Lie to me

3 Shake it out


.x.

"And I am done with my graceless heart
So tonight I'm gonna cut it out and then restart
'Cause I like to keep my issues drawn
It's always darkest before the dawn"

- Estou esperando uma explicação.

Sasuke continua parado na minha frente. Sua expressão está indecifrável. Olho para trás e vejo a grande varanda da suíte e minha única vontade é pular dali e quebrar minha cabeça de encontro ao chão. Eu já estava indo embora, por que ele tinha que chegar justo hoje?

A verdade é que não tenho uma boa explicação, eu estou errada, eu sei disso.

Coço minha nuca e dou um sorriso amarelo.

- É certamente uma história muito engraçada. – balbucio esperando que ele tenha compaixão.

É isso, Sakura, sem teto, sem namorado, falida e no fundo do poço, agora também é criminosa e passará uns bons meses na cadeia.

- Ah é? – sua expressão está fechada, mas posso notar um brilho em seus olhos como se ele estivesse se divertindo.

- Claro. Obviamente há uma explicação...

- Então me conte, senhorita. Porque pelo que posso entender, você está numa suíte que não lhe pertence, usufruindo de coisas que não são suas e se passando por alguém que com certeza você não é.

Ele senta numa poltrona sem tirar os olhos de mim.

Ok, quando ele coloca desse jeito, até parece que sou uma criminosa.

- É um mal entendido...

- Um mal entendido?

- Um mal entendido. — confirmo

- Certo. – ele acende um cigarro, posso notar que ele ainda está se divertindo.

Ele parece estar gostando de perceber meu pavor.

- Se eu chamar os seguranças, ou a polícia, talvez possamos resolvê-lo, não é?

- Não!

- Qual o seu nome?

- Haruno Sakura. – falo com a cabeça baixa.

- Pois bem, Haruno, eu não quero que as coisas piorem. Você quer? – balanço a cabeça negativamente — Eu poderia chamar a polícia, porque isso aqui... – ele aponta pra mim – é crime, e com as minhas influencias eu poderia facilmente te deixar na cadeia por dois, três longos anos.

- Mas... – tento falar algo, mas ele é mais rápido.

- Eu não tenho tempo para pessoas como você.

Ele me interrompe quando eu o vejo caminhar até mim. Seu passo é curto, sua postura e altiva, ameaçadora. Sasuke certamente é um homem bonito, sexy, charmoso, mas é assustador. Quando ele fica a apenas alguns centímetros de distância de mim, posso vê-lo claramente, ele me assusta, me instiga. Quero me aproximar, ao mesmo tempo preciso fugir.

- Conheço pessoas como você, parasitas que preferem usufruir o que é dos outros ao invés de se esforçar para conseguir suas próprias coisas, ter suas próprias conquistas. – agora sua voz está carregada de raiva. – Muitas pessoas assim já se passaram pelo meu caminho, mas devo avisá-la: eu derrubei cada uma delas.

Ele me observa alguns instantes, ele procura algo em meu rosto, e não sei o que é. Arrependimento? Será que ele procura saber se estou com medo? Não sei ao certo. Tento procurar algo para dizer, um pedido de desculpas, uma explicação, mas por algum motivo, sinto que ele não aceitaria. Minha voz sumiu, estou completamente paralisada.

Me surpreendo ao perceber que ele me dá as costas e caminha para a porta. Ao abri-la, ele olha para trás:

- Haruno, você tem meia hora para pegar suas coisas e dar o fora do meu hotel, espero que suma de meu caminho, eu não serei tão misericordioso da próxima vez.

Observo então a porta sendo fechada, e sinto meu coração bater tão forte, como uma bomba relógio dentro de meu peito.

Porra!

Ainda em choque saio correndo pelo quarto, coloco uma roupa qualquer e pego minhas malas. Quero sair o quanto antes daqui. Não quero vê-lo de novo, não exatamente por me sentir ameaçada por ele, mas porque por algum motivo, me sinto humilhada, como se eu esperasse que ele chamasse a polícia, porque me deixar me safar assim é como se ele não estivesse com raiva, e sim pena. Ele não me deixou falar, apenas presumiu o pior de mim, e de alguma forma muito estranha, isso dói. Sinto meus olhos marejarem... Será que eu finalmente perdi as rédeas da minha vida?

Sai do Palace sem nem ao menos olhar para os lados, não queria ter que me encontrar com Sasuke de novo, aquele encontro já fora traumatizante o suficiente. Pelo visto terei que dormir em algum hotel barato e amanhã vou arranjar um apartamento nem que seja no gueto.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo

Acordo com meu celular se esgoelando ao meu lado. São 10 da manhã e eu perdi a hora. Não vou trabalhar, não estou com saco para ouvir as implicações de Genma e seu mau humor.

- Alô.

- QUE HISTÓRIA É ESSA DE VOCÊ NÃO ESTAR MAIS COM O SASORI? – afasto o telefone do meu ouvido.

- Ino! Como você descobriu?

