Lie - The Story Of The 8th Sin
13 O mal da ganância é não ter freios.
Notas iniciais
Chapter 13 (Ep. 48 (finzinho), 49 – Brotherhood): O mal da ganância é não ter freios.
Uma sombra gigante ergueu Gluttony no ar e o partiu ao meio.
– Não! – exclamou, choroso. – Não me coma! Não! Lie! Me ajude! Me ajude!
Ele se desintegrou e as sombras de Pride voaram para a outra metade, procurando engolir sua Pedra Filosofal. Eu balancei a cabeça, negando a obscenidade que acabara de presenciar e olhei para Pride que agora sorria de um jeito sombrio.
– Como pôde? – perguntei.
– Cale-se – disse ele, me lançando um olhar. – Você não fez nada para ajudá-lo.
– Você... – Ling murmurou. – Devorou seu amigo?
– Assim é mais conveniente – comentou o homúnculo. – Posso sentir o cheiro de vocês
muito bem. No entanto, a fome que veio junto com o olfato é bem incômoda. – ele sorriu para mim. – Vê só, Lie? Você devia ter-se aproveitado de Envy enquanto ele estava por perto. A sensação de engolir outro homúnculo é fantástica.
Eu trinquei os dentes.
– Eu jamais engoliria Envy, você sabe disso. – rosnei hostilmente.
Ele sorriu maliciosamente, mas logo em seguida ficou sério, sendo distraído por outra coisa. Ele farejou o ar.
– Esse cheiro é... – ele sorriu de novo. – Você está por perto... Hoheheim? – ele farejou mais um pouco. – Esse cheiro... Edward Elric, se eu capturá-lo, Hoheheim terá que aparecer, não é?
As sombras de Pride se estenderam e ele atacou Edward com tal voracidade que o garoto mal teve tempo de se defender, pulando para trás e esquivando-se como pôde. Ele se encostou em uma árvore e as sombras fincaram uma sequência até ele, abriram-se no meio quando pararam e Pride sorriu mais. Ele estava se divertindo. Uma nova sombra foi pelo meio das outras em direção ao rapaz, abrindo uma boca cheia de dentes e fatiando a árvore ao meio. Lembrei-me instantaneamente de Barry, o Açougueiro.
– Ed! – Ling gritou.
O garoto abaixou-se na hora e esquivou-se para não ser atingido pelo tronco da árvore que caía. Pride começou a tentar atacar Ling, mas uma mudança de atitude me mostrou que quem estava lá agora não era mais o moleque de Xing, e sim Greed. Ele parou numa árvore próxima à La Fan e Pride levou a sombra com boca até lá, picando a árvore também.
– Você está bem? – Edward perguntou à garota que se pendurou num outro galho.
Pride fatiou aquela árvore também.
– Deixe de ser inútil Lie. – murmurou.
– Hã? – eu me virei para ele, surpresa.
– Faça alguma coisa, só eu luto aqui.
– Bom, você está indo bem até agora, não tem do que reclamar.
Ele estreitou os olhos e se concentrou na luta. Eu revirei os meus e fui atrás de Edward e La Fan, que conversavam próximos à árvore.
– Ei, oi, quanto tempo. – murmurei. – Garotinha de Xing, Baixinho-san.
– EI, NÃO ME CHAME DE BAIXINHO – gritou Edward.
Balancei a mão para ele.
– Deixe de infantilidades, Nanico-kun. Vamos lutar. – eu sorri em desafio.
Ele investiu contra mim, abrindo uma lâmina no automail, e eu puxei as adagas para me defender. Eu adoro atacar por baixo, e foi isso o que eu fiz. Mas ele é melhor do que eu esperava: defendeu-se. Me ergui e ataquei, ele também defendeu. Quando foi seu turno de bater, ele conseguiu cortar meu braço. Eu arregalei os olhos.
– Uh. Desgraçado – reclamei. Eu sou perfeccionista, não gosto de sair nem um pouco ferida, mesmo com meu poder de regeneração.
