Letum Proditoris

4 O auror ensanguentado



Depois de um mês inteiro no hospital, eu já esperava que a animação inexplicavelmente persistente de Theo tivesse sido devidamente esmagada pelo que o St. Mungus faz de melhor: transformar pessoas funcionais em versões levemente mais eficientes e emocionalmente reduzidas de si mesmas.

Você chega com energia, com propósito, com alguma ideia perigosamente romantizada do que significa ser curandeiro… e então o hospital faz o resto. Horários impossíveis, pacientes demais, respostas de menos, decisões que nunca parecem suficientes. Não acontece de forma abrupta, mas gradual, quase administrativa. Pequenos cortes aqui, pequenas concessões ali, até que você aprenda a operar sem desperdiçar energia com o que não pode ser resolvido.

Eu aprendi.

Não houve decisão formal, nem momento simbólico. Ninguém acorda e resolve, com clareza admirável, que vai se tornar emocionalmente indisponível. É um processo mais… sucessivo do que dramático. Você encurta conversas, evita envolvimentos desnecessários, cumpre o que precisa ser feito e passa para o próximo caso antes que o anterior tenha tempo de se instalar.

É eficiente. E, mais importante, permite que você volte no dia seguinte sem questionar demais suas escolhas de vida.

Theo, por outro lado, claramente não recebeu esse memorando.

— Ah… alô, Rosie, como vai?

E aqui está ele.

Vestes verde-esmeralda, o chapéu ligeiramente torto, avançando pelo corredor sorridente com a segurança deslocada de quem facilmente poderia estar a caminho de um chá com o Ministro da magia e não de mais um turno em um hospital em estado de colapso funcional. E, como se isso não fosse suficiente por si só, saltitando. Literalmente saltando. Como uma lebre do bosque.

Radiante. Exatamente como no primeiro dia.

Talvez pior.

Mesmo com todas as tentativas do St Mungus, que considerando o histórico de pacientes do último mês vinha tentando com um nível de empenho quase admirável, Theo permanecia, irritantemente, inalterado. Ainda magricela, ainda tagarela, ainda operando sob a convicção intacta de que o mundo é um lugar bom e que a magia pode curar qualquer coisa e qualquer um. Como se todo o caos do hospital não fosse capaz nem mesmo de arrancar uma lasca do escudo que o protegia contra tudo que ousasse atentar contra sua boa fé e otimismo.

Havia, pelo menos, progresso técnico. A voz dele agora vinha em um volume aceitável. Depois de dias sendo silenciado com olhares atravessados e uma quantidade impressionante de “shhh” agressivos, ele finalmente tinha aprendido a não anunciar a própria existência como um berrador humano.

Ainda assim, a energia continuava ali.

Intacta. Mal contida. Vibrando sob a superfície como se estivesse constantemente a um comentário de escapar. Cada novo turno caótico parecia ser na visão dele uma oportunidade e não um aviso bastante claro.

O normal seria que aquilo já tivesse passado.

As últimas semanas têm sido suficientes para quebrar gente muito mais resistente. Turnos dobrados, alas superlotadas, pacientes piorando na sua frente enquanto você fazia exatamente o que deveria fazer. O tipo de rotina que não apenas desgasta, corrige expectativas.

Mas não Theo.

Com ele, o efeito parecia inverso.

Quanto mais absurdo o cenário, mais funcional ele se tornava. Como se o caos, de alguma forma questionável, alimentasse aquele entusiasmo em vez de drená-lo.

A sede dele por mais parecia não ter um limite funcional, e a curiosidade vinha sempre junto, ativa o tempo todo, como se estivesse constantemente à procura de algo novo para se fixar. Não era dispersa nem superficial — do tipo que passa rápido e não deixa efeito. Era direcionada, insistente, com uma tendência bem definida de se prender a pontos específicos com uma intensidade que, em qualquer outro contexto, seria considerada levemente obsessiva.

Especialmente quando o assunto envolvia algo fora do padrão.

Casos incomuns.

Incidentes que não se encaixavam perfeitamente nas categorias já estabelecidas.

Theo não apenas se interessava por eles — ele se agarrava.

Anotava tudo, cruzava informações, construía teorias com base em evidências questionáveis e uma confiança considerável na própria linha de raciocínio. Parte disso era útil. Parte… nem tanto.

Ainda assim, funcionava.

Os relatórios dele eram impecáveis e, de forma um tanto questionável, intermináveis. Extensos, detalhados e organizados com uma precisão quase milimétrica, como se cada linha precisasse justificar a própria existência antes de ser escrita.

O pergaminho que ele carregava era encantado para não ter fim — o que, considerando o volume de anotações, deixava de ser um recurso e passava a ser uma necessidade estrutural. A pena, auto escrevente, acompanhava o fluxo de pensamentos dele com uma fidelidade quase preocupante, registrando cada observação como se todas tivessem o mesmo nível de importância.

Para Theo, aparentemente tinham.

Os pacientes iam e vinham e, com eles, as soluções dos casos que deixavam Theo em um nível de entusiasmo que se estendia por dias, até inevitavelmente se esgotar e dar lugar à busca pelo próximo “caso especial”. Nas últimas semanas, porém, havia um ponto específico para onde tudo acabava voltando.

O auror.

O auror ensanguentado, como ele insistia em chamar, com uma falta de sutileza que, por economia de energia, eu nunca me dei ao trabalho de corrigir.

Fazia um mês.

