Libertação (Cameron Briel)
5 Lilly
Notas iniciais

Voava por sobre as nuvens. A escuridão do oceano a muito já tinha dado lugar a pequenos pontos de luz fazendo-o constatar que alcançara o continente, não se preocupou quanto a direção que estava seguindo ou para onde estava indo, apenas se deixou levar pelo o que preferiu definir como, “Chamado misterioso” ou qualquer coisa assim.
Era instigante ser guiado pelo desconhecido, principalmente para ele que sempre foi impulsivo, mas tinha que admitir, não lembrava de nada parecido com isso. Era como um imã atraindo os metais para si, era algo forte e quase incontrolável, mas que de certa forma fazia-lhe sentindo, era como algo extremamente necessário.
Devia realmente ter se perdido em pensamentos pois não havia notado o quão perto estava das casas, era uma área residencial de algumas poucas quadras e mais adiante conseguia avistar alguns prédios.
Estava em alguma cidade. Voltou o olhar esmeralda para as estrelas, conhecia muito bem aquele céu, devia estar há algumas horas de distância do colégio Cross & Sword, que tinha que admitir, não lhe trazia as melhores das recordações.
—Dane-se. – Resmungou por fim pousando sobre o telhado de uma casa. – Boa hora para uma festa. — O som alto de música eletrônica martelou em seus ouvidos, Cam esticou levemente o corpo e pôde avistar uma piscina iluminada rodeada de jovens. “Uma festa é sempre bem-vinda”, pensou recolhendo suas asas e saltando suavemente para a sacada abaixo.
A sacada era extensa e alcançava ponta a ponta a parte dos fundos da casa, conectando três ou talvez quatro cômodos do segundo andar. Haviam alguns casais aproveitando a meia luz do local que nem notaram a chegada dele.
Entrou por umas das portas que o levou a um quarto mediano com quatro camas de solteiro, dois guarda roupas grandes um de cada lado do quarto. Havia uma porta lateral que imaginou levar ao banheiro, então, optou pela que ficava contrária a que entrou deparando-se com um corredor abarrotado de pessoas, e por um instante se lembrou das festas que costumava dar em seu quarto na Cross & Sword, pouco espaço, mas muita diversão.
Ultrapassou as pessoas sem muito esforço chegando as escadas, que o levariam ao primeiro andar. A música estava em nível pulsante e tudo parecia trepidar com as batidas ritmadas, a sala que parecia ter sido transformada em pista de dança considerando a falta de móveis. Cam pôde notar as pessoas subindo por uma porta antecedente a cozinha com bebidas, decidiu que esse seria seu destino.
Na falta de alguma coisa mais forte optou por uma cerveja, apoiou suas costas contra o balcão, enquanto apreciava a bebida gelada. Ele notou que uma garota sentada no sofá escuro a poucos metros dele o olhava fixamente, como se ela fosse um animal pronto para o bote e ele, seria sua vítima. A loira usava um vestido preto muito justo, as pernas cruzadas de maneira sedutora e um olhar penetrante. Ela sorvia sua bebida por um canudo que mantinha entre os lábios pintados de vermelho, de maneira insinuante.
Não podia negar que ela era atraente e se divertir, sempre estaria no topo de sua lista de interesses. Cam sustentou o olhar cheio de lasciva dela a estimulando a se levantar e seguir para junto dele, após ajustar o vestido que chegava até ao meio das coxas.
— Oi gato. – Ronronou tão perto que ele pôde sentir o cheiro de bebida misturado com cigarro, exalando dos lábios carmesim, e em resposta, Cam estreitou o olhar deixando um sorriso de canto curvar seus lábios. Ele sabia bem o efeito que tinha sobre as mulheres, principalmente nas como essa que tinha a sua frente. – Acho que não o vi antes.
— Tenho certeza que não. – Demostrou menos interesse do que gostaria, por algum motivo a súbita atração que tinha sentido se esvaiu tão ou mais rápido do que havia surgido. A loira já debruçada sobre seu ombro comprimindo um de seus seios macios contra ele, pelo contrário do que tinha imaginado. Ele sentiu repulsa? Teria sido isso mesmo que estava sentindo? Não fazia o menor sentido e para piorar, seu estômago se remoeu ressaltando a sensação de desagrado pelo contato. – Querida. – Se afastou alguns centímetros gerando um desiquilíbrio na garota que estava escorada nele. — Tenho que encontrar uns amigos agora. Nos encontramos mais tarde.
— Você promete que volta, gato? – Ela parecia não ter notado que ele estava apenas usando uma desculpa bem esfarrapada, para se afastar. – A nossa noite promete. – Finalizou ela mordendo de leve o canto da boca.
