Lies
17 Hipocrisia

Com os braços cruzados e uma expressão carregada de incerteza, Hyunjin ouvia atentamente cada palavra de Bang Chan. Tentava processar tudo aquilo, mas sua mente ainda estava um turbilhão.
Um filho.
Aquilo era sério. Muito sério.
E, naquele momento, ele percebeu que essa situação já estava além do seu controle.
No fim, só Felix poderia decidir o que fazer a partir dali. E Hyunjin respeitaria qualquer escolha que ele fizesse.
— Não tenho o direito de te julgar. Sei que sou só o amigo de Felix, mas não posso permitir que você continue mentindo para ele. Se não contar o quanto antes, eu conto.
— Eu vou contar. Eu mesmo quero contar pra ele. Estava nos meus planos contar hoje à noite. Mas aconteceu tudo isso — Chan suspirou tristemente.
— Felix te ama demais e é por isso que ele está sofrendo tanto. Seja o que for que ele decida eu vou apoiá-lo.
— Está certíssimo e agradeço por você cuidar tão bem do Lix. Vou resolver isso com ele, não quero mais machucá-lo e o que ele decidir vou respeitar.
…
Hyunjin acordou naquele dia imerso em pensamentos sobre tudo o que havia acontecido entre Chan e Felix. Claro, ele sabia que não poderia mais se intrometer. No fim, as decisões cabiam apenas ao casal.
Felix estava arrasado com a suposta traição, mas Hyunjin também sabia o quanto ele era forte. E, quando Chan explicasse tudo, Felix provavelmente entenderia. Mas continuar o relacionamento depois disso já era algo que nem mesmo Hyunjin sabia dizer se o amigo seria capaz de fazer.
Ele não estava torcendo nem para o fim, nem para a continuidade da relação entre os dois. O que mais importava para ele era ver Felix feliz. E se estar com Chan ainda fosse o que o fazia feliz, então Hyunjin o apoiaria, sem hesitação.
Hyunjin olhou pela janela do quarto. Lá fora, o sol brilhava intensamente, iluminando cada detalhe do jardim. As cores das flores pareciam ainda mais vibrantes sob a luz dourada da manhã, como se estivessem agradecendo pelos agradáveis raios solares.
Ele suspirou, sentindo um peso se instalar em seu peito. Agora começava a se dar conta de algo desconfortável. Estava agindo exatamente como Bang Chan. E a verdade era que, depois de tudo, ele próprio não era tão diferente assim. O soco que havia dado em Chan parecia muito hipócrita. Porque, no fundo, ele também estava mentindo.
Embora sua relação com Jeongin não fosse como a de Chan e Felix, ainda assim era uma mentira.
Hyunjin balançou a cabeça negativamente, um suspiro frustrado escapando por seus lábios ao se lembrar do que tinha feito. Ele tinha pedido Jeongin em namoro no calor do momento. E agora aquilo parecia um erro. Como poderia começar uma relação baseada em mentiras?
Isso definitivamente não daria certo.
Precisava contar a verdade. E precisava fazer isso antes que a mentira crescesse como uma bola de neve. Ou pior, antes que acontecesse um mal-entendido tão grande quanto o de Chan e Felix.
…
Na manhã seguinte, Hyunjin chegou mais cedo ao edifício onde trabalhava. Ele sabia que Jeongin tinha o hábito de chegar antes do horário para tomar seu café duplo sem açúcar tranquilamente, aproveitando os poucos minutos de paz antes do expediente começar. Seria a ocasião perfeita para conversar com ele.
Ao avistá-lo de longe, sentiu o coração dar um leve solavanco. Então, seu sorriso se alargou. Jeongin estava ali, sentado à mesa com seu café em mãos, folheando alguns papéis. E, como sempre, estava impecavelmente bonito.
— Innie! Bom dia, como você está? — Hyunjin tocou seu ombro amigavelmente, embora quisesse abraçá-lo e beijá-lo.
— Oh, Hyun! Bom dia — Jeongin sorriu com a animação dele — Estou bem e pelo visto você também. Acordou animado?
— Não. Mas quando eu te vejo é como se todos os problemas do mundo não existissem.
— Meu Deus, flerte logo de manhã? Espera eu tomar meu café pelo menos. Bom que nem preciso pôr açúcar no café.
— Eu sou um docinho mesmo — Hyunjin sorriu — Mas… mudando de assunto… será que você teria um tempinho pra gente conversar com mais calma? De preferência não aqui.
— Sim, sem problemas. Podemos ir pra minha casa conversar com calma e depois podemos aproveitar a noite de forma… interessante.
— Seu pequeno safado.
— Pequeno? Hyunjin, nós somos exatamente do mesmo tamanho.
— É modo de falar, mocinho. É Porque você é muito fofinho.
— Ah, então você está usando o diminutivo só porque eu sou o cara passivo da relação?
— Innie — Hyunjin olhou choroso — Claro que não, jamais iria querer te diminuir. Juro que eu só queria ser fofo.
— Eu to brincando, seu bobo — Jeongin deu risada.
— É porque normalmente você é sincero e fala o que pensa, fiquei até com medo.
— Claro, não preciso mentir, nós dois sabemos que se tivéssemos um relacionamento sério, por mais que eu fosse o passivão, quem mandaria nessa bagaça seria eu. Aliás, precisamos rever esse conceito de que eu sou o passivo.
