Lie to me
10 You're my sweetheart
Notas iniciais
“I've been trying to do it right
I've been living a lonely life
I've been sleeping here instead
I've been sleeping in my bed”
(…)
Abro a janela e olho para o céu que está totalmente nublado. Flocos de neve caem graciosamente sobre a cidade, deixando Tóquio branca e cheia de uma beleza melancólica. Bocejo e olho o relógio na cabeceira, são 10 da manhã.
Espreguiço-me e rumo até o banheiro. Faço minha higiene e vou até a cozinha. Minha mãe e meu pai estão conversando animadamente sobre algo.
- Sakura! – minha mãe exclama, animada.
Posso notar que além da bonita mesa de café da manhã, ela já está preparando o almoço, provavelmente ansiosa pela vinda de Sasuke. Dou um bom dia e sorrio para os dois.
- Espero que Sasuke goste de comida italiana. – ela comenta enquanto coloca suco de laranja para mim.
- Ah sim, ele adora! – minto.
Merda, eu nem perguntei qual é a comida favorita dele, mas ele deve gostar de massa. Todo mundo gosta.
- E sobremesa? O que ele gostaria de comer?
- Ele não gosta de doces, mãe.
- Oh! – ela parece se surpreender. – Como não? – eu dou de ombros. – Não importa, sem sobremesas então.
- Hey! Mas eu gosto!
- Querida, se o seu namorado não gosta então por que eu faria? Ele se sentiria mal de não comer algo quando todos irão comer, não é? E além do mais, o almoço é para ele. Você sobrevive um dia sem doces.
Reviro os olhos e afirmo, de forma desanimada.
- Aki... – meu pai começa. – Deixa pra lá, faça o almoço da forma que você quiser.
Meu pai apenas suspira. Ele sabe que quando minha mãe pilota a cozinha, não há discussões com ela. Uma vez que ela está decidida em agradar seu genro, ela compraria até caviar se ele pedisse.
- Ah, querida, Ino ligou e avisou que virá para o almoço.
Essa não! Ino junto dá minha mãe farão da minha vida, nesse almoço, um verdadeiro inferno. Ela com certeza provocará Sasuke até o último minuto de seu encontro com ele enquanto minha mãe tentará agradá-lo de forma sufocante. Já meu pai passará a tarde lançando olhares assassinos e tentando descobrir algo que o torno um cara indigno de me ter como namorada.
Apenas suspiro pesadamente, não há nada que eu possa fazer.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Enquanto a hora do almoço não chega, decido ir até a livraria. Me despeço de meus pais, dizendo que voltaria na hora do almoço antes que Ino e Sasuke cheguem. Pego meu casaco vermelho e saio nas ruas geladas da cidade. A brisa gelada faz meus cabelos se esvoaçarem enquanto cruzo os braços numa tentativa frustrada de me esquentar mais um pouco.
Após algumas quadras, chego à pequena e bonita livraria que costumo ir sempre. O sino na porta anuncia minha chegada. Posso notar que não há ninguém no local, a não ser o vendedor.
- Sai! – exclamo ao notar o vendedor, que estava tão ocupado lendo um livro qualquer.
Sai é um amigo que adquiri em minhas vindas constantes na livraria. Depois de tanto vir aqui, acabamos conversando e descobrimos que temos muito em comum. Apesar de ser um pintor, ele também é poeta e adora ficar perto de livros. É um homem bonito, da minha idade. Seu rosto possui feições um tanto delicadas e aristocráticas. Possui a pele pálida, os cabelos negros e curtos e olhos da mesma cor.
Assim que ele me vê, retira os óculos grandes que lhe dá um aspecto intelectual e sorri pra mim.
- Faz um tempo que você não vem aqui. – ele diz enquanto sai de trás do balcão e me dá um abraço e um beijo rosto. – Ouvi por aí que esse sumiço é porque tem um novo namorado. – ele diz, parecendo um pouco magoado, mas logo o costumeiro sorriso volta ao seu rosto.
- Ah... é. – não posso evitar soar um pouco desanimada.
- E então, o que veio comprar hoje?
- Ah, eu estou escrevendo um novo livro. – digo animada e não posso evitar sorri. – E eu quero fazer um pouco de pesquisa.
