Lies

2 Amor Virtual


Yang Jeongin era um dos alunos mais brilhantes de seu curso, mesmo sendo o mais novo da turma, com apenas vinte anos. Alto, de cabelos pretos, covinhas marcantes e um sorriso radiante que se destacava ainda mais por causa do aparelho nos dentes, ele era um verdadeiro colírio para os olhos. Mas, apesar da aparência cativante, seu foco estava inteiramente nos estudos e na carreira promissora que planejava com precisão.

Seu maior sonho era ingressar em uma empresa renomada, e ele batalhava incansavelmente por isso. Já havia enfrentado rejeições, mas desistir nunca foi uma opção, seguia tentando, determinado a alcançar seu objetivo. E, ao longo dessa jornada, contava sempre com o apoio inabalável de seu melhor amigo de infância, Han Jisung, um esquentadinho leal que estava sempre ao seu lado, pronto para incentivá-lo, ou para dar um empurrãozinho quando necessário.

— Que cara é essa? — Perguntou Jeongin ao ver o amigo saindo do banheiro com uma expressão nada agradável.

— Cara de quem encontrou um idiota no banheiro.

— Ah, já sei, Lee Know. Ainda com isso?

— Eu estava de boa. Entrei no banheiro e ele estava lá com aquele amigo baixinho maromba dele. Esse dentuço ficou me encarando. Sério, qual é o problema dele?

— Primeiramente, eu acho engraçado logo você chamar ele de dentuço e o amigo dele de baixinho. E segundo, me pergunto qual é o SEU problema e por que isso te incomoda tanto. Deixa ele encarar, oras. Só ignora a presença dele se isso te tira tanto assim do sério.

— Não tem como ignorar certas coisas. Eu ainda não esqueci o que ele fez, eu quase tirei um 9,5 porque ele é um grande idiota. A minha sorte é que eu fiz todo o trabalho sozinho. Espero nunca mais ter que trabalhar com ele novamente. Não tenho estrutura pra isso.

— Percebe-se — Jeongin o olhou de cima a baixo, Jisung estava com as mãos na cintura, cenho fechado e um olhar fuzilante em direção ao banheiro.

— Enfim, vamos mudar de assunto, falar do Judy Hopps me irrita. Me fale sobre a entrevista. Te chamaram?

Jeongin suspirou tristemente.

— Ainda não. É tão difícil entrar naquela empresa que às vezes me pergunto se meus esforços estão sendo inúteis.

— Ei, não diga isso. Eu acredito em você, não perca as esperanças e continue tentando. Eles vão te chamar sim, você é muito competente.

— Obrigado Hyung — Jeongin parecia bastante desanimado.

— Ei que tal se nós jogarmos aquele seu joguinho do Impostor?

— Among Us? — Jeongin se animou.

— Esse mesmo. Eu faço algo gostoso pra você comer.

— Dumplings?

— Sim, bem recheados.

— Isso vai ser uma delícia, Hyung.

— Claro, God's Menu, Innie.

— Posso comer quantos eu quiser?

— Com certeza. Vou fazer um montão — Han fez carinho nos cabelos de Jeongin, agradecido por ser tão fácil animá-lo.

…

O sol já se punha no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados, enquanto Seungmin lutava, sem sucesso, para fazer uma única flexão. Seu corpo tremia com o esforço, e a frustração estampava seu rosto.

Ao seu lado, Changbin tentava incentivá-lo, lançando palavras motivacionais como um verdadeiro treinador. Mas, por mais animado que parecesse, seus incentivos não eram o suficiente para que Seungmin conseguisse completar o exercício. A cada tentativa fracassada, ele apenas bufava, afundando ainda mais no chão, como se já aceitasse seu destino.

— Desisto! — Seungmin se jogou no chão, exausto.

— Minnie, desistir é algo que não pode existir no seu vocabulário. Vamos tentar só mais uma vez?

— Está bem, mas me mostra como faz de novo? — O pedido de Seungmin não foi nada despretensioso.

— Claro.

Essa era, sem dúvida, sua parte favorita das sessões de treino com Changbin. Na verdade, todo o esforço cansativo e entediante valia a pena apenas por esse simples momento.

Seungmin observou com expectativa enquanto o amigo tirava a blusa, revelando a visão que ele jamais se cansava de admirar. Changbin não era apenas bonito, seu corpo era esculpido nos mínimos detalhes, cada músculo perfeitamente definido. Os olhos de Seungmin seguiram o rastro do suor escorrendo pelos gominhos firmes do abdômen do amigo, e ele precisou reunir toda a sua força de vontade para não ceder ao impulso de tocá-lo.

Mas o verdadeiro desafio era esconder o quanto estava aproveitando aquela cena. Seungmin mantinha um amor secreto por Changbin, um sentimento repleto de fantasias que jamais ousaria confessar. E, pelo jeito despreocupado do amigo, era óbvio que ele nem desconfiava.

— Viu como faz?

— Ah sim sim — Seungmin voltou para terra e tentou tirar o foco do abs de Changbin.

— Minnie, minha barriga tá perfeita, olha isso! Pega pra você ver.

— Na sua barriga? Você quer que eu pegue na sua barriga?

