Letum Proditoris

3 Theodoro Arthuro Beaumont Westwood II



Na quarta-feira, quando cheguei ao hospital, a história das poções adulteradas já começava a desaparecer, absorvida pelo próprio ritmo do lugar. Ainda havia comentários soltos, um ou outro caso residual, mas nada que sustentasse a atenção por muito tempo, porque outra situação já se organizava para ocupar o espaço. Quando se trabalha em um ambiente tão caótico, nada é grandioso o suficiente para ser comentado por mais de três dias, sempre há algo novo prestes a acontecer, algo que rapidamente substitui o que antes parecia urgente.

O assunto da vez eram os novos aprendizes recém-formados de Hogwarts e de outras escolas. No geral, não recebemos muitos, a carreira de curandeiro não é exatamente atrativa. São longas horas de trabalho com folgas que vivem sendo remarcadas, adicional por risco mágico sendo pago de forma irregular, refeição no local mas sem tempo real para comer, um estoque de pó de flu que nunca dura os trinta dias do mês e um reembolso de vassouras que existe apenas parcialmente e ainda assim restrito a modelos básicos que ninguém em sã consciência compraria. Há também a falta abonada por possessão espiritual leve, o que por si só já deveria ser suficiente para desestimular qualquer um minimamente sensato. Nada disso se compara ao horário flexível do ministério ou ao salário que continua aumentando, então não é surpresa que a maioria escolha outro caminho. Os poucos entusiastas que ainda querem se tornar curandeiros acabam indo para o Egito, onde, ao que parece, o caos ao menos se apresenta de forma mais honesta.

Ainda assim, existem aqueles que se inscrevem. Encontrei a pequena lista deles no painel de avisos da sala de descanso, espremida entre comunicados antigos que ninguém mais se dá ao trabalho de ler. Conseguimos três este ano, o que já é mais do que no ano retrasado, quando ninguém se candidatou. Griselda Green-Banet, Joshua Smith e Theodoro Arthuro Beaumont Westwood II. Ao lado de cada nome, uma pequena foto em movimento, rostos jovens e animados, sorrindo com uma confiança que só existe antes do primeiro plantão real. Há algo quase curioso nisso, a forma como ainda não sabem o que os espera. Essa leveza não dura muito, em poucos dias o sorriso muda, em algumas semanas desaparece por completo, substituído por algo mais contido, mais funcional, alinhado ao restante do ambiente.

Pior do que ser enviada repetidamente para as piores alas durante o rodízio é ser designada responsável por um desses aprendizes. Uma presença constante, curiosa, fazendo perguntas no momento errado, exigindo atenção quando não há nenhuma disponível. Desde que terminei meu treinamento e fui reconhecida como curandeira, nunca tive o azar de ficar responsável por um deles, e isso é algo de que me orgulho. Já tenho trabalho o suficiente sendo deslocada de ala em ala todos os dias, ajustando-me a demandas diferentes, não preciso de alguém atrás de mim questionando enquanto eu apenas faço meu trabalho.

— Weasley. Aí está você! Te procurei na ala de envenenamentos mas não te encontrei.. — disse o senhor Buggys surgindo ao meu lado em um passe de mágica. — Bem.. não importa. Você está aqui!

— Bom dia senhor Buggys.

—Sim, sim, bom dia, um belo dia! — respondeu, já distraído, como se a formalidade fosse apenas um detalhe inconveniente no meio de algo mais importante. — Vejo que já encontrou a lista de aprendizes. Ótimo, ótimo, isso facilita bastante, eu estava mesmo querendo falar com você sobre isso…

Enquanto falava, começou a revirar as próprias vestes com pressa, puxando pergaminhos dobrados, soltando alguns, recolhendo outros, até finalmente encontrar o que procurava.

— Onde está… ah, aqui. Sim. Certo. — Estendeu a papelada na minha direção. — Sobre os aprendizes, o conselho decidiu que este ano você será uma guardiã.

Aceitei o pergaminho por reflexo, estendendo a mão para pegá-lo. O título, em letras grandes demais para ser ignorado, praticamente gritava: DEVERES DO GUARDIÃO.

