Libertação (Cameron Briel)
52 Perdendo minha inocência
Notas iniciais
Quando se clivou em seu passado houve um desconforto passageiro devido as emoções divergentes que haviam neles, Cam não era mais aquele do passado a milênios e isso causava aquela momentânea vibração para que sua essência fosse enquadrada sobre a do seu passado.
A primeira coisa que sentiu quando a vibração cessou foi seu coração pulsando frenético em seu peito, e aquele formigamento em seus ombros implorando para que suas asas fossem libertas.
Era isso, ele a tinha conhecido.
“ Seu passado reiterava sua mente dos acontecimentos.
A algum tempo que aquela garota que entrava e saia com rapidez dos ambientes que compartilhavam, com o queixo praticamente enterrado contra o peito para evitar que seus olhares se cruzassem, o intrigava principalmente quando a fragrância inebriante de jasmim que se desprendia dela o alcançava.
Naquela manhã havia acordado bem-disposto e animado, o que não poderia ser diferente considerando que estava ao alvorecer do dia que seria “perfeito”, pois enfim se uniria em matrimônio a sua amada.
Seguiu para o rio como fazia com frequência, porém um pouco mais cedo do que costume e foi quando finalmente a viu.
Os olhos castanhos dela pareciam sonhadores e distraídos, mas foram capazes de agitarem seu coração, assim como o aroma conhecido de jasmim que o atingiu quando ela passou rapidamente próximo a ele sem o perceber.
—Lilian. – Transformou em palavras o que sua mente entonou. Já tinha ouvido aquele nome diversas vezes sendo proferido na casa de sua noiva, mas somente agora aquele nome havia ganho um rosto.
Sentiu-se inundado por uma sensação estranha e mesmo que não devesse, por mais errado que fosse, desejou que ela o tivesse notado. ”
Não havia sido nada além do que um breve vislumbre que seu passado tinha tido dela, poderia parecer irrelevante, mas ele sabia, que seu “eu” passado não se casaria se seu coração vacilasse e era isso que estava acontecendo.
(...)
Cam mantinha o olhar distante, era mais difícil do que imaginava manter foco naquela conversa, principalmente pelo fato de saber o desfecho de tudo aquilo.
— Você não percebe, Cam? A família dela irá se opor. – Constatou Daniel.
—Ela me ama, e vai aceitar. – Era desconfortável aquela afirmação e até ele percebeu o vazio de suas palavras. Cam desejou apenas que Dani não notasse seu desinteresse e muito menos o que estava realmente acontecendo ali.
—Talvez se você desse a ela o direito de escolher. Acho que você deveria...- Daniel tentou prosseguir, porém foi calado pelo olhar duro que Cam lhe lançou. Não havia sido sua intenção, mas aquilo não precisava se prolongar, principalmente considerando que ainda tinha muito o que reviver.
Observou o amigo permanecer calado e após longos minutos de silêncio, sentiu-o tocando seu ombro em um gesto de conforto. Cam se sentiu nostálgico, sentia falta das conversas que tinha com Daniel.
Naquele instante, Cam se questionou se estaria pronto para perder o grande amigo para a morte no futuro, lembrou-se de Molly e Gabbe, ele não estava preparado para a morte delas e tinha certeza que nunca estaria para a de Daniel. Nunca.
Pela primeira vez desde o momento em que se clivou ao seu passado, Cam deixou um olhar sincero e tenro cair sobre o amigo. “Estive ao seu lado na aurora do tempo e certamente estarei ao seu lado no fim, irmão. ”, reforçou em pensamento.
(...)
Gostava da agradável sensação da água fria tocando sua pele, era reconfortante e naquele momento tenso, era extremamente necessário. Saiu da água calmamente agitando os cabelos seguindo para a árvore mais próxima. Olhou para a tenda onde se lembrava que Lilith estava se arrumando a tempo de vê-la surgir linda.
O show iria começar.
