Lies
20 Limbo

Lee Know acordou um pouco desnorteado, a cabeça pesada e o corpo ainda relaxado pelo sono. Instintivamente, tateou a cama em busca do calor familiar de Han, mas sentiu apenas o vazio ao seu lado.
Franziu o cenho, ainda de olhos fechados, e se espreguiçou, sentindo a leve dor muscular da noite anterior. Suas pálpebras pesavam, e quando finalmente as abriu, a claridade do novo dia invadiu seus olhos, fazendo com que suas órbitas ardessem. Ele piscou algumas vezes.
A ressaca também não ajudava, tinha bebido demais, talvez mais do que deveria. Soltou um suspiro longo, esperando que a tontura inicial passasse, e se acostumou à luz pouco a pouco.
Quando finalmente olhou ao redor, seus olhos encontraram Han. Ele estava parado perto da janela, em silêncio, o olhar perdido contemplando a paisagem lá fora.
Han não parecia relaxado, não parecia tranquilo. Seu corpo estava rígido, e havia uma tensão silenciosa ao seu redor. Mas Lee Know, ainda eufórico pela noite anterior, ignorou o pressentimento. Levantou-se da cama, passou a mão pelos cabelos desarrumados e foi até Han com um sorriso enorme no rosto.
— Bom dia, meu Hannie. — Sua voz saiu um pouco rouca, carregada de carinho. Lee Know o abraçou mas Han o afastou.
— Vá tomar um banho e lavar o rosto. Precisamos conversar e quero que você esteja bem sóbrio.
Lee Know franziu o cenho, estranhando a forma fria e distante como Han estava agindo. Mas, ao invés de questioná-lo, preferiu não contrariá-lo. Talvez fosse apenas impressão sua, talvez Han apenas estivesse cansado.
Seguiu para o banheiro, tomou um banho rápido, tentando se livrar da ressaca e relaxar os músculos ainda tensos. Mas, no fundo, a inquietação não passava.
Quando voltou para o quarto, Han o aguardava de pé, braços cruzados, expressão séria e fechada. Lee Know sentiu um arrepio subir por sua espinha. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, a voz de Han cortou o silêncio, seca e sem rodeios:
— Senta aí.
Lee Know hesitou por um momento, um aperto nascendo no peito, mas se acomodou ao seu lado no sofá. Seu coração começou a bater mais rápido, um alerta silencioso de que aquela conversa não seria como as outras. O estômago de Lee Know afundou. O ar ao seu redor pareceu ficar pesado, como se de repente, o mundo tivesse ficado sem oxigênio. Han estava diferente. Ele sentiu desde o momento em que acordou, mas se recusou a acreditar que algo estava errado.
Agora, sentado ao lado dele no sofá, sentia um medo real crescer dentro de si.
— Está tudo bem, Hannie? — Perguntou, tentando aliviar a tensão no ar.
— Não, não está — A resposta curta e fria fez Lee Know engolir em seco.
— O que aconteceu? — Ele tentou se aproximar, mas Han o afastou outra vez.
Aquele toque de rejeição foi como um soco no peito. Han olhou para ele com os olhos queimando de raiva e tristeza. E então, disse as palavras que Lee Know mais temia.
— Você mentiu pra mim esse tempo todo. — Sua voz falhou, como se ele estivesse segurando o choro com todas as forças — Foi bom se divertir às minhas custas?
O coração de Lee Know disparou.
— O quê? Hannie, como assim, amor?
Han tremeu de raiva e mágoa, seu rosto se contorcendo em uma mistura de emoções.
— Não me chame de Hannie… e muito menos de amor.
— Han…
Han fechou os olhos por um instante, inspirando fundo como se buscasse forças para continuar. Quando os abriu novamente, sua expressão era de pura decepção.
— Não precisa mais fingir, Lee Minho — Han engoliu em seco, tentando manter a postura firme, mas sua voz tremeu — O que você ganhou apostando o meu coração?
