Lies
34 Casais felizes

Lee Know despertou com Soonie pulando em sua barriga, miando como se estivesse à beira da inanição. O gato agitava as patas em protesto, como se não tivesse sido alimentado há semanas, preso em uma masmorra sem direito a uma única ração.
— Já vou, seu chato — murmurou, ainda grogue, relutando em deixar o calor aconchegante da cama. Jisung estava aninhado em seus braços, seu corpo quentinho e encaixado perfeitamente contra o seu. Era um convite irresistível para continuar ali, mas os miados exigentes de Soonie não lhe davam escolha.
Depois de tomar um banho para espantar o sono, foi direto para a cozinha e encheu os potes de ração, garantindo que Soonie recebesse uma porção generosa por sua insistência barulhenta. O gato, satisfeito, finalmente silenciou, mas não sem antes lançar-lhe um olhar de superioridade, como se estivesse lhe concedendo perdão por tê-lo feito esperar.
Enquanto preparava o café da manhã, Han entrou na cozinha ainda sonolento, os cabelos desgrenhados e a expressão amassada pelo sono. Lee Know sorriu. Ele amava vê-lo assim, recém-acordado, com aquele ar adoravelmente vulnerável. Para ele, Han era lindo em qualquer momento do dia, mas havia algo especialmente encantador na maneira como ele despertava.
— Bom dia, amor — Disse Han o abraçando por trás para não atrapalhar.
— Meu bebê acordou — Lee Know limpou as mãos e se virou para ver seu rosto — Tô preparando um café pra nós.
— Você é o melhor namorado — Han lhe deu um selinho — Vou tomar banho pra gente tomar café juntos.
— Vai lá, amor.
Depois do café, Han limpou a mesa enquanto Lee Know saiu para levar o lixo. Quando voltou para a pia e colocou o avental para lavar a louça, o celular de Lee Know vibrou sobre o balcão, indicando a chegada de uma nova mensagem.
O olhar de Han imediatamente foi atraído para o aparelho. Seu impulso inicial foi pegá-lo e ver quem havia mandado a mensagem, mas sua consciência o segurou. Ele sabia que isso seria errado. Uma batalha interna começou ali mesmo, entre sua curiosidade inquieta e o desejo de ser um namorado respeitoso.
Ele se colocou no lugar de Lee Know. Como se sentiria se o namorado mexesse em seu celular sem permissão? Odiaria. Odiaria sentir que sua privacidade não era respeitada. Respirou fundo e fechou os olhos por um instante, trazendo à mente todas as provas do amor de Lee Know. A forma como ele sempre o tratava com carinho, a preocupação genuína que demonstrava, como sempre o colocava em primeiro lugar. Cada lembrança foi dissipando suas inseguranças, deixando-lhe apenas a certeza de que estava sendo injusto com o namorado incrível que tinha.
Por mais tentador que fosse, Han conseguiu se conter. Deixou o celular onde estava e voltou a focar na louça. Foram apenas alguns minutos, mas para ele pareceram uma eternidade. Um gesto irrelevante para qualquer um, mas uma grande conquista para ele. Aos poucos, estava aprendendo a confiar, superando suas inseguranças e fortalecendo ainda mais o amor que sentia por Lee Know.
Quando Lee Know entrou pela porta e sorriu pra ele, seu mundo se iluminou novamente.
Lee Know deu um beijinho em sua testa e pegou o celular para conferir as mensagens. Han tentou fingir não ter interesse, mas tinha. Olhou de canto enquanto lavava uma xícara.
— Uma garota do curso perguntando se eu quero ir na casa dela fazer uma atividade — Lee Know deu de ombros, largou o celular na mesa e abraçou Han enquanto ele lavava as louças.
— E você vai?
— Não tem porque eu ir. Já tenho meu grupo.
— Hum… você sabe que ela tá dando em cima de você né?
— Sei.
— E?
— E isso é irrelevante pra mim. Não me importo. Já tenho namorado.
Han ficou alguns minutos em silêncio, de cabeça baixa, enquanto Lee Know cheirava seus cabelos.
— Desculpa, Lino.
— Pelo o que, amor?
— Eu sou um idiota, um péssimo namorado.
Lee Know o virou de frente para ele e tocou seu rosto.
— Não diga isso. Eu amo você e amo tudo em você. É o melhor do mundo. Namorar com você me deixa feliz.
— Enquanto você cuida de mim eu fico com ciúmes e desconfiança besta. Juro que vou melhorar.
