Lies
3 Tinta Vermelha

Han Jisung moveu a mão suavemente pelas costas de Jeongin, em um gesto reconfortante, enquanto o amigo inspirava e expirava freneticamente dentro de um saco vazio de pão. Ele tentava acalmar Jeongin, que estava à beira de um colapso nervoso.
O motivo? Jeongin finalmente foi chamado para uma entrevista tão esperada na empresa dos seus sonhos. Mas, em vez de comemorar, sentia-se completamente despreparado para encarar os CEOs gravados que o aguardavam. Sua mente estava um caos, e o nervosismo só parecia aumentar.
Felizmente, Han sempre soube o que dizer. Com paciência e palavras encorajadoras, foi pouco a pouco trazendo Jeongin de volta à realidade. Depois de alguns minutos ouvindo a voz tranquilizadora do amigo, sua respiração se estabilizou. O coração ainda estava acelerado, mas agora, pelo menos, não parecia impossível enfrentar o que estava por vir.
— Vai ficar tudo bem, Innie. Você vai se sair bem. Eles não vão resistir aos seus encantos.
— Será? É que já tentei tantas vezes lá.
— Às vezes eles não estavam num bom dia e hoje vão ser pessoas diferentes que vão te entrevistar. Pense positivo e seja você mesmo. A vaga é sua. E já se prepara pra pagar um jantar chiquérrimo pra mim.
— Eu queria acreditar em mim como você acredita — Jeongin suspirou com os ombros caídos.
— Deveria mesmo! Vou falar o quanto você é I.Ncrível até você acreditar — Han abraçou Jeongin tão apertado que ele quase sufocou.
— Ei, quer me matar?
— Só se for de amor.
— Mas antes preciso encarar os grandões na entrevista… ai amigo e se eu falar besteira? E se eu gaguejar? E se minha barriga roncar de fome?
Jisung deu risada.
— Get Cool. Mas, você não comeu nada?
— Eu estou muito nervoso. Não consigo. Se eu comer eu vou vomitar.
— Vamos fazer assim. Eu vou te buscar depois da entrevista e vamos naquela lanchonete de gamers que você adora. O que acha?
— Já falei que eu te amo?
— Hoje não, sua pequena raposinha — Han deu um beijo na testa de Jeongin, que agora parecia mais leve e calmo.
…
Jeongin desceu do ônibus e atravessou duas quadras em meio ao caos do centro da cidade. O burburinho das pessoas apressadas e o som incessante das buzinas mal chegavam aos seus ouvidos, sua mente estava focada apenas em um destino.
Ao chegar em frente ao prédio onde sonhava trabalhar, olhou para o topo do arranha-céu imponente, que parecia tocar as nuvens. Respirou fundo, ajeitou a gravata e passou as mãos pelo terno, tentando domar o nervosismo que fazia seu peito apertar. Então, sem mais hesitação, seguiu em direção à entrada.
Um simpático funcionário o recebeu, conferindo seu nome na ficha antes de conduzi-lo até o Hellevator. Assim que as portas se fecharam, o tempo parece desacelerar. Cada segundo naquele elevador pesava como uma eternidade. Para disfarçar a ansiedade, Jeongin batia os pés no ritmo da música ambiente, tentando manter a calma.
Quando finalmente chegou ao andar desejado, sentiu seu coração disparar. Mas antes de dar o primeiro passo para fora, lembrou-se das palavras de Han. Um sopro de confiança surgiu em meio ao turbilhão de emoções. Ele poderia fazer isso. Ele iria fazer isso.
…
Lee Felix revirou os olhos e suspirou impaciente, era difícil dizer não para seu chefe mimado.
— Por favor, Yongbokkie? Eu imploro, pelo amor de Deus. Eu não vou conseguir sobreviver. Tenha piedade da minha alma. Tenha compaixão deste pobre homem atribulado — Hyunjin implorava ajoelhado, conseguia até fazer algumas lágrimas caírem.
— Já acabou com o drama? — Felix não pestanejou.
— Felix, é só um Brownie, não pode fazer só um pra mim?
— Eu compro no caminho, estamos atrasados.
— Mas eu quero o que você faz. Por favor… e se meu filho nascer com cara de Brownie?
— Eu ainda me pergunto porque namorei com você no passado.
— Porque eu sou lindo, simples assim. Mas você me trocou por um cara fortão né?
— Eu não troquei você, conheci o Chan um ano depois que terminamos e as coisas entre nós não mudou, eu continuo amando você, mas de uma forma diferente.