— Senhor Buggys — comecei, mantendo o tom o mais neutro possível —, fico lisonjeada, mas não acredito ser a pessoa mais indicada. Ainda não tenho experiência suficiente para—

— Bobagem — cortou, rápido demais para que a objeção tivesse qualquer efeito. — A senhorita vai se sair muito bem. Sempre foi uma excelente curandeira. Exceto, talvez, por aquilo… — ele fez um gesto vago com a mão, descartando o próprio comentário no mesmo instante — mas isso não vem ao caso. Nos últimos dois anos, a senhorita tem cumprido sua função com excelência. Tenho certeza de que será perfeitamente capaz de transmitir isso à próxima geração.

Aquilo.

Claro.

Antes que eu pudesse insistir, ele continuou:

— Normalmente, cada guardião escolhe seu aprendiz, mas como eu não consegui encontrá-la a tempo, seus colegas já fizeram suas escolhas. — Ajustou as mangas, satisfeito consigo mesmo. — Você ficou com o Westwood.

— Senhor Buggys..

— Ele está com os outros, assistindo à palestra de boas-vindas, mas não deve demorar a aparecer. — Já começava a se afastar, como se o assunto estivesse encerrado desde antes de começar. — Ah, e tente não assustá-lo, sim?

Não respondi. Ele já havia atravessado a porta quando a última frase chegou até mim.

O silêncio que ficou depois pareceu mais pesado do que deveria.

Suspirei.

Maravilha.

Como se eu já não tivesse problemas suficientes, agora isso. Eu sabia que não conseguiria evitar essa função para sempre — ninguém consegue —, mas estava contando com um pouco mais de tempo, pelo menos mais um ou dois anos antes que ficasse inviável me manter fora disso.

Existem muitos motivos pelos quais eu não gostaria de ser uma guardiã, e ser reduzida a uma espécie de babá de um cabeça oca é só o mais óbvio deles. O maior de todos, e talvez o mais incômodo, é outro. Eu não quero assistir enquanto a fé imaculada deles é quebrada. Todos chegam aqui com essa ideia insistente, quase teimosa, de que, no final, é possível salvar todo mundo. Essa ideia não desaparece de uma vez, não é arrancada de forma dramática; ela vai cedendo aos poucos, desgastada por atrasos, por decisões que não fazem sentido, por casos que simplesmente não respondem. A luz da esperança vai se apagando devagar dos rostos, até que o que sobra é a mesma apatia funcional que se repete em quase todos os curandeiros. Trabalhar no St. Mungus exige muito mais do que habilidade. Em algum momento, é preciso deixar partes de si para trás para continuar funcionando.

Olhei novamente para o pergaminho em minhas mãos, como se o título pudesse ter mudado nesse intervalo.

Westwood.

Respirei fundo, dobrando o papel com mais força do que o necessário antes de guardá-lo. Não havia alternativa. Nunca há. O hospital decide, e nós nos ajustamos, sempre foi assim.


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Segui com o restante do turno sem maiores intercorrências, o que, dentro dos padrões do hospital, já era o suficiente para ser considerado um bom começo de dia. Fui realocada duas vezes antes do meio da manhã, passei por uma ala de envenenamentos leves, depois por acidentes com feitiços domésticos, nada que exigisse mais do que atenção e execução correta. Casos simples, respostas previsíveis, pacientes que melhoravam como deveriam melhorar. O tipo de sequência rara o bastante para não ser questionada. Trabalhei no ritmo habitual, sem interrupções, sem desvios, sem nada além do necessário.

Estava calmo até demais. Eu deveria ter imaginado que o universo provavelmente estava preparando alguma coisa realmente inconveniente para justificar um turno tão tranquilo, mas resolvi ignorar e aproveitar enquanto durasse.

Foi apenas próximo ao horário do almoço que isso mudou.

— Curandeira Weasley?!!

A voz estridente da outra ponta do corredor. Levantei a cabeça a tempo de ver um garoto magricela correndo na minha direção, vestido de verde da cabeça aos pés, segurando o chapéu cônico do hospital com uma mão e tentando não tropeçar nas próprias vestes com a outra.

— Theodoro Arthuro Beaumont Westwood II— disse ele, sem fôlego assim que me alcançou.— mas pode me chamar de Theo, é assim que todos me chamam, é mais fácil, eu sei que é longo, minha mãe insiste que nomes longos passam mais credibilidade, o que eu não sei se faz sentido, sinceramente, porque ninguém realmente usa tudo isso no dia a dia, e além disso, é uma homenagem ao meu tio-avô, que era um homem muito sério, o que..

— Theo..