— Ter ciúmes é normal, eu também fico com ciúmes. Odeio quando os caras da sua turma fica em volta de você — Lee Know revirou os olhos — Sobre a confiança, sabemos que é o mais importante no relacionamento, mas Hannie, infelizmente nossa relação começou com uma mentira. Por mais que tenha se tornado verdade e que agora eu te ame com todo meu coração, eu menti pra você e entendo que recuperar a confiança não é algo fácil, mas eu vou conseguir. Não vou desistir da gente e vou conquistar sua confiança novamente.
Han o abraçou, sentia-se envergonhado por não ser perfeito como queria. Mas Lee Know lhe dava forças para lutarem pelo relacionamento juntos, pois o mais importante eles tinham, que era o amor e o respeito. Sendo assim, tinha confiança de que iriam superar qualquer dificuldade juntos.
— Eu te amo tanto, Lino.
— Também te amo, meu Hannie.
…
Manter um relacionamento nunca foi fácil, exige empenho, atenção e dedicação. Felix e Bang Chan passaram por todos esses desafios, mas agora estavam em uma fase mais madura da relação. Além do amor que os unia, havia também uma nova responsabilidade: Ryan.
Felix, para sua própria surpresa, desenvolveu um carinho imenso pelo menino. Adorava passar os fins de semana com ele e, de certa forma, sentia-se realizado ao perceber que Ryan agora tinha uma família ainda maior. O pequeno era cercado por amor, com três pais e uma mãe que o adoravam. Ruby, por sua vez, estava radiante com os preparativos para seu casamento e, logo, partiria para sua lua de mel na Europa.
Durante as duas semanas de viagem de Ruby, Ryan ficaria sob os cuidados de Chan e Felix. Felix não pôde evitar rir ao perceber como Bang Chan ainda era um desastre em cuidar de crianças. Trocar fraldas, organizar horários ou até mesmo lidar com a energia inacabável de Ryan pareciam missões impossíveis para ele. Se Ruby confiava em deixar o filho com eles, era unicamente porque sabia que Felix seguraria as pontas, e que, no fim das contas, ele já era tão pai de Ryan quanto eles.
Após um longo e cansativo dia cuidando de Ryan, eles aproveitaram para relaxar um pouco enquanto ele dormia. Abriram uma latinha de cerveja e se sentaram na varanda para contemplar o céu estrelado da cidade.
— Obrigado por estar nessa comigo — Bang Chan segurou sua mão — Você foi corajoso.
— Não fui corajoso. Eu tive medo. Mas o que me guiou a voltar pra você foi o amor que sinto. Depois de um tempo que ficamos separados eu não conseguia ficar bem. Sentia sua falta, queria te ver, queria estar perto. Sei que passamos por momentos difíceis, mas superamos e estamos lutando juntos por esse amor.
Bang Chan sorriu e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Você é o meu alicerce, eu teria desmoronado sem você. Saber que eu tinha um filho me desestruturou. Por mais eu ame o Ryan foi uma surpresa e tanto… eu achei que não fosse conseguir, mas no pior momento você esteve lá e segurou minha mão. Eu quero ser tão bom pra você como você é pra mim. Eu te amo, Felix.
— Você já é bom pra mim, seu bobo — Felix lhe deu um selinho — Também te amo, Channie.
Bang Chan o beijou e quando o beijo tomou mais intensidade, Ryan chorou no quarto. Eles se olharam e deram risada, agora eram pais.
…
Changbin e Seungmin ainda lidavam com as inseguranças que vinham com a mudança de status em seu relacionamento. O que antes era apenas uma amizade confortável agora carregava um novo peso, uma nova intensidade. Seungmin, por mais que estivesse feliz ao lado de Changbin, ainda se sentia um pouco tenso quando estavam sozinhos. Tudo parecia diferente agora que eram um casal.
No entanto, Changbin tinha um dom natural de acalmar suas inquietações. Às vezes, bastava uma conversa casual, com a mesma leveza de antes, para fazer Seungmin relaxar. Outras vezes, uma massagem delicada seguida de beijos demorados o fazia esquecer qualquer nervosismo. Changbin era a mistura perfeita entre excitação e tranquilidade, conseguia acelerar o coração de Seungmin e, ao mesmo tempo, trazê-lo de volta para a calmaria.
