Lies

16 Sunshine Protector



Bang Chan acordou disposto naquele dia. Ele sabia que aquela noite seria decisiva. Tinha marcado de ir até a casa de Felix e, finalmente, iria contar a verdade sobre seu filho.

Não sabia como Felix reagiria. Não sabia se ele ficaria bravo, magoado, ou até mesmo se iria terminar com ele. Mas, independentemente do que acontecesse, Chan sabia que precisava contar a verdade o quanto antes.

A mentira já pesava sobre seus ombros, e ele não aguentava mais esconder algo tão importante da pessoa que amava. Ele refletiu sobre isso o dia inteiro.

Claro, era um risco. Mas ele não poderia, de forma egoísta, continuar mentindo só para manter Felix ao seu lado. Isso não era amor.

Felix merecia a verdade. E por mais difícil que fosse, nem sempre fazer a coisa certa é fácil. Mas no fim, fazer a coisa certa sempre traria paz à alma. E Chan precisava dessa paz mais do que qualquer coisa.

O encontro com Felix seria apenas à noite, então Chan decidiu aproveitar a tarde para passar no shopping e comprar algumas coisas para seu filho, Ryan.

Queria escolher as melhores roupinhas, algo confortável e fofo para seu pequeno. Ele passou um bom tempo explorando a loja infantil, pegando cada peça minúscula com um sorriso bobo nos lábios. Era impossível não se encantar com cada detalhezinho das roupas, os macacãozinhos, os sapatinhos minúsculos, os bodys com estampas engraçadas.

Seu sorriso se alargava a cada nova descoberta. E, claro, as mães da loja não deixaram de notar. Todas olhavam para ele — um homem lindo escolhendo roupinhas de bebê com tanto carinho. Os olhares eram de pura admiração e, talvez, um pouco de inveja da suposta esposa que tinha um marido tão dedicado.

Depois de encher algumas sacolas, Chan marcou de encontrar Ruby no estacionamento do shopping para entregar as compras. Ruby tinha uma reunião de negócios ali perto, então seria mais prático para ambos se encontrarem rapidamente antes de seguirem com seus compromissos.

Chan ficou parado por um momento, olhando ao redor à procura dela. Até que um carro vermelho buzinou para ele. Ele olhou na direção do som e viu Ruby no volante. Acenou para ela, que logo estacionou o carro ao seu lado e saiu para cumprimentá-lo.

— Ruby, como você está? Ryan está bem? Comprei um monte de roupinhas fofas pra ele — Ele abriu uma das sacolas e mostrou uma roupinha de marinheiro. Ruby sorriu ao ver a empolgação de Chan.

— Estou bem, obrigada. Ryan também. Ele tá com meu pai enquanto trabalho. Já falou com Felix sobre o jantar? Quero muito que ele venha.

Bang Chan engoliu em seco. Ele sempre admirou a forma como Ruby lidava com toda aquela situação. Desde o começo, ela deixou claro que não queria ser um obstáculo para a relação dele com Felix. Nunca tentou interferir, nunca fez drama. Ela sabia que o que teve com Chan foi algo bonito, mas também sabia que ficou no passado. Mais do que tudo, Ruby não queria ser motivo de rivalidade entre ela e Felix.

Mas o que ela não imaginava, era que Chan ainda não tinha contado nada para Felix. Na cabeça dela, isso já deveria ter sido conversado logo no início. Afinal, uma verdade tão importante não era algo para se esconder.

— Sim, sim — Chan sorriu sem graça — Ele só está um pouquinho ocupado, mas vou chamá-lo sim.

Ruby arqueou as sobrancelhas, a atitude de Chan sempre quando ela falava de Felix era estranha.

— Seja como for, quando chamá-lo me avise e me passe o que ele gosta de comer, terei o enorme prazer de preparar algo gostoso — Ruby guardou as sacolas no carro e olhou novamente para Chan — Muito obrigada Chan, você está sendo um excelente pai.

— Não precisa me agradecer, adoro mimar o Ryan — Chan sorriu e a abraçou.