Cam manteve o olhar curioso na tenda ignorando por alguns minutos a beldade ruiva que seguia pela margem do rio em sua direção, e deixou seus olhos se prenderem em Lilian. Sentiu seu coração se agitar e por segundos se questionou se era a resposta de seu próprio coração ou de seu passado, mas isso não importava pois tinha que se preparar para encenar.
Lilian parecia perdida e Cam chegou a acreditar que a ela estava indo em sua direção, mas logo ela tomou outro rumo e ficou atrás de uma pilastra.
Ele retomou sua atenção aos fatos que se seguiriam, tudo precisava correr como antes, apesar que não se recordava de seu coração ter ficado tão agitado, talvez pelo fato de agora ter consciência da presença furtiva da garota.
Daniel se aproximou deles da maneira que se lembrava, pelo visto tudo correria como o previsto.
—Como vai você, Dani? – Lilith questionou em um timbre suave como uma melodia.
Daniel se ajoelhou a lado do casal, desenrolando o pergaminho contendo o contrato de casamento cuidadosamente.
—Esta parte aqui. – Lilith indicou um ponto no contrato fazendo com que Cam segurasse o impulso de revirar os olhos. – Diz que seremos casados perto do rio – ela se virou com olhar suplicante para ele. – Mas você sabe que quero casar no templo, Cam.
Ele estava “cansado” de saber disso, mas pelo visto o seu passado começava a se agitar pelo rumo que a conversa estava tomando, era difícil controlar os impulsos dominantes do seu passado, mas como as coisas pareciam tomar o rumo correto, imaginou que não teria que se esforçar para tomar o controle.
Após trocar um olhar cumplice com Daniel, Cam alcançou a mão da Lilith motivado por seu passado assim como as palavras que permitiu fluir por seus lábios.
— Meu amor. Eu já te disse que eu não posso. – Seu passado se pronunciou realmente tocado. Cam se lembrava daquela pressão que aumentava em seu coração, era a dor causada pela antecipação da perda.
—Você se recusa a se casar comigo sob os olhos de Deus? – Lilith elevou o tom de maneira agressiva. – No único lugar onde minha família irá aprovar nossa união! Por quê? – A voz dela se elevou alguns tons e seus olhos reluziam, ela estava enfurecida.
—Eu não vou pôr os pés lá dentro. – Disse simplesmente.
—Então você não me ama. – A voz de Lilith parecia embargada.
—Eu amo você mais do que jamais imaginei ser possível, mas isso não muda nada. – Enquanto seu passado declamava aquelas palavras, Cam sabia que levaria milênios para descobrir que ele seria capaz de amar mais intensamente que naquele momento. Seus orbes seguiram até a garota praticamente encolhida em seu esconderijo, ela tinha os olhos reluzindo em lágrimas. Lilian estava chorando e ele tinha certeza que era por sua causa, e isso pareceu esmagar seu coração.
—Minha avó nunca gostou de você. – A voz outrora melodiosa de Lilith saiu esgarçada e alta. – Ela sempre dizia as coisas mais terríveis, e eu sempre defendi você. Agora eu o vejo. – Ela estava transtornada. – Diga.
—Dizer o quê? – A voz dele soou fria fazendo com que Lilith aumentasse o seu tom de voz.
—Você é um homem mau. Você é um...eu sei o que você é. – “Não”. Ela não sabia nem o que ele era e muito menos no que se transformaria a partir dali.
—Não sou nenhuma das coisas ruins que dizem que sou, Lilith. – Lilith lhe lançou um olhar cético e aquilo feria o coração de seu “eu” passado, mais do que as mãos que ela mantinha firme em torno de seu pescoço.
—Lilith- Daniel, suplicou afastando as mãos dela do seu pescoço. – Ele não é....- Prosseguiu Daniel.
—Dani. – Cam foi ríspido. – Nada que você diga poderá ajudar.
