Lies

32 Mundos Diferentes



Jeongin se sentia completamente deslocado. Os pais de Hyunjin eram incrivelmente educados e o tratavam com simpatia e gentileza, mas nada daquilo diminuía seu desconforto. A mesa impecavelmente arrumada, a variedade de talheres brilhantes e a taça de vinho tão delicada que parecia prestes a se desfazer ao menor toque o deixavam apreensivo.

Hyunjin, atento, percebeu sua hesitação e, com um gesto discreto, indicou qual talher ele deveria usar. Jeongin tentou disfarçar o nervosismo e seguiu o exemplo do namorado, mas a verdade era que nunca havia pisado em um restaurante daquele nível, ou melhor, daquele patamar absurdamente luxuoso. Ao seu redor, políticos, celebridades, estrangeiros milionários e influenciadores digitais conversavam como se aquele ambiente fosse o mais natural do mundo.

Jeongin, por outro lado, sentia-se pequeno, completamente fora do lugar. Tudo ali parecia sofisticado demais, calculado demais, distante demais da realidade que conhecia. O prato à sua frente, artisticamente montado, mais parecia uma obra de arte do que uma refeição. Ele queria estar em casa, sentado no sofá, batendo um pratão de arroz com frango.

"Ricos não sabem viver a vida."—pensou, enquanto segurava a taça de vinho com cuidado, temendo que ela se estilhaçasse em suas mãos.

Não era apenas o jantar racionado ou a quantidade excessiva de talheres que o deixava desconfortável, Jeongin se sentia um completo peixe fora d’água com os assuntos em pauta. Tentava acompanhar a conversa educadamente, mas era impossível se conectar com preocupações tão distantes da sua realidade.

Os pais de Hyunjin falavam sobre investimentos milionários, especulação imobiliária, festas extravagantes em iates e até mesmo viagens para lua, como se tudo isso fosse tão banal quanto decidir onde jantar. Jeongin, por sua vez, jamais precisou se preocupar com ações ou com o custo de uma festa luxuosa, suas preocupações eram bem mais palpáveis, como pagar as contas no fim do mês ou encontrar tempo para um almoço decente durante o expediente.

Ainda assim, esforçou-se para parecer simpático. Não era que ele não gostasse dos pais de Hyunjin, pelo contrário, eram educados e até gentis com ele, mas pertenciam a mundos completamente diferentes. No entanto, por mais desconfortável que estivesse, não fugiu. Afinal, eram os pais de Hyunjin, e só isso já era motivo suficiente para aguentar aquele jantar até o fim.

Quando finalmente o jantar chegou ao fim, Jeongin ainda sentia o estômago roncar, desapontado tanto pela comida insuficiente quanto pela sensação de não ter causado uma grande impressão nos pais de Hyunjin. Ele suspirou, mas antes que pudesse se perder em pensamentos negativos, sentiu a mão quente de Hyunjin entrelaçar-se na sua. O sorriso tranquilo do namorado transmitia um conforto silencioso, como se dissesse que estava tudo bem.

Após se despedirem dos pais, Hyunjin sugeriu que passassem um tempo juntos, só os dois. A semana tinha sido caótica, cheia de reuniões e responsabilidades, e ele sentia que não tinha dado a devida atenção a Jeongin. A ideia fez os olhos de Jeongin brilharem. Ele realmente sentia falta do namorado nos últimos dias, e uma noite tranquila ao lado dele era tudo o que precisava.

Assim que chegaram ao apartamento, Jeongin soltou um longo suspiro de alívio. Nada se comparava à sensação de estar em casa, longe das regras de etiqueta, dos talheres complicados e das conversas elitistas. Finalmente podia relaxar e ser ele mesmo. Em poucos minutos, trocou o traje social por uma roupa surrada e confortável, pegou o celular e, sem pensar duas vezes, pediu um frango assado pelo aplicativo, acompanhado de um engradado de cerveja.

Até Hyunjin, acostumado à sofisticação, não hesitou em arrancar a gravata e vestir uma camiseta emprestada de Jeongin. Com um sorriso divertido, se jogou no sofá ao lado dele, pronto para aproveitar uma noite muito mais agradável do que qualquer jantar de luxo poderia proporcionar.

— Obrigado e me desculpe por hoje — Disse Hyunjin abrindo uma latinha de cerveja.

— Não precisa me agradecer, Hyun. São seus pais e eu quero muito conhecê-los melhor e me relacionar com eles. E por que está se desculpando?

— Sei que ficou desconfortável, não é um ambiente que você gosta, nem pessoas que você se socializa, muito menos o cardápio que te agrada. Me sinto péssimo por ter te levado em um lugar que te deixou tenso.