Um mês desde que ele apareceu na minha sala, atravessando a lareira com sangue suficiente para tornar desnecessária qualquer explicação adicional, perguntando — com uma dificuldade que eu ainda consigo lembrar com precisão irritante — se estava no lugar certo.

E então caindo.

Simples assim.

O tipo de cena que, em condições normais, se transformaria em história em questão de horas. Talvez minutos. Com detalhes distorcidos, versões conflitantes, teorias surgindo de todos os lados — o funcionamento padrão do hospital.

Mas não houve nada disso.

Nenhuma circulação real de informação.

Nenhuma tentativa coletiva de reconstruir o que aconteceu.

Só fragmentos.

E mesmo esses vinham com esforço.

Theo tentou. Inúmeras vezes. Conversas casuais que não eram casuais, perguntas feitas com cuidado variável, aproximações estratégicas de qualquer pessoa que pudesse, em teoria, saber alguma coisa. Se esgueirando por corredores a procura de qualquer informação relevante.

O resultado foi… mínimo.

Após semanas de curiosidade mórbida, uma bruxa responsável pela limpeza da ala quatro contou a ele que o departamento de aurores estava impaciente.

Só isso.

Nenhum detalhe clínico relevante. Nenhuma explicação. Nenhuma fofoca o que, por si só, já era um sinal de alerta.

Pelo menos três vezes por dia Theo voltava ao assunto, dissecando com precisão cada mísera informação que tinha conseguido reunir. Até onde era possível dizer, ele sabia que se tratava de um auror, que estava ferido e que o Ministério estava impaciente com a recuperação.

Objetivamente pouco.

Insuficiente, para qualquer pessoa minimamente razoável.

Ainda assim, isso nunca pareceu um impedimento real para ele, que encontrava maneiras bastante criativas de preencher as lacunas com teorias cada vez mais elaboradas. Nenhuma particularmente fundamentada. A minha favorita continuava sendo a de que o auror pudesse ser algum tipo de variação incomum de vampiro, uma nova espécie, aparentemente, e que os curandeiros estavam chocados demais para resolver o problema.

O maior empecilho para sanar a curiosidade de Theo era o rodízio de alas.

Por um mês inteiro, não passamos nem perto da ala quatro. O que, mesmo considerando o tamanho do hospital e a frequência com que somos redistribuídos, parecia improvável.

Theo, naturalmente, tinha teorias sobre isso.

Várias.

Algumas envolvendo sigilo institucional, outras sugerindo erros graves sendo cuidadosamente encobertos, e pelo menos uma — que ele defendeu com convicção suficiente — de que a ala quatro estaria sob algum tipo de contenção mágica temporária porque o auror, em circunstâncias específicas, poderia involuntariamente transformar objetos ao redor em versões levemente conscientes de si mesmos, o que, segundo ele, explicaria tanto o isolamento quanto a ausência de informações concretas.

Eu não perguntei de onde ele tirou isso.

Pareceu mais prudente não incentivar.

Mas ouvi.

O suficiente para saber que ele não ia deixar o assunto morrer sozinho.

— Ala dois hoje, Theo — anunciei, ajustando a prancheta contra o peito, e ele respondeu com uma continência entusiasmada antes de se alinhar ao meu lado.

Seguimos pelo corredor em direção ao início do turno, com Theo me prestigiando com duas novas teorias sobre o real estado do auror, o pergaminho se desenrolava sem cerimônia e a pena registrava tudo com dedicação incansável.


O caminho até a ala dois foi, por falta de palavras melhores, árduo. Deveríamos ter feito em dez minutos. Levamos quase meia hora. As obras tinham, naquela manhã, simplesmente apagado a escada que ligava a ala três à ala dois, o que, segundo alguém visivelmente despreparado para explicar, era “temporário”.

O resultado foi um congestionamento caótico de curandeiros e pacientes, incluindo um homem parcialmente preso na parede aguardando com uma calma questionável que alguém resolvesse. Um berrador se abriu no meio do corredor anunciando rotas alternativas que levavam, invariavelmente, ao mesmo lugar, enquanto as placas de direção giravam sozinhas, ajustando setas com uma confiança completamente infundada.

Eventualmente — e por “eventualmente” quero dizer depois de uma quantidade desnecessária de espera — alguém apareceu para resolver a situação. Houve um breve ajuste mágico, um estalo seco, e a escada simplesmente… voltou. Como se nunca tivesse deixado de existir.

Depois desse pequeno incidente — resolvido com a eficiência questionável que o St. Mungus costuma considerar satisfatória — conseguimos, enfim, chegar à ala dois para o início do turno.

O restante se organizou naquele padrão previsível do hospital: pacientes demais, tempo de menos e uma sequência contínua de problemas que, de alguma forma, iam sendo resolvidos sem que eu precisasse pensar muito sobre eles.

O turno passou. Rápido o suficiente para que os detalhes começassem a se sobrepor, lento o bastante para que cada caso deixasse algum tipo de registro residual — não necessariamente importante, mas presente.

Um caso leve de Doença do Desaparecimento que fazia o braço do paciente sumir em intervalos inconvenientes, reaparecendo alguns centímetros fora do lugar original.

Uma manifestação inicial de escrofúnculos, contida antes que resolvesse se multiplicar com mais entusiasmo do que o aceitável.

E uma bruxa convencida de que estava perfeitamente bem, apesar de estar, de forma bastante objetiva, parcialmente translúcida.

Theo anotou tudo.

