Letters - a História atrás das Cartas -
1 365 dias
Letters – A história atrás das cartas –
“Se um dia eu não procurá-lo mais, não pense que te esqueci, apenas me acostumei a viver sem você...”
Cap. Um – 365 dias
21 de abril de 1921, Quartel General Central – Sala do Coronel Hughes.¹
Era uma tarde fria para meados de abril, do lado de fora das janelas do imponente quartel Central as cerejeiras e flamboyants estavam floridos dando cor aquele lugar tão austero. Conseguia-se ver dali alguns jovens soldados fazendo alguns serviços manuais fruto de alguma prenda de treinamento.
Dentro da imponente sala, uma moça que acabara de ser promovida ao posto de major olhava o que ocorria além daquelas vidraças enquanto espera que Hughes voltasse da sala de seu superior direto. Ela podia ver do lugar em que se encontrava pelo menos três porta-retratos, não sabiam quais eram as fotos, mas podia apostar um braço que haviam entre eles, se não todos, fotos da pequena Elycia e da adorável Gracia.
Um singelo sorriso se formou nos lábios femininos, era linda a maneira como Hughes e Gracia tinham um casamento tão... Perfeito (?). Diferente dela que aos vinte seis anos ainda não tinha nada parecido. Nenhum namorado, sem filhos e família. Chegava a dar uma certa inveja, pensamentos esses que a loira afastava logo em seguida, não havia motivo para ter inveja, era tudo fruto das escolhas feitas por cada um.
Hughes escolhera colocar a família acima de tudo, ela escolhera a carreira. Riza passou uma das mãos nos cabelos agora em um comprimento channel, havia cortado as madeixas há cerca de um ano atrás quando fora participar de um treinamento oficial.
O pensamento dela vagou até o período antecedente a isso, tanta coisa aconteceu num período tão curto de tempo. E hoje,fazia exatamente um ano que Roy se fora para o extremo norte do país... Um longo suspiro foi interrompido pela entrada intempestiva de Hughes.
- Yo, Riza-san!! Que surpresa!! – disse ele em seu tom habitual –
- Boa tarde, coronel, tem um minuto? – disse a loira virando o pescoço –
- Claro, claro... Desculpe tê-la feito esperar, eu fui fazer uma social. Quer um café? Uma água? Alguma coisa?
- Iie, iie. O que eu tenho a dizer é rápido.
- Pois então fale, se eu puder ajudá-la. – disse ele sentando-se –
- Eu gostaria de uma licença, gostaria de ir para o leste resolver algumas em relação aos bens do meu pai e fazer uma visita ao meu avô, ele está um pouco doente.
- Hum... Claro, claro. Vou ajeitar os papéis agorinha mesmo, vai querer quanto tempo de licença? Uma semana? Duas? Um mês?
- Na verdade, gostaria de uma licença indeterminada, não sei quanto tempo vou ficar por lá. Dependendo de como meu avô estiver acho que não poderei voltar tão logo.
- Entendo... – disse agora um pouco menos animado – Não há problemas, você tem algumas férias acumuladas e também os militares remanescentes de Ishival tem direito há uma boa licença e você não tirou a sua.
- Eu sei e espero que não fique chateado, sei que quer manter a equipe unida e com o Havoc acabando de ir para o Leste...
- Não se preocupe com isso, Riza, eu sei que não deve estar sendo nada fácil para você... Foi tudo muito depressa, sem contar com o Roy indo embora... Você merece um tempo para pensar, refletir.
- O Roy sabe o que faz de sua vida, mas agora eu tenho que seguir a minha de alguma maneira... Eu o seguiria até o inferno, se necessário, só que não posso fazer nada se ele não quer companhia daqueles que sempre o acompanharam.
- As coisas não... – ele foi interrompido –
- Eu não estou julgado ninguém, Maes, não precisa vir com esse papo em defesa do Roy, mais do que ninguém sei e entendo os motivos dele, a questão agora é: Eu tenho que seguir minha vida sem ele.
- Ele vai voltar, Riza.
- Mas eu não posso passar a minha vida toda esperando, já passou da hora de eu pensar em mim. Agora, com licença, gostaria que providenciasse tudo o mais rápido possível e sem fazer estardalhaço, eu mesma quero falar com os rapazes.
- Okay, Riza, se é isso que você quer... – moreno fez uma longa pausa refletindo — Pelo menos mande noticias, todos aqui gostamos muito de você.
- Não se preocupe. Eu só quero um tempo para pensar no que vou fazer da minha vida.
