Lies

18 O peso da mentira



Bang Chan fitava a janela da sala, apreensivo. O céu estava azul, o dia claro iluminava suavemente o ambiente. Seria um dia perfeito para um passeio romântico no parque com seu namorado. Mas, ao invés disso, ele estava ali para esclarecer tudo com Felix.

O momento que vinha adiando por tanto tempo finalmente havia chegado. Ouviu passos no corredor e, segundos depois, Felix apareceu na sala, segurando duas xícaras de café. Ele entregou uma a Chan, que aceitou com um sorriso contido.

Mesmo chateado, Felix nunca perdia a compostura. Essa era uma das coisas que mais admirava nele.

Chan bebeu um gole do café, sentindo o calor descer pela garganta, e então pousou a xícara na mesinha de centro.

Não queria mais adiar aquilo. Seu objetivo era resolver tudo o quanto antes. Mesmo que Felix escolhesse terminar com ele, ao menos não precisaria mais esconder nada.

Levantou os olhos e encontrou o olhar fixo de Felix. Ele o observava com atenção, sem desviar nem mesmo quando levava a xícara aos lábios.

O silêncio pesava no ambiente. Chan limpou a garganta, esfregando as mãos contra os joelhos, incapaz de esconder o nervosismo. Felix percebeu, mas não disse nada. Ele apenas esperou por uma verdade que já deveria ter sido dita há muito tempo.

— Lix, antes de mais nada eu quero pedir o seu perdão por tudo o que te fiz nesses últimos dias. Amo você e nunca quis te machucar, mas minha covardia te machucou e me arrependo por isso… Antes de mais nada, quero que fique bem claro que eu nunca te traí e jamais faria isso porque eu só quero você, só penso em você e só amo você. Mas entendo que tenha motivos para desconfiar depois de me ver abraçando uma mulher no estacionamento do shopping — Chan fez uma pausa, olhou pro chão e então continuou — Aquela mulher que você viu é a Ruby, minha ex namorada antes de te conhecer. Namoramos por três anos mas chegou uma hora que achamos melhor terminar a relação e cada um seguir seu rumo porque nós não nos amávamos mais… porém, algo aconteceu antes do término… Lix, não sei como te falar isso de um jeito menos chocante mas… eu sou pai.

Felix sentiu aquela informação atravessá-lo como um murro no estômago. Por mais que sempre tentasse manter a compostura diante de qualquer situação, aquilo era demais para ele.

Ele esperava qualquer coisa. Talvez até mesmo uma confissão de traição. Mas um filho? Isso, ele jamais havia cogitado.

Seu olhar permaneceu fixo em Chan, mas sua mente estava a mil. As palavras pareciam ecoar dentro dele.

— Um filho… — Felix murmurou, sua voz quase inaudível, carregada de perplexidade.

— Meu término com a Ruby foi tranquilo — Chan continuou —, nós éramos bons amigos, apesar de tudo. Antes de terminarmos nós tivemos uma última relação simbolizando uma despedida e foi aí que a Ruby engravidou, apesar de tomar pílulas contraceptivas. Ela foi embora para outro país quando terminamos, não me contou sobre a criança e teve o bebe por lá. Os pais dela a intimaram a contar para mim, já que eu também sou o pai. Então, há alguns meses atrás ela me contou… eu fiquei desesperado, em choque, um filho é algo sério. Por isso não tive coragem de te contar. Fiquei procrastinando, ensaiando como dizer e fui adiando até esse terrível mal entendido acontecer. Felix… eu sei que é difícil você aceitar isso e vou entender se quiser terminar comigo — Os olhos de Bang Chan estavam vermelhos, ele se segurava para não desabar em lágrimas — Me perdoe, Lix. Me perdoe por ter escondido. Você não merece ter passado por isso, sempre foi o namorado perfeito, compreensivo e sempre confiou em mim… mas eu estraguei tudo.

Felix permaneceu em silêncio. Seu coração batia forte, mas ele tentava se acalmar antes de dizer qualquer coisa. Estava terrivelmente magoado. Chan tinha escondido algo grande demais. Algo que mudava tudo. Mas, apesar disso, ele ainda o amava, e não queria deixar a mágoa fazer com que dissesse algo impensado.