- Ah sim! – ele me olha de maneira intensa, mas logo desvia o olhar. – E sobre o que é?
- Eu queria fazer uma história que tivesse em foco a situação da mulher no Japão nos anos 60. Eu estava pensando em um livro de história, sabe? Daquelas coleções que são separadas por décadas? Eu queria exatamente uma sobre esta década. E... você tem alguma coisa da Simone de Beauvoir e da Virginia Woolf¹? Eu queria dar um enfoque feminista ao livro. Mas embora eu tenha lá minhas concepções, eu não sei nada sobre teoricamente.
Sai me olha e vai até algumas prateleiras, empilhando vários livros em seu braço.
- Eu não sei por que, mas eu acho que seu livro será uma obra prima. – ele diz com uma feição séria enquanto entrega os livros em minhas mãos. – Venha mais por aqui, tem um senhora que agora sempre vem comprar livros que talvez poderá te ajudar. Ela parece muito interessada nesse tema também e... não preciso nem dizer que ela vivenciou a década de 60, não é?
Apenas afirmo com a cabeça enquanto nós dois caminhamos até o caixa.
- E o livro de poemas?
- Desisti da idéia.
- Mas...
Sai apesar de amar pintar, escreve poemas lindos que não deviam ficar juntando poeira em uma gaveta qualquer.
- Você deveria publicá-los...
- Prefiro continuar com os quadros e deixar os poemas só pra mim. Ou pra você, quando quiser voltar ao ateliê qualquer dia desses. – ele me diz enquanto dá o meu troco.
Antes que eu possa respondê-lo olho a hora e vejo que estou quase atrasada e minha mãe vai me assassinar se eu não chegar antes de Sasuke em casa. Dou um abraço rápido em Sai que parece meio confuso e saio correndo.
Merda. Merda. Merda! Repito sem parar enquanto corro o mais rápido que posso. Assim que dobro a esquina da minha rua, avisto Sasuke que acaba de descer de seu carro. Grito seu nome o mais alto que eu posso e não paro de correr, até que chamo sua atenção. Quando noto que agora ele está parando e me esperando, sorrio aliviada, mas me distraio, escorregando na neve e levando um enorme tombo no meio da rua.
- Ai! – grito, ainda deitada em meio a neve.
Por alguns segundos, encaro o céu nublado, mas Sasuke entra em meu campo de visão.
- Idiota. – ele diz, me ajudando a levantar. – Não sabe que a neve é escorregadia? – ele parece procurar algum machucado sério em mim, mas depois de não achar, se abaixa e pega meus livros, esparramados pelo chão. – Não deve correr assim numa rua coberta por neve.
- O importante... – interrompo a minha fala quando sinto minha bunda latejar. – O importante é que você não entre naquela casa antes de mim.
- Por que não?
- Olha, não discute, apenas espere cinco minutos e então suba.
Digo para ele e depois começo a correr até meu prédio, ignorando tudo que Sasuke acaba de me dizer. Assim que chego em casa, vejo que Ino já chegou e está sentada no sofá assistindo futebol e tomando sakê com o meu pai. Minha mãe corre louca pela casa.
- Mãe, quer se acalmar, é só o Sasuke que vem, não é a realeza.
- Querida, você acha que terá sorte sempre? Se deixarmos escapar esse aí, quantos homens maravilhosos assim você pode arrumar na sua vida?
Minha mãe diz como se Sasuke fosse namorar toda a família e não só eu. Além do mais, em menos de dois meses, eu serei solteira novamente.
Logo, Ino me dá um abraço e um beijo no rosto. Mas antes que ela possa falar algo, a campainha toca. É Sasuke.
Respiro fundo e olho para Ino que me dá um sorrisinho malicioso em resposta. Isso é tudo culpa dela, se ela não tivesse sugerido esse almoço, provavelmente essa hora meus pais estariam de volta a Konohagure e eu não teria que passar por esse purgatório.
Lentamente abro a porta e lá está ele. Vestindo uma calça jeans escura, sapatos mocassim, camisa branca e um casaco e cachecol pretos. Sua expressão está suave e assim que nossos olhos se encontram, ele sorri e deposita um selinho demorado em meus lábios, seguido e um “oi querida”, mais que irônico.
