Lie - The Story Of The 8th Sin
12 Cegueira de luz
Notas iniciais
Boa leitura!!
Chapter 12 (Ep. 46, 47, 48 – Brotherhood): cegueira de luz.
Ouvi passos e me virei para ver os recém-chegados.
– Bem vindos. – murmurei sem ânimo enquanto me endireitava no cano onde estava sentada.
Eu estava novamente no subsolo da Central havia alguns dias. Aparentemente a notícia de quando seria o Dia Prometido havia vazado por meio de Greed, mas graças à inteligência do Pai, ele entendeu isso antes que alguém pudesse me culpar pelo ocorrido.
– Ainda desanimada, Lie? – Pride perguntou. Suas sombras estavam tridimensionais e traziam Alphonse Elric com cuidado para colocá-lo no chão à minha frente. – Quem sabe isso não a anima?
Eu baixei o olhar.
– Conseguiu comer algo, Gluttony? – perguntei.
Ele emitiu uma espécie de miado.
– Não... Pride não deixou...
Pride olhou enviesado para ele.
– Você poderá comer quando o Dia Prometido chegar. Vão ter muitos soldados apetitosos vagando por aí. Enquanto isso... – ele esboçou um sorriso. – Lie, desista, vai entrar em depressão por causa daquele inútil? Envy está morto, tenho quase certeza.
Eu o olhei com hostilidade.
– Cale a boca. Ele não está.
– Não briguem. – murmurou o Pai. Ele já devia estar de saco cheio de mim e de Pride discutindo. – Conseguiram pegar o Alphonse, afinal?
Pride ficou sério, triste por ter que parar de discutir. Aposto que ele queria mesmo era lutar comigo.
– Conseguimos. E eu ainda consegui detectar que o irmão dele está em Kanama.
– Kanama? Hmm...
– Sim. Ele, dois subordinados de Kimblee, Greed, e, de quebra, Van Hoheheim.
– Hoheheim? Interessante. Seria curioso ver um encontro entre Edward Elric e Van Hoheheim. O garoto falou do pai com tanta hostilidade da última vez que esteve aqui...
Eu suspirei. Estava evitando falar com o Pai, ele andava bravo comigo por ter sumido para procurar Envy. “Envy sabe se cuidar tanto quanto você. Do contrário, já teria sido exterminado.”, ele dissera. É, mas eu não tinha tanta certeza. Ah, cara, Envy fala demais, ele perde a oportunidade de matar a pessoa forçando-a a ouvir suas tagarelices, isso quase o fazia ficar tão orgulhoso quanto Pride, embora não tão arrogante quanto.
– Falando no Greed, – murmurei, fingindo que o encontro entre nós há semanas atrás não ocorrera. – Ele nos abandonou mesmo, não foi?
– Abandonou. – Pride concordou e me lançou um olhar malicioso. Entretanto, quando falou, não se dirigia a mim. – É uma sorte, papai, que o senhor tenha um homúnculo útil como eu. Os demais não são capazes de cumprir uma tarefa sequer.
Eu o fuzilei com o olhar, mas ele não parou por aí.
– Lust morreu para o Coronel das Chamas quando devia matá-lo. Greed fugiu duas vezes. Envy foi procurar o Scar e o Marcoh e acabou se perdendo. Gluttony morre tantas vezes que já devia ter morrido há muito tempo. Wrath tem suas discordâncias... E Lie toma decisões por conta própria sem consultar ninguém.
– Acontece – rebati. – Que eu tenho uma cabeça para pensar, embora isso não signifique que não sei obedecer a ordens.
– Pena que isso significa que você não consegue se colocar no seu lugar.
– Olha quem fala! O homúnculo que tenta causar desarmonia entre os próprios aliados.
Nessa eu o peguei. Ele hesitou antes de rebater, então sua expressão se suavizou e ele desviou o olhar de mim, soltando um pequeno sorriso de prazer.
– Não sei do que está falando.
– Não minta. Omitir a verdade é mais a sua cara.
– Vocês não conseguem se calar? Só sabem brigar, parece até que realmente são irmãos... – o Pai ponderou. Provavelmente nem ouvia direito nossa discussão. – Agora... Já que Edward e Hoheheim estão em Kanama... Quero que vocês três vão até lá e deem um jeito dos dois ficarem comportados até o Dia Prometido.