— Eu fui designado para acompanhar você — continuou, passando por cima da tentativa de interrupção como se ela nunca tivesse existido — na verdade, eu ainda não entendi exatamente como funciona essa distribuição, porque disseram que a gente ia rodar por várias alas, mas também falaram de guardiões fixos, então talvez seja uma mistura dos dois, o que até faz sentido em termos de aprendizado, mas ao mesmo tempo parece um pouco complicado, embora eu possa estar enganado porque, sendo bem honesto, eu devo ter cochilado por um ou dois minutos durante a palestra de boas-vindas… ela era muito longa. Muito longa mesmo—

— Theo.

— Eu imagino que isso complique a logística — continuou, no mesmo fôlego — porque vocês já mudam bastante de ala normalmente, não é? Eu tentei te encontrar mais cedo, mas me disseram que você já tinha sido realocada duas vezes, o que parece meio ineficiente, mas talvez tenha um motivo que eu ainda não entendi, e, aliás, é muito difícil se localizar aqui, as escadas mudaram duas vezes enquanto eu vinha pra cá e em um momento eu quase fui fundido a uma parede quando parei pra pedir informação..

Parei de andar.

Ele levou meio segundo a mais para perceber e quase esbarrou em mim.

— Theo.

— Sim?

— Respira.

Ele realmente parou.

Inspirou fundo.

Segurou.

Soltou.

— Obrigado. Eu precisava mesmo disso. — disse, e o alívio durou exatamente um segundo. — Certo… desculpe, eu tenho essa tendência de falar rápido quando estou tentando organizar o pensamento, porque se eu não falo eu acabo me perdendo no meio do raciocínio, o que claramente não é o ideal aqui, eu sei, mas eu posso tentar diminuir um pouco o ritmo, se você achar melhor, ou pelo menos… organizar melhor o que eu digo antes de começar a falar… talvez isso ajude..

—Não.

Ele piscou.

— Não?

— Você não vai conseguir.

Houve um breve silêncio.

— …justo.

Voltei a andar. Ele veio atrás.

— Certo, então eu vou tentar pelo menos ser eficiente com o que eu falo — continuou, como se tivesse apenas mudado de estratégia — eu posso anotar também, eu trouxe vários pergaminhos justamente pra isso, porque imaginei que teria muita coisa pra observar, e eu li bastante antes de vir, mas na prática deve ser bem diferente, então se eu fizer alguma pergunta óbvia você pode ignorar ou corrigir direto, eu não me importo, na verdade eu prefiro, porque você é a experiente aqui—

Fechei os olhos por um instante enquanto caminhava.

—.. e eu vi que você passou pela ala de envenenamentos mais cedo, como foi? Disseram que teve um caso complicado esses dias, eu li no Profeta Diário algo sobre poções adulteradas, mas não sei até que ponto isso é confiável ou só exagero de corredor, porque me disseram que isso acontece bastante aqui, as pessoas aumentam as histórias, o que é meio comum em qualquer lugar, né? Mas já foi resolvido, não foi? Falaram hoje que pegaram o bruxo e que ele já está a caminho de Azkaban..

— Theo.

— Sim?

— Você vai observar.

— Certo.

Dois passos em silêncio.

— Mas observar inclui fazer perguntas ou..

Continuei andando.

—.. porque eu posso anotar e perguntar depois, talvez seja mais eficiente, embora eu ache que eu vou esquecer metade se não perguntar na hora, então talvez o ideal seja um equilíbrio, mas aí entra a questão de qual é o momento certo, o que—

Respirei fundo.

— Eu aviso.

— Certo.

Pausa.

— Perfeito.

Mais dois passos.

— Eu posso anotar agora? Quer dizer, eu já vou começar, só pra não esquecer… — tirou um pergaminho apressado — você estava indo almoçar? Porque eu estou começando a ficar com fome, e não teve nada na palestra, o que eu achei uma falha logística considerável, se eu soubesse tinha trazido alguma coisa de casa..

Continuei andando.

É.

Vai ser um longo dia.

Um som estranho, prolongado e absolutamente impossível de ignorar ecoou no silêncio breve do corredor. Continuei andando rapidamente. O som ecoou novamente, dessa vez mais alto.

Parei.

Ele também.

— Isso foi… — começou, olhando ao redor como se alguém pudesse confirmar.

Outro som, ainda mais alto.

Ele levou a mão ao estômago.