Naturalmente. Com comentários adicionais.

No fim do turno, nos encontramos na sala de descanso improvisada — um espaço que, em algum momento, deve ter tido outra função mais definida, mas que agora servia bem o suficiente para permitir que curandeiros sentassem por alguns minutos e fingissem que aquilo contava como pausa.

Ele já estava terminando uma anotação particularmente longa quando alguém chamou meu nome.

Levantei o olhar.

O curandeiro parou na entrada, visivelmente cansado, o que não o diferenciava de ninguém ali dentro.

— Weasley, vou precisar que você cubra o turno da noite — disse, direto. — O Edgar Whitby não vem. A avó faleceu.

Assenti.

Ele saiu antes mesmo de qualquer resposta adicional. Ao meu lado, Theo já estava de pé. Em dois passos já ao meu lado. O nariz quase encostando no quadro de avisos enquanto conferia. De onde estava pude ver meu nome brilhar em vermelho magicamente, indicando que o quadro já tinha se atualizado sobre o plantão noturno. Theo também tinha avistado. Soltou uma exclamação ruidosa e se virou para mim com uma expressão de triunfo um tanto quanto maníaca.

— O que foi? — perguntei já me arrependendo imediatamente.

Ele se aproximou ainda com a expressão esquisita.

— Ala quatro. — proclamou, a voz subindo duas oitavas.

Ele parecia uma versão humanoide de uma garrafa de champagne prestes a explodir. Aguardei pacientemente enquanto ele se recuperava da grande novidade, em seu rosto a empolgação quase transbordava.

Theo abriu um sorriso que eu reconheci imediatamente.

Problema.

— Essa é a sua chance! — ele começou, já rápido demais. — Quer dizer, tecnicamente é a nossa chance, porque você vai estar lá e eu, por extensão intelectual e emocional, também vou estar envolvido, o que, se formos considerar de forma objetiva, me coloca em uma posição extremamente privilegiada dentro dessa situação— Ele mal respirou. — O auror ensanguentado! Ah, Rose! Por uma noite inteira. Inteirinha. Você pode acreditar na sorte que tivemos? Todas as informações que estarão disponíveis para nós! Puxa, é quase um sonho pra mim. Eu tenho pensado tanto sobre isso! Ontem, e também anteontem, e antes ainda.. — ele se aproximou enquanto falava completamente imerso em seu deleite. — E isso acaba aqui! Você vai estar lá, com tempo e a fonte da informação disponível para você! Finalmente vamos conseguir observar padrões reais, não só especular com base em fragmentos absurdamente limitados de informação.. — Outro fôlego curto, já emendando novamente. — Porque, convenhamos, Rose, trabalhar com o que temos até agora tem sido… desafiador. Eu fiz o possível, claramente, mas existem limites metodológicos quando todas as fontes de informação parecem comprometidas ou deliberadamente evasivas — Ele passou a mão pelo cabelo, já sorrindo de novo, quase maravilhado com a própria linha de raciocínio. — Mas isso muda agora. Isso muda completamente. Você vai estar lá dentro, vai poder observar tudo diretamente, sem intermediários, o que, sinceramente, é o cenário ideal e..

E então, ele parou.

Não por falta de assunto, seria impossível nessas condições que ele se calasse.

Olhou para o próprio pergaminho, ainda parcialmente desenrolado, como se estivesse avaliando algo importante. Então, com uma solenidade inesperada, segurou a pena entre os dedos, hesitou por meio segundo e estendeu tudo na minha direção.

Um rei confiando sua coroa a um súdito leal.

— Anota — disse, sério de repente. — Tudo.

O olhar dele ficou fixo no meu, carregado de uma expectativa quase absurda, como se aquele gesto formalizasse algum tipo de acordo implícito entre nós.

— Qualquer detalhe. Padrões, comportamento, respostas a estímulos, inconsistências clínicas… qualquer coisa que pareça fora do esperado — ele continuou, mais contido agora, mas não menos intenso. — Mesmo que não faça sentido no momento. Especialmente se não fizer.

A pena se mexeu levemente entre meus dedos, como se estivesse pronta para começar antes mesmo de eu concordar.

Theo me encarava com uma expressão seria os olhos levemente arregalados. Indicando sua histeria em relação àquele assunto.

Fiz o que se faz quando se está cercada por pessoas assim.

Sorri.

E acenei.

Pareceu a resposta adequada. A expressão dele se ajustou quase imediatamente, suavizando de algo levemente preocupante para o entusiasmo habitual, aquele mais funcional, socialmente aceitável. Ele sorriu, satisfeito, como se tudo tivesse voltado ao curso esperado.

Parte de mim classificava aquilo como uma grande perda de tempo — e, sendo precisa, a única razão pela qual aceitei a pena e o pergaminho foi a perspectiva de preservar a sanidade do Theo e, com sorte, garantir que ele eventualmente voltasse a dormir. Embora, considerando o nível atual de entusiasmo, fosse igualmente plausível que passasse a noite inteira acordado, reorganizando teorias.

Ainda assim, havia outro ponto. Menos conveniente, e justamente por isso mais difícil de ignorar. Um mês inteiro, e o caso permanecia essencialmente estático. Nenhuma recuperação clara, nenhuma informação circulando de forma minimamente consistente, nenhum padrão que pudesse ser acompanhado com segurança. Não era exatamente um mistério, o hospital não funcionava com esse tipo de dramatização, mas isso estava se tornando muito anormal.