Pride fez uma careta.
– Tenho mesmo que arrastar a Lie? Não seria melhor ela ficar e ajudar o senhor já que Wrath não está aqui?
– Eu sabia me cuidar até mesmo antes de criar você, Pride. Não precisarei de ajuda nenhuma.
Eu deixei escapar um riso. Pride me fuzilou com o olhar. Ah, era tão legal ouvi-lo levando uma bronca para variar. Ele suspirou e uma de suas sombras pegou o Armadura-san. Virou-se e começou a andar em direção à saída.
– Vamos Gluttony.
Gluttony começou a segui-lo e eu me levantei, caminhando na mesma direção.
Quase não havia vento e isso seria um problema. As Quimeras certamente sentiriam nosso cheiro. Eu dissera isso a Pride, mas ele não quisera me ouvir – talvez não quisesse admitir, na verdade, que eu posso ter algum vestígio de inteligência e sanidade na minha cabeça aparentemente oca. Estava bem fresco e eu sentia alguns arrepios mesmo usando minha jaqueta. Sorri levemente ao me lembrar de quando reclamara com Envy no estômago de Gluttony porque ele a molhara de sangue.
Gluttony, a propósito, já se distanciara para manter a guarda do outro lado. Eu estava parada ao lado de uma árvore – era o homúnculo mais próximo da armadura de Alphonse, a qual Pride usaria para atrair o Baixinho-san – prestando atenção aos movimentos para ter certeza de que tudo sairia como o planejado.
Mas, falando sério agora, quando foi a última vez que algo saiu como o planejado?
Comecei a escutar passos. Passos e vozes.
–... voltar à Central? – a voz de Greed dizia. Não consegui entender a primeira parte. – Não vou te contar.
Alguns segundos depois os passos pararam e eu já conseguia vê-los. O Baixinho-san já estava com um casaco vermelho – recordo-me que da última vez seu casaco era branco.
– O que foi? – perguntou, indagando o motivo da parada.
Pride comandou a armadura de Alphonse para dar alguns passos. Eu reprimi a vontade de bufar. Estava ridículo, eles nunca acreditariam.
– Al! – Edward exclamou, indo em direção a ele. Apenas observei, quebrando a cara. Ele era mais burro do que eu pensara... – Não me assuste assim!
O loiro parou a alguns metros da armadura.
– Estou feliz que esteja a salvo. Você está bem?
– Você parece estar bem. – Pride o fez falar. Eu quase ri, a voz estava igualzinha.
– Ei, você não estava junto do Major Miles? – Edward perguntou. – Está tudo bem lá?
Falha. Estreitei os olhos. É nisso que dá sequestrar alguém e tentar usar o corpo a seu favor dessa maneira, a outra pessoa sempre estava fazendo algo antes de ser sequestrada!
– Eu tenho que falar sobre isso com você, venha aqui um pouco. – disse Pride por meio da armadura.
– Ah. Claro.
A armadura virou e começou a andar lentamente. Argh, Pride, está robótico demais!
– Al, tem algo errado com você? – Edward perguntou.
Droga.
– Por quê? – perguntou a armadura sem se virar.
Acho que Pride não passou nenhum minuto sequer com esses irmãos... Que atuação ridícula, me dá vontade de engoli-lo só para pegar sua habilidade de controlar as sombras e fazer isso funcionar direito.
– Não... Nada.
– Ed! – Greed gritou. Mas não era Greed, era Ling! Merda!
– Ling?
– Saia de perto dele! Ele é... Isso é...
Pride, aparentemente perdendo a paciência, fez suas sombras fugirem do núcleo e atacarem. Várias estacas, como se fossem flechas, foram atiradas contra os oponentes.
– Ughh. Droga, Pride, não pode matar o Edward... – murmurei o mais baixo que pude.
– Eu sei. – ele respondeu, e embora eu soubesse que ele estava longe, pude ouvi-lo. Sua voz estava inundada de impaciência.
-- Então não seja estúpido. Faça isso direito.
-- Cale a boca, Lie. Sei o que faço.
– O-O quê?! – o Baixinho-san exclamou.