— Certo, então foi definitivamente isso — concluiu, sem qualquer constrangimento real. — Eu acho que estou com fome. Quer dizer, eu tenho certeza, na verdade, considerando que eu não comi nada desde cedo e como te contei não teve absolutamente nada na palestra de boas-vindas, o que, honestamente, me decepcionou bastante em relação as boas vindas..

Virei na direção oposta do corredor.

— Vamos.

— Almoçar? — ele perguntou animado, já me acompanhando. — Certo, ótimo, excelente ideia, eu já estava começando a considerar essa possibilidade, embora eu não soubesse exatamente onde ficava a salão das refeições, porque ninguém explicou isso com muita clareza—

— Você vai aprender.

— Sim, claro, faz sentido, mas talvez você pudesse desenhar depois? Só um esboço simples, nada muito detalhado, é que eu tenho uma tendência a me perder em lugares novos e eu realmente não gostaria de correr o risco de perder uma refeição por falta de orientação espacial adequada—

Não respondi.

Ele continuou falando.

Durante todo o caminho.

Apontava tudo o que via, como se cada detalhe fosse digno de registro.

— Isso aqui sempre esteve em reforma ou é recente? Porque parece recente, mas ao mesmo tempo tem uma aparência meio permanente de obra inacabada… — dizia, enquanto desviava de um carrinho. — E aquilo ali é… é um artefato trouxa? — a voz subiu levemente de tom, quase indignada. — Eles usam isso aqui dentro? Mas não seria mais fácil resolver com magia? Quer dizer, eu entendo o valor acadêmico de observar métodos não mágicos, mas isso parece—

A sala de descanso estava cheia o suficiente para justificar o barulho constante, mas não a ponto de ser caótica. Estávamos fazendo as refeições aqui até que o novo refeitório ficasse pronto, o que poderia ser dali a três dias ou três anos. Peguei o que estava disponível sem pensar muito no que era. Theo, por outro lado, analisou tudo como se estivesse diante de uma decisão crítica.

— Certo, então isso aqui é… isso é o quê exatamente? — perguntou, aproximando o prato do rosto como se pudesse identificar pelo cheiro. — Parece ensopado, mas também pode ser alguma variação de poção nutritiva, embora eu espere que não seja, considerando o contexto—

Ele comeu.

Rápido.

Sem pausa.

— Isso é bom — declarou, já na metade do prato. — Quer dizer, considerando que é comida de hospital, o que, honestamente, eu não sei o que significa em termos de padrão de qualidade, mas ainda assim é ótimo, em Hogwarts a comida também era muito boa, você ainda se lembra do gosto? Eu sinto falta particularmente das batatas..

Terminou.

Levantou.

Voltou com mais.

Repetiu o processo.

Quando finalmente desacelerou, já tinha passado por duas porções completas e estava servindo suco de abóbora pela terceira vez.

— Eu acho que subestimei o nível de desgaste físico desse lugar — comentou, bebendo como se estivesse compensando algo. — Faz sentido, claro, considerando a carga de trabalho, mas ainda assim—

Observei em silêncio.

Ele terminou quase uma jarra inteira sozinho.

— Certo — disse, limpando a boca com a manga de forma distraída. — Agora sim eu sinto que posso funcionar adequadamente.

Voltamos ao trabalho, com ele tagarelando ainda mais,agora que sua energia estava renovada.

De acordo com o pergaminho que havia recebido mais cedo, ser guardiã significava, na prática, abrir mão de qualquer noção de estabilidade. Não que eu tivesse muita antes, mas me roubou o pouco que eu tinha em saber ao menos em que ala eu passaria o dia. O aprendiz deveria passar por todas as alas, observar tudo, entender o funcionamento geral do hospital. Em tese, isso significava que mais de um curandeiro estaria envolvido nesse processo.

Em tese.

Na prática, meus colegas haviam sido notavelmente eficientes em evitar a responsabilidade.

O resultado era simples.

Passei o restante do dia me deslocando de uma ala para outra, carregando comigo uma sombra constante, enérgica e absolutamente incapaz de permanecer em silêncio por mais de alguns segundos. Theo me seguia de perto, anotando quando lembrava, perguntando quando não devia e comentando praticamente tudo o que via, como se cada detalhe fosse novo, relevante e digno de análise.

