Let's be awkward together
1 O estranho conhecido
Ao acordar vejo uma grande mancha no meu travesseiro. Minhas lagrimas da noite anterior ainda não tinham secado. Olho o relógio e vejo que ainda são 6:20 da manha. Na Acadamia St. Edmond as aulas começam as 8:30.
Me arrasto para fora da minha cama sabendo que não estou preparada para meu primeiro dia. Não estou preparada para nenhum dia de aula nesse lugar. Procuro meu celular no meio das cobertas, nenhuma mensagem de Logan e nenhuma ligação de August. Eu não sei se isso é bom ou ruim.
Pego minhas coisas em silencio para não acordar minha colega de quarto e saio do quarto em direção ao banheiro. Pelo menos eu estava certa sobre uma coisa: quanto mais cedo você acordar, mais vazio o banheiro vai estar. No caminho para o banheiro eu vejo alguns alunos entrando e saindo de seus quartos, alguns acabando de acordar e o outros acabando de chegar.
Outra coisa sobre a Academia St. Edmond é que este é um colégio de ensino médio apenas. E conforme o seu ano, vem os privilégios. Se você está no primeiro ano, os dormitórios são divididos por sexo, você tem permissão para sair do campus (desde que seus pais deem essa permissão), mas tem que estar de volta até as 20h. Já se você é do segundo ano ( como eu), as coisas melhoraram um pouco. Os dormitórios são mistos e maiores e se você tiver sorte, pode até conseguir um quarto individual só para você; como no primeiro ano, você também pode sair com a autorização de seus pais, mas pode voltar até as 23h. E então vem o paraiso: o terceiro ano. Os moradores do dormitório do terceiro ano podem fazer o que quiser, desde que não façam algo estupido o bastante para que a policia acabe sendo chamada.
O dormitório do primeiro ano se chama Hades, do segundo anos Poseidon, e do terceiro, Zeus.
Meu coração quase voa no teto de tanto alivio ao ver o banheiro praticamente vazio ao eu entrar. Tomo banho e volto para meu quarto, percebendo que o dormitório começa a despertar.
Coloco meu uniforme rápido, enquanto minha colega de quarto está acordando em sua cama. O uniforme da St. Edmond era um uniforme clássico, composto de saia plissada xadrez, camisa branca, colete, gravata e suéter. O uniforme do pessoal do Hades era preto ( olá ironia), do Poseidon azul-marinho ( ironia, você aqui novamente?) e do Zeus era cinza-tempestade ( ironia, sinta-se em casa)
— Você já esta pronta? – pergunta Skyler, se revirando nas cobertas. – Não são nem 7 horas da manhã ainda, Clarisse!
— Bom dia Skyler – eu respondo, enquanto reviro a minha mala, procurando uma escova de cabelo.
Skyler é uma garota baixinha, coma pele clara e cabelo ruivo. Mas não é natural porque eu consigo ver sua raiz escura. Eu não fiquei brava com ela por saído assim que eu cheguei. Encarei como um tipo de favor. O que ela faria? Ficaria no quarto, vendo eu me desgraçar em lagrimas até cair no sono? Ela preferiu me dar privacidade, porque sabe como os primeiros dias longe de casa são difíceis...
Para variar, é claro que cabelo estava impossível de ser controlado. Fiz o possível para deixa-lo apresentável, e o prendi em um rabo de cavalo e peguei minha mochila. Eu que eu devia ter arrumado minhas coisas na noite anterior, mas eu estava ocupada tem uma crise de choro, triste e com saudades de casa. Você não pensa em arrumar sua mochila quando sua vida está se desmontando diante de si.
Fui até a escrivaninha e peguei meus horários do dia. Joguei dos cadernos, um estojo e mais algumas coisas dentro da mochila e estava pronta. Skyler já tinha saído do quarto.
Eu deveria espera-la, já que ela tem a função de me ajudar a me localizar dentro do campus, uma vez que é minha colega de quarto e está no campus a muito mais tempo do que eu. Mas eu resolvo confiar na minha memória fotografia e encontrar meu caminho sozinha.
O refeitório era fácil de encontrar porque ficava no prédio principal. O sol ainda estava nascendo enquanto eu cruzava a distância entre o meu dormitório e o prédio principal junto com outro grupo de alunos que como eu, acordaram mais cedo do que o resto das pessoas.