—É isso mesmo. Acabou. – Ele percebeu um tom aliviado em sua noiva e aquilo pesava em seu peito, seu passado parecia perceber que ela o estava abandonando. Cam se lembrava da dor que sentiria e do quão pesado seria seguir em frente. — Eu espero viver mil anos e ter mil filhas de modo que sempre haverá uma mulher que poderá amaldiçoar seu nome. – Vociferou ela cuspindo no rosto dele e correndo de volta ao templo, com o seu vestido esvoaçando contra o vento.
Sentiu-se preencher pela tristeza de seu “eu” passado, e era sufocante.
—Você tem uma Starshot, Dani? – A voz dele saiu áspera expressando a dor interna que sentia.
—Não. – A voz de Daniel tremeu em sua garganta.- Você vai recuperá-la ou então...
—Eu fui ingênuo em pensar que poderia ter o amor de uma mulher mortal.- Começou e logo deixou seu olhar alcançar a mortal que tinha seu coração, Lilian.
—E se você apenas disser a ela. – Disse Daniel.
—Dizer a ela? O que aconteceu a todos nós? A Queda e tudo desde então? — Ele se inclinou mais para perto de Daniel. Era como se lembrava de ter feito. – Talvez ela esteja certa sobre mim. Você a ouviu falar. A aldeia inteira acha que sou um demônio. Mesmo eles não usando essa palavra. – Cam sentia o quanto era difícil para o seu passado proferir aquelas palavras, pois nem ele compreendia o por que foi acusado daquela maneira.
—Que solitário. – Declarou com amargor.
—Não é solitário – Daniel estava alterado. – É amor. O amor que você deseja para si mesmo, demasiadamente.
Sim, ele sempre desejou ser amado.
Mirou novamente a garota escondida. Observou por segundos os olhos vermelhos dela e controlou a vontade de ir até lá para envolve-la em um abraço.
Agora ele sabia o que era ser amado e perceber que para ter aquele amor teria que primeiro deixa-la, fazia seu estomago revirar. Lilian era tão singela feito um lírio branco e tão inocente como seu próprio nome descrevia, mas para que pudessem viver o amor no futuro, ele teria que a deixar para trás.
—Não. – Daniel se moveu para perto dele. – Você não.
Cam permitiu que seu “eu” passado seguisse seu próprio impulso, quando se afastou bruscamente e cuspiu no chão.
—Nem todos nós temos a sorte de estarmos ligados à nossa amante por uma maldição. – Ele poderia não estar ligado à sua amante por uma maldição, mas o laço que os unia era tão forte o quanto, que havia transposto o tempo.
—Vá então. Você não fará falta. – Cam sabia que as palavras de Daniel eram vagas, mas seu “eu” passado sentiu aquilo como uma punhalada no meio de suas costas, dolorosa e difícil de remover.
Cam, deixou que seu passado estendesse as asas tomado por aquele misto de fúria e profunda tristeza, e alçasse voo com movimentos bruscos e amplos gerando pequenos redemoinhos de poeira com o movimento.
A poucos metros da margem seu “eu” passado declamou aos quatro ventos que agora seguiria e serviria a Lúcifer “A estrela da manhã”. Seu clamor foi de imediato ouvido, pois logo uma dor cruciante o fez tombar para um lado ainda plainando enquanto seu interior parecia se retorcer o fazendo tombar para o outro lado. Cada movimento sofrível causava uma dor aguda a um passo do insuportável, tanto que não conseguiu se manter no ar e precipitou-se em queda.
Ele lembrava nitidamente do baque surdo de seu corpo tocando o chão com violência, do gosto de terra seca que grudou em seus lábios, de como sua visão ficou turva e do zunido estranho em seus ouvidos. Urrou descontrolado quando suas asas se ergueram de uma forma retorcida, e deixou seu rosto retornar ao chão e um momento de alivio.
Quanto tempo havia se passado ou quando ela havia chegado, não sabia dizer, mas reconheceu o toque suave em seu rosto e Lilian sussurrando seu nome.