— Não tenho problema nenhum em experimentar algo novo.
— Bom saber.
Enquanto conversavam animadamente, Hyunjin percebeu a súbita mudança na expressão de Jeongin quando um rapaz se aproximou. A transformação foi instantânea. O brilho nos olhos de Jeongin desapareceu, sua postura ficou mais rígida e seu sorriso sumiu completamente. Hyunjin franziu o cenho, atento.
O rapaz, aparentemente um colega de trabalho, perguntou algo sobre a reunião que aconteceria mais tarde. Jeongin respondeu de forma seca, curta, sem o mínimo interesse. Algo incomum. Hyunjin conhecia bem a personalidade singular de Jeongin. Ele era direto, sem muitos filtros, mas no ambiente de trabalho sempre foi extremamente educado, tanto com os superiores quanto com os colegas. Por isso, aquela frieza repentina o intrigou.
— Quem é esse? — Perguntou Hyunjin quando o rapaz saiu.
— Um babaca de merda que trabalha comigo.
Hyunjin arregalou os olhos.
— Ele fez algo pra você? — Hyunjin já elaborava a demissão do rapaz.
— É um riquinho bosta que constantemente faz questão de me humilhar devido ao meu status social. Acredita que esses dias ele me constrangeu na frente de todos porque eu não tenho condições de comprar um terno novo para vir trabalhar com um diferente todos os dias? Máquina de lavar pra que né? — Jeongin revirou os olhos — Esse cara me tira do sério. Mas isso é o de menos. Ele me inferniza porque segundo ele eu não deveria ser o braço direito do Senhor Felix, pois essa vaga é dele. Mas, eu lamento que o dinheiro dele não seja capaz de comprar a sabedoria e agilidade que me possibilitaram ser escolhido pessoalmente pelo Senhor Felix para trabalhar com ele… Odeio esse cara, porco capitalista de merda.
Jeongin recuperou o fôlego e Hyunjin tentava controlar seu espírito explosivo. Sua vontade era ir lá e demitir o rapaz na frente de todos para humilhá-lo e defender Jeongin. Respirou fundo, sabia que essa não era a melhor atitude a se tomar.
— Você já conversou com o Lix sobre isso?
— Lix? — Jeongin estranhou aquela intimidade.
— Digo, com o Senhor Felix.
— Não quero levar isso pra ele como se eu fosse uma criança mimada que precisa dos pais pra resolver seus problemas. Acho que eu consigo lidar com aquele bostinha criado a bife passado na manteiga. Apesar da minha cara de rica, fui criado comendo terra e ralava o joelho no asfalto brincando de carrinho na rua. Ele escolheu a pessoa errada pra infernizar.
— Eu sei que vai conseguir lidar com isso. Você é um cara forte e foi isso que me atraiu a você. E também, é claro, a sua cara linda de rica — Hyunjin deu risada — Mas falando sério, Innie. Li uma vez em um livro que o avental é o escudo que colocamos todos os dias para o trabalho. Esse ambiente corporativo realmente não é fácil e às vezes parece que estamos em um campo de guerra. Sabe que pode contar comigo, não sou muito importante mas tenho contatos e posso te ajudar a resolver isso… ou podemos fazer parecer um acidente… Juro que não ia sugerir isso antes de conhecer o verdadeiro Innie. Às vezes você me assusta, de um jeito legal, claro. Tipo, quando te vi pela primeira vez não achei que você fosse tão… selvagem, tanto no trabalho quanto na cama.
— É porque eu ainda não te mostrei o que sei fazer com a língua.
— Alguma chance de me mostrar agora?
— Não, nenhuma. Daqui a pouco vou começar meu expediente, e atraso não faz parte do meu vocabulário.
— Por isso o Lix te adora — Hyunjin sussurrou.
— Hum?
— Nada não, só pensei alto aqui. Mas voltando ao assunto o-que-você-sabe-fazer-com-a-língua, estou deveras ansioso para essa noite.
— Mas você não disse que teríamos uma conversa? Você pareceu bem sério quando pediu isso.
— Pra falar a verdade não era nada — Hyunjin sorriu sem graça — Eu só estava arrumando uma desculpa pra ficar com você.
— Que bobagem, Hyun. — Jeongin disse com naturalidade. — Somos amigos de foda. Quando estou com vontade, eu te chamo para ir lá em casa. Isso é pra ser recíproco.
Hyunjin congelou por um instante, sentindo o peso daquelas palavras.
— Amigos de foda… — Ele repetiu, a voz desanimada.
Era isso o que ele significava para Jeongin? Ele deveria ter esperado por essa resposta. Desde o começo, tudo entre eles foi puramente físico. Mas ainda assim, doeu ouvir em voz alta.
Jeongin não estava errado. O que mais poderia esperar além de uma relação superficial baseada em um ótimo sexo? Mas o que realmente o incomodava era a distância emocional entre eles. Talvez Jeongin sentisse que não podia confiar nele. E, se esse fosse o caso, ele não podia culpá-lo.
Hyunjin queria contar a verdade. Parar com toda aquela encenação, aquela farsa que só o fazia sentir-se pior a cada dia. Mas o medo o travava. E, ironicamente, tudo o que julgou em Bang Chan agora recaía sobre ele. Sentia-se um completo hipócrita.
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