Libertação (Cameron Briel)
51 Conflito com o passado
Notas iniciais

Agitava suas asas com movimentos amplos seguindo seu desejo de se distanciar, contudo, quanto mais longe do local de sua recente discussão maior era seu remorso.
Seu orgulho o fizera ser impulsivo e ríspido, agora, sua mente era fortemente repreendida por seu coração que gritava “Ele é seu melhor amigo, ele é como um irmão”.
“ Horas antes da celebração que ocorreria naquele mesmo dia, ele tentou argumentar com Cam sobre sua decisão de ocultar os detalhes do contrato de casamento de sua noiva.
— Você não percebe, Cam? A família dela irá se opor. – Constatou enquanto observava o amigo, que aquela manhã tinha o olhar visivelmente frio e obscuro, de uma maneira que nunca tinha visto. O outro, ergueu o rosto visivelmente desconfortável após um suspiro profundo.
—Ela me ama, e vai aceitar. – Daniel podia ter se enganado, mas ele conhecia Cam o suficiente para perceber que aquelas palavras eram vazias, talvez o outro estivesse assim devido a aproximação do matrimônio.
—Talvez se você desse a ela o direito de escolher. Acho que você deveria...- Ele foi interrompido novamente, não com palavras, mas sim pelo olhar gélido do outro, e mesmo estranhando aquela reação preferiu se calar.
Daniel continuou ali, ele não sabia explicar ou mesmo discernir o que havia de errado com Cam.
Será que lhe acontecia o mesmo quando estava prestes a reencontrar sua amada Lucinda?
Seu coração martelou em seu peito com a lembrança, haviam se passado poucos anos após sua última morte e logo seria atraído magneticamente até ela. Se encontrariam, se apaixonariam e então, as chamas a roubariam dele.
Se recordava de muitas dessas perdas, algumas após um simples olhar ou pelo lampejo de algum sentimento, por mais singelo que fosse, de como era doloroso quando seu coração se quebrava em pedaços sempre que a perdia.
Seu castigo seria eterno como sua vida.
Olhou novamente de soslaio para o amigo que parecia tenso e tocou seu ombro em um gesto reconfortante, Daniel faria por Cam o que por milênios o outro vinha fazendo, e estaria junto dele em toda e qualquer adversidade. ”
Sentiu-se mal com aquela lembrança, pois quanto mais distante ficava, maior se tornava o peso de suas próprias conclusões.
Cam estava se perdendo enquanto ele dava-lhe as costas.
—Estive ao seu lado na aurora do tempo, e o verei no fim dos tempos. – Recitou para si enquanto seu corpo guinava no ar tomando a direção contrária, agora seguindo para junto de seu “irmão”.
Daniel sentiu um ardor em seus ombros e um repuxo incomodo, nada que lhe causasse dor física, mas sua intuição afirmava, alguma coisa estava acontecendo.
(...)
Comparava aquele sentimento como o que tivera ao se encontrar com Lilly pela primeira vez, era a mesma sensação acolhedora e abrasadora que o envolveu, assim como a corrente elétrica que percorreu todo seu corpo com o simples toque, além daquela sensação esquisita em seu estomago. Era isso. Aquela jovem singela e extremamente recatada, de olhos castanhos tão expressivos ao ponto de dizerem a todo o segundo que o amava, mesmo quando não estavam ligados o fizeram entender. Lilly era a reencarnação de Lilian.
Se questionava como não a tinha notado, pois sabia que se o tivesse feito naquela época, certamente não a teria perdido. Ele a teria roubado para si se fosse preciso, pois agora tudo reluzia em sua mente tão claramente, se Lucinda era a alma gêmea de Dani, Lilian, era a dele.
Cam arrastava os pés calçados com seu coturno de maneira enfadonha e distraída. As mãos passando por duas aberturas feitas nas laterais daquela túnica desconfortável, facilitando o alcance aos bolsos de sua calça jeans escura.
Por que não a tinha notado? Imaginava que se Lilian o tivesse “salvo” de se tornar um demônio, tudo poderia ter sido diferente. Tudo. Ele não teria sido forte e até mesmo cruel para lutar ao lado de Dani e certamente, não teria encontrado Lilly. Movido por aquela nuvem de pensamentos, Cam tardou em perceber que estava seguindo para sua antiga morada naquela época.
Sua casa possuía linhas retas e extremamente simétricas, um pequeno jardim forrado de flores como Iris, Açucenas e Jacintos, típicas daquela região e que circundava a propriedade. A casa era esculpida em tijolos de pedras claras e de janelas e portas talhadas em madeira de lei. A entrada principal possuía um arco amplo e alto com a palavra “Angelos” no topo. Aquilo tinha sido ideia de Dani obviamente, pois mesmo naquela época Cam sentia-se incomodado pelo fato de ter sido expulso antes de ter feito uma escolha.
Cam contornou a moradia seguindo para a porta lateral que dava direto na cozinha, de lá seguiu por um corredor longo ultrapassando algumas portas entreabertas ao longo do caminho, até alcançar a porta de seu quarto que ficava ao fundo. Sabia que não havia ninguém lá, então seguiu superando a cama e os poucos móveis dispostos no ambiente, até alcançar a janela ampla, que lhe dava uma maravilhosa visão da relva nativa salpicada por pequenas flores brancas de miolo amarelo que ele não se recordava do nome.
Lembrava-se de que naquela mesma janela havia amadurecido a ideia de casamento, enquanto Dani expunha os prós e contras daquela decisão. Tinha sido ingênuo e emotivo, havia acreditado que o amor poderia ser o suficiente, mas hoje, tinha certeza que o amor podia sim, ser suficiente, talvez não naquele momento, não com Lilith.
Ouviu o farfalhar de asas. Estava fodido. Havia se esquecido que àquela altura “ele” chegaria para se encontrar com Dani para os acertos finais sobre o contrato matrimonial.
Seguiu para a única rota de fuga disponível naquele momento, ultrapassando a porta do quarto rumo ao corredor segundos antes de ver o outro “ele”, plainar e pousar graciosamente no peitoril da janela.
Observou suas antigas asas diamantadas reluzirem em um último movimento antes de se acomodarem sob sua pele, então eram assim que as viam.
O outro “ele” saltou para dentro do cômodo. Ele parecia pensativo e visivelmente afetado por algo, principalmente quando soltou o ar pesadamente pelos lábios revelando que estava atordoado. Cam se observou atentamente, mas foi no segundo seguinte que passou a entender o que estava acontecendo.
—Lilian – Cam estremeceu ao ouvir seu passado pronunciando o nome dela daquela maneira. Aquilo era impossível. Ele sabia que se a tivesse conhecido, nunca a esqueceria, pois certamente seu coração a tomaria para si, no entanto, naquele momento era isso que percebia, “ele” a tinha conhecido.
Aquilo o deixou em alerta, se aquele fulgor apaixonado que via reluzir nos olhos de seu passado fosse realmente direcionado a Lilian, tudo estaria perdido, e movido pelo seu já conhecido impulso, Cam irrompeu pela porta ignorando o assombro nos olhos verdes de seu passado e o tocou clivando-se nele.
—Que se foda. – Proferiu por fim.
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