Quando atravessamos o terceiro andar, ele simplesmente parou. Demorei meio segundo para perceber que não estava mais ao meu lado e, quando voltei alguns passos, encontrei-o inclinado sobre o leito de uma bruxa, observando com atenção quase reverente o que restava do braço dela. Metade do membro estava tomada por um furúnculo verde, pulsante, com uma textura irregular que se expandia pela pele como se ainda estivesse em movimento. Segundo o prontuário, ela havia enfiado a mão dentro de um caldeirão fumegante para recuperar uma colher que havia deixado cair enquanto preparava uma poção.

— Isso… isso está vivo? — perguntou Theo, sem desviar o olhar, a voz carregada de uma mistura desconfortável de fascínio e curiosidade genuína. — Quer dizer, eu sei que não está exatamente vivo, mas parece… reagir. Isso é uma resposta mágica ou química? Ou as duas coisas?

Não respondi.

Ele continuou observando como se estivesse diante de um experimento raro, inclinando levemente a cabeça, analisando os detalhes, claramente esquecendo por um momento que aquilo era uma pessoa e não apenas um caso interessante.

— E ela sentiu isso acontecendo? Tipo, imediatamente? Ou foi gradual? Porque parece doloroso, mas ao mesmo tempo—

— Theo.

Ele piscou, como se tivesse sido puxado de volta.

— Sim?

— Anda.

Ele hesitou por um segundo, ainda olhando para o braço da bruxa, como se estivesse relutante em deixar aquilo para trás.

— Certo — disse, finalmente, se afastando — mas isso é muito interessante. Quer dizer, não para ela, obviamente, mas do ponto de vista—

Continuei andando antes que ele terminasse.

A salinha estreita ao lado da ala estava em plena atividade. Dois curandeiros trabalhavam com mandrágoras sobre a bancada, ambos com abafadores firmemente presos aos ouvidos, os movimentos rápidos e precisos enquanto lidavam com as raízes ainda parcialmente agitadas. O cheiro forte de terra e magia recém-manipulada se espalhava pelo espaço, indicando que estavam, muito provavelmente, tentando repor o estoque da poção restauradora que, como sempre, estava em falta.

Observei por um instante mais longo do que o necessário.

Um abafador resolveria metade dos meus problemas naquele momento.

Considerei pedir um.

Descartei a ideia logo em seguida.

Seria mais simples terminar o turno lidando com o barulho do que ter que explicar o motivo.

Subimos mais um lance de escadas — dessa vez sem surpresas — até o quarto andar. A placa indicava Danos Causados por Feitiços, e, mesmo antes de atravessar a porta, já dava para perceber a diferença. O ar ali parecia mais denso, como se a magia tivesse deixado resíduos que o tempo não conseguia dissipar completamente.

Aproximei-me da mesa central.

— Vamos ficar por aqui por meia hora — informei ao curandeiro responsável. — Ele precisa se familiarizar com a ala.

O homem ergueu os olhos, mirando meu crachá recém adquirido de guardiã, depois se virou para Theo que exibia um sorrisão cheio de dentes, e assentiu.

— Comecem pelos primeiros leitos. Casos leves.

— Certo.

— Fique perto — disse a Theo, já me movendo.

— Certo.

Os primeiros leitos eram… estáveis.

Um bruxo estava sentado com o cabelo crescendo e encolhendo em ciclos rápidos, passando de um corte rente a uma juba volumosa em questão de segundos. Ao lado dele, uma curandeira ajustava a ponta da varinha com precisão, murmurando um contra-feitiço enquanto o cabelo, por um instante, parecia estabilizar antes de voltar ao mesmo padrão.

Theo parou imediatamente maravilhado.

— Isso é… voluntário?

— Não.

— Ele tentou o quê? Um feitiço de estilo?

— Tentou.

— E conseguiu… todos ao mesmo tempo?

— Parcialmente.

Theo observou o cabelo crescer até cobrir os olhos do paciente e encolher de novo.

— Eu acho que isso pode ser útil em alguns contextos — comentou, sincero.

Continuei andando.

No leito seguinte, uma bruxa tentava segurar a própria língua, que insistia em se esticar para fora da boca a cada vez que ela respirava. Um curandeiro ao lado aplicava uma poção espessa enquanto recitava um encantamento corretivo.

— Isso é… — Theo inclinou a cabeça — perda de controle muscular?

— Azaração de fala.

— Ela falou alguma coisa que não devia?

— Provavelmente. Acontece muito com quem é tagarela. — respondi dando a ele um olhar de esguelha. Ele engoliu em seco dando uma última olhada na mulher.