Tentou reunir forças para abrir os olhos, mas seu passado estava muito perto da inconsciência.
—Cambriel, por favor, acorda.- Os dedos pequenos corriam por sua face de maneira delicada enquanto tentava erguê-lo com dificuldade.
—Você devia se preocupar consigo mesma, Lilian. – Era uma voz feminina que aos ouvidos mortais pareceria sensual, mas para ele refletia crueldade.
Quem seria?
Precisava se concentrar.
—Alexia! – Lilian proferiu confusa.
“Alexia”, aquele nome fez um alerta vermelho piscar na mente de Cam, seja o que fosse que aquela vadia estivesse fazendo ali, não seria algo bom.
—Não estou aqui para conversar Lilian, estou aqui para te matar. – “Matar”, a mente dele repetiu exaltada. “Não! ”.
Foi difícil e doloroso se erguer, seu corpo parecia pesar uma tonelada, assim como suas asas caídas em suas costas. Aquela intrusa havia vindo do futuro assim como ele.
—Se afaste dela, sua vadia! – Se não estivesse clivado naquele instante, Cam certamente estaria envolvendo o pescoço daquela vadia com força devido a sua ameaça.
—Ah Cameron...-Aquela vadia ria dele de maneira sádica. – Você foi tolo o suficiente para se clivar em seu passado? – Ela girava a adaga entre os dedos. – Isso será melhor do que imaginei.
—Se afaste dela ou juro que vou....- Seu passado não se manteria desperto por mais tempo, mas ele precisava manter-se de pé.
—Vai o quê, Cameron? Você está preso aí, e quer saber? Isso só torna as coisas mais divertidas. – Cam viu a lâmina dourada reluzir na mão dela.
—Vai se foder, sua vadia! – Esbravejou Cam tombando de joelhos.
—Cambriel. – Lilian sussurrou tentando ampará-lo.
—Cale-se! — Brandou Alexia se movendo rapidamente. Cam antecipou a dor que sentiria ao ter a lâmina afiada cravando em sua pele, mas assim como Alexia, ele sabia que aquilo simplesmente o feriria e causaria dor, mas logo se curaria. Era e seria sempre assim.
—Lilian! – Deixou fugir espantando.
Seus olhos tomaram um tom reluzente e amedrontador.
Cam conseguiu ouvir o som da lâmina se afundando e rasgando a carne e o esguicho de sangue que espirrou em direção a Alexia, quando ela girou a lâmina enterrando-a ainda mais no corpo de Lilian. A garota tossiu e deixou e uma golfada generosa de sangue tingiu o chão.
Cam cruzou o olhar com Alexia e leu neles satisfação, a mesma que sentiria quando arrancasse as asas daquela vadia bem devagar.
—Ah Cameron. A sua garota antecipou as coisas, mas não faz diferença, não é mesmo? – Ela não sabia com quem estava se metendo. Cam se ergueu ignorando a dor movido pelo ódio que o cegava. Alexia tirou a lâmina lentamente fazendo com que um gemido rouco escapasse dos lábios de Lilian, e Cam estancasse no lugar apreensivo. – Sabe o que essa lâmina tem de especial? – Ela tirou completamente a adaga, agora tingida de vermelho assim como o punho se seu sobretudo. – Assim que ela morrer, sua alma morrerá para sempre assim como qualquer lembrança dela. Você nem se lembrará desse momento, Cameron. – Alexia sorriu vitoriosa antes de desatar suas asas acobreadas. – Você fez com que tudo saísse melhor do que o esperado, Cameron.
Cam sentia seu corpo trêmulo e não sabia dizer se motivado pela ira, ou por ver a pobre Lilian cair de joelhos antes de tombar lentamente para o lado.
Alexia devia ter ido pois restava somente o silêncio mórbido e um suspiro dolorido que deixava os lábios da garota.
Não importava.
O que importava era que a sua “inocência”, estava morrendo.
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