Letters - a História atrás das Cartas -
2 Compreensão
Cap. II – Compreensão
17 de julho de 1921, Cidade do Leste – Cemitério.
Naquele dia o céu estava repleto de nuvens negras, o que era bastante incomum se tratando da Cidade do Leste, talvez as nuvens estivessem dividindo da mesma dor que a jovem Hawkeye. Naquele instante, seu último parente vivo estava sendo enterrado, algo extremamente inesperado... O velho Grumman sempre ostentava tanta vivacidade.
Não eram muitas pessoas que sabiam de seu parentesco com o General de Brigada, afinal, muitos se quer sabiam que um dia aquele homem tivera mulher e filha, mas isso não importava, pois todos os presentes cumpriram seu papel naquela tarde chuvosa de julho.
Riza olhava a terra ser jogada sobre o caixão debaixo de seu guarda-chuva negro, no momento, não chorava, não achava o lugar mais propício para isso estando a frente de meros conhecidos, a única figura que realmente lhe era agradável no meio de tantas pessoas era a de Jean. Os demais não puderam se ausentar de seus postos na Central.
Agora era oficial, ela estava sozinha.
- Riza-san. – a voz baixa de Havoc chamou sua atenção, não tinha notado que ele se aproximara –
- Sim? – respondeu calma –
- Todos já estão indo embora, quer uma carona para casa? A chuva parece que vai piorar...
- Oh... Obrigada, eu aceito a carona e obrigada, Jonh, eu acho que você era a única pessoa além de mim hoje que realmente sentirá falta dele.
- A Rebecca ficou arrasada quando lhe contei, está amaldiçoando até agora não ter conseguido um trem para cá logo que soube. Ela nem queria ter ido aquela palestra.
- Não se preocupe, eu entendo. – a loira tentou sorrir, mas não obteve sucesso seu coração não conseguia dissimular naquele instante –
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24 de julho de 1921, Posto militar afastado – 15:42 P.M.
Era uma tarde amena no Norte de Ametris, não haviam nuvens negras e pesadas acuando os moradores daquela região. Por incrível que pareça, estava uma tarde límpida, o que não a tornava menos fria. Roy estava sentado em frente a lareira vendo o crepitar da madeira.
Tinha acabado de ler as últimas cartas que recebera, mas isso não lhe trouxera a paz a que estava acostumado a sentir quando fazia isso. Daquela vez havia apenas uma única carta de Riza. Essa que não estava repleta de detalhes do dia-a-dia com os companheiros militares, talvez porque pelo que notara, ela estava no Leste já fazia algum tempo.
Mas isso realmente não era o mais importante, ela podia estar fazendo algum treinamento especial, ou mesmo de férias. Era engraçado, mas apesar de as cartas dela serem sempre as mais minuciosas... Riza raramente falava de si própria.
Naqueles últimos meses as cartas haviam se tornado bem mais rarefeitas. Estava mal acostumado a receber duas, três ou até quatro na mesma semana e agora sempre recebia apenas uma ou duas quando muito. Era provável que depois de mais de um ano não houvesse tantas coisas assim para contar.
Só que isso não acalentava o coração do alquimista das chamas, por mais egoísta que soasse, não queria que ela escrevesse menos. Não queria que as coisas do interesse dele se tornassem tão... Políticas e pouco pessoais, isso o fazia sentir-se lendo um jornal.
E Riza era seu ponto de apoio, não um posto de informações. Mas talvez... Ela só estivesse ocupada fazendo algo e logo voltaria a lhe escrever mais e como sempre.
Um ano, dois meses e vinte e seis dias de ausência...
A essa altura, muitas coisas já haviam se resolvido na mente do Mustang. Só não o suficiente para voltar. Ele precisava continuar fazendo o que podia ali, sozinho, por mais algum tempo. A consciência que passara tantos anos trancafiada, junto com memórias que o moreno preferia esquecer, não o deixava em paz. Era como se fossem os dias após a guerra quando estivera prestes a se matar.
Não conseguia esquecer nenhum rosto inocente, nenhuma expressão de medo e horror, nenhum grito clamando por um socorro que jamais veio... As imagens das chamas que transformaram em pó tantos lares e criaturas o assombravam em pesadelos, mesmo ainda estando de olhos abertos.
Era um pecador. No sentido mais puro, completo e simples da palavra... E pior do que isso, só ser um pecador covarde que não consegue viver a sombra do que fez e criou.
- Desculpe, Riza... Ainda não estou pronto. – sussurrou o militar para si mesmo como se ela pudesse ouvi-lo –
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1º de Outubro de 1921, Cidade do Leste – Casa do General Gruuman
Sentada a frente de uma escrivaninha de carvalho, Riza olhava para uma folha de papel de carta em branco. Do lado de fora ainda era dia, prestes a escurecer, mas ainda não se podia falar que era noite e estava demasiado quente.
