Libertação (Cameron Briel)
60 Equilibrio
Notas iniciais

Lutava para se concentrar e talvez assim retomar o controle sobre sua respiração ofegante. Uma estranha sensação a deixou alheia aos acontecimentos ao seu redor, tinha consciência que aquela mulher tinha vindo em sua direção no intuito de matá-la. O que teria acontecido que a impediu?
—Lilly. – Aquele berro escandaloso só podia partir de uma pessoa, de sua amiga Raquel.
A voz dela chegou em seus ouvidos, mas teve certeza que o toque quente que lhe alcançou pertencia a outra pessoa.
Cam.
Abriu os olhos forçando a vista que parecia turva cruzando com os hipnotizantes orbes esmeraldas de seu amado, e torceu os lábios no que imaginou ser um sorriso aliviado enquanto sua visão voltava ao normal.
-Li, você está bem? – A voz levemente rouca de Cam havia perdido o tom ameaçador de antes, retornando ao timbre que estava acostumada.
Lilly tocou o braço dele sentindo o contorno dos músculos firmes, pronta para puxá-lo para um abraço quando sentiu os músculos de Cam se tencionarem sob seus dedos.
—É interessante como até os poderosos se dobram a uma mulher, não é mesmo, Cameron? – A voz era aveludada e ao mesmo tempo intimidadora.
—Lúcifer. – Concluiu Cam sem se virar.
Lilly viu os olhos de Cam escurecerem.
Adam se mantinha atrás dela a poucos passos de distância. Ela se esforçou para se erguer quando Cam se levantou e ficou parada atrás dele, se esticando levemente por sobre seu ombro.
Ela imaginou que teria a visão de algo amedrontador, e aquele homem que avistava representava o oposto disso. Ele era alto e trajava um terno preto de fino corte, com cabelos âmbar bem alinhados e de olhos de um azul intenso em um tom gélido. Ele tinha uma postura austera e um olhar estreito intrigado.
—Vocês não acham interessante. – Ele parou a alguns passos da lâmina dourada jogada no chão, próximo a vestígios de um pó cinza escuro. — Como o orgulho ferido é capaz de manipular até os seres imortais feito nós? – Lilly estava confusa, ela tinha certeza que aquela lâmina estava nas mãos daquela mulher, que aliás, havia sumido tal como os exércitos que duelavam anteriormente. – Uma foda pode literalmente foder com tudo, não é mesmo Cam? – Questionou Lúcifer pisando naquela poeira que se dissolvia e se debruçou o suficiente para alcançar a lâmina.
—Alexia foi estúpida, ela não tinha a mínima ideia das minhas limitações. – Cam emendou retomando o tom duro e ríspido de antes.
Lilly sentia que muito estava sendo dito nas entrelinhas e tentava inutilmente entender o que era.
—Ouvi muito do seu discurso eloquente. – Completou com desdém. — Tudo aquilo sobre poder, inimigos que se erguem contra nós e de como devemos trata-los. – Lúcifer mantinha uma das mãos no bolso de maneira elegante, enquanto parecia brincar com a adaga entre os dedos da outra. – E claro, sobre fraquezas. – Ele fincou seus olhos gélidos em Lilly que sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
—Como disse, o termo poder é limitador e o que supomos que seja uma fraqueza, pode se tornar nossa força. Tudo muda, não é mesmo? – Cam concluiu sério.
Lilly percebeu que Cam não se movia, mas seu corpo estava tensionado talvez antecipando algum ataque. Lúcifer mantinha os lindos lagos gélidos sobre ela de maneira analítica.
—Pode até ser. – Lúcifer cruzou o olhar primeiro com Cam e em seguida com Adam, que se mantinha firme atrás de Lilly. – Ela não é a última mulher no mundo. – Concluiu mantendo um tom desinteressado.
—É a única que me importa. – Emendou Cam sem pestanejar.
Lilly viu um sorriso de canto torcer os lábios bem desenhados de Lúcifer, mas ao contrário de escárnio ela notou que havia amargor naquele gesto, como se aquela fala o remetesse a algum momento execrado. Ela se lembrou do relato de Cam sobre o relacionamento entre sua mãe e o “Estrela da Manhã”. Como influenciado pelo egoísmo e o orgulho, o amor havia se tornado unilateral, contudo, aquele olhar gélido revelou naquele instante seu ressentimento.
— Compreendo perfeitamente. – Completou Lúcifer mantendo a postura altiva, ocultando o lampejo de angustia de seu olhar. – Somos capazes de cometer atos extremos por um sentimento capaz de nos tornar dependentes e limitados, mas o interessante, é que isso pode revelar nosso verdadeiro potencial. – Ele fincou o olhar rígido sobre o Adam. — E conseguem inclusive mudar nosso peso na balança. Não concorda, Adam?