– Agora você está com eles – Pride perguntou mais alto, como se não soubesse. – Greed?
A armadura se virou. Todos o olhavam espantados. Eu bati na própria testa. Droga, um disfarce tão perfeito, Pride era burro de estragar um plano tão simples.
– E ainda está andando na forma humana... Sua alma é fraca demais.
Eu vi os olhos de Pride se abrirem. Não literalmente, os olhos das sombras. Elas começaram a se agitar na armadura, saindo pelos cantos como um copo que transborda.
– Al? – Edward perguntou.
– É o Pride! – Greed falou. Agora era o Greed, ah odeio isso. Estou quase adotando o nome Greeling.
– Pride?
– Sim. Pode-se dizer que ele é nosso irmão mais velho.
– Um homúnculo?!
Edward se voltou para Pride novamente. Ok, apesar de eu gostar de Greed – ele parece gente boa – estou começando a ficar com raiva dele.
– Você continua nos traindo infinitas vezes, não é, Greed? – Pride falou. – Para nós, você já não passa de um empecilho.
– Droga! Como sabia que estávamos aqui?
Pride não respondeu.
– Maldito! – Edward exclamou. – Como ousa se disfarçar de Al?!
– Não é um disfarce. – respondeu. Uma sombra tirou a cabeça da armadura, revelando a marca de sangue. – Esse, sem dúvidas, é o seu irmão.
A expressão do Alquimista de Aço se contorceu de raiva.
– Desgraçado!
– Eu vou eliminar Greed aqui. – anunciou. – Alquimista do Aço, você poderia vir comigo?
– Ei, Gori-san, fuja... – murmurou Edward para Darius, mas parou ao ver que as Quimeras se esconderam atrás de uma árvore. – Ei! Vocês são rápidos! – gritou indignado.
– Nossos instintos animais estão dizendo para não enfrentar aquela coisa!
–Você vai ficar bem? – Heinkel perguntou.
– Eu ficarei bem, eles precisam de mim e do Al, por isso, não vão nos matar. Mas eu posso lutar sério, vou derrotá-lo sem nenhuma hesitação.
– Isso mesmo, não vou matá-los. – disse Pride. Eu estreitei o olhar para uma de suas sombras que me fitava, prevendo suas palavras. – Mas posso acabar arrancando dois ou três de seus membros.
– Você não pode fazer isso. – murmurei com raiva. – O Pai vai ficar furioso.
O olhar praticamente sorriu para mim. Esperei não estar vendo coisas. Ele faria apenas para se divertir justamente porque era proibido de fazê-lo... Que desprezível. Dava-me vontade até de proteger o Baixinho-san.
Claro, eu não o faria apesar de dever dois favores a ele.
As sombras de Pride começaram a voar hostilmente contra Edward, que se esquivava com vivacidade.
– Não posso fugir para onde está a população. – pensou alto. Ele transmutou a terra, fazendo uma barreira à sua frente. Pride a destruiu facilmente.
– Barreiras não funcionam com ele! – disse Greed, se esquivando.
Aquilo, infelizmente, só serviu para lembrar Pride que ele estava ali. As sombras o agarraram, prendendo-o perigosamente.
– Agora eu peguei seu amigo, o que fará? Se eu pegar um morador você irá me escutar?
– Como esperado... – murmurou Greed. – Ele foi justamente ao seu ponto fraco.
Mais sombras se arrastaram pelo chão para tentar pegar Edward. Ele a princípio ficou preocupado, mas em seguida sorriu, algo que eu não entendi.
– Não serei pego duas vezes no mesmo truque. – anunciou. Juntou as mãos e, segundos depois, todas as luzes da cidade se apagaram.
– Ah – deixei escapar. – O moleque é mais inteligente do que eu pensava...
Fiquei durante alguns segundos, parada. Eu sabia que Greed podia usar o poder de Ling para detectar minha posição, mas também não podia me arriscar a fazer qualquer som que me denunciasse. O breu tomava conta de minha visão e eu só tinha uma leve noção das árvores ao meu redor. Das pessoas, entretanto... Deixei escapar um sorriso. Eu podia detectar qualquer um que tentasse se esconder.