Felix tentava processar tudo de forma racional, por mais difícil que fosse naquele momento. Levou a xícara aos lábios e tomou mais um gole do café. Seu gosto amargo parecia combinar com a sensação em seu peito. Então, calmamente, ele colocou a xícara sobre a mesinha de centro e finalmente olhou para Chan.

— Chan, eu não posso imaginar o quanto você ficou assustado, nunca estive nessa situação, mas sei que você não deve estar passando por um momento fácil porque filho é algo seríssimo. Você disse que seria difícil eu aceitar, mas eu não tenho problema algum com isso, muito menos tenho que te julgar pelo seu passado. O que me deixou triste foi você ter mentido para mim mesmo eu sempre demonstrando que podia confiar em mim pra qualquer coisa… eu teria te dado força, teria te ajudado, mas você preferiu fugir de mim — Felix olhava fixamente para Chan, mas ele desviou o olhar, envergonhado — Chorar pelo leite derramado não vai ajudar em nada agora. Eu só preciso de um tempo pra assimilar tudo isso.

— Sim, eu entendo perfeitamente e vou dar o espaço que precisa, mas não vou desistir da gente. Te amo demais, Lix. Quero te reconquistar.

— Você não precisa me reconquistar. Ninguém deixa de amar do dia pra noite, eu ainda amo você. Só preciso colocar minha cabeça no lugar — Felix segurou seu braço com delicadeza e sorriu, seus olhos cheios de lágrimas.

Bang Chan queria abraçá-lo, mas conhecia Felix. Sabia que, naquele momento, nenhuma palavra, nenhum gesto de carinho mudaria o que ele estava sentindo. Felix precisava de um tempo, e Chan respeitaria isso.

Com o coração pesado, ele se levantou, pegou suas coisas e saiu do apartamento em silêncio.

Assim que pisou na rua, soltou um longo suspiro, passando a mão pelos cabelos, tentando dissipar a tensão que o consumia. Sentia-se péssimo, mas tinha contado a verdade.

Pegou o celular e, sem hesitar, ligou para Hyunjin.

— Hyun… — Sua voz saiu cansada, carregada de culpa. — Pode ficar com o Lix essa tarde?

Hyunjin ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— O que aconteceu? Ele tá bem?

— Não.

A resposta curta fez Hyunjin prender a respiração.

— Eu sabia que isso ia ferrar com ele… — murmurou.

Chan fechou os olhos por um momento.

— Hyunjin, por favor. Ele precisa de alguém agora.

Hyunjin suspirou do outro lado da linha, e então respondeu, firme:

— Eu já estou indo.

Chan desligou e guardou o celular no bolso. Olhou para o céu nublado acima de si e sentiu um aperto no peito. Sabia que aquele não seria um dia fácil para nenhum dos dois.

…

Com os olhos fechados, as mãos de Lee Know exploravam cada curva do corpo de seu adorável Jisung, enquanto seus lábios se encontravam em um beijo ardente e desesperado. O calor de seus corpos se misturava, criando uma combustão de desejos reprimidos há tempo demais.

Han, sentado em seu colo, arqueava as costas e agarrava os cabelos de Lee Know com força a cada mordida suave e provocante que recebia no pescoço.

Os sons abafados de suas respirações descompassadas e os estalos intensos dos beijos ecoavam no ambiente, deixando-os ainda mais embriagados pela paixão.

Seus corpos se encaixavam perfeitamente, como se sempre tivessem pertencido um ao outro.

Han se afastou minimamente, os lábios ainda entreabertos, seu peito subindo e descendo em um ritmo frenético. O olhar dele estava carregado por um fogo, um brilho de desejo misturado com ternura. Ele sorriu, um sorriso libidinoso e provocante, antes de sussurrar ao ouvido de Lee Know:

— Já tá assim?

A voz rouca e carregada de desejo fez Lee Know se arrepiar dos pés à cabeça.