— Não vou negar, você já me conhece muito e sabe das minhas preferências. Mas está esquecendo de algo, eu amo você e vou entrar no seu mundo assim como você entrou no meu, sempre fazendo as coisas que gosto e andando na minha moto caindo aos pedaços.

— Realmente sua moto é um perigo para saúde pública, mas que fique bem claro que eu adoro ficar agarradinho em você quando ando nela, então de certa forma, eu adoro aquela moto velha.

— Bobo, eu to falando sério — Jeongin lhe deu um soquinho no braço.

— Eu também estou. Innie, eu só quero que a gente dê certo. Mesmo com nossas diferenças, eu acredito que nosso amor vai superar tudo isso — Hyunjin lhe deu um beijinho na bochecha.

— Sim, Hyun. Eu acredito nisso — Jeongin tentou se convencer de suas próprias palavras.

…

Naquele mesmo momento, Changbin foi atender a porta, ansioso, pois já sabia quem era.

— Minnie! — disse sorridente ao abrir a porta — Por que tocou a campainha se você tem a chave?

— É um pouco estranho já ir entrando agora.

— Que bobagem, você sempre foi de casa, as coisas não mudaram depois que começamos a namorar. Na verdade, agora podemos ter mais intimidade.

Seungmin engasgou e tossiu.

— Bem, é… verdade… mesmo assim ainda estou me acostumando com a ideia.

— A gente se acostuma. Vem, quero te mostrar uma coisa.

Seungmin o seguiu, curioso para descobrir o que Changbin queria mostrar. Seus passos eram vacilantes, suas pernas tremiam levemente a cada movimento. Namorar Changbin era um sonho, mas algo dentro dele sentia falta da leveza de quando eram apenas amigos. Antes, estar ao lado dele era confortável. Agora, tudo parecia diferente. O frio na barriga, que antes surgia em momentos isolados, agora era uma constante. E, por mais que fosse uma sensação boa, naquele instante o deixava inquieto.

Sentia-se perdido, sem saber exatamente como agir. Quais palavras dizer? Como reagir sem parecer desajeitado? Antes, não precisava se preocupar em causar uma boa impressão, mas agora tudo parecia ganhar uma nova importância.

Ao chegar no quarto, sentou-se na beira da cama, a mesma onde já tinha dormido tantas vezes sem se preocupar. Mas agora, seu coração batia acelerado, como se estivesse em território desconhecido tentando manter a compostura.

Enquanto Seungmin lutava contra suas próprias inseguranças, Changbin, por outro lado, parecia incrivelmente calmo. O contraste entre os dois era quase cômico. Seungmin respirou fundo, tentando se acalmar, mas a verdade era que, ao lado de Changbin, tudo nele ficava mais intenso.

— O que você quer me mostrar? — Sentiu que sua pergunta pareceu bastante mecânica.

Changbin abriu o guarda roupa e tirou uma caixa de presente.

— Comprei pra você, o primeiro presente pro meu namorado.

Se Seungmin já estava com o coração acelerado agora ele quase infartou. Sempre ganhava presentes de Changbin, mas aquele era o primeiro que ele dava como um namorado.

— Pra mim? — Perguntou com os olhos marejados.

— Claro, você é meu namorado e eu quero te mimar muito.

— Você sempre me mimou, Binnie… obrigado de verdade — Seungmin deu um beijo tímido em sua boca.

— Agora vou te mimar ainda mais… vamos, abra, quero ver se você vai gostar.

Seungmin rasgou o papel com cuidado e arregalou os olhos quando viu o que era.

— Uma câmera! — exclamou animado — Quer dizer, não é só uma câmera, é a melhor que tem atualmente. Ela é perfeita! Eu queria muito essa câmera, a minha já está bem ultrapassada. Parece até que você leu meus pensamentos… obrigado Binnie, eu amei demais esse presente.

— Meio que eu posso ler seus pensamentos, a gente sempre foi conectado de alguma forma. Fico feliz que tenha gostado do presente.

— Gostar? Eu adorei! — Seungmin abriu a caixa, eufórico e ansioso para testar seu novo presente — Vou tirar muitas fotos. E vou estrear tirando fotos suas — Disse timidamente.

— Não enjoa de tirar fotos minhas? Parando pra pensar, você sempre tirou muitas fotos de mim.

— Eu era secretamente apaixonado por você — Seungmin sorriu, sentia seu rosto corado — Mas agora é diferente, agora são fotos do meu namorado. Não preciso mais colocar as fotos na pastinha secreta do Changbin.

— Você tem uma pastinha secreta com fotos minhas?

— Então… como eu tava dizendo, essa câmera é incrível, tem várias funções e…

Changbin riu, nunca tinha visto esse lado fofo de Seungmin mudando de assunto quando estava nervoso e tímido. Agora que eram namorados, poderia conhecê-lo muito mais.