Comecei a me concentrar e agucei a audição e a visão. Lembrei-me da primeira vez que vira Lust, fora simples encontrá-la naquela escuridão, seria igualzinho agora. Senti um vulto passando por mim. Heinkel, percebi. Mas ele estava como forma de Quimera. Olhei para o lado em que ele se direcionara. Droga, ele vai pegar o Pride, pensei. Bem, o cara é esperto, ele se vira. Vou pensar em mim agora. Olhei para o lado de onde Heinkel viera. Consegui ver dois vultos negros – Greed e Darius. Tinha que me afastar deles: detectar as pessoas era uma coisa, lutar contra elas nesse escuro era totalmente diferente.
Comecei a escutar o som de uma luta. Heinkel e Pride, provavelmente. Aaaah droga, eu morria de vontade de ver aquele convencido lutando sem suas preciosas sombras! Ouvi um som leve: Darius se movendo. Ele foi até outro ponto, mais perto de Alphonse, mas vi outro vulto mais baixo: Edward.
– Ed! Ei, Ed!
– Gori-san?
– E seu irmão?
– Ele nem se moveu. Eu não ouvi o barulho de quando ele se move.
– Certo, primeiro vamos nos afastar daqui.
– Está dizendo para abandonarmos o Al?!
– Eu sei que você está preocupado. Mas e se for uma armadilha? Enquanto Heinkel segura Pride, temos que nos reunir para pensar em algo.
Eu sorri. Gorila-san, vulgo Darius, era esperto. Se alguém chegasse perto daquela armadura eu mataria na hora. Ou não. Mas ainda sim, não podia deixar que ninguém tocasse em Alphonse até que a luz voltasse e Pride se restabelecesse... e ficasse arrogante de novo.
Eles se afastaram e começaram a caminhar para outro ponto. Ouvi um barulho alto. Então, Gluttony os encontrou? Eu abri espaço entre as árvores. Não ia ficar parada para ser chamada de inútil mais tarde. Uma árvore caiu perto de mim depois de alguns segundos andando. Senti Gluttony bem ao meu lado.
– O cheiro do Alquimista de Aço! – ele exclamou. – O cheiro do Greed. E o cheiro da Lie também. Lie, posso comê-lo? Por favor!
– Não, você sabe que não. Sentirei pena dele caso tenha que ver o inferno que é seu estômago de novo.
– Essa é a voz do Gluttony! – Greed exclamou.
– E Lie está junto?! – Edward completou.
– Entendi... Eles usaram o olfato do Gluttony para nos achar...
– O outro cheiro é de um cara que eu não conheço. – continuou Gluttony. – Então posso comê-lo certo?
– É uma Quimera. Ele você pode comer.
– OBA!
Eu observei a forma gorda de Gluttony tropeçar no tronco que derrubara enquanto Greed murmurava algo que eu não conseguira escutar.
–... Meus instintos animais dizem “Desista disso!” – Darius comentou. – Mas um homem tem que ter coragem!
Eu quase comecei a rir. Coragem? Jura? Coitado do Envy. Viu? Esse é outro motivo pelo qual ele precisa de mim por perto. Senti uma agitação do meu lado e me distanciei um pouco. Gluttony e Darius brigando é sinônimo de “caia fora antes que sobre para você”. E aparentemente o baixinho Elric não seguiu o mesmo conceito, pois ficou no caminho e levou uma bofetada acidental do amigo.
– Isso dói, Gori-san... Estamos juntos para evitar que um de nós morra, certo? – gemeu.
– Desculpe.
Eu detectei onde Greed estava e fiquei próxima a ele, pretendendo dizer algo, mas ele começou a falar com Ling dentro de si.
– Ling?
Eu franzi o cenho, esperando. Depois de alguns segundos, Gluttony passou por nós sentindo o cheiro dele e arrancou-lhe um braço.
– Não tem jeito! – exclamou. – Mas não fuja com este corpo! – então ele passou a ser o Ling (percebi pelo tom de voz): – Não brinque! Esse corpo era originalmente meu!
– Hora de comer! – Gluttony exclamou, pulando sobre ele. Eu saí do caminho.
– Te peguei! – transferindo um golpe, Ling jogou Gluttony contra o chão. – Obrigado.
– Ling? – Ed perguntou na escuridão.
– Sim!