Investi com mais veemência, atacando sem dar trégua. Ele defendeu e se esquivou de todos os ataques até que eu consegui provocar-lhe um corte na testa. Isso facilitaria pois quando o sangue escorresse ele não conseguiria ver direito. Eu fiz uma cópia minha bem atrás dele. Ela tirou a adaga da bainha e espetou as costas dele enquanto eu apontava a minha para seu pescoço.
– E então, pode fazer o favor de colaborar? – perguntei. Meu rosto iluminado pelas chamas. Pude notar minha expressão, idêntica na cópia, sombria e maldosa como se ele fosse apenas uma barata em meu caminho.
– Sem chance – disse ele. Repentinamente, se abaixou e deu uma rasteira dupla, derrubando a mim e a cópia. Quando caí, uma de minhas adagas se virou para mim e perfurou meu braço direito.
– Argh! – exclamei. Pride veio bem a tempo com uma sombra, jogando Edward para o outro lado.
– Você é mais inútil que o Envy, Lie. – gritou.
Eu me virei para ele enquanto meu braço se regenerava.
– Cale a boca, velhote! – gritei de volta.
Ele riu um pouco.
– Velhote... – murmurou, então voltou sua atenção de quatrocentos e tantos anos para Greed e Edward. – Agora... Meu campo de visão se expandiu bastante. – ele voltou sua atenção para trás de uma árvore, onde pude ver um pedaço da máscara de La Fan. – Não adianta se esconder na sombra de outras coisas. Eu posso encontrá-la pelo cheiro.
– Droga – exclamou Edward.
– Ei, você está vivo? – perguntou Greed.
– De algum jeito.
– Isso é hora de ficar se preocupando com os outros, Greed? – Pride perguntou, rindo. – Você também logo morrerá.
Eu suspirei, me levantei e fui até o homúnculo, ficando próxima a ele.
– Seu monstro.
– São palavras muito feias para seu irmão, não é, Greed?
– Já te chamei de coisas piores. – murmurei para Pride.
– Você não é minha irmã. Felizmente o Pai teve a dignidade de não te criar embora tenha te adotado.
– Obrigada, também te amo. – ironizei.
Ele se virou para Greed novamente.
– E então, posso comê-lo?
– Se me comer vai ter dor de barriga, irmão.
Pride riu um pouco, mas logo começou a farejar, olhando para o lado. Eu acompanhei seu olhar.
– Ora, resolveu aparecer, Hoheheim?
– O herói sempre se atrasa.
– E a modéstia se esconde atrás. – completei, sorrindo. Ele era muito parecido com o Pai.
– Herói? – Pride riu. – Quer dizer que pretende me derrotar?
– “Nos” derrotar – corrigi lançando-lhe um olhar. – Mas se quiser morrer sozinho fique à vontade, também não sacrificaria minha vida pela sua.
Ele me lançou um olhar irritado.
– Nem um nem outro. – Hoheheim respondeu. – Impossível, impossível... Principalmente você, Pride: é muito assustador.
Pride percebeu o puxa-saquismo e irritou-se também com o homem. As sombras concentraram-se próximas à sua fonte, prontas para uma batalha. Ouvi um barulho metálico atrás de nós e ergui minha cabeça para ver, sem pressa. Pride foi mais rápido, suas sombras pegaram Alphonse antes que ele conseguisse se aproximar mais um centímetro dele.
– O quê? Que plano ridículo. – Pride murmurou. – Você precisa de uma lição.
A cabeça da armadura caiu. Eu levantei minhas sobrancelhas e me afastei um pouco, curiosa para ver a cena, mas ainda sim, mantendo uma atenção especial em Hoheheim, estava achando que o plano não era só esse.
– Al! – Edward gritou, tentando aproximar-se, mas Hoheheim o impediu.
– Eu não esperava que o refém voltasse por conta própria. – Pride murmurou, aparentemente ignorando meu distanciamento. – Seus filhos tem muito que aprender.
– Não zombe – começou o homem. – Dos meus filhos.