Ele segurou firme a cintura de Han, puxando-o ainda mais contra si, seus corpos colidindo em um movimento que arrancou um suspiro trêmulo de Han.

— Não tem como não ficar… — Lee Know murmurou, seu tom carregado de excitação. E então, pressionou seus quadris contra os dele, fazendo Han arfar ao sentir sua ereção.

Para provocá-lo ainda mais, Han começou a se movimentar lentamente, fazendo círculos suaves com os quadris, esfregando-se contra Lee Know com uma deliciosa tortura.

Lee Know mordeu os lábios, sentindo o corpo esquentar ainda mais com aquela provocação. Seu controle estava por um fio. Para se vingar, deslizou os lábios pelo pescoço exposto de Han, beijando e mordiscando exatamente onde sabia que ele perderia a razão. E, como esperado, Han gemeu baixinho, os dedos se fechando com mais força nos cabelos de Lee Know.

Era como uma profecia se cumprindo, afinal, ele já havia previsto esse exato momento tempos atrás.

Os arfares de Han se tornaram mais altos e mais desesperados, quando sentiu a mão de Lee Know deslizar por baixo de sua blusa, os dedos quentes roçando contra sua pele. Ele tentava inutilmente murmurar palavras de protesto.

— L-Lee Know… para…

Mas seu corpo dizia o contrário, porque, na verdade, ele queria mais. Queria sentir cada toque, cada arrepio, cada provocação de Lee Know tomando conta de seu corpo e da sua sanidade.

Antes que se rendesse completamente, Han o afastou. Seu peito subia e descia rapidamente, a respiração descompassada, o rosto completamente ruborizado. Ele estava desestabilizado. Totalmente sem controle. Se tinha algo que Han odiava, era perder a razão, e Lee Know fazia isso com ele com uma facilidade absurda.

— Já está tarde — Disse Han tentando recuperar o fôlego — Você precisa ir embora.

— Hannie… mas tá tão gostoso — Lee Know roubou mais alguns selinhos — Vamos ficar aqui no sofá namorando a noite toda.

— Não, eu preciso tentar dormir. Amanhã vou acordar cedo, tenho um seminário pra finalizar. Se você continuar aqui eu não vou ter estruturas pra acordar vivo amanhã.

Lee Know riu baixinho, divertindo-se com o estado de Han.

Adiar aquele desejo só fazia com que seu fascínio por ele aumentasse ainda mais. Havia algo viciante em ver Han tentando manter o controle, lutando contra o próprio corpo, apenas para, no fim, se entregar completamente, mesmo que por poucos segundos.

Depois de uma longa despedida, marcada por beijos intensos e demorados no sofá, os dois finalmente se separaram. Han, ainda ofegante e quente, foi direto para o banheiro, onde precisava urgentemente de um banho frio se quisesse dormir em paz naquela noite.

Lee Know, por outro lado, saiu levitando. Seu coração acelerado, sua pele ainda formigando, sua mente completamente embriagada por Han Jisung. E, enquanto caminhava para casa, um sorriso bobo não saía de seu rosto. Ele se sentia ridiculamente apaixonado. Saltitando como se estivesse nas nuvens.

Quando chegou em casa, Lee Know foi direto para o banheiro. Precisava de um banho longo para aliviar a tensão que Han havia provocado em seu corpo. Sob a água, com os olhos fechados, ele ainda sentia o toque de Han. Os beijos, o cheiro, a respiração acelerada contra sua pele. Aliviar toda aquela tensão sozinho não era o suficiente, mas por hora era o que tinha.

Depois de se trocar e se jogar na cama, sua mente não encontrou descanso. Ficou ali, encarando o teto, pensando em Han. No sorriso dele. Nos trejeitos engraçados e espontâneos. Na maneira como ele comia distraído, deixando as bochechas infladas como um esquilinho, e em como aquilo o fazia querer apertá-lo. No jeito que ele ficava ainda mais lindo quando estava sério. Nas mil e uma pequenas coisas que Han fazia, até mesmo as mais simples, e que o deixavam tão apaixonado. Suspirou e colocou a mão no peito. Seu coração acelerava só de pensar nele. Já estava com saudades e ansioso para vê-lo novamente no dia seguinte.