- Sasuke, querido. – Ino dá um rápido abraço nele. – Quanto tempo... Não o vejo desde que Sakura te levou naquele almoço es-pe-ta-cu-lar na Soho. – Ino diz tudo de uma forma tão amigável que ele apenas assente e para minha surpresa, sorri.
- Eu tenho andado ocupado, mas temos que sair algum dia desses. – ele sorri novamente.
- Não esquecerei do convite. – ela sorri.
Mas o que esses dois estão fazendo? Quanta falsidade, por deus. Reviro os olhos e pego na mão de Sasuke e o levo até meu pai, que observa tudo, sentado no sofá.
- Pai, esse aqui é meu namorado, Uchiha Sasuke. – sorrio para meu pai que apenas assente. – Sasuke esse é meu pai, Haruno Kanji.
- É um prazer, Sr. Haruno.
Os dois apertam as mãos, mas posso notar o olhar sério que meu pai lança a Sasuke que não parece nem um pouco intimidado pela aura assassina de meu pai. Rapidamente, minha mãe aparece na sala, se apresenta a Sasuke, e o abraça. Lançando-lhe vários elogios e fazendo várias perguntas. Sasuke não parece surpreso ou assustado, pelo contrário. É como se esse fosse o dia mais feliz de sua vida, e ele parece genuinamente interessado em todas as bobagens que minha mãe diz a ele. Reviro os olhos novamente.
- Espero que goste de comida italiana, Sasuke. – Sasuke assentiu. – Estou tão feliz que você esteja namorando minha Sakura. Ela falou tanto de você... – minha mãe diz, sonhadora e Sasuke olha para mim, que merda. – Sinto até que te conheço faz muito tempo, porque desde que cheguei aqui se tem um nome que Sakura diz o tempo todo é Sasuke. – me afundo no sofá, rezando para que minha mãe pare de falar logo. – É Sasuke isso, Sasuke aquilo. Mãe, Sasuke gosta disso, Sasuke disse aquilo... E você parece um homem maravilhoso por tudo que ela fala.
Ah não!
- Espero que apenas coisas boas... – ele comenta, com o seu olhar grudado em mim.
- Pode apostar. – Ino dá uma risada. – Eu mesma estou com muita inveja da Sakura, por ter achado um amor nível Romeo e Julieta assim tão rápido. Parece que os dois vivem em um filme de amor épico. Se vocês ouvissem cada loucura que esse aqui – Ino dá um tapinha nos ombros de Sasuke. – Faz por ela... Parece coisa de filme.
Eu apenas observo tudo e continuo afundada no sofá, esperando a deixa para me jogar da janela a qualquer instante. Ino e minha mãe parecem ter unido forças para me matar de vergonha.
Papai limpa a garganta e se dirige a Sasuke.
- Rapaz, quantos anos, você tem mesmo?
- Vinte e cinco, senhor.
- É impressionante, você mesmo fundou a companhia Sharingan?
- Sim, com a ajuda de meu irmão, que se retirou da empresa e agora mora na Alemanha.
- É mesmo muito impressionante, não é, querido? – minha mãe grita da cozinha e continua: — Querida, eu espero que você não deixe esse homem escapar da suas mãos, como já aconteceu anteriormente.
EU ESTOU OUVINDO ISSO?
- Aki! – meu pai tenta a fazer moderar, mas ela está disposta a me envergonhar além do permitido.
- O que foi, querido? – ela aparece na sala. – Sakura deve conversar com o namorado e você Sasuke deve saber do Sasori, não é? – Sasuke assente, e não deixa de esconder a expressão de divertimento. – A questão é que minha filha, como Sasuke deve saber é um pouco complicada e avoada.
- Eu amo isso nela, senhora Haruno. – Sasuke diz e eu e Ino o encaramos.
- Não disse? – Ino diz. – Amor épico.
Logo o almoço é servido e nos sentamos a mesa. Sasuke se senta ao meu lado, e Ino se senta do outro lado da mesa, junto a minha mãe, enquanto meu pai se senta na frente de todos como uma espécie de patriarca.
Nossa, minha mãe caprichou. Com uma bela lasanha no centro da mesa e uma forma cheia de Bruschetta além de Penne de tomate e mussarela². Meu deus, ela abriu até um vinho. Onde ela achou vinho?