— Traduzindo: “Eu não te amo porque você é mimado, dramático e não tem o abs trabalhado na força do ódio oito horas por dia na academia” e ainda por cima está me negando comida.
— Hwang Hyunjin, é sério isso?
— Eu to brincando, nossa, não precisa me chamar pelo nome completo. Você não tem senso de humor… e me nega Brownie… depois ainda fala que me ama, ama nada — Hyunjin saiu resmungando e entrou no carro.
— É o seu primeiro dia na empresa como Diretor e você tem uma reunião importante. Seu pai não vai gostar nem um pouco se você chegar atrasado. Prometo que depois eu faço Brownie pra você.
— Eu gravei no celular, promessa é dívida, Yongbokkie!
— Ok ok. Agora vamos. Por favor, não faça nada de idiota hoje.
…
Felix conduziu Hyunjin até uma sala imensa e luxuosa que mais parecia o salão de uma propriedade pertencente a uma família milionária — o que, de certa forma, era exatamente isso. O ambiente impecável, com móveis sofisticados e um ar de exclusividade. Ali ficaria apenas à espera da reunião.
Com a naturalidade de quem já conhecia bem o lugar, Felix colocou uma bandeja sobre a mesa de Hyunjin, contendo café, água e uma seleção de bolinhos que pareciam muito atraentes ao paladar.
— Vou fazer uma entrevista com alguns garotos. Consegue me esperar aqui sem causar nenhum acidente?
— Falando assim até parece que eu sou uma criança desastrada, não tô valendo nada mesmo — Hyunjin falou com a sua típica voz chorosa, mas Felix apenas revirou os olhos.
— Não saia daqui, ainda preciso te apresentar a empresa. Como chegou ontem da Austrália ninguém aqui sabe quem você é, então fique aqui e me espere. Vou demorar só uma horinha. Enquanto isso, leia o Brandbook que te enviei, é importante.
Felix saiu da sala, deixando Hyunjin sozinho com seus pensamentos.
Enquanto o secretário conduzia as entrevistas com os candidatos — entre eles Jeongin — Hyunjin afundava cada vez mais no tédio. Já havia lido e relido os documentos que Felix lhe enviou por e-mail, e a espera parecia interminável. Ele imaginava que, se saísse por alguns minutos, Felix — que muitas vezes parecia mais seu chefe do que seu próprio secretário — nem perceberia sua ausência. A verdade era que Hyunjin temia mais a autoridade de Felix do que do próprio pai, um homem rígido, metódico e exigente.
Sem pensar muito, levantou-se e saiu pelos corredores. Como esperado, ninguém o conheceu. Os funcionários lançaram olhares discretos, talvez atraídos por sua beleza marcante. Sem se importar com isso, Hyunjin seguiu seu caminho, explorando o prédio à procura de algo minimamente interessante.
Abriu várias portas ao longo do percurso, mas todas as salas estavam vazias e sem graça. Foi então que encontrou uma pequena despensa. Sem nada melhor para fazer, resolveu entrar. O espaço era fechado e mal iluminado, com prateleiras cheias de objetos aleatórios.
Quando seus olhos percorreram o ambiente, algo capturou sua atenção de imediato. No alto de uma das prateleiras, havia um pote de vidro. Algo flutuava dentro dele, envolto em um líquido esverdeado. A visão lhe encheu de arrepios. Parecia um daqueles frascos de laboratório onde cientistas conservam restos mortais de criaturas estranhas em formol.
Hyunjin estreitou os olhos, intrigado. O que, diabos, aquilo estava fazendo ali?
É claro que Hyunjin queria conferir aquilo mais de perto. Ele se estendeu na ponta dos pés, tentando alcançar o pote misterioso, mas, mesmo sendo alto, a prateleira estava em uma posição de difícil acesso. Determinado, inclinado-se um pouco mais, esticando os dedos, e foi aí que o desastre aconteceu.
Sem querer, sua mão esbarrou em um pote de tinta aberto. Antes que eu pudesse reagir, o líquido viscoso e vermelho desabou sobre ele como uma cascata, cobrindo-o da cabeça aos pés. A tinta escorreu por seu rosto, encharcou suas roupas e pingou no chão em uma poça espessa.
Por um breve momento, Hyunjin congelou, processando o que acabara de acontecer. Seu primeiro pensamento foi imediato e aterrorizante: "Felix vai me matar."