Sem perceber, afundou-se na cadeira confortável e passou a fitar a movimentação do lado de fora. O lugar era bastante tranqüilo e quase não se via movimentação alguma na rua... Não era lugar para jovens e sim para aqueles que um dia já foram jovens e agora ansiavam descansar.
A caneta tinteiro que a moça havia escolhido para escrever meneava de um lado para o outro entre os dedos indicador e médio a espera de ser usada. Segundo o que aprendera com seu avô, coisas importantes deveriam ser escritas a tinta... Mas será que Roy merecia isso?
Já faziam quinze dias que não lhe escrevia, não andava com humor para isso e nem tinha inspiração. E naquela manhã quando ainda deitada pegou o maço de cartas que recebera dele tudo o que queria era jogar aquilo no fogo.
Roy não se importava com ela, por que deveria se importar com ele? Era um momento difícil e ela entendia, mas ela também esteve naquele inferno. Também matou inocentes e teve a mãos manchadas com sangue... Isso nunca mudaria, seus pecados não poderiam ser redimidos, tudo o que podiam fazer era tentar fazer o que podiam da melhor maneira possível.
Suspirou e trocando de caneta, pegou uma outra comum, escreveu algumas palavras falando sobre banalidades. Não tinha nada a dizer que merecesse mais que uma única página, ainda estava de luto,e ele mesmo não sabendo desse detalhe, Riza esperava que ele fosse capaz de compreender... Afinal, ela sempre compreendia tudo e mereceria esse benefício também.
- Eu não sei se posso compreender muito mais... Não agora. – e assim, como se ele pudesse ouvi-la, a loura soltou as palavras –
Um ano e mais ou menos quatro meses... Ela parara de contar com exatidão há algum tempo. Talvez fosse melhor assim.
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23 de outubro de 1921, Quartel General Norte – Alguma sala vazia.
Roy olhava a neve que caia como algodão do céu escuro, estava ocupando uma cadeira de couro confortável sentindo o cheiro de lugar fechado daquela sala que ocupava. Os fios negros caiam sobre os olhos indicando que talvez fosse hora de procurar um barbeiro, só tinha um olho bom, não podia se dar ao luxo de ter seu campo de visão ainda mais limitado.
Já se acostumara com aquele tapa-olho e tudo o que veio de brinde com ele. As pessoas apesar de nunca verbalizarem, sempre tinham no olhar aquela pergunta irritante: O que será que aquele tapa-olho esconde? Sem contar a pena e o medo de como agir, quase como se ele fosse se irritar com mínima citação ou mesmo quebrar... Era tragicômico.
Os dedos longos tocaram o pedaço de pano negro, o que teria acontecido caso ela não tivesse aparecido? O Óbvio, não? Ele teria morrido, simples e objetivamente. Riza o seguiria até o inferno se ele assim permitisse, porque perguntas não eram necessárias, ela continuaria até onde lhe fosse permitido. Como havia acontecido há mais de um ano...
E agora, depois de tudo, depois de terem visto o inferno tudo o que os ligava eram pedaços de papel. Sendo que a essa altura do campeonato, Riza já nem mais se importava em lhe dizer como estava, o que estava fazendo ou onde estava. E também não havia mais nenhum traço de personalidade nos pedaços de papel que o alcançavam... Não eram mais palavras de conforto velado e subentendido, mas sim simples palavras jogadas em papéis de carta timbrados.
- Foram tantos anos de compreensão sem perguntar ou exigir... – ele suspirou – Não desista de mim agora.
E assim, levantou o corpo masculino da cadeira que rangeu e pegou o papel que estava amassado no chão. Pensou em jogar aquela carta de palavras secas no lixo, mas da mesma maneira que esperava compreensão, procurava compreender... Sua rainha estava magoada.
Ela sabia de tudo!!
Todos sabiam!!!
Ele sabia... Sempre soube, apenas os tempos não permitiram!
Era óbvio que Riza sabia, era esse motivo dela o ter seguido sempre, não era?
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30 de outubro de 1921, Darmonth – Estação de trem
Riza olhava para os lados, a estação de trem da cidade de Darmonth não era muito grande, na verdade, era singelo, mas muito organizado. O movimento ali era bem limitado, o que não era uma grande surpresa devido ao horário, muito cedo.
O lugar que escolhera para repensar a vida se tratava de uma cidadezinha provinciana no interior do leste amestrino. Um lugar que sobrevivia, em sua maioria, devido a plantação de morangos, tudo girava em torno disso.
Suas coisas já haviam sido mandadas para a casa que alugara, a militar ainda não sabia ao certo o que faria por ali, se sustentar não era um problema, apesar de ter sido muito negligenciada pelo pai, o mesmo não a deixara completamente desamparada após sua morte, Berthold deixou um fundo suficiente para que ele levasse uma vida confortável. Depois de entrar no exército não fez mais uso da renda, mas agora faria até decidir o que faria.