Começamos a comer e realmente a comida está deliciosa. O clima é agradável, embora todos estejam em silêncio.
- Senhora Haruno, a comida está maravilhosa. – Sasuke comenta, bebericando o vinho.
- Ah, querido, obrigada, eu cozinhei especialmente pra você. Embora não tenha sobremesa, eu espero que você aprecie o almoço. – minha mãe diz, de um jeito estranhamente educado. – Sakura pediu que não houvesse sobre mesa porque você não gosta de doces. Que menina atenciosa. – eu reviro os olhos e sinto meu rosto esquentar.
Sasuke me dá um olhar divertido, seguido de Ino que mal pode esperar ficar sozinha comigo para rir da minha cara sem parar.
- Eu gostaria de sobremesa. – resmungo baixo, mas o suficiente para Sasuke e ele olha pra mim.
Assim que todos terminam, minha mãe anuncia que vai lavar a louça, mas Sasuke prontamente se voluntaria para lavar e eu acabo anunciando que secarei a louça.
- Bom, então se é assim vou arrumar as malas, temos que pegar o trem a tarde e não podemos perder. – minha mãe diz. – Sasuke, minha filha não poderia arranjar namorado melhor... E você tem minha benção.
Meu pai apenas olha para Sasuke e sorri para ele, me surpreendendo totalmente, antes de rumar para o quarto com a minha mãe, para arrumarem suas coisas. Por um momento apenas fico estática, absorvendo tudo que acaba de acontecer. Meu pai nunca, NUNCA sorriu para meus namorados, nem mesmo para Sasori e olha que esse tentou agradá-lo. Em seguida, olho para Sasuke e estreito meus olhos, mas ele apenas me dá um sorriso de canto e volta suas atenções para a pia em sua frente.
- Vocês, hein? – Ino aparece na cozinha e se senta na cadeira de forma bem preguiçosa. – O primeiro namorado de Sakura que o Sr. Kanji aprova. Isso sem falar no amor que a Sra. Aki agora alimenta por você, hein, Sasuke? Não seria melhor já engatarem um caso de verdade e unirem o útil ao agradável? – nesse momento, eu e Sasuke olhamos feio para Ino. – Só estou dizendo que pelo que eu sei de você, — ela aponta para Sasuke. – Você não é acostumado a ficar na seca por tanto tempo... E você, — ela aponta pra mim. – vai acabar criando teias de aranha, querida. – ela suspira pesadamente. – Bom, eu já me despedi de seus pais e vou indo.
Ino começa a caminhar até a sala, mas de repente, para e se volta para nós. Ela realmente trouxe uma mala cheia de formas diferentes de me fazer passar vergonha, e parece que ela ainda não terminou.
- O que me faz lembrar... Hoje você chegou com a sacola cheia de livros... Você viu o Sai hoje? – eu assinto e ela dá uma risada. – Aquele pintor metido a poeta e intelectual ainda cai de amores por você?
- Ino, por deus, o que deu em você hoje?
- Sakura, só estou dizendo que, isso – ela aponta para nós dois – não te beneficia em nada. Existem homens por aí que morreriam para estar de verdade com você.
Rapidamente, Ino vai embora, me deixando completamente pensativa.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Abro a terceira garrafa de vinho e me sirvo uma taça. Faz dois dias desde a visita dos meus pais e ainda penso no que Ino me disse. Ela acabou tendo que viajar para Nova Iorque para fotografar para a Vogue, ou algo assim, Hinata está em Paris fazendo um intercâmbio e estagiando no Museu do Louvre e me vejo completamente sozinha.
Suspiro pesadamente enquanto dou uma golada no conteúdo da minha taça. Ligo o rádio e Céline Dion canta tristemente All By Myself³ e, por um momento, penso em mudar de estação de rádio, mas desisto.
Eu sei que eu estou seguindo em frente em alguns aspectos da minha vida, mas amorosamente eu estou presa, inerte, no mesmo lugar. Agora eu estou numa relação de mentira, com um cara que só quer me usar para conseguir algumas ações numa empresa. Mas o pior de tudo, é que ainda penso no Sasori, e quando vejo meu rosto numa revista, fico me perguntando o que ele pensa de me ver com outra pessoa. E eu sei, que eu deveria seguir em frente, mas esquecer um amor está me saindo uma tarefa mais difícil do que eu imagina.