— Acredito que o potencial tem o peso de nossas convicções. – Emendou Adam ligeiramente. – E nesse caso, ele não nos limita, mas sim nos fortifica. Senhor. – Apesar do tom comedido, Lilly percebeu que as palavras haviam sido ditas de maneira resoluta. Adam estava se mostrando firme a suas escolhas, que naquele momento era o de ficar ao lado dela.
Lúcifer girou nos calcanhares lentamente na direção de Raquel e Roland, que se juntaram ao grupo ficando um de cada lado de Lilly.
—Assim como as escolhas. – Completou Lúcifer friamente.- Principalmente agora que a balança está pendendo.- Ele jogou a adaga para o alto de maneira distraída a arremessando em um movimento rápido, assim que ela tocou sua mão novamente. O objeto reluzente seguia na direção de Cam.
Não sabia dizer com exatidão se o tempo havia parado ou se sua percepção do entorno que estava letárgico.
—Você está bem Li? — A voz levemente rouca de Cam alcançou seus ouvidos a trazendo de imediato a realidade.
Lilly viu grossas gotas de sangue buscando o chão aos pés de Cam, e sentiu seu coração atrasar algumas batidas. Ele estava ferido.
—Cambriel! – O nome verdadeiro dele fluiu pelos lábios de Lilly em uma suplica desesperada, fazendo-a sentir como se aquilo já tivesse acontecido.
Um clarão e tudo parecia ter decorrido em uma fração de segundos.
“ Ela sentiu um tremor percorrer seu corpo, acompanhado de um zunido em seu ouvido. Sentiu-se zonza e tentou em vão tatear algo ao redor sentindo uma dor aguda e perfurante em seus ombros.
Tudo parecia ter tomado um tom levemente acinzentado, e por algum motivo nada parecia se mover.
—O que está acontecendo? – Questionou assustada.
Lilly observou encantada a mulher que se aproximava lentamente. Era dona de uma beleza impar com seus cachos amplos em tons de dourados e prateados. Seus olhos que eram de uma azul cristalino pareciam refletir todas a cores existentes.
Um sorriso discreto se formou nos lábios daquela mulher, e Lilly imaginou ser o mesmo que via curvar os lábios de sua avó, amenos expressavam aquela mesma doçura.
E quando os olhos dela se estreitaram com o movimento daquele sorriso, pareciam tomar a mesma expressão amorosa que via reluzir nos olhos de sua própria mãe.
— Lúcifer se recusa a entender, que não há glória quando o ar é envenenado pela vingança. –A voz era tão suave e doce comparado a um cântico. Ela estancou poucos passos distantes de Lilly que parecia atônita. – A balança irá pender, caso ele concretize suas intenções.
— Cam?! – Lilly se viu apavorada com a ideia de que algo possa acontecer com o seu amado.
—O alvo de Lúcifer nunca foi Cambriel. – A mulher parecia sussurrar. — Ele procura por vingança.
—Sou eu. – Concluiu convicta.
Lilly se questionou como tinha sido tão ingênua. Ela era filha de Daniel e Lucinda, e consequentemente um meio direto de feri-los. Era disso que tudo aquilo havia se tratado afinal, Lúcifer estava buscando vingança com sua morte.
—Cambriel é movido pelo coração, assim como seu pai, que implorou em silêncio por sua alma. Daniel sempre acreditou nas mudanças que o amor poderia ocasionar. – Os olhos multicoloridos pareciam analisar as reações de Lilly. Ela parecia estarrecida, e apesar de sua mente processar tudo o que era dito, seu coração ressoava “O Trono”, repetidamente. Provavelmente tirava essa conclusão devido a vontade de se dobrar de joelhos diante daquela mulher.
—Talvez você não compreenda o quão longe, Cambriel estaria disposto a ir pelo amor que ele tem por você. – Lilly sentia-se envolta em áurea de emoções impossíveis de descrever.- Ele estaria disposto até mesmo a destruir o equilíbrio para te proteger. – A voz suave era incisiva. Lilly entendia que a quebra do equilíbrio ocasionaria uma guerra entre anjos e demônios. – Você está certa. – O Trono respondeu ao pensamento dela. – Não seria essa poeira de anjos que os envolve que impediria os humanos de serem afetados por essa guerra.
—Eu entendo. – Lily confrontou pela primeira vez a mulher que permanecia parada à analisando.
Seu coração se apertou amargurado, Cam estava arriscando tudo por ela.
Lilly fitou a forma humana do Trono e se viu refletida nos olhos multicoloridos dela, e sentiu um calor envolver seu coração fazendo-a se sentir acolhida e segura.
“Eu o amo”, seu coração proclamou indelével.
O Trono acenou a cabeça levemente concordando, ainda sustentando o olhar antes de um sorriso sincero curva novamente seus lábios
Assim como Cam, Lilly estava disposta a apostar tudo por seu amor.
Nunca seria diferente.
Ela havia nascido para ser dele.