Expirei devagar, ajustando o pergaminho nas mãos mais por hábito do que por necessidade. Não era interesse. Não da forma como o Theo parecia entender. Era algo mais simples. Mais técnico. Inconsistência. E, considerando o lugar em que trabalhávamos, onde o caos era rotina e mesmo assim ainda seguia certas regras implícitas, ignorar uma inconsistência desse tipo parecia, no mínimo, pouco profissional.

Observar não era investigar.

E, dentro dos limites razoáveis, dificilmente poderia ser considerado um problema.


Precisei cobrir a ala dois por algum tempo antes de seguir para a ala a qual fui destinada. Ao que parece Edgar Whitby não era o único desfalque da noite. Quando cheguei à ala quatro, o hospital já tinha entrado naquele estado peculiar em que tudo parece mais lento sem realmente estar mais calmo.

O St. Mungus não tem exatamente a capacidade de ser silencioso — o máximo que ele alcança é uma versão mais contida do próprio caos, como se decidisse, por algumas horas, não chamar tanta atenção para o fato de que funciona quase inteiramente à base de improviso.

Os pacientes já tinham jantado, a maioria dormia, e o turno da noite assumia aquela função menos visível e, ainda assim, indispensável de manter tudo… estável. Ou, pelo menos, estável o suficiente para que ninguém precise correr de um lado para o outro com urgência desnecessária.

Comecei pelo básico, porque é isso que se faz quando não se quer pensar demais. Conferi leitos, revisei prontuários, ajustei encantamentos simples que já deveriam estar funcionando sozinhos a essa altura. Era o tipo de trabalho que exige constância e uma quantidade muito específica de atenção — suficiente para não cometer erros, insuficiente para permitir que a mente vagueie para lugares inconvenientes.

O problema é que, naquela noite, a minha mente claramente não recebeu esse tipo de instrução.

A ala não era grande o bastante para permitir distrações prolongadas sem que se tornassem… deliberadas. E o fato de eu saber exatamente onde ele estava — no canto mais afastado, última maca à direita — não ajudava em nada a manter a ilusão de que aquilo não era relevante.

Não era relevante.

Era um paciente.

Só isso.

Continuei andando, ajustando um encantamento aqui, verificando outro ali, repetindo mentalmente uma lógica que, em teoria, deveria ser suficiente para manter o foco onde ele precisava estar. Era só trabalho. Rotina. Nada fora do comum. Se Theo não tivesse passado o último mês inteiro tratando aquilo como um enigma pessoal, provavelmente eu nem estaria pensando no assunto.

O que, por si só, já era um indicativo preocupante.

Porque, em algum ponto entre ouvir teorias demais e conviver com entusiasmo em excesso, a ideia tinha deixado de ser exclusivamente dele. E isso era… inconveniente.

Porque admitir que estava interessada — ainda que mínimo, ainda que puramente técnico — implicava aceitar que eu estava começando a desviar atenção de onde ela deveria estar. O que, considerando o ambiente, não era exatamente uma escolha inteligente.

Respirei fundo, desviando o olhar antes que aquela linha de pensamento ganhasse mais espaço do que o necessário.

Isso era trabalho.

E eu claramente estava começando a ficar um pouco… deslocada.

Parei por um segundo ao lado de um dos leitos, observando o paciente dormir sob efeito de uma poção bem administrada, com a respiração estável e a expressão relaxada do tipo que só aparece quando o corpo finalmente decide cooperar com o próprio processo de recuperação. Aquilo, sim, era o padrão. Era isso que deveria estar acontecendo em todos os leitos daquela ala, sem exceção.

Casos resolvidos com eficiência, respostas claras, progresso mensurável. Não hipóteses mal construídas, não teorias sobre aurores que ninguém parecia disposto a explicar.

Só trabalho.

O tipo de coisa com que a minha mente deveria estar ocupada.

E, ainda assim..

Suspirei, mais irritada comigo mesma do que com qualquer outra coisa, ajustando a prancheta conta o peito com um pouco mais de força do que o necessário.

Era ridículo.

Objetivamente ridículo.

Curiosidade emprestada, mal direcionada e claramente influenciada por alguém que considerava perfeitamente razoável sugerir que um auror poderia, em circunstâncias específicas, ser uma variação inédita de vampiro.

Theo era, sem dúvida, uma péssima influência.

Considerei, por um breve momento, soluções proporcionais ao problema. Falar com o diretor pela manhã e solicitar a troca de estagiário por motivos técnicos. Ou algo mais definitivo — pedir demissão, esvaziar meu cofre em Gringotes e embarcar no Nôitibus para qualquer lugar suficientemente distante para que tolices desse tipo deixassem de invadir minha mente.

Albânia não seria nada mal. Uma vida mais simples. Menos teorias, menos estagiários entusiasmados, menos aurores misteriosos surgindo no meio do turno.

Talvez eu fosse feliz em minha nova vida.

Respirei fundo.

Definitivamente não era um raciocínio promissor.

Resolvi, então, fazer o que qualquer pessoa minimamente funcional faria naquela situação: eliminei a variável.

Passei por todos os leitos restantes sem exceção. Revisei cada detalhe que poderia ser revisado, corrigi o que precisava ser corrigido e, deliberadamente, prolonguei tarefas que normalmente levariam metade do tempo. Se houvesse qualquer coisa naquela ala que pudesse justificar minha atenção, eu garantiria que ela fosse resolvida antes de sequer considerar a possibilidade de olhar para o final da ala.