Uma iluminação avermelhada começou a partir do homem loiro e a terra começou a tremer embaixo de mim. Eu arregalei os olhos, percebendo uma cratera que se abria. Não, eu não ia ficar presa ali! Saí correndo para não ser pega nessa armadilha gigante. O chão começou a se erguer e a saída a se estreitar. Eu pulei e consegui cair – me estatelar, na verdade – fora do círculo de terra que se fechou em volta deles.
Olhei, apavorada, para Pride. Não, não, não, eu não conseguiria enfrentar a todos eles se estivesse sozinha sem aquele homúnculo. Ele olhou assustado para mim também, tentando fugir já que não fora mais rápido que eu. Alphonse o segurou, entretanto. A esfera se fechou.
– HOHEHEIM! – gritou Pride e algumas de suas sombras saíram pelas últimas aberturas, mas antes de poderem chegar perto do homem, desapareceram.
Edward começou a gritar com o pai há alguns metros de mim. Eu nem escutei, fiquei olhando, abismada, para a caixa forte à minha frente. Eu estava morta agora. Completamente ferrada. Senti um olhar em mim e me virei, assustada, para encarar Hoheheim.
– O que... – comecei.
– Quem é você? – perguntou. – Que eu saiba, ele só tem sete homúnculos.
Engoli em seco.
– Eu sou Lie – murmurei. – Não fui criada pelo Pai, me juntei ao grupo há algum tempo... Você vai me matar?
– Entendo... Lie, a mentira – meditou.
Olhei para Edward suplicantemente. Ele apenas me observou por um tempo.
– Você não respondeu. – murmurou. – E acho que sei por quê. Você encontrou o Envy?
Eu baixei o olhar.
– Não. – respondi com a voz falha de medo e hesitação. – Pride está tentando me convencer de que ele está morto.
Eles ficaram quietos e eu levantei do chão, olhando-os.
– Vê? – perguntei mais especificamente a Edward, pois Hoheheim me dava calafrios. – Até homúnculos tem sentimentos. Eu, pelo menos, me considero tão viva quanto você.
Ele soltou um ruído de exclamação. Olhei para Hoheheim.
– Se for me matar, faça isso logo antes que eu comece a pensar no homúnculo que eu devia estar procurando para me desculpar. – murmurei. – Senão vou ficar com determinação para viver e procurá-lo, vamos acabar lutando e não quero lutar. Essa guerra não é minha embora eu tenha me envolvido por vontade própria.
Ele pensou um pouco.
– Se você encontrar esse tal de Envy. – murmurou o Pai. – Que vai fazer?
Eu baixei o olhar e sorri.
– Acho que tentar convencê-lo a ir para outro país, onde o Pai não nos encontre para tirar satisfação e... – olhei para o globo de terra. – Onde Pride não venha atrapalhar e me encher a paciência. – eu balancei a cabeça, indignada. – Ainda não entendo como ele pôde devorar o Gluttony!
Senti seu olhar sobre mim e me voltei para ele novamente.
– O que acha, Ed? Vamos deixá-la procurar o homúnculo que ela ama?
Eu fiquei sem graça, sentindo-me corar muito.
– Hã, amo? Ei, calma aí, eu gosto dele, mas ainda não sei se... Quer dizer, ele está bravo comigo e...
– Acho que sim. – Edward falou.
Eu mordi o lábio, já normalizada de novo.
– Droga. – murmurei. – Três a zero. Já te devo três favores, Loirinho-san. E aparentemente não tenho tido como retribuir nenhum deles.
Ele sorriu.
– Não se preocupe. Agora, se me derem licença. – murmurou e foi correndo até a esfera de terra que aprisionava Pride e Alphonse.
Eu o acompanhei com o olhar até começar a falar com a esfera.
– Ele é um bom garoto. – murmurei, ciente de Hoheheim me ouvindo. – Gostaria de não ter que estar contra ele, mas não posso. O Padrasto vai me matar se souber que saí viva dessa maneira enquanto o filhinho-do-papai, Pride, está preso. – olhei para o homem loiro de óculos que era o pai de Edward Elric. – Cuide dele.
Ele assentiu.
– Cuidarei.
– Agora tenho que tentar encontrar Envy – eu sorri. – Tenho até amanhã apenas e então precisarei voltar para a Central.