– Agora eu estou irritado! Estou com fome! – Gluttony murmurou. – E vocês não me deixam comê-los! Então eu terei de engolir todos juntos! – o buraco com garras e um olho em seu estômago se abriu.
– Gluttony – murmurei próxima a ele. – Não coma o Elric.
– Vou tentar. – murmurou mais baixinho.
– Não, não vai tentar. – repreendi. – Você não pode comê-lo, ou seu pai ficará furioso.
Eu senti uma presença e, mesmo na escuridão, ofeguei e me joguei atrás de uma árvore. Ouvi barulho de lâminas cortando e depois o som de um fluxo de sangue interrompido, vazando. Droga, pensei. Alguém estava matando o Gluttony e eu sabia que talvez fosse a próxima. Estou tão fora de forma, faz tempo que não luto...
– O que foi? – Edward indagou.
– Abaixe-se! – a voz de Darius soou.
Senti a iluminação da regeneração de Gluttony progredir sem muito efeito.
– Ainda tem algo ali...?
– Não sei! Não sei, mas... – Ling respondeu. – Isso é...
– Esse cheiro... – Gluttony murmurou. – Eu conheço esse cheiro...
Um som estrondoso: Gluttony caindo. Olhei em sua direção e enxerguei um vulto preto próximo a ele. Então um som conhecido: o de um automail se mexendo. E não era o de Edward, eu reconheceria. A regeneração de Gluttony estava fraca, mas imaginei que funcionaria. Pelo menos me deu uma visão melhor da pessoa mascarada à frente. Fiquei apenas olhando, espantada com sua agilidade.
– Isso foi melhor que tudo. – Ling comentou. – Eu estava te esperando, La Fan!
Ela olhou para mim e nos encaramos por alguns segundos. Eu sorri e me levantei, limpando a terra das vestes.
– Então você que é La Fan? – perguntei.
Ela apenas me olhou.
– Lie? – Edward perguntou no escuro.
– Sim, sou eu. – respondi, olhando na direção de sua voz pelo canto do olho.
– Encontrou o Envy? – perguntou, hesitante. – Ele não está aqui, não é?
Eu cerrei os punhos. Gluttony estava escutando, eu não podia responder.
– Não sei do que está falando. – respondi simplesmente com a voz fria e calculista.
Ele ficou quieto, parecendo entender. Olhei para La Fan.
– Ela está conosco? – a... ninja (?) perguntou.
– Não. – respondi de imediato. – Sou inimiga. E você quase matou meu colega gorducho aqui, embora isso não seja muito difícil. Acho que preciso distraí-la enquanto ele se regenera.
Ela ficou em posição de batalha.
Fiz várias cópias de mim próximas a ela. La Fan sobressaltou-se.
– O quê...?
Eu ri um pouco. As cópias ergueram suas adagas e investiram contra a garota. Ela desviou de alguns golpes, mas não de todos. Atacou as cópias e sentiu-as desaparecer.
– Mas o que são essas coisas?! – perguntou, atacando mais uma.
A cada uma que ela matava eu criava outra. Era tão rápido que se eu quisesse, três cópias apareceriam ao lado dela enquanto ela matava uma. Mas eu só queria distraí-la.
– Ahh! – ela gemeu quando uma cópia conseguiu ferir sua perna.
– La Fan! Lie, o que está fazendo com ela?!
Eu ri um pouquinho.
– Só estou mostrando-lhe minha habilidade.
– Que são essas coisas?! – La Fan indagou, ainda em ação.
– Cópias minhas. – respondi. – São tão reais quanto a original, mas dão menos trabalho para matar. Entretanto, quando você acaba com uma, já criei mais duas atrás de você. É uma habilidade bem maleável, por assim dizer! Afinal, elas podem te ferir, mas você não as fere no mesmo nível.
– Não sinto a presença de nenhuma delas, são como fantasmas!
– Essa é a vantagem! – ri-me.
Eu notei Gluttony se levantando e acabei com as cópias, deixando La Fan ofegante.
– Gluttony, pode comê-la. – falei.
– Oba, oba, oba – disse num tom ameaçador. – Estou com fome!