Funcionou.

Por um tempo.

Quando terminei, não restava mais nada.

Nenhuma distração útil.

Nenhuma tarefa pendente.

Nenhuma justificativa razoável.

Fiquei parada por um instante, observando o corredor à minha frente com uma calma que, se analisada com mais cuidado, provavelmente se revelaria mais performática do que real.

Certo.

Se era para fazer aquilo, faria direito.

Enfrentar o hipogrifo na sala.

Comecei a andar parecendo muito mais confiante do que realmente me sinto. Isso tudo é loucura. Eu nem sei o porquê de estar tão nervosa. É só mais um leito. Mais um paciente. Independente do que Theo acha, do quanto ele insiste em tratar isso como um caso excepcional, meu papel aqui é simples e bem definido: avaliar, tratar e seguir para o próximo.

Nada além disso.

Eu dou conta.

Assim que me aproximei da maca senti o peso de todas as expectativas frustradas despencaram de uma vez. Eu imaginei um milhão de cenários para o que encontraria ali e ainda assim fui surpreendida.

A primeira palavra que me ocorreu foi desordem.

Desordem.

Por toda parte.

Não o tipo caótico e distribuído que já se tornou padrão no hospital, mas algo mais específico, mais negligente.

A bandeja ao lado da cama ainda estava lá, com o jantar intocado, esquecido ali a pelo menos umas quatro horas desde que foi servida a refeição. Frascos de poção vazios estavam jogados sobre a mesinha ao lado, reconheci pelo rótulo o que restava de uma poção do sono, completamente inutilizada. Do outro lado de sua cama uma dúzia de pergaminhos e tinta se misturavam, jogados no canto de qualquer jeito.

A bagunça ao redor não era nada se comparada ao desleixo nos cuidados com o paciente. Mesmo sem estar tão próxima dele, eu podia ver os sinais visíveis de descaso. Os lábios rachados e sem cor, enquanto o copo com a jarra vazia pairavam na mesinha zombando de sua sede. Os ferimentos em seu rosto mal cicatrizados. Senti meu sangue ferver ao notar a bandagem em seu tronco, uma grande mancha de sangue vivido se espalhava sem cerimônia, aquilo definitivamente não tinha sido trocado no tempo adequado. E, apesar da corrente de ar constante que atravessava a ala, ele estava descoberto. A expressão presa em algum ponto entre desconforto e exaustão, como se nem o próprio corpo tivesse decidido o que fazer com aquilo.

Foi demais para mim.

Fechei os olhos contando até dez.

Engoli em seco, forçando a irritação a se acomodar em algum lugar mais discreto. Não era exatamente o momento ideal para confrontos, ainda que vários fossem merecidos.

Puxei o prontuário, apoiado na beirada da cama, passando os olhos pelas anotações. O desleixo se repetia ali com uma consistência impressionante. Nenhuma assinatura no último turno. Informações superficiais, reduzidas a frases curtas que cumpriam o protocolo sem realmente comunicar nada. O tipo de registro que existe apenas para justificar a própria existência. Fechei o prontuário com um pouco mais de força do que o necessário.

Eu realmente gostaria de gritar agora.

Um ruído baixo, quase imperceptível, mas suficiente para puxar minha atenção de volta. Me voltei para a maca atenta aos movimentos. A expressão em seu rosto estava tensa, a respiração irregular e ele já começava a se debater.

Pesadelo.

Ótimo.

Virei automaticamente para a mesa lateral, já procurando a poção de sono, um gesto tão automático quanto respirar, e encontrei o frasco vazio me encarando de volta com uma certa insolência.

A irritação voltou mais forte do que antes.

Sono adequado NÃO era um detalhe.

Era básico.

Com um aceno raivoso de varinha conjurei uma nova dose da poção no copo vazio. Aproximei-me, apoiando a mão sob a cabeça dele e erguendo o suficiente para que pudesse engolir. Ele bebeu tudo sem resistência e quase imediatamente sua expressão se suavizou e a respiração desacelerou, tornando-se mais profunda.

Observei o rosto dele por um instante, registrando a mudança com um alívio discreto. O pequeno monstro irritado que vinha se instalando na minha consciência desde o momento em que me aproximei pareceu, ao menos temporariamente, satisfeito.

Comecei a organizar o espaço ao redor, substituindo frascos, removendo o que não deveria estar ali, reposicionando o necessário com movimentos automáticos. Conjurei uma jarra de suco de abóbora, deixei algumas torradas ao lado para o caso dele acordar no meio da noite.

Encantei o corpo dele para que levitasse alguns centímetros acima da cama, firme o suficiente para não interromper o descanso recém-induzido enquanto eu lidava com o restante.

Os lençóis estavam como todo o resto, esquecidos, desalinhados, com marcas de sangue seco. Era ultrajante. Ninguém merecia ser tratado assim.

Puxei o tecido com mais precisão do que gentileza, substituindo tudo com movimentos rápidos e acenos de varinha. O tipo de eficiência que surge quando a irritação encontra um propósito produtivo.

Eu tinha vindo até ali para dar uma olhada. Rápido. Objetivo.

Mas o estado em que o encontrei, ir embora simplesmente não era uma opção. Inclinei levemente a cabeça, mais para mim mesma do que por necessidade real.

Que tipo de curandeira eu seria se visse aquilo e decidisse ignorar?

A resposta era simples.

Uma ruim.