Mas então, um pensamento veio. Rápido e cortante como uma facada.

"Você mentiu pra ele."

A voz ecoou em sua mente, como se seu outro eu — aquele livre da euforia da serotonina — finalmente tivesse voltado à consciência.

A adrenalina do desejo se dissipou. E a realidade bateu.

Lee Know se levantou com falta de ar, sentindo um aperto crescente no peito. Foi até a cozinha, pegou um copo d’água e bebeu em grandes goles, como se o líquido pudesse lavar a culpa que começava a pesar sobre ele.

Seu peito, que ardia de paixão, agora se tornava um fardo de dor e remorso. Quanto mais se apaixonava por Han, mais dolorosa se tornava a lembrança da mentira.

“Aquela maldita aposta’.

Se ao menos não tivesse começado daquela forma. Se ao menos tivesse sido honesto desde o início.

Ele tentou ignorar a culpa e foi para a cama, na esperança de que o sono trouxesse algum alívio. Mas, toda vez que fechava os olhos, a imagem de Han chorando, magoado, virando as costas para ele o assombrava.

O coração disparou, e seu corpo ficou inquieto. Não conseguia dormir. Se levantou outra vez. Tomou outro banho. Preparou um chá, esperando que o calor amenizasse a ansiedade. Mas nada adiantava. A mentira estava corroendo Lee Know por dentro.

…

Parado no portão da universidade, Han olhava para os dois lados da rua, ansioso. Ele e Lee Know haviam combinado de tomar café juntos naquela manhã, mas ele ainda não tinha chegado.

As mensagens que enviava nem sequer eram lidas, o que fez a inquietação crescer ainda mais em seu peito. A preocupação começou como um incômodo sutil, mas, conforme os minutos passavam, se tornou um peso real.

Durante a aula, Han não conseguiu prestar atenção em absolutamente nada. Seu olhar permanecia fixo no celular, esperando, a qualquer momento, alguma notícia de seu amado.

Quando finalmente a notificação apareceu, ele quase pulou da cadeira. Sem pensar duas vezes, se levantou discretamente e saiu da sala, segurando o celular com força.

A mensagem de Lee Know era curta.

"Não estou bem. Por isso, não fui à aula."

Han franziu o cenho, a preocupação aumentando ainda mais. Tentou ligar imediatamente, mas Lee Know não atendeu. Segundos depois, outra mensagem apareceu na tela:

"Não estou bem para conversar agora."

Han sentiu um aperto no peito. A ideia de Lee Know sozinho, lidando com algo que não queria compartilhar, o deixou ainda mais aflito.

Respondeu para Lee Know:

“Tô indo te ver”

Mas, antes que pudesse sequer sair do campus, outra mensagem chegou.

"Por favor, não venha."

Han sentiu o estômago afundar. O que quer que estivesse acontecendo, Lee Know estava sofrendo e Han odiava não poder fazer nada para ajudá-lo.

Uma preocupação devastadora tomou conta de Han. Seu coração estava acelerado, suas mãos trêmulas ao segurar o celular.

Ele não sabia o que fazer. Deveria respeitar o pedido de Lee Know e lhe dar espaço? Ou deveria teimosamente ir até ele, independentemente do que estivesse acontecendo?

Nada fazia sentido. Ontem eles estavam namorando. Se beijando intensamente. Trocaram carícias, sorrisos e olhares apaixonados. E agora, de repente, Lee Know estava frio e distante. Tentando afastá-lo.

"O que aconteceu? O que mudou de um dia para o outro?"

Han não conseguia aceitar aquilo. Seu peito doía com a incerteza. Ele só queria vê-lo. Só queria abraçá-lo, independentemente do que estivesse acontecendo. Ele só queria ficar ao lado de Lee Know.

Notas finais
E agora? Lix vai continuar com Chan? Lino vai falar sobre a aposta com Han? Han vai na casa do Lino pra ver ele?