— Promete mesmo. – Resmungou ele já se afastando. No caminho até a sala, ele abandonou a cerveja em um canto qualquer, pois aquela sensação que o trouxera até ali estava novamente latente, e como anteriormente, se deixou levar.
Cruzou a sala lotada com a mesma facilidade que havia cruzado o corredor minutos antes, e logo alcançou o jardim dos fundos. Cam deixou seus olhos correrem por entre a multidão sem muito interesse até que pousaram sobre uma garota. A figura feminina parecia destonar da multidão, os cabelos levemente ondulados caiam por suas costas tão escuros como a mais densa noite, a calça escura justa desenhava suas pernas bem torneadas, e a camiseta clara lhe caia levemente pelos quadris e uma jaqueta.
Ele caminhou lentamente para se aproximar, sentia uma necessidade de vê-la de perto ou até mesmo tocá-la, estava a alguns passos dela quando percebeu um alvoroço.
Seu olhar a abandonou por breves segundos, o que tinha sido o suficiente para que tudo acontecesse, ele se virou a tempo de vê-la caindo na piscina. Cam encurtou rapidamente a distância que os separava, a tempo de ver a garota retornado a superfície e não conteve o impulso de estender a mão para ajudá-la a sair da água. Outros repetiram seu gesto, mas por algum motivo ela o retribuiu.
O reflexo da água e a tênue luz o impediam de vê-la nitidamente, contudo, a ergueu com facilidade pois de muitas das coisas que podia se gabar, a força física era realmente uma delas. A garota estava ensopada, os cabelos outrora ondulados estavam escorrendo por seu rosto claro, a camiseta clara estampada estava grudada em seu corpo ressaltando seus seios médios. Ela parecia acanhada ou algo do tipo, pois tentou se afastar sem encara-lo resmungando alguma coisa que Cam não compreendeu ou na verdade, não estivesse realmente escutando.
A garota pareceu tropeçar em seus próprios pés e movido pelo reflexo simplesmente a amparou, seus corpos se encaixaram perfeitamente, podia sentir a respiração quente e ofegante dela na lateral de seu rosto e seus seios comprimidos contra seu tórax.
— Me desculpe –A voz dela saiu suave e levemente trêmula pelo embaraço.
— Você está bem? – Perguntou com a voz levemente rouca. Podia afirmar que estava sentindo uma onda elétrica atravessando-os, imaginava se ela sentia o mesmo pois parecia ter pequenos espasmos ou algo do tipo. Sua vontade era trazê-la para mais perto de si para aquecê-la mesmo que aquilo parecesse estranho.
Ele inclinou o rosto levemente para tentar olhar o dela ainda escondido entre os cabelos molhados, no exato momento em que ela ergueu o rosto sentiu um torpor, mas não de medo era outra coisa podia sentir. Ela tinha os lábios entre abertos com suplicando silenciosamente por um beijo, era a sensação que teve e quase cedeu ao ímpeto te tomar aqueles lábios para sentir seu sabor. Cam sentia seu corpo reagindo a falta de espaço entre eles, e talvez ela também o sentisse.
Ela ergue os olhos tão lentamente que poderia jurar que o fizera em câmera lenta, era tão linda e seus olhares finalmente se encontraram, o verde esmeralda dos dele e os violeta ametista dela.
— Lilly! – Raquel vinha feito um furacão empurrando os que estavam em seu caminho, parecia ou fingiu não percebido o clima entre os dois pois tomou a amiga dos braços dele. – Valeu, cara. – Murmurou voltando sua atenção à amiga a levando para longe.
Quanto tempo tinham ficado ali?
Cam sentia que haviam sido minutos, talvez, horas, mas pela forma como a pequena multidão dissipou rapidamente, deduziu que poderia ter sido somente alguns minutos.
— Boa maneira de nos reencontrarmos não é mesmo, Cameron? Uma festa. – Roland se aproximou com um copo em mãos.
— Roland – Resmungou Cam sem demonstrar entusiasmo.
— Impressionante não é mesmo? Ela lembra muito eles, você não achou? – Comentou bebericando sua cerveja.
— Ela é ...
— Diferente. – Afirmou — Eu sei o que quer dizer. – Olhou de soslaio para o outro. – Ela emana alguma coisa diferente agora.
— O que quer dizer? – Ambos olhavam para algum lugar além das pessoas que continuam a curtir a festa como se nada tivesse acontecido, Cam tinha uma sensação de perda e aquilo era estranho e desconfortável. – Quem ou o que, é ela afinal?
— Meu amigo, ela se chama Lilly. – Prolongou a pausa gerando suspense — Lilly Grigori. – Aguardou alguma reação do outro, se Cam ficou surpreso, não demonstrou em seu olhar. – O que ela é? Bem, Cameron, não sei dizer. O que pude notar a poucos minutos atrás é que você vai descobrir. – Sorriu de canto.
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