- Sakura, querida, não tem uma novidade que passe despercebida por mim. – Ino diz convencida. – Não importa, o que eu quero saber é: onde você se meteu? O que aconteceu? Francamente, eu faço uma viajem de duas semanas e quando eu volto tudo está de pernas pro ar. – escuto um suspiro.

- Como você descobriu isso?

- Ah, você sabe, fui na sua casa, ou melhor, na sua ex casa, e o Sasori atendeu, disse que você não morava mais lá e bateu a porta na minha cara! Como ele ousa ser mal educado com moi?!

- Olha, se você quiser... – falo desanimada, hoje eu não queria sair da cama. – Eu, você e Hinata podemos nos encontrar na Soho e almoçamos, pode ser?

- Sim, pois eu quero saber direito dessa história, ok?

Ela diz, mandona.

- Certo, avise a Hinata.

Noite passada eu acabei andando algumas quadras até encontrar um hotel um milhão de vezes inferior ao Palace. A única coisa que eu queria era dormir e esquecer os últimos dois dias, mal entrei e me joguei na cama esperando me perder em meio aos lençóis e acordar em qualquer outro lugar.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo

Ino dá um gritinho quando me vê. Ino é uma dessas mulheres estonteantes, alta, dona de cabelos longos, dourados e brilhosos, um corpo lindo e roupas caras. Ela é uma modelo famosa, rica e um amor de pessoa, do jeito dela é claro.

- Sakura! – ela me dá um abraço apertado – Você faça-me o favor sentar ai mesmo e contar pra gente o que houve.

Hinata aparece logo atrás de Ino. Hinata é a pessoa mais doce que eu já conheci, sempre prestativa e extremamente inteligente, ela inclusive está fazendo seu doutorado em história da arte na Toudai, a Universidade de Tóquio, onde apenas os mais inteligentes estudam.

- Sakura-chan, o que houve? – ela diz pegando na minha mão.

Logo, estamos com a mesa cheia de garrafas de sakê vazias. Tenho que admitir que quanto nós três estamos juntas, tomamos mais sakê do que seria permitido. Estou terminando de contar a história de como peguei Sasori na cama com sua odiosa secretária, Tayuya, acabei também contando toda a história do Palace e como foi meu encontro com Sasuke.

- O QUÊ?!! – Ino da um grito quando eu cito Sasuke.

- Devo agrade-lo por ele não ter me denunciado pras autoridades. – digo.

- Uchiha Sasuke?! Dono do Palace? – ela está boquiaberta, e fala cada mais alto.

- Ino! – advirto-a. – Fala mais baixo. Não quero que toda Tóquio saiba... Mas enfim, o próprio.

- Ele é o cara mais gostoso e cobiçado do Japão, sabia? – ela diz sorrindo.

- E o mais mal educado também. – comento.

Hinata está me olhando com uma expressão de espanto.

- Sakura-chan, ele foi eleito pela Forbes um dos 50 empresários mais poderosos do Oriente. – Hinata comenta.

- Sakura, você é louca. – ela dá uma risada. – Pensei que você fosse uma santa feito a Hinata aqui. Agora você é tipo uma fora da lei! Que legal!

- Ino-chan...

- Pois eu nessa hora teria tirado o roupão e estaria dizendo que pagaria ele com o meu corpo. Já o encontrei em algumas festas, que homem gato, nossa senhora!

- Não vamos falar dele, toda vez que lembro, quero que o chão me engula.

- Eu queria que o Sasuke me engolisse... – Ino diz em uma risadinha.

- Por deus, Ino, vamos falar de outra coisa.

- Mudando de assunto, Sakura-chan... E o que você vai fazer quanto ao Sasori? – Hinata diz, é sua segunda dose de sakê, enquanto eu e Ino estamos tomando doses que nem duas desesperadas.

- Pois eu digo que você deve voltar ao apartamento do Sasori e pelo menos picotar os ternos dele. – Ino diz virando mais uma dose.

- Eu não sei se... bem, vingança é algo bom, Ino-chan. A melhor coisa é seguir em frente. – Hinata diz, ainda meio tímida.

- A melhor coisa seria arrancar as bolas do bosta do Sasori com as próprias mãos e depois eu riscaria aquela Mercedes brega dele com minhas chaves.

- Ino, eu não vou arrancar bolas de ninguém e também não vou arranhar o carro dele. – eu digo por fim. – Vingança nunca termina bem, e a única coisa que me preocupa mesmo é arranjar um lugar pra morar. Você sabe.

- Querida, você pode ficar comigo o quanto quiser.

- Me desculpa, mas por mais que eu goste de você, você sempre leva seus namorados pra lá e eu não me sentiria bem de invadir a sua privacidade...

- Quando eu levei namorados para minha casa, posso saber?

- Er... desde que eu conheço você, pelo menos duas vezes por semana. – digo arqueando uma sobrancelha.

- Tsc, trivial.

Quando Ino se sente contrariada, ela apenas diz “trivial” e muda de assunto, como se o fato dela não ter razão não fosse tão importante assim. Ao longo do tempo, me acostumei com a personalidade forte e o temperamento imperativo dela. Assim como aprendi lidar com a fragilidade de Hinata e suas inseguranças e timidez. De qualquer forma, ela e Hinata foram as únicas pessoas que eu consegui de fato me tornar intima desde que cheguei a Tóquio, claro que também houve o Sasori, mas já não posso dizer isso dele agora.