— É, to muito gostoso — Changbin pegou a mão de Seungmin e a colocou em sua barriga.

Seungmin engoliu em seco, repetindo mentalmente como um mantra desesperado: "Não fique excitado, não fique excitado". Mas, para seu total desespero, não estava funcionando nem um pouco.

Seus dedos roçaram suavemente os músculos firmes do abdômen de Changbin. A pele quente e levemente suada sob seu toque fez um arrepio percorrer sua espinha. Ele mordeu o lábio, tentando conter um arfar involuntário, enquanto seu coração disparava. Cada fibra do seu corpo parecia conspirar contra sua tentativa de manter a compostura.

— Que cara é essa? — Changbin riu e colocou a mão na testa do amigo — Você está vermelho que nem um pimentão. Sabe o que é isso? É porque quando nós nos exercitamos o sangue bombeia mais rápido e o corpo fica mais aquecido.

— De fato, o sangue está bombeando muito aqui agora. Preciso de um banho… gelado de preferência.

Changbin riu, confuso. Seungmin nem tinha treinado tanto assim, mas estava corado e um pouco ofegante, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Apesar de gostar muito do amigo, às vezes achava suas atitudes um tanto... estranhas.

Havia algo na forma como Seungmin olhava para ele, não um olhar qualquer, mas um que parecia queimá-lo, intenso demais para ser apenas distração. Em algumas ocasiões, Changbin até se perguntava se o amigo estava irritado com ele por algum motivo desconhecido. Mas logo afastava esses pensamentos, convencendo-se de que era apenas paranoia. Afinal, Seungmin sempre fora meio difícil de decifrar.

— Minnie eu vou indo lá, marquei de conversar com minha namorada hoje, estou morrendo de saudades dela. Tenho um monte de coisas pra contar pra ela.

— Hum… imagino que sim.

— Amanhã eu passo aqui pra te levar pra facul.

— Ok.

…

Depois de um longo banho, Changbin se arrumou, sentou-se em sua confortável cadeira e abriu o laptop, o olhar ansioso fixo na tela enquanto aguardava a ligação da garota dos seus sonhos.

Assim que a chamada chegou, seu coração disparou. Falar com ela sempre lhe trazia uma mistura de felicidade, relaxamento e empolgação. Era incrível como alguém que ele conhecia há tão pouco tempo conseguia entendê-lo tão bem, era como se fossem amigos de longa data. A conversa fluía naturalmente, sem esforço, e a cada risada compartilhada, Changbin se sentia ainda mais conectado a ela.

— Boa noite, Cherry — Changbin digitou — Como foi seu dia?

— Boa noite, Binnie. Meu dia foi ótimo e bastante agitado. Estudei, trabalhei e até treinei com meu Personal Trainner.

— Sério? Que legal, é bom cuidar da saúde. Mas estou com ciúmes, ele é bonito?

— Você quer que eu minta pra te agradar ou quer que eu fale a verdade?

— Hum, ele é bonito né?

— Sim, ele é muito gato. Mas calma, não precisa ficar com ciúmes. Eu realmente só tenho olhos pra você.

Changbin sorriu todo bobo, sentindo as borboletas no estômago voarem que nem loucas. Aquela seria uma longa e agradável conversa com sua amada virtual.

…

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Seungmin se martirizava a cada palavra digitada. Do outro lado da tela, Changbin sorria, encantado, sem suspeitar que a garota dos seus sonhos, Cherry, nunca existiu, era apenas um personagem que Seungmin havia inventado.

Ele sabia que aquilo era errado. Errado em tantos níveis que nem conseguia enumerar. Estava mentindo para uma das pessoas mais importantes da sua vida e, pior ainda, alimentando um sentimento que nunca poderia ser correspondido da forma certa.

Changbin estava genuinamente apaixonado por Cherry. E, por mais que Cherry fosse Seungmin, ele sentia o peito apertar cada vez que ouvia Changbin confessar seus sentimentos. Porque, no fim das contas, o que Changbin amava era uma ilusão, e Seungmin sabia que, quando a verdade viesse à tona, a dor seria inevitável.

Seungmin sonhava com o dia em que todo esse amor fosse direcionado a ele. Sonhava em ouvir Changbin dizer com aquele sorriso radiante: "Minnie, eu te amo." Mas, por mais que desejasse isso com cada parte de si, sabia que era impossível. E, pior ainda, não se achava digno desse amor.

Ele estava enganando e mentindo para o amigo, alguém que confiava nele de olhos fechados. Tudo por causa de um desejo egoísta de se sentir amado, mesmo que fosse por meio de uma ilusão. O peso da culpa crescia a cada conversa, a cada confissão sincera de Changbin para Cherry, e Seungmin sentia como se estivesse preso em uma armadilha que ele mesmo criou.

A mentira já havia se tornado uma bola de neve, grande demais para ser contida. Ele queria parar, queria contar a verdade. Mas como? Como encarar Changbin e admitir que tudo aquilo não passava de uma farsa?

No fim, optou pelo caminho mais fácil, continuar com a encenação.

Notas finais
Minnie, meu amor. Vem aqui, vamos conversar... como já dizia a ilustríssima Eleven: Amigos não mentem, ok? Agora vai lá e conta a verdade pro Bin!