Um pouco mais adiante, um jovem estava com as orelhas girando lentamente, como pequenas engrenagens desalinhadas.

— Isso afeta a audição? — Theo perguntou, já com o pergaminho em mãos.

— Sim.

— Ele escuta… em estéreo?

— Theo.

— Certo.

Conforme avançávamos, o tom mudava.

Os curandeiros falavam menos. Os movimentos eram mais contidos, mais cuidadosos. Os casos deixavam de ser apenas estranhos e começavam a exigir mais atenção.

Um homem estava deitado com os braços presos em uma posição rígida, como se ainda estivesse no meio de um duelo invisível. A varinha, caída ao lado, vibrava levemente, como se o feitiço ainda estivesse ativo em algum nível.

Theo não fez piada dessa vez.

— Ele… travou no feitiço?

— Sim.

— E não consegue sair?

— Não sozinho.

Ele assentiu, mais quieto, anotando com menos pressa.

Seguimos mais um pouco.

Os leitos ficaram mais espaçados.

O silêncio aumentou.

Uma mulher estava parcialmente desfocada, as bordas do corpo oscilando como se não estivessem totalmente fixas na realidade. Dois curandeiros trabalhavam ao lado dela, alternando encantamentos com precisão quase mecânica, tentando estabilizar o que quer que ainda fosse possível.

— Isso é… — Theo começou, mas parou antes de terminar.

— Instabilidade mágica.

Ele apenas assentiu.

Mais adiante, um paciente respirava com dificuldade, pequenas faíscas escapando do peito a cada exalação, queimando o tecido da própria roupa em pontos irregulares. Um curandeiro aplicava uma poção diretamente na pele, enquanto outro mantinha um feitiço de contenção ativo.

Theo observou por mais tempo.

— Isso… piora?

— Sim.

— E melhora?

— Às vezes.

Ele não anotou dessa vez.

Continuamos avançando pela ala em um ritmo constante, com Theo ao meu lado, inclinando-se levemente a cada leito que passávamos para cochichar observações, perguntas ou conclusões que ele mesmo ainda estava formulando. A voz vinha sempre baixa, como se estivesse tentando respeitar o ambiente, mas a frequência compensava qualquer esforço de discrição. Ele comentava padrões, arriscava diagnósticos, questionava decisões que não entendia e, quando eu respondia, imediatamente construía mais duas perguntas em cima da resposta. Em algum ponto, percebi que continuar arrastando ele ao meu lado seria menos produtivo do que simplesmente deixá-lo observar por conta própria.

Parei.

— Você tem dez minutos — disse, sem olhar diretamente para ele. — Anda sozinho, observa o que quiser e depois volta com dúvidas objetivas.

Ele levou meio segundo para processar.

— Sério? — exclamou animado, e notando que falou alto soltou um sussurro exagerado — Sério?

— Sim.

— Eu posso ir em qualquer leito?

— Desde que não toque em nada.

— Certo.

— E não fale com os pacientes.

Ele acenou fazendo um sinal positivo com os dedos apontados para cima.

E foi.

Sem hesitar, sem olhar para trás, já diminuindo o passo em frente ao primeiro paciente que chamou sua atenção, o pergaminho sendo puxado às pressas enquanto ele murmurava alguma coisa para si mesmo. A animação era evidente, quase deslocada naquele ambiente.

O silêncio que ficou depois foi imediato.

Segui andando sem pressa, aproveitando a ausência de perguntas constantes, permitindo que minha cabeça vagasse. Com um aceno de varinha ajustei um lençol que havia escapado do colchão, alinhei um travesseiro mal posicionado, recolhi um copo de poção vazio deixado na beirada de uma mesa. Força do hábito. O tipo de tarefa que preenchia os espaços entre o que realmente importava.

Distraída nesses ajustes quase mecânicos, avancei até o final da ala sem perceber.

Parei por um segundo.

Então notei, em um canto mais afastado.

Lá estava ele.

Não tive tempo de pensar sobre ele nos últimos dias, mas ainda assim... lá estava.

O corpo parcialmente erguido, postura rígida demais para alguém ainda em recuperação, pergaminhos espalhados na cama, a pena se movendo devagar em movimentos calculados, como se cada gesto precisasse ser negociado antes de acontecer.

— Então é verdade.

A voz surgiu ao meu lado, baixa, mas próxima demais.

Virei o rosto.