As palavras de Han atingiram Lee Know como um golpe certeiro no estômago. A dor não era apenas emocional, era física, dilacerante. O medo de perder Han o fez sentir como se estivesse sufocando, como se o chão estivesse se abrindo sob seus pés.
— Han, por favor, me escute, eu posso explicar isso… — Sua voz saiu trêmula, quase desesperada.
Han riu amargamente, os olhos brilhando com lágrimas prestes a cair.
— Explicar o quê? Que você brincou comigo? — Sua voz estava embargada, carregada de mágoa. — Eu estava levando isso a sério… mas pelo visto, era só eu.
A primeira lágrima deslizou por sua bochecha, e Han não tentou escondê-la. Não havia mais por que segurar.
— Eu te dei meu coração de verdade. — Sua voz tremia, cada palavra saindo como um golpe direto no peito de Lee Know. — Eu te amei de verdade, Lee Minho.
Han respirou fundo, tentando recuperar o fôlego entre soluços.
— E todo esse tempo… você só estava apostando se eu iria me apaixonar ou não.
Lee Know sentiu o sangue gelar. Han deu um passo para trás.
— Você não acha cruel demais brincar com os sentimentos das pessoas?
Lee Know negou com a cabeça rapidamente, seu coração batendo tão forte que chegava a doer. Ele não podia deixá-lo pensar assim.
— Han, só me escuta! — Sua voz saiu desesperada, as mãos tremendo. Ele queria segurá-lo, queria implorar, queria voltar no tempo e fazer tudo diferente. Mas não podia — Eu te amo de verdade.
Han tremeu, apertando os punhos ao ouvir aquelas palavras.
— Nunca fui tão sincero na minha vida — Lee Know tentava encontrar seus olhos, mas Han desviava o olhar — Eu só preciso que você saiba que meu amor por você é verdadeiro, é real. Eu não estou brincando com seus sentimentos.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Han passou a mão no rosto, limpando as lágrimas rapidamente. Quando falou, sua voz veio baixa e quebrada.
— Não sei se posso acreditar em você, Lee Minho — Seus olhos finalmente encontraram os dele, mas não havia mais brilho. Havia dor — Você mesmo confessou que fez uma aposta.
Naquele instante, Lee Know soube que poderia perdê-lo para sempre.
— Admito que fiz uma aposta, mas as coisas mudaram quando comecei a te conhecer. Olha, deixa eu explicar… — Lee Know respirou fundo, Han o escutava entre lágrimas, esperando por uma explicação — foi uma coisa idiota. Meu amigo e eu estávamos entediados e fizemos uma aposta, ele disse que eu deveria conseguir um encontro com a primeira pessoa que entrasse no banheiro, e aconteceu que você foi essa pessoa. A princípio eu só te conhecia de vista, fizemos alguns projetos juntos mas nunca tivemos um relacionamento mais íntimo, então eu não te conhecia muito bem. Aceitei a aposta e comecei a te sondar pra poder conseguir um possível encontro, mas acabou que conforme fui te conhecendo, fui sentindo algo sincero. Fiquei ainda mais interessado e então acabei me apaixonando por você. Eu desisti dessa aposta idiota e me dediquei a você com sinceridade… eu sei que é dificil acreditar em mim, mas… por favor… acredite. Me perdoe por ter mentido pra você, Han. Eu não quero te machucar, cada lágrima sua me mata um pouco por dentro…
Mais uma vez, Lee Know tentou tocar o rosto de Han, ansiando pelo mínimo contato, mas foi afastado novamente. Dessa vez, a dor não veio apenas no peito, veio na alma. Han desviou o olhar, sua expressão carregada de exaustão e tristeza.
— Eu… não tô legal… — murmurou, a voz fraca, sem forças. — Vou pra casa, preciso ficar sozinho.
Lee Know sentiu o desespero crescer dentro de si. Os olhos marejaram, a garganta se fechando.
— Hannie, por favor, me perdoa… — Sua voz saiu embargada, quase um sussurro.