O pensamento seguinte veio com menos generosidade.

E que tipo de curandeiros estavam permitindo que aquilo chegasse a esse ponto?

Aproveitei que ele ainda levitava para trocar sua bandagem. Acenei com a varinha para que se desenrolasse de seu tronco e já estava murmurando um feitiço de cicatrização simples quando notei o real estado daquilo. A ferida continuava aberta como quando no dia em que ele chegou a minha sala. Vermelha, em carne viva pulsante, como se não tivesse passado nem mesmo um dia desde que foi atacado. Aquilo não estava certo. Passei a varinha, executando um feitiço simples de contenção.

Nada.

Ajustei um pouco confusa.

Tentei novamente.

Nada.

Franzi a testa, lançando um olhar pouco amistoso para a minha própria varinha. Que excelente momento para apresentar falhas de caráter.

Deixei-a de lado com um nível de desaprovação que, infelizmente, não teria efeito algum, e arregacei as mangas do uniforme. Antes de vir para o St. Mungus, passei seis meses em uma imersão no Egito — o suficiente para aprender que depender exclusivamente de uma varinha era, no mínimo, uma limitação evitável.

Estendi as mãos sobre o ferimento, concentrando a magia sem intermediários. Um brilho esverdeado se formou, envolvendo a área com precisão controlada, e por um breve instante — breve o bastante para ser irritante — a pele respondeu, começando a se recompor.

E então parou.

Reverteu.

Como se nada tivesse acontecido.

O que diabos estava acontecendo aqui?

Conjurei uma poção restauradora, que levitou com pressa até a minha mão, como se tivesse mais senso de urgência do que o restante da ala. O procedimento padrão seria administrar em doses controladas, observando a resposta do organismo, ajustando conforme necessário. Aquela situação, claramente, não tinha interesse em colaborar com o padrão.

Inclinei o frasco e despejei o conteúdo diretamente sobre o ferimento, mantendo o olhar fixo, esperando a resposta imediata que uma poção daquele nível normalmente garantia.

E, por um instante, funcionou.

O sangramento cedeu. A pele reagiu. Houve progresso.

Mas parou ali.

Franzi levemente a testa. Aquilo não fazia sentido. Era uma poção forte — mais do que o necessário, na verdade. Eu e Theo tínhamos preparado aquele lote para reposição de estoque; um único gole seria suficiente para cicatrizar um ferimento daquela natureza sem dificuldade. Aplicada diretamente, deveria ter resolvido o problema por completo. Não apenas… contido.

Observei a área por mais alguns segundos, esperando algum tipo de continuidade que não veio.

Fechei o frasco sem desviar o olhar do ferimento, como se encarando o problema por tempo suficiente fosse, de alguma forma, obrigá-lo a fazer sentido.

Não fez.

Aquilo definitivamente não era rotineiro.

Uma sensação incômoda — rápida demais para ser ignorada, lenta demais para ser descartada — percorreu meu corpo, se instalando com uma familiaridade pouco bem-vinda.

Inconsistência.

A mesma de antes.

Só que agora, um pouco mais difícil de racionalizar.

Aquilo era… ligeiramente preocupante.

Senti um leve esbarrão no braço e me virei, já preparada para me irritar com mais alguma coisa, só para dar de cara com a pena do Theo.

Ela pairava no ar, inquieta, vibrando com uma expectativa quase ofensiva, como se estivesse me cobrando uma ação óbvia que eu, por algum motivo questionável, ainda não tinha executado. Ao lado, o pergaminho flutuava aberto, perfeitamente posicionado, aguardando com uma paciência bastante artificial para ser preenchido.

Fiquei alguns segundos encarando os dois.

Claro.

Suspirei.

Talvez aquilo fosse, de fato, algo que valesse a pena registrar.

Theo, sem dúvida, consideraria essencial.

E, contra qualquer lógica que eu ainda tentava sustentar, eu começava a suspeitar que ele talvez não estivesse completamente errado.

Derrotada, fiz um pequeno gesto para a pena e comecei a narrar, em voz baixa, tudo o que tinha acontecido até ali. Ela reagiu imediatamente, deslizando pelo pergaminho com um entusiasmo quase indecoroso, registrando cada detalhe com uma dedicação digna de seu mestre. Theo estaria muito orgulhoso amanhã.

Não era a coisa mais eficiente a se fazer. E eu me sentia um pouco estranha em conversar com uma pena. Mas eu tinha prometido ao Theo. E, sendo honesta — o que já começava a se tornar uma tendência inconveniente — eu mesma queria entender aquilo melhor depois.

Continuei falando, ajustando termos aqui e ali, enquanto mantinha o olhar fixo no ferimento, tentando organizar alguma alternativa que não resultasse no mesmo fracasso elegante de antes. Alguma abordagem diferente. Algo que reagisse àquilo de forma… menos inútil.

Foi então que uma ideia me ocorreu.

Alguns dias antes, enquanto organizávamos o estoque da ala três, Theo tinha se deparado com uma quantidade considerável de dictamo. Naturalmente, aquilo foi suficiente para desencadear um entusiasmo prolongado. Ele desapareceu por horas, remexendo em frascos, ingredientes e Merlin sabe mais o quê, e quando voltou estava com um potinho minúsculo nas mãos e uma expressão que eu já reconhecia como problemática.

Dentro havia uma pasta esverdeada de aparência duvidosa e um aroma que eu classificaria, com generosidade, como persistente.