Eu o ouvi investindo contra ela, mas La Fan foi mais rápida e o atacou. Ela ia aproveitar o desfecho do ataque para me dar um golpe, mas eu me desviei para trás de uma árvore. O automail dela ficou preso no tronco.
– Opa, cuidado para onde você aponta isso. – reclamei.
Gluttony investiu de novo contra ela, mas ela conseguiu tirar a lâmina do tronco e cortar-lhe a barriga. Eu o ouvi cambalear.
– Droga, você já está me irritando! – Gluttony reclamou.
Eu suspirei. Que vergonha de homúnculo. Eu ouvi mais um barulho cortante.
– Droga!
Em seguida, um som de queda. Ah, Deus, que ridículo. Se Gluttony era tão inútil eu não podia lutar contra La Fan, Greeling, Darius e Edward Elric ao mesmo tempo e praticamente sozinha. Engoli em seco e comecei a me afastar, mas pisei num galho seco bem atrás de mim.
– Ah, não vai não! – Edward gritou e eu senti um movimento próximo. Abaixei-me, desviando na última hora de um soco.
Eu forcei a visão para ver onde ele estava e, ainda abaixada, passei uma rasteira, fazendo-o cair no chão. Coloquei três cópias para segurá-lo no lugar.
– Ei, não gosto de lutar, se me permite. – murmurei me afastando mais.
– Ei! Lie! Volte aqui!
– Hã, não. – respondi. Fiz as cópias sumirem. Só não o queria em meu caminho.
Continuei andando, quanto mais rápido me afastasse deles, mais segura eu estaria. Gluttony se viraria, ele era mestre em sobreviver a esse tipo de coisa. Eu parei, sentindo algo à minha frente. Consegui distinguir uma máscara branca e vermelha no meio do nada. La Fan de novo? Não... Uma voz masculina começou a falar.
– O líder de Xing consegue manipular as ondas dracônicas. – murmurou. Senti mais gente atrás de mim. Edward e Darius provavelmente. – Em outras palavras, ele controla a terra e faz os céus se moverem. Nós, que somos guarda-costas também somos capazes de ler o fluxo de ki. Por isso trabalhamos tão bem no escuro.
A máscara se virou ligeiramente para Edward e Darius.
– Essa voz é...
O homem tirou a máscara, revelando um rosto idoso com um bigode grisalho.
– Há quanto tempo, garoto.
– É o Velho Fu mesmo. – Edward murmurou.
– Velho... Fu? – perguntei, estranhando o nome. – Também é de Xing, então. Que nem a garotinha ali e o amiguinho do Greed?
– Sim. – respondeu. – Quem é você, homúnculo?
– Hã, Lie, prazer em conhecê-lo, ou talvez nem tanto.
– Por quê? – Edward perguntou. – Como achou esse lugar?
– Eu estava escondido na Central procurando informações, então eu senti enormes vibrações de ki e as segui até aqui. E, logo perto, tem dois ki’s enormes se confrontando e um parado bem à minha frente.
– Provavelmente são Greed, Gluttony e Lie.
– Greed. – o Velho Fu murmurou com um pouco de raiva. – O maldito que absorveu nosso mestre... Mas há outro ki enorme na floresta.
– Um de nós está lutando com um homúnculo agora.
– Pride. – corrigi. – E por que estou fazendo parte dessa conversa?
– Eu não sei, você quem parou aí e começou a conversar. – Edward respondeu.
– Mas ainda tem mais um. – continuou o Velho Fu. – Alguma coisa muito além dos outros está nos cortiços.
– Esse, provavelmente é o pai do Ed.
– Oh, é mesmo, Hoheheim também está aqui. Eu precisava buscá-lo. – murmurei desanimada.
Senti o olhar de Edward em mim.
– Buscá-lo?
– Por que acha que estamos aqui? Para dar uma festa? Já vejo até o nome, “Convenção de Kanama”... Mas não. Viemos buscá-los para que se comportem até o Dia.
– Garoto... Seu pai não é humano? – o Velho Fu perguntou.
– Não se preocupe com isso por enquanto. – ele pareceu incomodado. – Primeiro precisamos fazer algo contra os homúnculos.
– Essa é minha deixa, tchauzinho. Vou tentar ajudar o infeliz, ingrato e pé-no-saco do Pride. – eu comecei a me afastar rapidamente.