Han fechou os olhos por um instante, como se estivesse reunindo forças para não desmoronar. Quando voltou a falar, soava mais firme, mais decidido.
— Acho melhor eu ir embora — Ele respirou fundo, endurecendo o coração antes de completar — Não temos mais nada pra conversar.
Aquela frase foi como uma facada no peito de Lee Know. Ele sentiu tudo girar, a realidade desmoronando ao seu redor.
— Hannie, por favor…
Mas Han o interrompeu, a paciência se esgotando.
— Lee Minho, já falei que quero ficar sozinho.
Lee Know baixou a cabeça, sentindo o peso da culpa e da impotência esmagá-lo. Vendo que Han estava irredutível, ele finalmente cedeu. Não queria deixá-lo ir, mas também não queria machucá-lo ainda mais.
Levantou o olhar e, com o coração despedaçado, disse a única coisa que tinha certeza absoluta.
— Tudo bem, Hannie — Sua voz era suave, carregada de dor e amor ao mesmo tempo — Não vou te impedir de ir… — Respirou fundo, tentando manter a calma, mesmo que por dentro estivesse em pedaços — Mas também não vou desistir de nós.
Han prendeu a respiração, não respondeu. E então, antes que ele atravessasse aquela porta, antes que se afastasse de vez, Lee Know fez questão de deixar algo claro:
— Só quero que você saiba… — Seus olhos se fixaram nos de Han — Eu te amo demais. E isso é verdadeiro.
Lee Know tentou mais uma vez tocar o rosto de Han, ansiando por um último vestígio de carinho, mas foi rejeitado de novo. Han virou o rosto para o lado, escapando do toque, e se levantou abruptamente.
O silêncio entre eles pesava como um meteoro. Sem dizer mais nada, Han caminhou até a porta, seus passos firmes, mas o coração em frangalhos. Sua mão parou na maçaneta, os dedos apertando o metal gelado. Por um segundo, hesitou. Uma parte dele queria olhar para trás, queria ver Lee Know uma última vez antes de ir. Mas se fizesse isso, talvez não tivesse forças para ir embora. Então, antes que se arrependesse, abriu a porta e saiu, sem olhar para trás.
…
O caminho de volta para casa pareceu mais longo e doloroso do que nunca. Cada passo ecoava no silêncio da noite, carregando consigo o peso da decepção, da raiva, da mágoa e… do amor que ainda sentia.
Quando finalmente chegou, se trancou no apartamento, o peito explodindo da tristeza que não conseguia conter. Com mãos trêmulas, pegou o celular e discou o único número que poderia chamar naquele momento.
Assim que Jeongin atendeu, Han desabou. As lágrimas vieram como um temporal, um choro triste, amargurado, profundo. Cada soluço era um pedaço de seu coração partido ecoando pelo quarto.
Jeongin não fez perguntas. Ele apenas pegou a chave, saiu de casa e dirigiu o mais rápido que pôde. Sabia que Han precisava dele.
…
Changbin e Seungmin chegaram juntos exatamente trinta minutos depois da mensagem de S.O.S que Lee Know enviou no grupo.
Changbin, sempre preparado, já veio carregando duas garrafas de Amarula e algumas outras bebidas mais fortes. Ele sabia que a noite seria longa.
Assim que entraram, não precisaram perguntar nada e Lee Know não precisava dizer uma única palavra. Changbin sabia que ele tinha procrastinado contar a verdade para Han. E sabia que, quando finalmente confessou, tudo desmoronou. Mesmo assim, em nenhum momento, soltou um "eu avisei". Porque, naquele momento, Lee Know precisava de apoio, não de julgamentos.
Assim que Changbin viu Lee Know com os olhos vermelhos e inchados, largou as sacolas no chão sem hesitar e abriu os braços. Lee Know foi direto para ele, o abraço apertado e cheio de dor reprimida. Seungmin não pensou duas vezes, se juntou a eles, e foi ali, naquele abraço apertado, que Lee Know finalmente desmoronou de vez.