Theo, inflado por orgulho de seu próprio feito, lançou-se em uma explicação intensa sobre sua criação: um “Unguento Revivificador de Dictamo com Essência de Mandrágora”.

Em termos menos pomposos: uma pomada.

Em circunstâncias normais, eu jamais usaria uma criação mirabolante do Theo em um paciente sem o mínimo de estudo prévio. Mas, como já tinha sido obrigada a admitir repetidas vezes na última meia hora, aquilo estava longe de ser uma situação normal.

Além disso, por mais questionável que fosse a metodologia, todos os ferimentos que nós dois acumulamos na última semana tinham sido tratados — com um sucesso irritantemente consistente — por aquela pomada de cheiro duvidoso.

E eu conhecia Theo o suficiente para saber que ele jamais me entregaria algo em que não acreditasse com uma convicção quase irresponsável.

Pensei isso por um segundo. Não custava tentar.

Na melhor das hipóteses, ajudaria o ferimento a reagir. Na pior… provocaria algum nível de irritação. Considerando o quadro geral, ainda parecia um risco administrável.

Antes que pudesse reconsiderar, o que, conhecendo meu próprio padrão de decisão, certamente aconteceria, puxei o pequeno frasco de dentro das vestes e o destampei.

O aroma se espalhou imediatamente me fazendo franzir o nariz.

Puxei uma pequena quantidade com o dedo, avaliando a consistência com um ceticismo que, naquele ponto, já não tinha muito valor prático.

Por favor, Merlin.

Passei a pomada sobre o ferimento, prendendo a respiração enquanto aguardava.

A pena, ao lado da minha cabeça, também parou — suspensa no ar, como se tivesse desenvolvido senso de expectativa próprio.

Observei o ferimento com atenção renovada.

Desta vez, houve resposta.

Sutil, mais lenta do que eu gostaria, mas inegavelmente presente. A pele começou a se recompor aos poucos, sem a eficiência que a pomada demonstrava em cortes menores, mas ainda assim… funcionando.

O suficiente.

Expirei, deixando o ar sair devagar, aliviando uma tensão que eu não tinha percebido que estava sustentando.

Theo ficaria em êxtase.

A ideia de que o “auror ensanguentado” tinha sido tratado — ainda que parcialmente — por uma das invenções dele provavelmente garantiria dias, talvez semanas, de comentários absolutamente desnecessários sobre o próprio talento em herbologia.

Acenei com a varinha, e uma nova bandagem se ajustou ao redor do tronco dele com a eficiência que vinha faltando até então. Em seguida, desfiz o encantamento, permitindo que o corpo voltasse à maca com cuidado, e puxei a manta dobrada aos pés da cama, cobrindo-o de forma minimamente adequada.

Pronto.

Missão cumprida.

Eu já podia sair dali com a consciência limpa de uma curandeira que fez exatamente o que deveria.

O problema é que, naquele ponto, a minha própria consciência não parecia particularmente interessada em colaborar. Fiquei ali por um segundo a mais do que o necessário. Depois outro.

E, antes que pudesse transformar isso em uma decisão minimamente racional, já estava me movendo na direção oposta — até os pergaminhos jogados ao lado da cama.

Parei.

Aquilo não era da minha conta. Eu tinha que sair dali.

Cheguei, inclusive, a girar o corpo na intenção de ir embora.

Não fui.

O incômodo persistente no peito venceu com uma facilidade irritante.

Tudo bem. Só uma olhada.

Peguei um pergaminho.

Depois outro.

E mais um.

Tentativas. Linhas interrompidas, palavras repetidas, frases que começavam com alguma coerência e simplesmente… se desfaziam no meio do caminho, como se o pensamento tivesse se perdido antes de chegar ao fim. Havia um padrão ali — não no conteúdo, mas no esforço. Uma insistência constante, quase metódica, de alguém tentando alcançar algo que sabia que existia, mas não conseguia acessar.

Franzi levemente a testa, absorvendo aquilo em silêncio por mais tempo do que pretendia.

Coloquei os pergaminhos de volta, dessa vez com um cuidado que definitivamente não combinava com o estado em que os encontrei.

Certo.

Perda de memória recente.

Reação anômala à cura.

…

Que merda era essa?

Nada ali fazia sentido.

Voltei para o prontuário, relendo linha por linha do último mês com uma atenção que, até então, ninguém parecia ter considerado necessária. Não demorou muito para perceber o padrão. Eles já tinham chegado à mesma conclusão que eu. Três semanas atrás. Caso anormal. Extremamente anormal.

Havia registros de tentativas de cura — poções, encantamentos, abordagens variadas — todas devidamente documentadas e, com uma consistência impressionante, todas falhas. Até aí, nada particularmente surpreendente, considerando o que eu mesma tinha acabado de observar.

O problema vinha depois.

A partir da segunda semana, aquilo simplesmente… parava.

As tentativas deixavam de existir nos registros, substituídas por anotações cada vez mais focadas no estado da memória dele. Fragmentada, instável, inacessível. Franzi a testa, passando o polegar pela borda do pergaminho. Aparentemente, a prioridade tinha mudado.

Quem se importa com um corpo que não regenera, desde que a memória de um único dia volte?

Continuei folheando, agora com menos paciência e mais desconfiança, procurando qualquer coisa que justificasse aquela mudança de abordagem. Encontrei um pequeno bilhete inserido entre os registros — discreto, mas decisivo o bastante para explicar o resto.