– Ei, espera! – Edward falou.
– Não me siga! Minhas cópias são mais rápidas do que pensa! – gritei ao longe.
Eu quase esbarrei numa árvore graças a essa distração, mas continuei correndo. Depois de alguns segundos ouvi uma explosão. Olhei para trás, vendo a iluminação. Droga, isso bem que podia fazer mais luz, ajudaria bastante. Eu precisava encontrar algo que fizesse luz para Pride dar um jeito nisso e podermos nos mandar. Depois de alguns segundos caminhando, ouvi uma respiração ofegante.
– Pride? – perguntei.
– Estou aqui. – respondeu.
Ouvi um som de investida e algo caindo no chão.
– Argh, essa sua forma é inútil. – reclamei.
– Faça melhor. – disse simplesmente.
– Faria, se não gostasse de te ver apanhar. Não que eu consiga ver algo aqui nessa escuridão.
– Já chega, morra logo. – Heinkel reclamou ofegante.
Mais barulho de luta. Eu estava começando a ficar cansada disso.
– Senhor Heinkel, posso matá-lo logo? Poupa-nos esforço e Pride vai ficar menos mal humorado depois.
– Cale-se! – gritou batendo mais em Pride. Eu suspirei e comecei a caminhar até ele.
– Ninguém me manda calar a boca. – murmurei. Puxei minhas adagas do bolso e notei sua forma projetada bem à minha frente.
Ele deu uma patada por cima com a intenção de acertar minha cabeça. Eu me abaixei e dei uma volta, enterrando as lâminas em seu abdômen. Ele urrou de dor e tentou me pegar, mas eu me esquivei e passei por trás, fincando uma das adagas em seu ombro.
– Se você se mexer vai mudar a adaga de lugar e isso vai te matar. – murmurei. – Finquei bem ao lado de um vaso sanguíneo importante, um só movimento: e você terá uma hemorragia bem problemática.
Ele ofegou mais um pouco.
– Seu cheiro me é familiar. Era você que estava procurando aquele tal de... Envy não é? Falou até com o Ed.
Eu enrijeci, mas ri falsamente para intensificar o disfarce. Pride não ia gostar de saber que eu me confortara com Edward Elric. Nem eu gostava muito.
– Não sei do que está falando. Deve estar me confundindo com alguém.
– Não, não, era você mesma, não era? – insistiu. – Como é seu nome mesmo? Lie?
Eu cerrei os punhos nas adagas.
– Já disse, você está me confundindo com alguém. – eu tirei a adaga de onde ela estava e perfurei seu corpo onde deveria ser um lugar próximo a um rim. Ele gemeu e se agachou próximo a Pride.
Eu saí de cima e olhei para o homúnculo no chão. O problema é que eu o enxerguei. Uma luz vinha de algum ponto próximo e quando eu levantei os olhos para procurá-la, vi dois moradores de Kanama com um lampião.
– Ei, quem está aí?
– Tem alguém aí? – perguntou o outro, erguendo o lampião para nos iluminar. Eles se surpreenderam quando viram Heinkel. – Um monstro!
– Isso é terrível! Uma criança! – disse o outro olhando para Pride.
Eu soltei uma gargalhada.
– Ai, nossa, ainda invejo seu recipiente. – murmurei para o homúnculo.
Olhei para Pride. Heinkel se afastava dele, assustado com a possibilidade de iluminação. Um sorriso cresceu nos lábios do homúnculo. Suas sombras ao redor abriram os olhos e eu me afastei para que uma delas atacasse Heinkel. Pride então, ainda estirado no chão, olhou para os moradores e uma de suas sombras rastejou até eles. Ela pegou o lampião e jogou entre as árvores, provocando um incêndio.
– Um monstro! – os moradores gritaram e saíram correndo.
Heinkel olhou para as chamas e Pride se levantou do chão.
– Droga! – a Quimera exclamou.
– Enquanto eu tiver essa luz, poderei usar minhas sombras. – Pride murmurou. Ele sorriu mais. – Adeus, Quimera-san.
Uma das sombras avançou contra Heinkel, mas foi impedida por um vulto loiro que entrou no caminho: Edward Elric e seu maldito automail.