When I was young
I never needed anyone
And making love was just for fun
Those days are gone
A letra faz tanto sentido pra mim, nesse momento.
- All by myself... – começo a cantar junto, com a garrafa de vinho na mão. – Don’t wanna be all by myself... – aumento meu tom de voz junto com a Céline. – ANYMORE! – grito, usando meus dedos de bateria, acompanhando a música.
Assim que a música termina, viro todo o conteúdo da minha taça de uma vez, mas sou surpreendida com a campainha tocando. Meu deus, quem será? Eu estou com um pijama velho e meu cabelo está preso em um coque e vários fios estão soltos, desgrenhados. Quando vejo pelo olho mágico, é Sasori.
Oh, não! O que ele quer aqui? Meu coração dispara em meu peito e ele insiste com a campainha provavelmente deve saber de alguma forma, que eu estou em casa. Respiro fundo, dou uma leve ajeitada no meu cabelo e abro a porta.
- O que você está fazendo aqui?
- Sakura, eu não sei o que me deu quando eu te deixei, nem quando eu te trai. Eu sei que não agi certo, culpei você pelo fim do nosso relacionamento, e ao invés de te ajudar quando você mais precisava, eu sei, eu pisei na bola, eu fui pelo caminho mais fácil. Mas nesse tempo longe de você eu entendi que eu te amo. Que apesar dos meus erros, dos nossos erros, eu sinto sua falta. Eu me arrependi de te deixar, de tudo que fiz. E eu não suporto a idéia de te ver com outra pessoa. – Sasori diz, de forma incansável.
Seus olhos expressam tristeza, e eu sei que ele está sendo sincero. Mas apesar de não esquecê-lo, eu não posso perdoá-lo
- Eu estou feliz com Sasuke. – minto, mas sei que é para meu próprio bem.
- Mentira... – ele faz menção de que vai dizer algo, mas muda de idéia. – Você está bêbada?
- Não, eu estou lúcida o suficiente para saber que desculpas não são o bastante. Que não mudam o que aconteceu e que eu amo o meu namorado. – minto mais uma vez.
- Sakura, em um mês você não me esqueceu, tenho certeza.
- Talvez eu nunca tenha te amado. – minto de novo.
- Sakura...
- E agora eu quero que você vá embora.
- Pelo amor de deus, você está bêbada. Eu voltarei quando você estiver lúcida para conversarmos melhor. Eu sei que ainda não acabou.
Sasori diz e vai embora. O choro está entalado em minha garganta, mas ainda séria fecho a porta. Assim que a tranco, as lágrimas descem violentamente pelo meu rosto, eu me sento no sofá, tentando absorver as coisas que Sasori acaba de me dizer. Tentando me acalmar eu bebo mais vinho. Mesmo sem saber o que eu estou fazendo direito, calço minhas pantufas e meu casaco e vou pra rua.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Acordo com uma terrível do de cabeça, faço uma massagem em minha têmpora, sentando na cama. Quando percebo que minha cama não é tão grande ou macia assim. Olho a minha volta e noto que esse com certeza não é meu quarto. Um quarto completamente masculino. Com alguns quadros na parede, mobília antiga, bonita. Olho para baixo e noto que estou com minhas roupas. Suspiro, aliviada, pelo menos não foi esse tipo de loucura que eu cometi na noite passada.
Viro o rosto e percebo que há um pequeno quadro na cabeceira ao lado da cama. Assim que o pego, vejo a foto de uma bonita família, todos parecem muito felizes e são muito bonitos, posso notar que ao canto está Sasuke.
SASUKE? Ah não, não pode ser! Esse é o quarto dele! Um desespero toma conta de mim e começo a olhar por todos os cantos tentando lembrar o que diabos aconteceu na noite passada. Aos poucos alguns flashbacks me vêm a mente. Eu chorando vagando pelas ruas de madrugada. Oh, não! Eu perdida sem saber onde eu estava. Eu bêbada, perdida sem saber onde eu estava. Eu procurando em meus contatos alguém pra eu ligar. EU LIGANDO PARA SASUKE AOS PRANTOS! Ele vindo me buscar, e eu chorando e contando tudo sobre Sasori.
