Lies

35 Dumplin



Felix tentava de tudo para animar Hyunjin, mas nada parecia surtir efeito. Já fazia um mês desde que Jeongin terminara o namoro, e Hyunjin ainda vivia em um luto, preso a uma dor que parecia não ter fim. Cada vez que tentava falar sobre o assunto, sua voz falhava, os olhos marejavam, e, antes que pudesse se controlar, as lágrimas escorriam livremente, seguidas por soluços que rasgavam o peito.

Ele sentia a falta de Jeongin em cada pequeno detalhe. Nos bons dias e nos ruins, na rotina que construíram juntos, nos momentos em que apenas um olhar era suficiente para entender o outro. Era como se, de repente, tudo tivesse sido apagado, deixando apenas o vazio insuportável de um amor que ainda existia.

— O que tem de errado comigo? Primeiro foi você que terminou comigo, e agora foi o Innie. Eu nunca vou ser amado?

Aquelas palavras atingiram Felix como uma facada.

— Hyun, não é bem assim, eu te amo muito. Podemos até não ter mais um amor romântico, mas durante o tempo em que namoramos foi divertido, foi gostoso, foi mágico, porém esse amor virou algo fraternal. Se eu tivesse terminado o namoro porque você foi ruim pra mim eu nunca iria te ver nem pintado de ouro novamente. Você é meu melhor amigo e não posso ficar longe de você porque eu te amo. Então pare de dizer isso. Jeongin também te ama, mas terminou porque não aguentou a pressão que vem junto com ser seu namorado, você sabe muito bem que ele é uma pessoa simples.

— Eu sei de tudo isso mas tô tão triste que só vejo as coisas por um ângulo negativo.

— Já faz quanto tempo que ele foi pros Estados Unidos?

— Duas semanas. Eu tentei pelo menos me despedir, mas os amigos dele não deixaram. Tinha até um baixinho que queria me socar porque eu insisti em querer ver o Innie.

— Ele foi sozinho?

— Um tal de Jisung e o namorado foram com ele. Pelo menos isso me deixa mais aliviado. Só que eles só foram pra passar uns dias. De qualquer forma, meu Innie está lá sozinho.

— Já tentou falar com ele de novo?

— Tentei, mas ele mudou o número e os amigos dele não querem me passar.

— E você iria até ele se soubesse onde ele está? — Felix deu uma risadinha.

— Conheço esse risinho. Você sabe de alguma coisa?

— Você não respondeu minha pergunta.

— Claro que eu iria atrás dele agora mesmo se soubesse o endereço.

— Então faça suas malas, pois eu tenho um jeito de descobrir.

…..

Jeongin suspirou, apoiando a testa contra o vidro frio da janela de seu apartamento. Faziam duas semanas desde que chegara àquele país estrangeiro, e ainda não conseguia se sentir em casa. As ruas tinham um ritmo diferente, os rostos eram desconhecidos, a barreira cultural ainda pesava sobre seus ombros.

Tentou se convencer, mais uma vez, de que tinha tomado a decisão certa ao aceitar a proposta de trabalho e se mudar para o exterior. Era uma oportunidade incrível, um passo importante para sua carreira, algo que enriqueceria seu currículo e abriria portas no futuro. Mas, por mais que tentasse focar nos benefícios, não conseguia afastar a sensação de que algo estava faltando.

Seus pensamentos logo voltaram para casa. Pensou em sua família, nos amigos que deixou para trás, no conforto familiar da Coreia. E então, inevitavelmente, veio a lembrança de Hyunjin. Sentiu saudades dos dias que passavam juntos, das risadas espontâneas, dos toques sutis e, principalmente, dos beijos que ainda queimavam em sua memória. Fechou os olhos, tentando afastar a nostalgia. Mas, por mais que tentasse, a saudade de casa – e dele – parecia cada vez maior.

— Sinto falta de Kimchi também — Engoliu as lágrimas, não poderia se permitir ser fraco, estava sozinho ali e precisava se manter estável.

Sua rotina solitária se resumia a passar as horas livres imerso em livros, maratonando séries ou simplesmente observando a vizinhança da sacada de seu apartamento. Evitava sair mais do que o necessário. Além de não conhecer ninguém, ainda sentia a insegurança de se comunicar em um idioma que, apesar dos cinco anos de curso, não dominava com perfeição. Seu sotaque entregava sua origem, cometia gafes e, às vezes, as palavras fugiam no momento exato em que mais precisava delas.

No ambiente de trabalho, as coisas eram mais fáceis. Trabalhava com um grupo de coreanos e, entre eles, a comunicação fluía naturalmente. Mas fora dali, tudo se tornava mais complicado. As conversas em inglês com nativos o deixavam apreensivo, e essa barreira parecia reforçar o isolamento que sentia.

Mais uma vez, pensou em Hyunjin. Diferente dele, Hyunjin dominava o inglês com perfeição, como tudo o que fazia, aliás. Ele era impecável, e Jeongin sempre o admirou por isso. Mas agora, essa admiração vinha acompanhada de uma saudade dolorosa. Suspirou profundamente, tentando afastar os pensamentos, mas a verdade era que, por mais que tivesse mudado de país, não conseguia fugir dos sentimentos que ainda carregava.