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21 de abril de 1921, Quartel General Norte – Pavilhão Postal.
A neve cobria toda a região que cercava o quartel general norte e vento assoviava uma melodia assustadora aqueles que não estavam habituados ao local. Uma tempestade se formara sobre a região algumas horas atrás impedindo a entrada ou saída de qualquer um temporariamente.
Um homem de estatura mediana e fios negros caminhava com seu pesado casaco a procura de alguém que pudesse lhe atender. Fazia quase dois meses que não pegava correspondência.
- Boa tarde, em que posso ajudá-lo? – disse uma moça jovem que aparentemente não o reconheceu, estar fora da mira dos fotógrafos fazia isso –
- Gostaria de ver se há correspondência para o Ca... – o moreno lembrou que apesar de negar o cargo, sua patente era a de um general de brigada – General Roy Mustang.
- Oh... – ele viu a moça corar singelamente após constatar quem era – Um minuto, Taisho.
Ela empurrou com os pés a cadeira com rolamento sumindo entre as grandes estantes repletas de arquivos. Sendo assim, o homem se permitiu olhar ao redor, após anunciar quem era alguns burburinhos começaram a rolar às suas costas.
Isso era bastante irritante, principalmente naquele período em que se encontrava tão “anti-social”, tudo o que menos desejava era responder a perguntas frívolas de gente que não cuidava da própria vida. Kuso! Estava ficando ranzinza, passar tanto tempo sozinho o estava deixando com maus hábitos a respeito da vida em sociedade.
Roy suspirou e agradeceu mentalmente a moça estar voltando.
- Aqui, Taisho. – disse ela entregando um maço de cartas – Poderia assinar esse formulário de recebimento? – Roy a olhou meio desconfiado, aquilo não era um procedimento padrão – Apenas uma formalidade, as tempestades tem deixado o serviço postal um tanto confuso.
- Oh, claro, desculpe. – disse o moreno esboçando um leve sorriso –
- Não foi nada, todos fazem a mesma cara. – a moça riu comedidamente –
Roy saiu imediatamente depois, louco para se livrar daquelas vozes sussurradas que insistiam em falar de si sem notar que ele percebia o ato indiscreto. Como não poderia voltar ao seu posto isolado até o alerta de tempestade passar iria ver se achava alguma sala desocupada.
O quartel do Norte não era o lugar mais povoado do mundo, atuava com apenas com o contingente mínimo necessário. Aparentemente, se queria subir ou ia para outra localidade, ou se alistava em Briggs.²
Como o esperado não foi muito difícil achar uma sala vazia para se refugiar dos olhares curiosos. Uma sala bem grande, com uma mesa principal a frente de uma janela com mesas adjacentes a frente. Um lugar muito parecido com o que dividia com seus subordinados no leste.
Tirando um pano branco que cobria o sofá, Roy sentou-se para ler as cartas.
Haviam cinco escritas por Maes e a esposa. Três coletivas. Duas oficiais, provavelmente pedindo que se reintegrasse. E quatro cartas dela. O moreno começou pelas cartas do amigo. Todas continham Elycia como 80% do conteúdo. A dos rapazes contava sobre as peripécias não muito bem sucedidas de todos e da transferência de Havoc para o Leste para ajudar a treinar combatentes.
As de Riza traziam sempre mais de quatro folhas e eram repletas de detalhes superficiais de como estavam as coisas por lá sem ele. Até mesmo informações repetidas que já haviam sido citadas em alguma carta coletiva. Ele gostava das cartas dela, afinal, davam um ar de normalidade a atual situação que viviam.
Foram tantos anos de uma convivência constante que a distância parecia mais significativa do que deveria. Enfim, de qualquer modo, estando perto ou não, tinham uma ligação muito forte. Riza em nenhum momento pediu que voltasse ou deu a entender tal vontade. A mulher respeitava seu tempo e sabia que ele se abriria a um dialogo tão logo quanto fosse possível.
A caligrafia dela era inconfundivelmente perfeita. Uma letra cursiva impecável de dar inveja a qualquer professora. Sem contar o cuidado na escolha das palavras usadas e nos detalhes tão pequenos, mas que faziam toda a diferença. Até mesmo não aprovando o que fazia, ela não era capaz de abandoná-lo.
Apesar de sentir falta de todos, a maior saudade estava na falta da presença de sua rainha. Era quase como se um pedaço estivesse faltando. No entanto, não podia tê-la trazido, aquele era um tempo só seu de reflexão. Onde estava colocando em xeque todas as suas vontades e desejos, reformulando prioridades.