…

Felix dirigia enquanto Hyunjin não parava de falar sobre coisas aleatórias e sem importância.

— Ainda está com esse plano idiota de se fingir de faxineiro pra espionar os colaboradores?

— Não é pra espionar, ok? É um estudo. Tenho boas intenções.

— Você nunca tem boas intenções — Felix revirou os olhos.

— Nossa, Lix. Quem vê pensa que eu sou um ser humano horrível.

— Em nenhum momento eu disse que você é um ser humano.

Hyunjin fez cara de choro quando Felix começou a rir. Ele sempre caía nas provocações de Felix, justamente porque ele falava tão sério que parecia verdade.

Felix e Hyunjin decidiram almoçar juntos e escolheram um restaurante no shopping, um dos favoritos de Felix. O clima estava leve, descontraído. Felix não via a hora de encontrar Chan à noite, e Hyunjin estava animado com a comida.

Mas, assim que chegaram ao estacionamento, tudo congelou. Ambos ficaram estáticos com a cena que se desenrolava diante deles. Bang Chan estava ali, parado em frente a um carro vermelho, abraçando uma mulher.

Felix sentiu o peito apertar, os olhos fixos na imagem à sua frente. Ele não conseguia se mover. Não conseguia falar. O abraço não parecia apenas amigável. Parecia íntimo. Demorado demais. Ao seu lado, Hyunjin começou a ficar vermelho de raiva.

— Mas que droga é essa? — ele exclamou, cerrando os punhos.

Felix continuava em silêncio. Um turbilhão de pensamentos passava por sua mente, mas ele não conseguia processar nada direito. Tudo o que conseguia fazer era olhar para Chan e se perguntar o que estava acontecendo.

— Eu vou matar esse filho da puta — Estava com tanta raiva que a voz saiu cortada devido a mandíbula rígida.

Felix segurou seu braço quando ele ia sair do carro.

— Não.

— Felix, nós precisamos tomar uma satisfação. Eu não acredito que ele está fazendo isso. Ah não, eu tô muito puto.

— Hyun, por favor — Hyunjin estava com tanta raiva que não tinha percebido que Felix estava chorando, e ver ele chorando o destruía por dentro.

— Tudo bem. Só vamos pra casa. Amanhã nós resolvemos isso.

Depois que Chan e a mulher foram embora, Hyunjin não pensou duas vezes antes de trocar de lugar com Felix e assumir o volante.

Ele não deixaria Felix sozinho naquele estado. Dirigiu direto para sua casa, lançando olhares preocupados de tempos em tempos, mas respeitando o silêncio absoluto que dominava o carro.

Felix apenas olhava para a janela, imóvel, como se tentasse processar tudo o que tinha acabado de ver.

Hyunjin queria explodir, queria xingar Bang Chan o mais alto que pudesse, queria dizer que ele era um canalha e que Felix merecia muito mais. Mas, se conteve. Ele sabia que Felix precisava de silêncio naquele momento.

Assim que chegaram, Felix foi direto para o banheiro e tomou um banho demorado.

Hyunjin suspirou. Ele sabia que seu amigo estava chorando debaixo do chuveiro. Mas decidiu deixá-lo quieto. Felix sempre foi orgulhoso, sempre segurou suas emoções até onde pôde.

Hyunjin conhecia bem o suficiente para saber que ele não iria comer nada naquela noite. Então, preparou o chá favorito de Felix.

Quando saiu do banheiro, vestindo um moletom largo e confortável, Hyunjin sentiu um aperto no peito. Aquela era a roupa oficial da lamentação. Felix nunca usava roupas informais. Estava sempre impecável em ternos bem alinhados, camisas elegantes, até mesmo os pijamas pareciam saídos de um editorial de moda.

Mas agora, ali estava ele, em um moletom folgado, os cabelos ainda úmidos, os olhos vermelhos e a expressão cansada. E foi nesse momento que Hyunjin percebeu: Felix não estava apenas magoado. Ele estava quebrado.