– Essa foi por pouco, velhote. – falou. – Mas e pensar que um moleque desses é um homúnculo. Você nos enganou, Selim Bradley.
– Você não deve julgar as pessoas pela aparência. Não é verdade, Senhor Alquimista Pequenino?
Os olhos de Edward ferveram em chamas ao ser chamado de pequenino. As sombras de Pride voaram contra ele, mas ele defendeu. Ficou nisso por um tempo, Pride atacando e ele defendendo. Mas por que aquele automail não se destruía?
– Eu estava certo em deixar meu automail no estilo do Norte. – murmurou. – Eles usaram bastante fibra de carbono.
Eu ergui as sobrancelhas. Notei que Pride estava igualmente surpreso.
– Esperto. – admiti.
Pride ficou pensativo por um momento, mas então sorriu, ainda parecendo concentrar-se em alguma coisa.
– O que foi? – Edward perguntou. – Já está acabado?
Pride baixou o rosto num leve assentir e suas sombras se esconderam atrás dele.
– Acho que é melhor...
Eu ouvi passos metálicos. Armadura-kun estava se aproximando, mas sob o comando de Pride.
– Al!
–... usar seu irmão – Pride completou com a voz vinda da armadura. – Assim a luta será melhor.
Edward sorriu.
– Velho Fu! – gritou.
O homem saiu do meio das chamas e jogou para cima alguma coisa cilíndrica.
– O que é...? – perguntei, mas não completei. O cilindro estourou e uma quantidade tremenda de luz começou a pairar. Eu fechei os olhos, sentindo-os arder com a claridade intensa.
– Gori-san! – ouvi Edward gritar.
– Certo!
– Argh – gemi. – Não consigo enxergar!
De repente a luz cessou. Eu demorei a conseguir abrir os olhos novamente, mas quando o fiz, Darius segurava Alphonse.
– Al! – gritou Ed, aproximando-se. – Gori-san, pegue o Al e fuja.
– Tem certeza de que ele ainda não está possuído?
– As partes que separamos dele e do homúnculo vão desaparecer. Já que eliminamos todas as sombras de dentro do Al, Pride não tem mais nenhum controle.
– Não vai fugir! – Pride urrou. Suas sombras foram na direção deles numa velocidade que eu não pude acompanhar.
– Mais uma vez! – Edward gritou jogando algo para cima.
– Droga! – gritei, protegendo os olhos novamente.
– Ei, o que foi aquela luz? – perguntou Gluttony se aproximando.
Alguns segundos depois, a luz cessou e eu abaixei os braços. Eu e Pride estávamos visivelmente irritados.
– Vocês conseguiram. – disse ele. Então se virou para Gluttony. – Você voltou?
– Mas aquela mulher e Greed são estranhos. – exclamou. – Eles conseguem saber onde estou mesmo no escuro.
– O quê? – perguntou Pride, surpreso.
– Eles sentem a presença dos homúnculos. – expliquei, dando-lhes uma olhadela. – Aparentemente moleque de Xing ainda está dentro daquele corpo. Ele e Greed revezam.
Pride pareceu pensativo, cerrando os olhos, então, arregalou-os como se lembrasse de algo e umedeceu os lábios.
– Lie, quantas vezes você morreu?
– Hã? Nenhuma. Acha que eu me deixaria morrer? Para que você supõe que eu crie cópias?
Ele assentiu.
– Gluttony, e você?
– Eu não sei. – Gluttony murmurou. – Morri várias vezes.
– Eu também fui bastante danificado. – disse sorrindo. Notei algumas sombras irem em direção a Gluttony. – Desse jeito, nós podemos acabar eliminados por eles.
– Então podemos pedir ao papai para nos curar!
Várias sombras cercaram Gluttony e eu olhei para Pride, surpresa.
– Não acredito que você... – comecei.
– Veja e aprenda, Lie. – murmurou.
– O quê? – Gluttony choramingou. – Não, Pride! Lie, me ajude!
Pride umedeceu os lábios de novo, sorrindo. Eu fiquei com vontade de bater nele, mas não podia fazer isso, pois nunca venceria – e poderíamos acabar eliminados, de fato. Eu ofeguei, com raiva, quando uma sombra maior foi em direção a Gluttony.
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