Departamento de Aurores. Instruções claras. Fazer todo o necessário para recuperar as lembranças da última missão.

Eles não estavam mais tentando curá-lo.

Estavam mantendo.

O sangramento constante deixava de ser um problema a ser resolvido e passava a ser… administrado. O frasco vazio de poção de reposição de sangue ao lado da cama praticamente confirmava isso — não como um detalhe isolado, mas como parte de um padrão confortável demais para ser coincidência.

Deixavam sangrar. Repunham. E seguiam em frente obstinados na busca estúpida por uma memória de um único dia.

Diversas tentativas fracassadas.

Ele rejeitava as poções de memória com uma consistência quase metódica — vomitando a maioria — e não demonstrava qualquer resposta relevante aos encantamentos.

Passei a mão pelo rosto, sentindo um início de dor se instalar atrás dos olhos depois de ler uma sequência impressionante de decisões questionáveis. Como, exatamente, algo assim conseguia existir dentro do hospital por um mês inteiro sem que ninguém resolvesse… agir?

Olhei para ele.

Um auror estúpido que tinha se sacrificado por um sistema que nem se quer se importava se ele sobreviveria aquilo ou não.

Por um instante inconveniente, o peso daquilo veio de uma vez só. Senti o estômago revirar e meus olhos arderem. Respirei fundo, mais uma vez, forçando a sensação a se acomodar em algum lugar que não interferisse diretamente na minha capacidade de continuar funcionando.

Não era o momento para isso.

Voltei os olhos para o prontuário, agora com um objetivo mais definido. Encontrar um nome

Era o mínimo.

Se ninguém ali parecia disposto a lidar com aquilo de forma minimamente responsável, então eu encontraria alguém que estivesse. Família. Responsáveis. Qualquer pessoa com interesse real em impedir que aquilo continuasse.

Passei os olhos pelo prontuário em busca da identificação, quase no automático — até que o nome se fixou.

Scorpius Malfoy.

Parei.

Voltei uma linha. Conferi de novo, como se houvesse alguma chance razoável de eu ter lido errado.

Não tinha.

Levantei o olhar para o leito com mais atenção do que antes, fixando os olhos no rosto pálido como se estivesse vendo pela primeira vez — e, de certa forma, estava. Agora procurando traços que, em retrospecto, eram óbvios demais para terem passado despercebidos.

A estrutura do rosto. O ângulo marcado. A expressão contida mesmo em repouso.

Havia mudanças, claro. O tempo tinha feito seu trabalho, e algumas cicatrizes novas quebravam a simetria impecável que eu lembrava de forma vaga. Ainda assim…

Inconfundível.

Um Malfoy.

A compreensão veio rápida demais, limpa, quase irritante na facilidade com que organizava tudo que, até então, parecia inconcebível.

O sigilo conveniente. A ausência de cuidado. A forma como o caso tinha sido reduzido a uma única prioridade que não envolvia, necessariamente, mantê-lo inteiro.

Apertei o prontuário com força.

Naturalmente, um Malfoy jamais seria digno de ser tratado como gente.

A comunidade mágica nunca foi particularmente eficiente em abandonar os próprios preconceitos ou, honestamente, em deixar o passado onde ele deveria estar.

Era em situações como aquela que as máscaras — já mal ajustadas — simplesmente cediam, revelando algo muito menos sofisticado do que todos gostavam de fingir.

Nada sutil. Nada novo.

Estavam escolhendo não se importar o suficiente.

Deixando que o caso se moldasse ao que era conveniente, reduzindo um paciente a uma função específica dentro de uma investigação, como se o resto fosse… negociável.

Inclinei a cabeça, olhando de novo para ele.

Porque, no fim, era isso.

Não era sobre o que estavam fazendo.

Era sobre tudo o que estavam perfeitamente dispostos a não fazer.

Um outro tipo de raiva me atingiu dessa vez. Não veio em forma de impulso, nem com urgência suficiente para exigir reação imediata. Veio pesada, se instalando devagar, como se tudo o que eu tinha acabado de ver estivesse ocupando espaço demais ao mesmo tempo. Era o tipo de coisa que não se resolve — só permanece.

Eu não queria gritar. E isso, por si só, já era um problema. Porque significava que tinha passado do ponto em que a indignação ainda encontra saída fácil. Aquilo era grande demais, desalinhado demais, para caber em qualquer reação simples. A imagem dele continuava ali, insistente: o ferimento que não fechava, os frascos vazios, os registros negligentes, o nome. Tudo coexistindo de um jeito que não deveria ser possível — e, ainda assim, funcionando dentro de uma normalidade que eu simplesmente não conseguia aceitar.

Terminei o turno em silêncio, mais por incapacidade do que por escolha. A ideia de ir até o diretor passou pela minha cabeça, clara e lógica, mas não se sustentou. Aquilo ainda estava grande demais, desorganizado demais, para ser transformado em qualquer tipo de ação imediata.

Quando saí para o corredor, avistei Theo ao longe. Ele vinha na minha direção, expectativa evidente, provavelmente já pronto para despejar perguntas antes mesmo de me alcançar. Mas desacelerou ao me ver. Parou completamente poucos passos depois, a expressão mudando para uma confusão desconcertante.

Aquilo era demais pra mim.

Aparatei antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

Notas finais
Olá, esse capítulo foi realmente difícil. Eu acabei de terminar então me desculpem caso alguma coisa esteja sem sentido ou fora do lugar, vou revisar tudo assim que possível.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.