Hyunjin abriu a porta da despensa lentamente, espiando para ver se o corredor estava vazio. Para sua sorte, não havia ninguém por perto. Sem perder tempo, saiu apressado, tentando ser o mais discreto possível. Mas, para seu desespero total, a cada passo que dava, deixava um rastro de pegadas vermelhas pelo mármore branco, como se estivesse protagonizando uma cena de filme de terror.
Seu coração acelerou. Precisava sair dali antes que alguém o visse.
Parou na primeira porta que encontrou com o símbolo de um banheiro e entrou às pressas. Mas, para sua infelicidade, o local não estava completamente vazio. Um funcionário da limpeza, que parecia prestes a encerrar seu expediente, virou-se no momento exato em que Hyunjin atravessou a porta.
O homem ficou paralisado, os olhos arregalados. Do seu ponto de vista, Hyunjin, coberto da cabeça aos pés com um líquido vermelho viscoso, era praticamente a personificação de um assassino que tinha acabado de cometer um crime brutal.
Por alguns segundos, o silêncio pairou no ar. Até que o funcionário piscou algumas vezes e, com uma voz hesitante, perguntou:
— Você... tá bem?
— Tive um pequeno acidente com tinta — Hyunjin sorriu sem graça — O senhor não teria uma roupa para me emprestar?
O funcionário da limpeza analisou Hyunjin de cima a baixo, tentando entender o que, exatamente, estava acontecendo. Quem era aquele cara? Ele não parecia um trabalhador braçal nem alguém do setor operacional. Pelo contrário, tinha uma postura refinada, roupas caras — tirando o detalhe gritante de estar completamente coberto de tinta vermelha.
Talvez fosse alguém do setor de Marketing ou Administração. Ou, quem sabe, até da Diretoria. Definitivamente tinha cara de rico.
— Tenho somente meu uniforme, mas vou usá-lo amanhã.
— Eu te entrego um novinho amanhã, preciso realmente da sua ajuda com isso.
— Se é assim, então está bem. Vou deixar com você, está limpo. Amanhã pode deixar nesta despensa do banheiro que venho aqui pegar logo pela manhã — O homem entregou o uniforme para Hyunjin e saiu.
“Certo, agora só preciso tomar um banho, tirar toda essa tinta e voltar antes que Felix surte”
Hyunjin só lembrou que esqueceu de uma toalha quando já estava debaixo do chuveiro, com a água morna escorrendo pelo seu corpo, espalhando ainda mais a tinta vermelha. Ele fechou os olhos por um momento, soltando um suspiro frustrado.
— Dia dos infernos... — resmungou para si mesmo, xingando sua própria má sorte e mentalmente amaldiçoando todas as tintas vermelhas do mundo.
Enquanto tentava esfregar os braços para remover o pigmento, ouvi um barulho vindo do lado de fora. Seu rosto se iluminou com um sorriso imediato. Alguém tinha chegado.
Finalmente, uma chance de resolver pelo menos um problema naquele dia.
— Olá? Tem alguém aí? Preciso de uma ajudinha aqui — Chamou Hyunjin de dentro do box.
— Olá… — Jeongin ouviu a voz atrás da porta e se aproximou, desconfiado — Depende do tipo de ajudinha. O que precisa?
— Certo… é… como é seu nome?
— Yang Jeongin.
— Senhor Jeongin, poderia por gentileza conseguir uma toalha pra mim?
— Sem problemas. Tem uma lojinha no térreo, vou até lá. O senhor aguarda aqui que volto rapidinho.
Jeongin correu até o elevador e desceu até o térreo, desviando apressado das pessoas enquanto procurava a primeira loja que encontrou. Comprou uma toalha de banho sem nem olhar direito para o modelo e voltou correndo para o andar de onde veio, ansioso para resolver logo a situação.
— Trouxe a toalha! — anunciou ofegante, ao chegar.
— Você salvou minha vida, obrigado! — a voz do desconhecido soou do outro lado da porta, aliviada. — Pode passar aqui por cima da porta, por favor?
Jeongin fez o que foi pedido, levando a toalha sobre a divisória. Depois, apenas aguardou. Encostou-se na parede, cruzando os braços. Seu olhar vagou pelo banheiro vazio enquanto sua curiosidade crescia. Quem era aquele cara? Sua voz soava refinada, meio arrogante, mas de um jeito natural, como se estivesse acostumada a receber favores sem nem precisar pedir duas vezes.
Quando Hyunjin finalmente saiu do banheiro, vestindo um macacão de faxineiro improvisado, Jeongin esqueceu completamente como se respirava.