Para Changbin, a sensação não era diferente. Ele sentia-se genuinamente grato ao universo pelo destino inesperado que os uniu. Durante muito tempo, acreditou que o amor que sentia por Seungmin era apenas fraterno, algo natural entre amigos tão próximos. Mas quando descobriu que Seungmin era a mesma pessoa com quem trocava mensagens quentes, aquelas que despertavam seu desejo mais íntimo, percebeu que seus sentimentos iam muito além da amizade. Seungmin sempre fora sua paixão, ele só não tinha percebido até então.
Naquela noite, a apreensão pairava no ar. Depois de uma conversa sincera, decidiram que finalmente teriam sua primeira vez juntos. No entanto, ao contrário do que viam nas séries românticas de casais gays, aquilo não era tão simples quanto parecia. Para Seungmin, era a primeira experiência íntima, e para Changbin, era a primeira vez com um homem. Tudo era novo, um território desconhecido que exigia paciência e descobertas mútuas.
Apesar da ansiedade inicial, o desejo logo tomou conta, e seus corpos começaram a reagir naturalmente. O nervosismo deu lugar ao instinto, aos beijos que ficavam cada vez mais profundos, às carícias que traçavam mapas invisíveis sobre a pele um do outro. Houve momentos de hesitação, risadas baixas por gestos desajeitados, pequenas gafes que tornavam tudo ainda mais especial. Mas, no fim, o que realmente importava era que estavam ali, juntos, se permitindo sentir e explorar esse novo capítulo de suas vidas.
E naquela troca de olhares e toques, perceberam que mais do que desejo, havia um laço genuíno entre eles. O prazer não estava apenas nos gestos, mas na confiança que depositavam um no outro, na segurança de saber que estavam exatamente onde queriam estar.
…
Todos pareciam felizes, mas a felicidade não era um destino final, e sim um caminho a ser trilhado. Nenhuma daquelas histórias terminaria com um simples "felizes para sempre". Cada casal ainda teria uma longa jornada pela frente, enfrentando desafios, amadurecendo e construindo seus sonhos lado a lado. Relacionamentos não se sustentam apenas em sentimentos; exigem esforço, compreensão e escolhas diárias. Tijolo por tijolo, um amor saudável se ergue com paciência e dedicação.
No entanto, Jeongin não estava satisfeito com a casa que estava construindo. Seu amor por Hyunjin era imenso, mas algo dentro dele sussurrava que isso talvez não fosse o bastante. Sentia-se pequeno diante do universo grandioso e luxuoso em que Hyunjin vivia. A diferença cultural e social, que poderia parecer irrelevante para quem olhasse de fora, estava, aos poucos, consumindo-o por dentro.
Não era apenas sobre pertencer a mundos diferentes, mas sobre sentir que talvez nunca fosse capaz de se encaixar no dele.
Jeongin sempre foi compreensivo. Sempre aceitou as ausências de Hyunjin, entendendo quando ele precisava cancelar encontros por causa de reuniões de última hora ou viagens inesperadas. Ele compreendeu quando o namorado desmarcou o jantar de comemoração de seu aniversário porque um problema urgente na empresa exigiu sua atenção. E também entendeu quando Hyunjin apareceu em sua casa para passar um tempo com ele, apenas para desmaiar de cansaço e estresse antes mesmo de trocarem meia dúzia de palavras.
Mas, naquele momento, Jeongin percebeu que não conseguia mais ser tão compreensivo. Não conseguia mais se anular, fingir que estava tudo bem, aceitar um namoro que parecia cada vez mais distante, como se ele estivesse segurando sozinho as pontas da relação.
A campainha tocou, arrancando-o de seus pensamentos. Respirou fundo antes de abrir a porta, mas não teve tempo de formular qualquer frase ensaiada. Hyunjin estava parado ali, ofegante e preocupado. A camisa amassada, a gravata torta, os olhos ansiosos procurando alguma resposta no rosto de Jeongin. Ele tinha vindo. Mas será que era o suficiente?
— Vim correndo, você está bem? — Se aproximou para beijar Jeongin mas ele o afastou.
— Precisei dizer que estou passando mal pra você vir. Precisamos conversar. Serei breve, não vou tomar seu tempo.
— Amor… o que aconteceu? — Hyunjin ainda estava ofegante, por mais que tivesse aliviado que Jeongin estivesse bem fisicamente, estava preocupado, pois ele não parecia bem emocionalmente, seus olhos estavam inchados e vermelhos.
— Eu pensei muito sobre nós e cheguei a uma conclusão. Isso não vai dar certo, Hyunjin. Vamos terminar nosso namoro.
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