Entrei no refeitório, peguei uma banana e uma maçã, passei meu cartão no caixa e procurei a mesa menos movimentada. Não pense em mim como uma pessoa saudável. Não é isso. Eu simplesmente não sei se vou gostar ou não da comida da escola, então apenas escolhi a opção segura. Enquanto como, mando uma mensagem para Logan.
A essa hora ele deve estar dormindo ainda, sem nenhuma presa de acordar. Sem nenhuma dificuldade, consigo imagina-lo deitado em sua cama, sem camisa, numa posição estranha, calmo. Eu queria tanto, tanto, estar ao seu lado, assistindo-o dormir, como eu fazia até 4 dias atrás.
Também consigo imagina-lo acordando mal-humorado e tentando me convencer a dormir mais um pouco, me abraçando e me beijando....
De repente até minha maçã fica com um gosto meio amargo e eu perco a vontade de comer.
Quando o refeitório começa a encher, eu já estou de saída para minha primeira aula, mesmo que ainda falte mais de meia-hora para ela começar.
Vou andando entre os corredores, tentando me localizar e logo encontro minha primeira sala ( não sem antes ter passado três vezes na frente dela sem perceber). Escolho um lugar ao lado da parede e espero.
Eu sinto os olhores dos outros alunos em mim e quase ouvir seus pensamentos: Quem é ela? Quando chegou? Af, mais uma novata...
Mas eu faço o possível para ignora-los, especialmente porque agora estou muito ocupada pensando em August. Minhas ultimas palavras para meu irmão mais novo foram: Você pode me ligar, em qualquer momento, eu vou atender. Falo serio. Se qualquer coisa acontecer, se você se sentir triste, ou com saudades de mim, me ligue.
Por algum motivo, eu esperava que ele fosse me ligar hoje. Mas eu esqueço que meu irmão tem 14 anos e não 8, e que ele provavelmente vai se fazer de manchão e não vai ligar para a irmã só porque está triste, ou com saudades.
A sala se enche e logo o professor chega. Tenho que me apresentar para ele e pedir que assine um papel.
— Clarisse Ackerman... – ele lê a folha de papel um pouco alto demais. O professor já é um senhor de idade, alto, com os cabelos brancos e olhos azuis brilhantes. – Animada para o primeiro dia de aula?
Não. Nope. Nien. No.
— Um pouco – respondo esperando ele devolver a folha para que eu possa voltar para meu lugar logo, porque nesse momento, estou parada na frente da sala de aula e todos me olham.
— Gosta de biologia? – o professor pergunta.
— Um pouco – respondo novamente. Na verdade, eu gosto de biologia, química, física e matemática. Sou uma pessoa de exatas.
— Tudo bem, espero que você mude essa resposta no fim do ano – ele diz e se levanta devolvendo minha, mas segura meu ombro para que eu não saia do lugar.
Oh não. O que ele vai fazer? Por favor, não, não não, não me apresente na frente da sala como a aluna nova....
— Bom dia classe, temos uma aluna nova hoje – ele disse sorrindo para mim. Desejo que um buraco se abra.
De repente a porta se abre e um garoto pula para dentro da sala.
— Cheguei Sr. K! Cheguei! – disse o garoto. Ele está ofegante e com cabelo molhado e com o uniforme incompleto.
— Bom dia Charlie. Você chegou bem na hora... ou não... enfim, essa é a aluna nova, Clarisse Ackerman.
Ao ouvir meu nome, Charlie me encara. Eu o encaro de de volta e algo no meu rosto me chama a atenção. Eu o conheço. Ele é aquele estranho conhecido. Uma pessoa que você nunca viu na vida, mas sente que a conhece quando a vê pela primeira vez.
Charlie é alto, com o cabelo castanho e os olhos verdes... seus olhos... o que seus olhos querem me dizer. Então ele sorri para mim. Na naquele momento, meu coração se aquece e começa a bater mais rápido. Porque aquele sorriso é familiar para mim.
— Ackerman? – ele diz.
— Chuck? – eu respondo.
Charles Watson, ou Chuck, era meu melhor amigo no mundo quando eu era criança. Até eu completar 8 anos e ele se mudar. Eu chorei muito quando ele se foi. E também fiquei com muita raiva.
Mas naquele momento, eu queria apenas abraça-lo e assistir Dragon Ball com ele comendo doces.
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