“Viva com o legado de seus pais”, a voz doce ecoou em sua mente. ”E seja forte para suportar o peso de suas escolhas”, a voz parecia distante e a figura feminina desapareceu tal como havia surgido. ”
Lilly sentiu uma dor aguda em seus ombros como se sua carne estivesse sendo rasgada, e um liquido morno começou a escorrer por suas costas. Aquilo não tinha importância naquele momento, ela só precisava abraça-lo.
—Cam! – Ela o envolveu acomodando o rosto contra suas costas. – Eu te amo. – Sussurrou
(...)
Quando Cam viu Lúcifer arremessar aquela adaga contra ele, sua primeira lembrança foi a de Lilian recebendo o golpe letal da lâmina dourada. Ele ainda tinha o sangue dela seco em suas roupas e seu coração se apertou em seu peito com a lembrança.
Cam não permitiria que aquela ideia relampejasse novamente a mente dela, talvez seja isso que Lúcifer esteja prevendo, mas ele não a perderia novamente daquela maneira estupida.
Ele seguiu a direção da lâmina que poderia feri-lo, mas nunca seria como a ferida de vê-la partir para sempre.
Ele nunca estaria preparado para perde-la.
Nunca.
Cam sentiu a lâmina perfurar seu peito e a dor que sentiu tinha sido substituída pelo alivio de ser o seu próprio sangue a escorrer pelo chão, e não o dela.
—Você está bem, Li? – Ele tirou a lâmina que havia se enterrado no centro de seu peito, como se aquele ato não causasse a dor que realmente sentia.
Cam sentia o olhar gélido de Lúcifer sobre ele, aquilo havia sido um simples aviso, mas se todas as escolhas que havia feito o tinham trazido até aquele momento, ele jamais se cansaria de repeti-las. Principalmente quando sentiu os braços delicados de Lilly o envolver com carinho e a voz suave lhe atingir os ouvidos.
—Cam! – Ela o envolveu acomodando o rosto contra suas costas. – Eu te amo. – Sussurrou.
Cam não se conteve e fechou os olhos sentindo-se agraciado por tê-la em sua vida. Ele ouviu um farfalhar de asas e sentiu aquela mesma atração magnética que atingia suas asas quando se aproximava das de Daniel e abriu os olhos, se virando para Lilly.
—Então era isso. – Roland murmurou.
Os olhos ametistas de Lilly tinham um brilho intenso e reluzente, seus lábios rosados entreabertos sempre em um convite a um beijo, mas Cam deixou seus olhos surpresos seguirem até a plumagem reluzente em um tom prata-perolado que se desprendia das costas dela.
(...)
Lúcifer estava tão ou mais impressionado que Cam.
Seus olhos gélidos direcionados as asas que pesavam sobre os ombros de Lilly.
“Asas iguais a de Lucinda”, sua mente martelou o fazendo trincar os dentes irritado sentindo suas asas ocultas se retorcerem sob sua pele exigindo que fossem libertas.
“Pelo visto o equilíbrio será o fardo de um anjo sem casta”, ele conhecia aquela voz de um tom docemente perturbador que ressoou em sua mente.
“O equilíbrio é o bem que todos nós queremos preservar”, emendou com desdém.
“Certamente. Você sabe que assim como Cambriel, Lilly não hesitaria em quebrar o equilíbrio. Não é mesmo? ”, aquilo soou mais como um aviso do que uma pergunta e Lúcifer compreendeu perfeitamente isso.
“Que seja”, concluiu vencido.
Ele nunca admitiria que Cam havia sido o primeiro demônio a resistir a sua invocação, mesmo sob a intensidade que havia exercido para que ele cedesse, e isso apenas reforçava o fato de que não tinha a intenção de descobrir até onde Cameron iria por aquela garota.
—Agora que o equilíbrio foi reestabelecido. – Lúcifer enrijeceu o queixo quando os olhos violetas brilhantes de Lilly o alcançaram, contudo manteve sua postura rígida enquanto Cam se voltava para ele com um olhar estreito e ameaçador. – Imagino que os atos inadvertidos de Alexia serão desconsiderados. – Sua voz era plana e fria.
—Certamente. – Cam tinha as asas praticamente eriçadas e o olhar estreito dizia muito mais do que suas palavras.
Um sorriso estreito e indecifrável curvou os lábios bem delineados de Lúcifer.
—Um anjo. – Concluiu de maneira pragmática antes de sumir.
(...)
Lilly sentia um ardor desconfortável em suas costas além do peso de sua recém adquiridas, asas?
—São lindas. – Ouviu a voz de Raquel se pronunciar admirada.
—Como as de Lucinda. – Completou Roland igualmente encantado.
Cam se virou assim que Lúcifer desapareceu no ar e passou a admirá-la deslumbrado. Ela sentia o coração descompassado e a respiração pesada.
—Acabou. – Sussurrou antes de desmaiar.
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