos carnais. Era pra ser assim. Mas algo dentro dele gritava, o impulsionando a dizer sim.

Podia simplesmente pedir a ajuda de Hyunjin. Afinal, ele era inteligente, por mais que seu jeito dramático e infantil às vezes camuflasse isso.

Para quem não o conhecesse e só o visse no ambiente de trabalho, jamais imaginaria que era um simples faxineiro. Hyunjin tinha cara de executivo, não apenas pela aparência, que exalava sofisticação, mas pela postura impecável e pelo olhar analítico. E Jeongin sabia que ele entendia de negócios.

Hyunjin fazia observações afiadas, comentários que demonstravam um conhecimento aprofundado no ramo. Quase como se tivesse nascido para aquilo.

Jeongin sentiu que talvez pudesse pedir sua ajuda, mas sua mente logo o bombardeou com pensamentos contraditórios.

"Você é só um parceiro de foda"

"Você mesmo se colocou nesse lugar, Jeongin."

A racionalidade tentava lhe impor barreiras, mas a verdade era que não tinha nada a perder.

Se não entregasse um projeto impecável, sua chance de crescer na empresa poderia escapar por entre os dedos.

E se Hyunjin se recusasse a ajudá-lo? Bem, ao menos teria tentado.

— Sim, Hyun. Vou te esperar. E… eu posso te pedir uma coisa?

— Qualquer coisa! — Hyunjin não conseguiu esconder o entusiasmo.

— Você pode me ajudar em um projeto da empresa? É coisa rápida, juro que não vou te encher muito.

— Meu Deus, é um prazer poder te ajudar em alguma coisa — Hyunjin sorriu de orelha a orelha. Finalmente Jeongin estava dando brecha pra terem momentos além de sexo. Seu desejo sempre foi ter uma relação mais sólida. Porém, Jeongin sempre o afastava, sempre criava barreiras entre eles — Tô indo pra sua casa agora mesmo!

Antes que Hyunjin praticamente desligasse o telefone na sua cara, Jeongin ainda pôde ouvir um barulho alto do outro lado da linha. Um tropeço seguido de algo se quebrando. Hyunjin realmente saiu correndo para ir até sua casa.

Jeongin sorriu, sentindo algo diferente crescer dentro dele. Não era só tesão. Era mais profundo, mais caloroso, mais significativo. Ele se perguntava se, pela primeira vez, estava experimentando o amor.