Coloco as mãos cobrindo meu rosto, tentando de alguma forma me esconder da vergonha que eu estou sentindo nesse exato momento.
Começo a me lembrar que ao chegar à casa dele, ele tentou me colocar pra dormir, mas eu apenas gritava e ria, e falava coisas idiotas sobre ele, ou Sasori ou sabe-se de quem diabos eu estava falando. Lembro de Sasuke quase perdendo a paciência comigo correndo pela casa e cantando Queen. Meu deus do céu!
Porra!
Porra!
POR-RA!
Me levanto rapidamente e acho que não há ninguém no apartamento. Pego minhas pantufas e de fininho, abro a porta. Tudo que escuto é silêncio e, como uma ninja, caminho até a porta.
- Por que você está caminhando desse jeito?
A voz de Sasuke me petrifica, e paro por alguns segundos, depois ensaio o melhor sorriso que eu tenho e me viro até ele que está calmo, sentado na mesa tomando um café e lendo o jornal.
- Por que não toma um café, e depois uma aspirina? Bêbada do jeito que você estava, você vai precisar... – ele levanta os olhos e me olha de forma intensa. – Você é uma das bêbadas mais irritantes que eu já conheci.
- Sasuke, me desculpa! – me aproximo mais dele. – Sério, me desculpa. Eu não sei o que me deu, eu bebi demais. Olha, eu sinto muito. Me desculpa, mesmo. Como eu posso me redimir? Me desculpa!
- Vai começar se redimindo parando de pedir desculpas e tomando o café. – ele diz, sério, mas logo seu olhar se volta para mim, novamente e ele sorri.
- Ok, desculpa.
- Viu? Fez de novo. Pare de pedir desculpas.
- Tá, desculpa. – ele me olha e dá uma risada. – Ai! Não consigo.
- Apenas sente e coma, Sakura.
Olho para ele e sorrio também. Para um cara que eu considerava um idiota completo, e completamente mal educado, Sasuke até que é um cara legal, um pouco egoísta, mas legal. Outras pessoas teriam me mandado pro inferno na condição que eu estava ontem. Me sento na mesa junto com ele e começo a comer.
- E então, quais são os planos pra hoje?
- Hum?
- Ontem você só ficou quieta e foi dormir porque eu tive que prometer que eu não te deixaria sozinha hoje e que faríamos alguma coisa legal.
- Oh! – meu deus, como ele conseguiu me agüentar ontem? – Olha, eu tava bêbada, pode deixar pra lá, não precisa, sério.
- Mas eu quero. – ele comenta, fechando seu jornal. – Pelos últimos dias, eu trabalhei como um louco, eu também mereço um descanso e... Eu gosto de cumprir minhas promessas, mesmo para os bêbados.
Dou uma risada e apenas o olho.
- Certo, mas eu vou ter que trocar de roupas primeiro.
Terminamos e o café e Sasuke me diz que irá me levar até em casa para eu me trocar. Ele me acompanha até o seu carro. Hoje Sasuke está tão bonito, com um óculos escuro Ray-Ban, calças cáqui, coturno preto, camisa branca e um sobretudo também preto. Entramos em seu carro e ele dá partida.
- Hum... – eu começo. – sobre tudo que eu falei ontem...
- Seu ex é um tremendo babaca. – ele diz sem tirar os olhos das ruas.
- Certo. Eu sei... – comento, olhando para a janela.
Rapidamente, chegamos em frente ao meu prédio e convido Sasuke a entrar, pois eu sei que querendo ou não, eu vou acabar demorando. Ele se senta no sofá enquanto eu corro para o chuveiro.
Acabo prendendo meu cabelo num coque e visto um enorme suéter cinza, com uma calça legging. Por cima coloco um casaco amarelo e visto botas marrons. Volto pra sala e Sasuke está fumando um cigarro enquanto olha para o nada, parecendo pensativo.
- E então, onde vamos?
- Eu pensei em te levar em te levar no cinema pra ver um filme que tem a ver com o seu livro, e depois podíamos almoçar em algum lugar e depois passear pelo Parque Ueno³³.
- Que filme vamos ver?