As lágrimas vieram fortes, pesadas, incontroláveis. Tudo o que estava segurando, tudo o que tentou reprimir, se derramou sem barreiras. Estava triste, arrasado, perdido. E a garrafa de soju vazia ao lado deixava claro que ele já havia começado a afogar as mágoas sozinho.
Changbin e Seungmin não disseram nada. Apenas seguraram Lee Know, deixaram que ele chorasse, que ele sentisse, que ele soltasse tudo.
— Amigos… eu to muito triste hoje — Lee Know chorava de soluçar — Me mimem.
— Por isso nós estamos aqui, seu chorão — Disse Seungmin apertando a bochecha de Lee Know e depois indo para cozinha preparar algo para comerem.
— Hoje é oficialmente o Lino Day e vamos te mimar muito, ok? — Complementou Changbin limpando as lágrimas no rosto do amigo.
— Binniiiiie o que vou fazer sem meu anjo, o Hannie?
— Você vai viver sua vida normalmente, se acalme. O Han te ama demais, ele só precisa de um tempo pra processar isso. Quando você menos esperar ele estará de volta nos seus braços e vocês vão boiolar muito por ai novamente.
— Tem certeza? — Perguntou Lee Know com uma voz chorosa.
— Sim, certeza, palavra de escoteiro — Changbin bateu continência.
— Mas você nem é escoteiro — Lee Know caiu no choro sofrido.
Changbin queria rir, Lee Know estava cômico em seu momento de sofrência. Mas manteve sua expressão séria. Segurou o amigo pelos ombros com firmeza e olhou em seus olhos.
— Escuta aqui, você acha que o seu Hannie ia gostar de te ver assim? — Changbin o encarou, ele estava de fato deplorável, cabelos desgrenhados, olhos inchados e nariz escorrendo — Misericórdia, você tá horrível e não faz nem uma hora que Han terminou com você.
— Ele terminou? — Lee Know se acabou de chorar novamente.
— Não, não, não, foi modo de falar, ele não terminou — Changbin o abraçou, tentando apaziguar a situação, o amigo estava muito sensível — Vai ficar tudo tudo bem e o Hannie vai voltar.
Changbin não tinha certeza sobre isso, mas queria ajudar o amigo a passar por aquela fossa. Lee Know suspirou e engoliu o choro.
— Você tem razão, preciso ser forte para quando o meu Hannie voltar pra mim eu estar lindo como sempre sou.
— Exatamente, esse é o espírito — Changbin sorriu sem graça — Agora vai tomar um banho que eu tenho um convite especial pra te fazer, assim você se distrai um pouco.
— Convite? — Lee Know franziu o cenho.
— Sim, a peça do Minnie é amanhã e eu sou o par romântico dele. — Changbin sorriu orgulhoso. — Vai ser linda a peça, quero muito que você vá nos ver.
Lee Know suspirou, passando a mão pelos cabelos. A última coisa que queria era ver casais felizes e apaixonados, enquanto ele tentava remendar seu coração partido. Mas, no fim das contas, eram seus amigos. Seungmin e Changbin estavam ali por ele, e o mínimo que podia fazer era retribuir o apoio.
— Não é muito meu estilo, mas vou sim. — murmurou, jogando-se no sofá. — Preciso me distrair um pouco do meu coração partido.
Changbin sorriu satisfeito, mas seu tom ficou misterioso quando mudou de assunto.
— E por falar em coração partido… você se lembra da Tofu?
Lee Know franziu o cenho.
— Tofu?
— Sim, a sua primeira namorada que te deu um pé na bunda.
Lee Know revirou os olhos instantaneamente.
— Obrigado por me consolar tão bem, Changbin. Justo no dia que levo outro pé na bunda.
Changbin deu uma risada curta.
— Enfim, o que tem a Dahyun? — Perguntou Lee Know, pouco interessado.
— Chamei ela pra peça. Ela vai estar lá amanhã… e disse que quer te ver.
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