Libertação (Cameron Briel)
10 Pesadelo ou Lembrança?
Notas iniciais
Dormir, depois daquele turbilhão de sensações que tinha experimentado era uma tarefa difícil, tinham se beijado e sem dúvidas havia sido muito melhor do que fantasiará. Ainda sentia as pernas trêmulas e aquele perfume maravilhoso dele em sua pele, em algum momento o beijo seria interrompido pois precisariam de ar, porém, não queria ter se separado dele.
Tinha que admitir que tudo tinha ficado confuso com a chegada de Cam, em uma noite caia em seus braços na piscina e na outra estava praticamente se esfregando nele aos beijos. Não era somente sua beleza ou aqueles olhos que lhe roubavam o ar, havia também aquela sensação acolhedora que sentia no peito, sem contar que se sentiu segura em seus braços. Estranho.
A tarde que passaram juntos tinha sido tão agradável. Cam era sexy, sedutor, atento e solitário. Em algum momento ela poderia jurar ter visto a solidão em seus olhos, talvez tenha sido no momento em que perguntou sobre sua família. Cam lhe contou que conheceu Roland na época em que viveram em um orfanato, assim como outros de seus amigos, ele não se aprofundou muito, parecia incomodado com algo que Lilly não tinha conseguido entender, mas foi naquela pequena fração de um segundo que vislumbrou a solidão em seu olhar, e aquilo a tocou.
Naquele momento, sentiu o desejo contido de trazê-lo para junto de si e beijar sua testa carinhosamente afagando seus cabelos, confortando-o, para que não se sentisse sozinho.
Se lembrou de ter perguntado certa vez a sua mãe como ela tinha se apaixonado por seu pai e a resposta tinha sido “Assim que o conheci”, tudo bem simples, sem fogos, luzes ou sinos, tudo tinha acontecido a partir de um olhar que trocaram na faculdade. Romântico, mas surreal, tinha que admitir, contudo, devia ter perguntado como era se sentir apaixonada, talvez isso a ajudasse a entender o que estava sentindo.
Agora continuava ali, deitada em sua cama, olhando o teto e pensando nele, não somente em seus lábios quentes e macios, ou o seu cheiro maravilhoso, seu aperto firme que a deixava molhada ao se recordar, mas principalmente em como ele parecia melancólico, em como ele parecia, ferido.
Tinha que admitir que se sentia muito atraída por ele, no entanto, tudo o que imaginava dele não passariam de suposições até conhece-lo realmente e isso não aconteceria naquela noite. Decidiu que o melhor era deixar que a exaustão a dominasse, que o cheiro delicioso dele preenchesse seu ar e a sensação maravilhosa que restará mesmo agora que não o tinha por perto a embalasse. Com esse sentimento, adormeceu.
“ Sentia-se leve como se flutuasse, não era uma sensação estranha, já a tinha sentido antes, mas quando? Avistou uma colina verdejante e mais adiante algumas barracas montadas e olhando para a construção de pedras brancas e telhado de madeira teve aquela sensação de déjà-vu.
Era uma celebração, isso era o que se lembrava, mas porque se lembrava?
No alto da colina avistou três pessoas se escondendo próximos aquela árvore enorme, qual era mesmo? Talvez uma oliveira, não conseguia se ater a tudo, tinha uma sensação de já ter visto isso antes, tanto que antecipou em segundos as vozes de mulheres cantando animadas e se calando em seguida. Era isso. Já tinha tido esse sonho antes. Mesmo após essa constatação não conseguia acelerar as ações ou alterar os acontecimentos que se repetiam. Acompanhou novamente a bela mulher ruiva vestida de noiva, ela era tão linda. A ruiva cantarolava baixo, enquanto caminhava as margens do rio jogando pétalas de lírios brancos que tirava de seu buquê, continuando o passeio agora seguindo até alguém que estava sentado embaixo de uma árvore.
Diferente da vez anterior, não foi transportada para próximo da árvore, e sim seguiu flutuando paralelo a mulher feito uma sombra. Avistou não muito longe um rapaz sentado sob a árvore, não conseguia ver seu rosto nitidamente mas percebeu seus cabelos negros úmidos e levemente desgrenhados, sua pele bronzeada e suas pernas longas que estavam apoiadas em seu peito com um braço sobre elas, com o outro arremessava pedras na água parando ao perceber à aproximação, procurando com os olhos sua nova companhia.
Lilly sentiu-se congelar ao reconhecer aqueles olhos verdes que tinham um tom que nunca virá antes, mas diferente da tristeza e solidão de agora, ali, eles reluziam verdadeira devoção a mulher que seguia até ele. Era Cam, tinha certeza.
Sentiu como se seu coração estivesse sendo esmagado, era uma pressão tão intensa e dolorida e a dor em seu peito aumentava. Queria acordar, mas não conseguia. Percebeu que estava agora próxima a ele, sentia lágrimas correrem por seu rosto e era tão real e doloroso imaginar que Cam amava aquela mulher que se sentia enciumada.
Assim que a ruiva o alcançou, enroscou seus braços em torno de seu pescoço e repousou as mãos de forma a ficarem sobre o coração dele. Sem se pronunciar Cam enroscou as mãos as dela e ambos fecharam os olhos. Não podia ver, não queria, não sabia o motivo, mas aquilo a machucava.