Ele assentiu de novo.
– Vou torcer para que encontre seu amigo.
Eu sorri.
– Agradeço muito. – eu comecei a me distanciar, mas parei, sem me virar novamente para encará-lo. – Hoheheim – chamei.
– Hm?
– Derrote-o – falei.
Já estava quase claro e eu não encontrara Envy em lugar nenhum. Eu rodara mais pela Central e as cidades vizinhas, ele não podia estar muito longe. Ou eu não queria que estivesse. Me sentei no telhado de um prédio, observando o edifício que dava acesso ao subsolo, e suspirei profundamente. Talvez Envy realmente estivesse morto e eu estivesse buscando em vão. Eu esperei as lágrimas chegarem, mas elas demoraram demais. Concluí que haviam acabado. Minhas lágrimas acabaram. Mas realmente! Eu chorara tanto nos últimos dias! Não me surpreenderia se alguém falasse que eu estou desidratada.
– Ora, ora, ora, ainda não encontrou seu amigo de cabelos verdes? – uma voz familiar perguntou. Eu olhei para o lado e vi Greed se sentando próximo a mim.
Balancei a cabeça.
– Não o encontro em lugar nenhum. Estou com tanto medo, Greed.
Ele sorriu.
– Está visivelmente apavorada. – confirmou. – Mesmo assim, continua procurando.
Eu o olhei.
– O que quer dizer com isso?
Ele olhou para o céu, onde o sol começava a nascer.
– Pense bem, Lie. Qualquer outra garota apaixonada no mundo ficaria sofrendo no canto e esperando o moleque reaparecer. Você não. Está determinada a acreditar que ele está vivo e continua procurando até mesmo por lugares onde já passou. – ele olhou para mim e sorriu. – Eu admiro essa sua ganância.
Eu ergui as sobrancelhas.
– Não é ganância. – respondi. – Estou verdadeiramente preocupada.
– “Eu o quero ao meu lado”, “Eu quero que ele me perdoe”, “Eu quero que a preocupação passe”... São todas vontades, disse isso para o Ed há alguns dias. Todos são gananciosos, todos querem tudo, mas nunca admitem. Mentem para si mesmos... E mentira é algo de que você entende bem, estou errado?
Eu o observei com curiosidade e então baixei o olhar.
– Você acha que ele está bem?
Ele deu de ombros.
– Por mim ele pode estar bem ou mal, não me fará diferença.
Eu arregalei os olhos e olhei para ele, tirando uma adaga do bolso. Ele sorriu e segurou meu pulso esquerdo que estava com a lâmina e o ombro direito, inclinou-se para mim e ficou com o rosto bem próximo ao meu.
– Sinceridade é uma coisa com a qual você não está acostumada? Pare de mentir para si mesma e ouça a verdade uma vez na vida: ele deve estar morto.
Eu o olhei impetrantemente.
– Minta para mim, por favor – implorei.
Ele sorriu maliciosamente e seus lábios tocaram os meus por uma fração de minuto. Ele me beijou rapidamente e se distanciou.
– Quer que eu minta? Eu, que procuro nunca mentir? Certo, será uma mentira dizer que nunca quis fazer isso. – ele sorriu maliciosamente. – Mas lembre-se de que sou a ganância. Quero dinheiro, quero mulheres, quero tudo nesse mundo.
Eu mordi o lábio, sentando-me direito. Olhei para o céu que se iluminava rapidamente.
– Bem, agora só posso esperar que ocorra tudo bem. – murmurei. – E rezar para que Envy reapareça.
– Não ouviu o que eu disse?
Eu olhei para Greed com um sorriso triste e me levantei. Senti o sol pinicando meu rosto.
– Quero Envy bem. Quero-o ao meu lado. Quero que ele apareça hoje, no Dia Prometido. Deixe-me ser gananciosa, Greed.
Ele riu alto e se levantou também.
– É assim que se fala.
Só espero, pensei. Que a ganância não me corroa como da última vez. Porque se isso acontecer...
Sinto que posso me transformar numa bomba-relógio.
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