Sabia que isso era um tanto egoísta sair daquela maneira, sem nenhuma despedida, nenhum adeus, nenhum gesto de consideração. Sabia também que ela formulara sua vida de acordo com os planos que traçou para sua própria e que agora Riza deveria estar pensando se realmente valeu a pena isso.
Não a culpava por colocar em pauta tudo o que fez por ele até o momento, fora egoísta e sabia disso, mas também sabia que ela não se arrependia de nada. E mesmo que estivesse profundamente magoada, não seria capaz de desejar não ter feito.
Mas era melhor assim, pois sua tenente se machucaria muito mais com sua presença ausente do que com sua ausência completa.
Arrancou uma folha de papel qualquer de dentro da gaveta de uma das escrivaninhas e rabiscou algumas linhas. Era apenas uma maneira de não deixar passar em branco o gesto dela, pois ainda não tinha vontade de conversar e voltar a realidade. Ainda não estava preparado para lidar com seus pecados.
Já se passaram 12 meses, doze longos meses.
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25 de abril, Estação Central – 22:39 P.M.
Era tão estranho sentir-se solitária em meio de tantas pessoas que lhe queria bem, Riza não gostava de aparentar ser tão dependente de Roy como se mostrara nos últimos doze meses. Sentia-se quase rebaixada pelos olhares de pena complacentes que lhe eram direcionados sempre que notavam-na olhando para a janela esperando vê-lo atravessar o pátio.
Sua vida toda usou o moreno como apoio para o que fazer. Na infância, o companheiro inseparável de sua vida solitária. Na adolescência, o motivo para entrar para o exercito e fazer alguma coisa a respeito. Na maturidade, o guia para como levar sua vida. Foram muitos anos a margem de sua própria vida, sempre esperando a hora tão esperada do final feliz (ou começo feliz...) e fazendo de tudo para que a dependência fosse mútua. O que aparentemente não deu muito certo, pois pelas cartas que eram devolvidas, ele podia viver sem sua companhia.
A loura nunca achou que questionaria suas decisões a respeito do que fizera, mas naquele instante, tudo parecia não ter passado de uma peripécia sem graça do destino. Talvez tivesse sido mais feliz e completa se tivesse casado e formado uma família como tantas vezes seu avô sugerira.
Ela era uma mulher de 26 anos que não tinha nada para contar... Oh, e os anos são implacáveis, logo seria tarde demais para filhos e então um casamento parecia despropositado. Será que teria mesmo valido a pena esperar por algo que nunca foi embasado nem mesmo por palavras?
...
Riza não tinha uma resposta para isso, mas também não conseguia se arrepender, fizera o que fizera para protegê-lo e ajudá-lo. Apenas sentia-se frustrada por no final estar notando que toda aquela dedicação era unilateral e que não era tão importante para ele, quanto ele era importante para ela.
A mulher suspirou longamente antes de entrar no trem. Era hora de recomeçar, mas sem as amarras que a deixaram tão a margem de sua própria por tantos anos. Quem sabe um dia... Ou talvez, não. Não podia dizer o que aconteceria dali para frente, só tinha certeza de que desta vez não estaria a margem.
Continua...
Amores, cá estou com mais um fic quando deveria estar terminando as que comecei, mas não se preocupem, eu vou terminá-las assim que escrever algo que preste. Afinal, vocês não querem qualquer porcaria e eu não quero depreciar meus caros leitores.
Sobre essa fic, o que tenho a declarar é: Uma outra visão sobre Letters, dessa vez mais detalhada mostrando o que aconteceu na vida deles no período em que ficaram separados. Os sentimentos, as dúvidas, as incertezas...
Não será uma long, mas sim uma Curt. Se não me engano não terá mais do que quatro capítulos e também tudo depende de vocês meus caros e seus comentários. Hehehehhe.
Esclarecimentos — ¹ — Eu não consegui matar o Maes!!! Sério, por mais que eu tente, parece que tudo fica tão sem cor sem nosso papai coruja!!! Me desculpem!!
² — Essa fic foi feita com relação ao primeiro anime como todos devem ter notado e a citação sobre Brigg, que eu sei não existir nessa obra, foi apenas para melhor montagem do cenário e enredo. Essa fic não será uma espécie de Crossover entre os dois fullmental e a barra de separação... Bem, foi uma gracinha, não levem em consideração estar escrito FMAB.
Kiss Kiss
Atenciosamente, Riizinha (Anny Taisho).
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