Ouviu o som de passos se aproximando e se virou o suficiente para avistar uma silhueta masculina se juntando a eles. O homem trajava uma longa túnica branca que contrastava com sua pele bronzeada, trazendo em uma das mãos um grosso pergaminho. Ela sentiu curiosidade de ver seu rosto e se esforçou para vê-lo, mas. ”
— Lilly acorda. – Raquel estava sentada à beira da cama da amiga segurando-a pelos ombros suavemente.- Você está bem? – Lilly estava atordoada, ainda tinha aquela sensação dolorosa em seu coração e o rosto banhado em lágrimas. – Não queria te acordar, mas quando cheguei você estava chorando. – Ela parecia realmente preocupada.
— Foi um sonho. – Murmurou tentando se convencer. Não havia sido como os sonhos normalmente são, era algo tão real que chegava muito perto de uma lembrança. Os detalhes agora impregnavam sua mente além daquela sensação desconfortável que sentia em seu peito. Tinha ficado tão incomodada pelo fato de Cam olhar aquela mulher com aquela expressão repleta de amor. Passou as mãos pelo rosto secando-o – Você já teve um sonho que parecia tão real, que se confundia com uma lembrança? – Perguntou se sentando apoiada à cabeceira da cama, mantendo o olhar em suas mãos suadas e ainda trêmulas.
— Para ser sincera? Não sou muito de sonhar. – Raquel manteve seu olhar preocupado sobre a amiga que parecia realmente abalada pelo sonho, ou seja, lá o que tenha sido. – Mas você não parecia estar tendo um sonho bom, talvez tenha sido um pesadelo. – Constatou se levantando. – Você quer água ou alguma outra coisa?
—Não se preocupe, estou bem. – Mentiu. Não se sentia bem, pois aquilo a tinha afetado de alguma forma. Ela ergueu o olhar até alcançar o relógio na parede que marcava 9:30am, nem assim sentiu-se animada a se levantar, mas como o olhar apreensivo que Raquel lhe lançava vez ou outra a motivou a se levantar e seguir para o banheiro, talvez um banho frio ajudasse a despertar.
Quando Lilly deixou o banheiro sentou-se em sua cama ainda secando os cabelos com a toalha, enquanto ouvia atentamente Raquel contar animada sobre o passeio enquanto organizava suas coisas recém tiradas da mochila. Ela tagarelava contando sobre a praia, do Luau que aconteceu a noite, sobre o número de caras gatos, do amasso que tinha dado no Juan da turma de artes cênicas que segundo ela, era um gostoso.
— O que foi isso?! – Arqueou uma sobrancelha enquanto apontava o dedo em reste de maneira acusadora para a outra.
—Isso o quê? – Perguntou a Lilly confusa.
—Isso. – Imitou de forma exagerada um suspiro com as mãos unidas em frente ao peito. – Você não vai me contar? – Se jogou na cama ao lado da outra em expectativa.
— Tá-Disse aceitando que tinha se entregando, mas quando Raquel falou sobre o Juan, não conseguiu conter o pensamento de que ele não poderia ser mais gostoso do que Cam, e assim, deixou escapar aquele suspiro delator. – Conheci um cara. – Concluiu vencida pela curiosidade da Raquel.
— É gato? Eu conheço? Estuda aqui? Você deu uns pegas nele? — Raquel se calou somente ao perceber Lilly a encarando divertida tentando conter o riso sem muito sucesso. – Que foi?
— Você nem respirou – Riu ainda mais quando a outra fez bico emburrada. -Fofa. – Apertou as bochechas da amiga ainda sorridente. –Ele é amigo de Roland, é o cara que me ajudou na piscina na festa.- Raquel se ajeitou novamente na cama atenta. — Ele é muito gato. – E “gostoso”, completou mentalmente.
(...)
— O que você acha de tudo isso? – Ariane caminhava sobre o parapeito do dormitório masculino, brincando de se equilibrar dando passos pequenos com os braços abertos. Seu cabelo agora comprido brincava com o vento e seus olhos azuis reluziam contra a luz do sol feito duas safiras.
— Realmente não sei, mas a cada dia ela está mais reluzente. – Roland fez um gesto amplo com as mãos.
— Como você é o único que tem saco para essa coisa de estudar, vai ter que continuar de olho nela.- disse ela dando um pequeno salto girando o corpo e caindo novamente no parapeito, agora seguindo para o lado oposto.
— Não exatamente. – Sorriu de canto.- Ela tem alguém melhor. – Murmurou se lembrando de Cam, tinha certeza que ele não conseguiria se manter longe dela mesmo que quisesse. – O fato é que se ela continuar assim, não ficará oculta dos olhos de Lúcifer por muito tempo. – Ambos olharam para janela do lado oposto a eles onde duas jovens conversavam animadas.
— O que ele poderia querer com ela? – Ela parou realmente interessada.
— Para ser sincero? Não sei. – Estreitou o olhar pensativo, talvez estivesse enganado, mas Lilly emanava uma energia diferente dos humanos, mas não sabia definir exatamente, talvez fosse mesmo bobagem.
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