Ele nunca tinha visto um homem tão bonito em toda a sua vida. Claro que achava Lee Know — o arqui-inimigo de Han — uma gracinha. Mas aquele homem parado diante dele estava em um outro patamar.
Ele parecia um príncipe.
Os cabelos loiros e úmidos caíam suavemente na altura do queixo, algumas mechas ainda manchadas de resquícios de tinta vermelha. Mas, em vez de estragar sua aparência, aquilo só o deixava ainda mais irresistível. Hyunjin exalava uma beleza rara, quase etérea, e Jeongin se pegou incapacitado de desviar o olhar.
Seu coração deu um salto quando seus olhos se fixaram nos lábios do rapaz. Ele nunca tinha reparado tanto na boca de alguém antes, mas ali estava ele, hipnotizado, como se aquele simples detalhe fosse o centro de toda a sua atenção.
— Acidente de trabalho? — Perguntou Jeongin um pouco desnorteado.
Assim como Jeongin, Hyunjin sentiu-se atraído por ele.
A beleza do rapaz tomou seus sentidos de forma avassaladora, como se, de repente, tudo ao seu redor tivesse ficado em segundo plano. O coração de Hyunjin acelerou, e um calor inesperado subiu por sua pele. Jeongin era diferente. Não apenas bonito, ele tinha algo magnético, algo que prendia Hyunjin no lugar e o fazia querer olhar um pouco mais.
Naquele momento, Hyunjin acreditou que o amor à primeira vista realmente existia.
— Ah sim… é meu primeiro dia aqui — Respondeu Hyunjin.
— O meu também! Você não imagina como eu estou aliviado de conhecer alguém que não seja lá da Diretoria. Todo mundo aqui parece ser tão rico que me deixa desconfortável, sabe.
— Ah eu sei sim… tudo metido né? — Hyunjin riu sem graça — Eu sou o… faxineiro daqui… então você também trabalha aqui?
— Comecei agora pouco — Jeongin sorriu e Hyunjin achou suas covinhas uma graça — Na verdade eu acabei de passar na entrevista, começarei na semana que vem como estagiário.
— Que bom, parabéns Jeongin. Em que setor irá trabalhar?
— No setor de planejamento. Eu sonhei tanto em entrar nessa empresa, estou muito feliz. E você? Como foi seu primeiro dia, fora o acidente com a tinta?
— Tirando a tinta tudo correu bem. Tem alguns ricões metidos mesmo, mas tem muitas pessoas simpáticas que me ajudam bastante. Gosto do ambiente daqui, quando você conhecer melhor vai gostar também.
— Acho que iremos nos encontrar muito. Fico feliz por conhecer alguém, ainda estou um pouquinho perdido. Como é seu nome?
— Hwang Hyunjin, prazer em conhecê-lo — Hyunjin estendeu a mão e o cumprimentou.
— O prazer é meu, Hyunjin. Be, eu… preciso ir. Tenho aula agora de tarde.
— Me passa o seu telefone, assim posso te ajudar melhor caso precise, afinal de contas terei uma semana de empresa a mais que você — Hyunjin sorriu, aproveitando a oportunidade para conseguir o contato daquele rapaz cruelmente lindo.
Jeongin pegou o celular da mão de Hyunjin sem cerimônia e discou seu próprio número. Enquanto aguardava a chamada, algo lhe chamou a atenção. O peso, o brilho e a textura sofisticada do aparelho. Ele franziu a testa, estranhando.
Um faxineiro com o modelo mais recente do iPhone?
Imaginou que a empresa pagasse muito bem até mesmo os funcionários da limpeza.
— Prontinho, Hyunjin. Contato salvo — Jeongin se despediu e foi embora.
Hyunjin sorriu, divertindo-se. Ele nunca imaginou que trabalhar ali pudesse ser tão I.Nteressante. E, para sua própria surpresa, sentiu uma certa curiosidade sobre Jeongin. Queria conhecê-lo melhor, entender quem ele era além daquele primeiro encontro inesperado.
O problema agora era outro. Como, exatamente , explicaria tudo para Felix?
Ele precisaria da ajuda do secretário para manter sua nova função como faxineiro, mas, é claro, sem revelar seus verdadeiros motivos. Felix era conhecido por sua personalidade séria, responsável e diligente. Se soubesse que Hyunjin estava fazendo tudo aquilo por puro capricho — nesse caso somente para flertar com um funcionário — certamente surtaria.
Mas Hyunjin adorava um desafio. E, pelo jeito, aquele estava apenas começando.
Fale com o autor