Ao final da tarde, Hinata pegou um táxi até a mansão Hyuuga que fica em uma parte afastada do centro e Ino me levou até o hotel que eu estava hospedada.

- Sério? Nessa espelunca?

- É só por algumas noites, até eu arranjar algum lugar. Não é nada definitivo.

- Querida, você é muito orgulhosa, você poderia ficar comigo até tudo se ajeitar. De qualquer forma, vou procurar algo para você, ok? Escute, Sakura... – ela me olha, agora séria. – Não acha que já está na hora de voltar as escrever? Você é talentosíssima, você não pode se acomodar demais.

- Eu sei...

- Farei o que puder para te ajudar. – ela me abraça forte. – Agora preciso ir, tenho um encontro com um ruivo muito gostoso que eu conheci na Turquia.

Assim que dou tchau para Ino, meu celular toca, é Sasori.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo

Assim que entro no apartamento, a lembrança de Sasori se atracando com sua secretária na nossa cama me atinge num baque. Sinto um nó na garganta e um enjoo no estômago. Quero sair daqui, mas entendo que preciso conversar com ele, mesmo que eu queira fugir disso para sempre.

Sasori me recebe tentando dar um beijo em meu rosto, mas eu me afasto.

- Sakura, onde você se meteu nos dois últimos dias?

- Fiquei num hotel.

- Entendo. – ele diz me olhando nos olhos. – Você quer algo pra beber?

- Não, obrigada.

- Precisamos conversar. – eu assinto. – Sakura, eu queria pedir desculpas por tudo. Eu sei que você não merecia aquilo. Eu não deveria ter trazido ela para nossa casa.

- Para a SUA casa, você quer dizer. Suponho seria melhor me chifrar em lugares que eu não descobriria, não é?

- Não foi isso que eu quis dizer.

- Olha, Sasori, eu não vou te perdoar e voltar para você se é isso que você pensa. Não quero. Não posso. A única coisa que eu quero é pegar o resto das minhas coisas e deixar claro que essa relação acabou, entendeu? – eu digo, num fio de voz. – Você me magoou!

- A culpa foi sua também! – ele diz, e sinto raiva na sua voz. – De repente você se acomodou, e foi se tornando fria e frustrada por não escrever, faz meses que mal transamos, mal nos aproximamos... E eu tenho minhas necessidades.

- Você me pressionou pra continuar escrevendo, lembra? A culpa não é minha se ao invés de estar ao meu lado, você foi se aliviar com a primeira que apareceu.

- Não quero ninguém acomodado ao meu lado, Sakura. Diferente de você, Tayuya é uma mulher independente e inteligente. E eu não quero você de volta, se é o que te interessa.

Ah não! Ele está com ela! Sinto meus olhos marejarem, mas não posso chorar, não na frente dele, não quero que ele veja meu coração se partindo.

- Você... – quero saber, mesmo com medo da resposta. – Você está com ela?

- Se você quer saber, estou sim.

- Mas só fazem dois dias... – observo sua expressão. – Não fazem só dois dias, não é? A quanto tempo?

- Dois meses.

Não digo nada, não consigo dizer nada, por mais que eu queira xingá-lo, e dizer tudo que está engasgado na minha garganta. Queria arrancar as bolas dele como Ino disse, quero me vingar, destruir sua coleção de vinhos, rasgar os quadros caros dele. Quero fazê-lo sentir a mesma dor que eu sinto agora. Mesmo contra minha vontade, sinto as lágrimas rolando pelo meu rosto. Não posso ficar aqui mais.

- Então é isso.

Eu digo indo embora.

Então é isso...

(...)
"And I'm damned if I do and I'm damned if I don't
So here's to drinks in the dark at the end of my road
And I'm ready to suffer and I'm ready to hope
It's a shot in the dark aimed right at my throat
'Cause looking for heaven, found the devil in me
But what the hell? I'm gonna let it happen to me"
Shake It Out — Florence + the Machine

Notas finais
Eae, people, o que acharam? Queria explicar algumas coisas sobre a história, primeiro que, embora seja comédia, estou tentando embasar o modo como o Sasuke entrará na vida da Sakura, posso garantir a vocês o seguinte: a Sakura ainda vai andar inventando algumas mentirinhas que irão tirar o nosso Uchiha predileto do sério. Até agora, podemos ver que a Sakura ainda tá sofrendo com o Sasori, e essa cena final foi mais triste, mas garanto que os próximos capítulos serão mais leves e engraçados, não me matem pelo drama, é só que nem tudo são rosas, né? Pelo menos não ainda. hahah
E a Ino? Gostaram dela? Quero fazê-la uma amiga bem pervertida mesmo. Logo mais personagens entrarão na trama e mais situações cômicas estão por vir.
Eu recomendo ler o capítulo ouvindo essa musica da Florence eu adoro, e acredito que ela embalará a história de nossa heroína.
Enfim, digam o que acharam porque ficwriters se alimentam de comentários.
Até a próxima, besos.