Theo estava ali, inclinado levemente na mesma direção que eu, como se tivesse surgido do nada, os olhos fixos no leito com uma intensidade nova, diferente da curiosidade dispersa de antes.

— Eu ouvi três versões diferentes dessa história hoje.. — começou, no mesmo sussurro rápido de sempre — e nenhuma delas parecia completamente confiável, mas agora que eu estou vendo… acho que todas estavam erradas. Ou talvez só incompletas..

Não respondi.

— Disseram que ele estava em uma missão sozinho — continuou — o que já é estranho, porque auror geralmente não trabalha completamente sozinho, certo?

— É.

— E que ele entrou em algum tipo de confronto direto — ele fez um pequeno gesto com a mão, como se organizasse a cena no ar — não um duelo simples, mas algo maior. Mais de um oponente, talvez. Ou… — hesitou, claramente empolgado com a própria hipótese — uma emboscada.

— Talvez.

— E que ele conseguiu sair mesmo assim — Theo prosseguiu, ignorando o tom neutro — o que, considerando o estado em que ele chegou, é… absurdo. Quer dizer, ele não só saiu, ele conseguiu chegar até uma lareira funcional. Isso exige consciência, coordenação, magia suficiente para ativar o deslocamento—

— Ele não estava completamente consciente.

Theo travou por meio segundo.

— Não?

— Não.

— Certo… Então alguém veio com ele pela lareira?

— Não.

— Então como—

— Apareceu direto.

Ele franziu a testa, reorganizando tudo.

— Certo, então… — passou a mão no cabelo rapidamente — ele deve ter ativado algum tipo de magia residual antes de perder a consciência. Algo automático. Treinamento avançado, talvez.

Não corrigi.

Ele tomou isso como confirmação.

— Isso faz sentido — continuou, mais animado de novo. — Porque auror precisa ter esse tipo de preparo, né? Tipo um último recurso. Um feitiço condicionado ou algo assim.

— Não é um feitiço.

— Não?

— Não.

— Então é o quê?

— Instinto.

Ele ficou em silêncio por um segundo.

— Isso é pior — concluiu.

Não respondi.

Ele olhou de novo para o leito, agora com uma atenção diferente.

— Ouvi que ele ainda está aqui por instabilidade mágica — continuou, mais baixo — como se os feitiços ainda estivessem… ativos. Isso é possível depois de uma batalha?

— É.

— Então não foi um ataque comum.. Você acha que ele está mal? Porque se fosse só físico, ou mais simples, ele já teria tido alta. Mas está aqui. Só que acordado e escrevendo um… relatório? Talvez. — Ele inclinou um pouco mais o corpo, analisando. — Mas então… ele está melhor do que parece ou pior?

— Os dois.

Theo soltou um pequeno sopro de ar, quase um riso sem humor.

— Isso não ajuda muito.

Pausa.

— Também disseram que ele recusou ajuda no começo — acrescentou, como se lembrasse de algo — que estava tentando continuar falando mesmo naquele estado, tentando relatar alguma coisa importante. Isso é verdade?

— Não.

— Não?

— Ele não disse nada.

Theo piscou.

— Nada?

— Nada.

— Então ninguém sabe o que aconteceu.

— Não.

Ele olhou mais uma vez para o leito.

Dessa vez, sem nenhuma empolgação.

— Eu posso perguntar pra ele? — arriscou, já sabendo a resposta.

— Não.

— Nem uma coisa só?

— Não.

Ele assentiu, resignado.

Mas ainda olhou mais uma vez.

— Sabe — murmurou —, se metade das coisas que disseram fosse verdade, já seria impressionante.

Fez uma pausa.

— Mas do jeito que ele está ali… — balançou levemente a cabeça — parece que a história é maior do que qualquer uma delas.

Continuei em silêncio.

— E você estava lá, né.. — completou, virando levemente o rosto na minha direção. — Quando ele chegou..

— Sim.

Ele sustentou o olhar por um segundo.

Depois voltou para o leito.

— A história deve ser bem pior do que estão comentando. Isso explica por que você não quer falar sobre isso e não me deixa perguntar.

— Tem coisas que é melhor não saber.

— Certo.

Dessa vez, ele não insistiu.

Mas também não deixou de olhar.

— Espero que ele melhore o suficiente para contar o que aconteceu. — murmurou olhando por cima do ombro quando nos afastamos. Podemos voltar depois pra conferir se ele melhorou, né?

Não voltamos.