-Ontem quando você caiu, vi que um dos livros que você comprou era Mrs Dalloway e eu presumi que você vá ler por causa do livro que você está escreve. – eu assinto e ele continua. – Bom, existe um cinema antigo que está passando aquele As Horas³³³. – Sasuke comenta enquanto dá partida no carro.
Observo-o, por alguns segundos, não posso ver seus olhos através dos óculos, mas noto a expressão serena de Sasuke. Sorrio por fim.
- Por que você está fazendo isso?
- Não sei. – ele dá de ombros. – Porque eu quero ir ver um filme.
Logo ele se cala e o silêncio se instala. O silêncio entre nós não é mais algo constrangedor, é agradável. Hoje a temperatura não está tão baixa, provavelmente é porque estamos quase no final do inverno. Uma sensação de tranqüilidade me invade e eu sorrio para mim mesma, ainda olhando, pela janela, as ruas movimentadas e lotadas da cidade.
Respiro fundo e Sasuke me surpreende avisando que já chegamos. E, ao descer do carro, noto que o cinema é bem pequeno e antigo. Entramos e a sessão tinha acabado de começar. O filme fala sobre três mulheres de períodos diferentes ligadas ao livro, Mrs. Dalloway. Após os 10 primeiros minutos, eu já estava derramando as primeiras lágrimas. O filme é tão triste e bonito.
Ao final do filme, eu já estava em prantos.
Saímos do cinema e eu ainda não parei de chorar. O filme é tão bonito, e me causou uma tremenda reflexão sobre minha vida, olho para Sasuke que também está pensativo.
- Sakura, todo mundo está olhando pra você.
- Eu sei... – fungo, tentando engolir o choro. – Mas é que... – respiro fundo, secando as lágrimas. – É tão bonito, tão triste. Me fez pensar na minha vida, me perguntar se eu também, como no filme, também não passo pela vida de uma forma tão trivial... Se eu sou feliz... Você não se pergunta isso? Se de alguma forma, você também não está no caminho errado? Digo, não caminho errado, mas se de alguma forma as coisas que fazemos e tudo que vivemos, vale a pena. – as lágrimas insistem em cair. – Elas pareciam tão tristes, presas em realidades que não as tocavam, não as satisfaziam... Será que quando eu envelhecer, eu também vou me sentir assim?
Olho para ele, e ele parece pensativo, provavelmente absorvendo tudo que eu acabo de dizer. Sasuke respira fundo e, por fim, olha para mim. Sua expressão está tão suave, mas seus olhos estão tristes. Talvez ele esteja se sentindo como eu, só que não vai chorar.
- Eu também penso nisso, mas eu sigo em frente. – Sasuke diz, colocando a mão nos bolsos e tirando seu maço de cigarros. – Pra reconhecer que somos infelizes... Isso requer coragem. – ele acende um cigarro, dá uma tragada e logo volta seu olhar pra mim. – Mudar o que nos faz infelizes, requer mais coragem ainda. – logo me dá um sorriso minúsculo. – E você me parece uma garota corajosa.
Sentamos em um banco e ficamos em silêncio por alguns instantes. Ele tem razão, o filme serve exatamente para o que eu pretendo escrever, e não só para isso. De alguma forma, o que Sasuke me diz me fez me sentir bem, e eu posso notar que ele não é tão insensível quanto eu pensei. Talvez, apenas talvez, nessas semanas que passaremos juntos, possamos ser amigos.
- E agora, pra onde vamos? – pergunto.
- Pensei em comer alguma coisa e irmos ao Parque. Depois eu te deixo em casa.
- Certo.
Sorrio para ele, e ele pega em minha mão. Já nos acostumamos e andar de mãos dadas e as pessoas nos fotografarem. Nunca duvidarão de nós se fizermos coisas assim, cotidianas juntos. Aliás, parecemos namorados, porque agora conversamos e aos poucos querendo ou não, nós estamos conversando cada vez mais.
Caminhamos até um bonito restaurante indiano que fica do outro lado da rua. Nos sentamos e eu peço Gushtaba e Sasuke pede Biryani³³³³. Ficamos em silêncio até nossos pedidos chegarem. Assim que começamos a comer, eu me lembro que eu devia mais desculpas pra ele do que eu me lembrava.
- Sobre minha mãe e Ino... me desculpe.