Não pretendia ficar parada, só tentaria não se afogar em trabalho como fizera nos últimos anos. Bem, não sabia muito bem como chegar a sua nova casa, mas em uma cidade pequena não deveria ser difícil encontrar seu bairro.
Ao sair da estação de trem se deparou com um lugar que parecia ter saído de um filme de época. Toda arquitetura era bem trabalhada e antiga, lembrando o centro velho da Central, ruas bem limpas, muitas árvores e ali pôde notar ser o centro comercial do local, bem provável ser ali o único lugar com lojas da cidade.
Havia de tudo com moderação, resolveu comprar algo para começar a abastecer a geladeira e perguntar onde ficava o bairro onde moraria temporariamente.
- Trinta e sete reais. – disse uma mulher de meia que empacotava as compras –
- Aqui... – Riza entregou o dinheiro – Será que a senhora poderia me dizer onde fica a rua das Cerejeiras, nº 124?
- Humm... Deixe me pensar. – a mulher olhou para a rua – Eu sei onde fica, mas se não é daqui fica um pouco difícil explicar. Craig, venha aqui!!
A Senhora de cabelos marrons e bem penteados acenou chamando um menino que estava do outro lado da rua. Não deveria ter mais que dez anos, tinha cabelos da cor dos dela, pele levemente bronzeada e se vestia confortavelmente sem muita frescura. O garoto se despediu do colega sorrindo e calmamente se encaminhou para o pequeno supermercado.
- Meu filho vai acompanhá-la, ao que me parece não é daqui... – a mulher sorriu –
- Não quero incomodar, eu posso me arranjar sozinha, só preciso mesmo de alguns pontos de referência.
- Não está incomodando, não temos muito movimento a essa hora, mas se não se importa... – a mulher pareceu um pouco constrangida – Imagino que tenha vindo de outra cidade para visitar as plantações de morangos e como não está indo para a pousada deve conhecer alguém aqui...
Riza riu.
- Estou me mudando para cá, o endereço que dei é o da minha casa, eu fiz tudo por meio de uma imobiliária... Nem cheguei a ver a casa ao vivo. Por isso estou meio perdida.
- Oh... Que bom! Bem vinda a Darmonth! – o menino entrou na loja – Craig querido, leve essa moça até a casa que estava vazia na rua das cerejeiras.
O garoto olhou curioso para Riza e depois voltou a olhar a mãe.
- Certo! Vamos moça?
- Vamos. – Riza pegou sacola de papel – Obrigada senhora...?
- Villeres, mas me chame de Anne e você é?
- Elizabeth, mas costumam me chamar de Riza, acho que vamos nos encontrar bastante já que parece ser o único mercado da cidade.
- Okay, Riz, espero mesmo lhe ver mais vezes.
A loura e o garoto saíram do mercado caminhando a passos curtos. Ela notou que o pequeno parecia bastante curioso, mas receoso de lhe fazer perguntas. Ele cumprimentava algumas pessoas, principalmente donas de casa que ela imaginava serem amigas de Anne.
- Então, Craig... Certo?
- Sim, moça. – ele lhe olhou –
- É muito longe minha casa?
- Não, não... É aqui pertinho, tem um jardim muito bonito, a moça gosta de flores?
- Bastante e tem um quintal?
- Oh sim, não é grande, mas eu fazia a maior farra lá. Sabe, eu morava lá antes do meu pai mudar de cidade.
- Então meu cachorrinho vai gostar. – a loura sorriu –
- Você tem um cachorro? – os olhos dele brilharam – Tenho sim, ele ficou na cidade do Leste com um amigo, assim que eu arrumar tudo ele vai mandá-lo.
- Que legal!! Minha mãe diz que eu ainda não posso ter um cachorro, mas eu acho que ela vai me dar um no meu aniversário!! Mas quando o seu chegar se a moça quiser eu posso passear com ele...
- Tudo bem, mas meu nome é Riza, então me chame assim.
- Ah tah!! Pode deixar, Riza-san! Mas é... Você é casada? Sabe, porque geralmente só mudam para cá gente velha ou gente nova que acabou de casar!
- a lourinha riu – Não, não sou casada, eu só queria mudar de ares. Passei muito tempo na Cidade Central.
- Você morava na cidade Central?? – os olhos castanhos do garoto se arregalaram – Que legal! Por que veio para cá?
- Mudança de ares!
- Hum... – ele parou diante de uma bela casa, não parecia grande, mas muito jeitosa – É aqui!!
- Então obrigada Craig, não te chamo para entrar porque ainda está tudo muito empilhado e bagunçado, mas o dia que eu buscar o Black você vem e brinca com ele.
- Certo! Vou esperar, Riza-san!
O menino saiu correndo e a mulher suspirou e aspirou o ar dali. Parecia realmente um bom lugar para recomeçar. Todos pareciam muito gentis e educados, o lugar era calmo... Só o tempo diria se estava certa.
Continua....
Notas finais
hahhahahhahah
Amo vcs e espero alguns comentários!!! Kiss kiss
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