Hyunjin sorriu para o amigo, tentando passar um mínimo de conforto, mas Felix… desmoronou. Toda a sua postura imponente, sua elegância impecável, sua frieza calculada, tudo isso se desfez num instante. Agora, ele parecia pequeno. Parecia uma criança triste e chorona, frágil como nunca antes.

Felix caminhou até Hyunjin sem dizer nada e se sentou ao seu lado. E então, lentamente, deitou a cabeça em seu colo, puxando para si a coberta que Hyunjin tinha separado.

Ali, no silêncio da sala, ele chorou amargamente. Seus ombros tremiam, os soluços eram pesados, e cada lágrima que escorria carregava um pedaço da dor que Felix tentava segurar.

Hyunjin não disse nada. Não tentou consolá-lo com palavras vazias. Não pediu para que parasse de chorar. Felix precisava daquele momento. Precisava sentir a dor, viver cada parte dela, para então renascer. A única coisa que Hyunjin fez foi deslizar os dedos pelos cabelos loiros de Felix, num carinho lento e contínuo. Isso era tudo o que Felix precisava agora.

Felix pegou no sono, cansado de tanto chorar, dormia profundamente, exausto pela carga emocional que tinha enfrentado.

Hyunjin, por outro lado, não conseguia ficar parado. Ele não era como Felix, que segurava a dor em silêncio. Não tinha sangue de barata. Sua mente fervia de raiva, seu corpo estava inquieto, e ele precisava fazer algo.

Então, deixou um bilhete rápido para Felix, dizendo que ia ao mercado. Pegou as chaves do carro e dirigiu diretamente para a casa de Bang Chan.

Ele precisava de respostas.

Ao chegar, tocou a campainha e esperou. Quando a porta se abriu, Chan apareceu com um sorriso animado, surpreso com a visita inesperada.

— Hyun!

Mas antes que Hyunjin pudesse sequer pensar direito, sua raiva tomou conta. Seu punho fechou instintivamente. E, sem hesitação, ele desferiu um soco certeiro no rosto de Chan. O impacto fez Chan dar um passo para trás, segurando a mandíbula, completamente atordoado.

Os olhos de Hyunjin estavam em chamas.

— HYUN É O CARALHO! — Ele gritou, os dentes cerrados de pura fúria. — Você vai me explicar AGORA que porra tá fazendo com o Lix!

Chan ainda tentava entender o que tinha acabado de acontecer.

Hyunjin avançou um passo, o olhar letal. Se tratando de Felix, ele atirava primeiro e perguntava depois. A relação deles era mais forte que a de irmãos. Mais forte que a de um casal. Estava acima disso. Como Hyunjin sempre dizia, eles eram alma gêmeas que não necessariamente precisavam ter sentimentos românticos.

Hyunjin não deixaria barato.

— Hyunjin, o que está acontecendo? — Chan levou a mão ao rosto dolorido, ainda tentando entender a situação.

Hyunjin entrou sem pedir permissão, fechando a porta atrás de si com um movimento firme.

Seu olhar era frio. Cortante.

— Começa a falar — Sua voz era grave, carregada de frustração — Se explique, se é que isso tem explicação. Seja como for, eu quero ouvir da sua boca.

Ele cruzou os braços, esperando.

— Você está traindo o Lix?

A pergunta caiu no ambiente como um tiro à queima-roupa. Chan sentiu o peito apertar. Ele tinha um plano. Ia contar tudo para Felix naquela noite, do jeito certo. Ia sentar com ele, explicar com calma, evitar qualquer mal-entendido.

Mas agora tudo tinha saído do controle. Se Hyunjin sabia, isso significava que Felix também sabia. E tudo o que ele mais temia tinha acontecido. A mentira foi longe demais. E esperar tanto para contar a verdade trouxe consequências graves.

Chan respirou fundo, tentando manter a calma. Seus olhos encontraram os de Hyunjin, que o encarava com pura expectativa. Ele precisava falar. E, dessa vez, não havia mais como fugir.

Notas finais
E agora Chan???? Isso que dá demorar demais para resolver as coisas. Hyun é bem nós, Stays, quando alguém fala dos meninos kkkkkkk