Libertação (Cameron Briel)
11 Testemunha
Notas iniciais
Roland gostava de caminhar. Voar era mais rápido e sem dúvidas mais prazeroso, mas andar, era tranquilizador, e o ajudava a colocar seus pensamentos em ordem. Ariane havia partido, mas voltaria, ela sempre voltava e isso o alegrava. A muito tempo que à amizade tinha se tornado seu alicerce, podia trazer-lhe desgostos as vezes, mas nada comparado a dor lacerante que o amor havia causado.
Imaginava se os milhares de anos que tem evitado esse sentimento, seriam responsáveis por sua apurada percepção atual, ou talvez, fosse o fato de ter sido em uma época longínqua o anjo da música, mas indiferente do motivo, enquanto os humanos e até alguns imortais raramente conseguem conhecer seus verdadeiros sentimentos mesmo que esfregados em seus rostos, para ele era como olhar em um lago translúcido.
Em determinada época, ele tinha sido um desses imortais cegos, ingênuos e tolos. Não havia entendido ou acreditado na força do seu primeiro e único amor e ao invés de declarar a eternidade a sua amada, tinha lhe impelido um amargo “Adeus”. Nunca poderia se perdoar, se arrependeu, tentou remediar enquanto transpassava pelos anunciadores abertos por Lucinda, mas era tarde. Naquela vez, havia ignorado seu orgulho, lutado contra seu ímpeto de cortar a garganta de Alexander e tomar seu lugar ao lado de Rosaline, lugar esse que lhe pertencia, mas era tolice, ele quem havia escolhido o “Adeus”. Tinha sido um estúpido, devia ter fugido com sua amada, e então, o homem que à ataria em seus braços e sentiria o aroma de rosas se desprendendo de seu corpo, seria ele e não Alexander, mas não o fez, e isso pesaria em seu coração para sempre.
Atualmente, enquanto repetia o encontro entre Cam e Lilly, estava convicto de que havia uma centelha de algo maior, tinha notado, era algo intenso. O curioso não era somente por ser algo reciproco e cativante, mas sim, por se assemelhar ao algo antigo, mas coibido até então e isso era intrigante. Não podia afirmar se Cam também tinha percebido, talvez não conscientemente como ele, e isso o preocupava, apesar do amigo se mostrar sempre obstinado já o tinha visto sucumbir, e não queria ter aquela visão novamente.
“Havia planejado fugir com Rosaline para longe dos domínios do pai dela, para longe do preconceito de uma sociedade que não aceitaria o casamento de uma nobre e um bárbaro, mas o que lhe afligia era a incerteza, se devia ou não se revelar a ela. Não sabia se ocultar sua natureza a faria realmente feliz, era um imortal e sobretudo um demônio e era angustiante imaginar como ela reagiria, se ainda o amaria caso soubesse. Havia somente uma pessoa que seria capaz de entender seus conflitos e talvez ajudar-lhe, Cambriel.
Sabia que ele estava sofrendo por sua separação, mas não havia imaginado encontra-lo naquele estado.
Estava no caminho para as ilhas hoje conhecidas como Nova Zelândia a uma semana, sobrevoava desviando de penhascos pontiagudos, superando os ventos traiçoeiros daquelas ilhas que não seriam tocadas pelo homem por mais meio século e que eram o refúgio perfeito para Cam, ou talvez, teria sido o lugar perfeito para abrigar-se e afogar-se em toda aquela angústia. Hoje, Roland entendia melhor o que presenciará aquela vez, Cam estava tentando matar o amor dentro de si e isso o estava destruindo.
Havia pousado em um pedregulho azul cinzento que ficava de frente a uma cascata abismalmente alta, que não conseguia avistar seu cume encoberto pela neblina. Na sua base estava Cam. Ele deixava suas asas serem atingidas pela água corrente violenta.
Não saberia dizer quanto tempo o outro havia estado naquele estado, nem porque se mantinha naquela câmera de tortura que criará. O tinha chamado por algumas vezes e sem resposta o tocou fazendo o outro se debater em resposta. Era como se Cam estivesse em uma espécie de transe e assim que foi reconhecido começou a puxá-lo para a margem sem relutância. Ainda se lembrava do olhar esmorecido e sem vida com o qual o outro o encarava, era como se estivesse vazio.
Cam estava nu e apresentava marcas roxas enegrecidas pelo corpo, talvez devido a surra que a cascata lhe afligia e suas asas apresentavam filetes dourados que cintilavam ao luar.
Havia ouvido falar que Cam tinha escolhido o lado de Lúcifer, mas até aquele momento tinham sido apenas rumores. Aquele encontro não tinha sido como o ritual em que eles deveriam se abraçar, enroscar a pontas de suas asas para expressar que estavam entre amigos e a salvo, ao contrário disso, Cam se aproximou dele e lhe cuspiu no rosto. Tinha sido um erro, porém ele era o único que o entenderia.
Roland tentou dialogar e notou quando Cam jogou seu manto por sobre os ombros e escondeu um pergaminho grosso no bolso, devia ser seu contrato de casamento.
A conversa que tiveram ali, tinha sido em tom amargurado e cheio de pesar, ouviu o outro derramar sobre ele toda à angustia que o aguardava caso escolhesse viver ao lado de uma humana, mas também sobre a dor em perdê-la, cedo ou tarde, mesmo que esse último não tenha sido dito em palavras”.
Hoje ele percebia o que naquela época seus olhos ingênuos não permitiam, aquela conversa não tinha sido sobre ele afinal de contas, e sim, sobre a tentativa de abnegação enfrentada pelo outro. Entendia o quanto era difícil para Cam admitir seus sentimentos, mas não compreendia a conexão que ligava aquele casal.
Roland ergueu os olhos até a janela do quarto que Cam ocupava, não importava o que estivesse por vir, ele iria ajuda-lo.
(...)
Cam observou por alguns minutos Roland que estava parado ao lado da piscina com as mãos cruzadas atrás de seu corpo ereto, devia pensar em algo importante já que seu olhar estava estreito e uma ruga leve marcava sua testa.
Ele voltou para dentro e se jogando na cama macia. Tinha tomado um banho e vestido uma calça jeans desbotada fechada somente no zíper mantendo o botão superior aberto, era mais confortável e por isso excluiu o uso da camiseta.
Seu pensamento insistia em transportá-lo a noite anterior. Tinha sido quase impossível se controlar, não sabia o que acontecia com ele quando estava com Lilly, sentia uma ânsia de possuí-la, de se enterrar dentro dela e ouvi-la gemer por ele.
Havia algo mais, ele sabia, não era o mesmo que sentia por outras mulheres, não se importava em perde-las talvez porque nunca as quis verdadeiramente para si. Com elas não precisava frear seu desejo por mais impulsivo ou luxurioso que fosse. Não era um canalha, simplesmente dava o que elas queriam e tinha o mesmo em troca. Fim. Agora com Lilly era diferente, ele a queria.
Cam brincava com um celular entre os dedos, o tinha recebido logo cedo, Roland sempre conseguia tudo. Deslizou o dedo pelo visor e visualizou o nome dela e se perguntou pela milionésima vez que merda estava fazendo antes de completar a ligação.
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