A campainha soou, arrancando Jeongin de seus pensamentos. Ele franziu a testa, sem esperar visitas, ainda não tinha amigos na cidade para que alguém o procurasse. Supôs que fosse o serviço de quarto e, por via das dúvidas, olhou pelo olho mágico. Tudo o que viu foi a aba de um boné bege, pertencente a alguém parado à sua porta.

Com um toque de desconfiança, pegou o interfone.

— Boa noite, posso ajudar?

— Encomenda para o senhor Yang Jeongin — respondeu a voz do outro lado.

No mesmo instante, um sorriso largo se abriu em seu rosto. Ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

Com o coração acelerado, abriu a porta e encontrou-se diante do "entregador". Fez-se de desentendido, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha.

— Estranho… não me lembro de ter feito nenhum pedido.

O homem à sua frente tirou o boné, ajeitou os cabelos e sorriu daquele jeito insolente que Jeongin conhecia tão bem.

— Não foi aqui que pediram um Dumpling? — Hyunjin perguntou, com um brilho travesso nos olhos.

— Deve ser um engano, eu nem gosto de Dumplin — Jeongin o olhou de cima abaixo. Hyunjin ficava sexy usando qualquer roupa, até mesmo um macacão surrado de uma cor encardida que um dia foi marrom. Notou o nome da loja de doces bordado no peito junto com o nome "David William", que Jeongin imaginou ser o dono do uniforme.

— Perdoe-me, Senhor Cliente. É o meu primeiro dia de trabalho e ainda estou meio perdido.

— Ah, então você é um entregador?

— Sim, o mais belo entregador.

— E cadê sua entrega? — Jeongin olhou para as mãos vazias de Hyunjin.

— Está aqui — Hyunjin apontou pra si mesmo.

— Eu não encomendei nada, mas se você trouxe, é melhor usá-lo — Jeongin tocou suavemente o peito de Hyunjin.

— Já aviso de antemão que nossos Dumplins são viciantes. Se não gosta vai começar a gostar.

— Não sei, preciso experimentar — Jeongin puxou Hyunjin suavemente para que ele entrasse em seu apartamento.

— Sou todo seu — Hyunjin sorriu ao vê-lo trancar a porta.

— Que raiva. Por que você é assim? — Jeongin repousou os braços em seus ombros e fez carinho em seus cabelos — Por que eu não consigo ficar longe de você?

— Porque a gente se ama?

— Eu terminei com você.

— E tá me abraçando. Pelo brilho no seu olhar dá pra notar que estava morrendo de saudades de mim.

— Não diga bobagens, só estou sendo um bom anfitrião. Você veio de longe pra me ver.

— Claro. Sabe o que mais seu olhar diz? Que você quer me beijar.

— Quem disse isso? Meu olhar? Me poupe.

Hyunjin pousou um selinho demorado no canto dos lábios de Jeongin, um toque simples, mas carregado de saudade. Jeongin estremeceu ao sentir o calor familiar daquele contato. Ele ansiava por Hyunjin, por seus beijos, por sua presença. Sem hesitar, segurou seu rosto com firmeza e o beijou com toda a intensidade de sua saudade e amor.

Quando se afastaram para recuperar o fôlego, Hyunjin sorriu, os olhos brilhando.

— Isso significa que estamos juntos de novo?

Jeongin mordeu o lábio, hesitante.

— Depende…

— Faço qualquer coisa por você — Hyunjin se apressou em dizer, segurando suas mãos com firmeza. — Largo tudo lá e venho viver com você aqui.

Jeongin suspirou, deslizando os dedos pelo rosto do namorado.

— E vamos viver de quê? Não quero que você abandone sua vida por minha causa.

— Mas, Innie… — Hyunjin apertou sua cintura, puxando-o para mais perto. — Eu te quero, só quero você. Não consigo ficar bem sem você. Vamos tentar de novo, por favor, amor.

Jeongin o beijou com delicadeza, as mãos acariciando sua pele como se estivesse memorizando cada traço.

— Eu também te amo, Hyun. Mas eu terminei porque não aguentava mais sua ausência e porque somos de mundos tão diferentes…

— Eu sei — Hyunjin suspirou, encostando a testa na dele. — Fui um péssimo namorado, mas vou mudar isso. Já organizei tudo, deleguei tarefas para pessoas de confiança. Você é a minha prioridade. Podemos ser de mundos diferentes, mas eu quero fazer parte do seu mundo.

Jeongin arqueou uma sobrancelha, um sorriso brincando em seus lábios.

— Então, você vai ter que me compensar muito pelo tempo perdido.

Hyunjin riu baixinho antes de selar seus lábios mais uma vez.

— Teremos todo o tempo do mundo.

Fim.

Notas finais
Se você chegou até aqui, gostaria de agradecer por ter me acompanhado nessa jornada. Cada like, cada comentário são significativos pra mim e mostra o carinho e a dedicação que tiveram comigo ao separar um pouco de seu precioso tempo para ler algo que eu escrevi. Por isso fico grata. Enfim, espero estarmos juntos em mais uma jornada. Até a próxima :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!