- Eu entendo Ino, ela acha que eu estou usando você. E é verdade. – ele diz, bebericando seu vinho. – Ela só quer te proteger.
- Eu sei. Mas minha mãe, estava te sufocando com todas aquelas perguntas...
- Sua mãe é um pouco intensa.
- Um pouco? Ela fez pior com Sasori, depois do encontro deles, ele começou a fugir dela toda vez que ela tentava marcar de voltar a Tóquio para vê-lo. – dou uma risada, mas logo meu sorriso morre em meu rosto, porque a lembrança da visita de Sasori me atinge em cheio.
Sasuke parece perceber, porque continua me olhando por alguns instantes, mas logo volta para sua comida, parecendo levemente irritado.
Quando terminamos, saímos de mãos dadas e caminhamos um tempo até o bonito Parque Ueno. Mesmo que a primavera não tenha chegado, as cerejeiras já começam dar sinais de florescer. A grama que na primavera é verde, agora está branca, mas o lugar não deixa de ser bonito por causa disso. Caminhamos um pouco até sentarmos em um banco qualquer.
- Eu costumava vir aqui quando era mais jovem, eu e meus amigos. – Sasuke começa, parecendo nostálgico. – Éramos uma espécie de gangue, Naruto, Gaara e eu.
- Naruto é o garoto loiro das fotos?
- Sim, nós vínhamos aqui para fumar escondido e compor músicas. – ele dá um sorriso, mas logo sua feição me parece triste.
- E onde ele está agora?
- Ele morreu.
- Sinto muito.
- Eu também. – Sasuke respira fundo. – Naruto era gay, e um dia todo o grupo se reuniu aqui, ele e seu namorado, Gaara e sua namorada e eu e uma garota da escola. E, enfim, um grupo de idiotas passou e viu Naruto com seu namorado. Nós não estávamos juntos na hora, e eu não pude ajudá-lo. Quando chegamos no hospital, era tarde demais.
Meu deus, que horror!
Olho para Sasuke, que parece sério, mas a tristeza transborda de seus olhos. Ele parece ter vários sentimentos sobre esse lugar. Nesse momento, pego em sua mão e olho para ele, tentando confortá-lo. Sem saber o que eu estou fazendo, deito a cabeça em seu ombro.
(…)
“So show me family
All the blood that I will bleed
I don't know where I belong
I don't know where I went wrong
But I can write a song
I belong with you, you belong with me
You're my sweetheart”
The Lumineers – Ho Hey
Notas finais
¹Simone de Beauvoir foi uma escritora, filosofa existencialista e feminista francesa. E Virginia Woolf foi uma escritora inglesa.
²Eu tirei as comidas italianas desse site: http://cybercook.terra.com.br/receitas-com-fotos-comida-italiana-m-210-1282.html Vou até fazer algumas aqui em casa.
³ http://www.youtube.com/watch?v=t4IThiKb9YY Apenas olhem esse vídeo e vocês podem visualizar a cena da Sakura
³³ Parque Ueno é um dos mais antigos e se encontra bem ao centro da cidade. Ele concentra museus, jardins, templos e o Tokyo Zoo. O zôo é uma das atrações principais para crianças. Os enormes pandas chamam atenção de maioria do público.
³³³ As Horas é um filme americano lindo inspirado num livro da Virginia Woolf, ceis tem que ver. É lindo, chorei horrores.
³³³³ Gushtaba é almôndegas com especiarias em iogurte e Biryani é rango ou cordeiro com arroz, com sabor a laranja, temperado com açúcar e água de rosas.
YOOO PEOPLE! Desculpa a demora, enfim e desculpem o monte de notas, mas achei bacana colocar referencias e pá. Enfim, gostaram do capítulo? Não vou comentar muito porque minha série está passando. Mas nesse capítulo vimos mais um pouco da aproximação dos dois e conhecemos um pouco do passado do Sasuke, o que acharam? Eu particularmente, não gostei muito porque a coisa toda saiu muito diferente do que eu imaginei, mas a partir daqui, uma amizade vai se criar entre eles, e você podem imaginar o que acontece depois. É claro que vamos torcer para que a Sakura esqueça o babaca do ex e o Sasuke supere seu passado. Logo mais personagens aparecerão.
Beijos e até a próxima pessoa.
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