Coloquei minha mala no carro e entrei. Eu não me despedi de ninguém por que não conseguiria. Não queria ir embora, mas do mesmo jeito que não aguentaria vê-lo no Olimpo, não aguentaria vê-lo ali. Dioniso subiu correndo e pediu para Argo esperar. Ele foi fazer alguma coisa na Casa Grande e já voltaria. Achei que aquilo talvez fosse uma armação dos dois.

—Sofia. Por favor, não vá embora assim. Você não me deu a chance de explicar.

—O que? Que Ariadne não presta? Que ela te beijou e você odiou cada momento? Tudo bem, Dioniso. Eu vou embora. Preciso pensar um pouco. Preciso de ar.

—Por favor, Sofia. Não vá.

Argo subiu no carro outra vez e eu segurei na lapela de seu paletó.

—Seu terno está amassado.— Cheguei perto dele e beijei sua bochecha, entrando no carro bem rápido. Eu chorei baixinho durante toda a viagem e quando ele parou em frente à minha antiga casa e desceu com minha mala, eu o abraçei e me despedi dele que ficou sem jeito.

Depois que ele foi embora, entrei em casa e ela estava vazia. Não tinha ninguém lá. Ficaram só os móveis. Não sabia onde estava minha mãe adotiva, mas como não havia nenhum sinal de venda no gramado, fui para meu quarto e arrumei minhas poucas coisas nos armários. Se eu ficaria naquela casa sozinha, precisaria de um emprego.

No dia seguinte fui até a companhia de balé. Depois de uns minutos de apresentação, a dona de um espetáculo me chamou para fazer o papel principal. Não sabia agora se tinha sido pela minha dança ou pela benção de Afrodite, mas aceitei. Eu podia estar morando naquela casa, mas ainda precisava de dinheiro para comer. Os ensaios começaram no dia seguinte. Eu sentia mais saudade de Dioniso do que gostava de admitir. Quando eu dançava no palco durante os ensaios, sentia ele sentado na platéia, me encarando profundamente com aqueles olhos roxos e abrindo um meio sorriso.

Os dias foram passando e eu fui ficando cada vez mais cansada depois dos ensaios. Parecia que meus pés não estavam acostumados aos passos. Alguma coisa estava muito estranha.

Numa sexta feira eu acordei e tomei café correndo. O ensaio seria às nove e meia e eu estava quase ficando atrasada. Quando cheguei e coloquei a roupa correndo, a chefe da coreografia me chamou num canto.

—Sofia, nós precisamos conversar.

—O que foi, Robin? Eu estou atrasada?

—Não. O problema é o seguinte, eu notei que você ganhou peso há umas semanas e faltam duas semanas para a apresentação. Nós precisamos tomar alguma atitude agora enquanto ainda dá tempo.

—Eu ganhei peso? — disse olhando para o meu corpo. Ele não parecia muito diferente do que era antes.

—Sim, querida. Me desculpe.

Ela se afastou e eu fui no espelho me olhar. Eu realmente não tinha percebido nada, mas era verdade. Eu tinha engordado. Não poderia ficar assim com a estréia tão perto, mas também não poderia mudar meu corpo na hora, senão eles perceberiam. Eu fui para o palco e começamos o ensaio.

Durante uma série de passos, Jason, o homem que faria par comigo, deveria me pegar no colo e quando eu subi em seus braços nós caímos. O silêncio se instalou no palco e eu senti uma ardência nas costas onde meu corpo bateu no chão com um baque surdo.

Jason veio e me pegou do chão. Eu fiquei ali parada enquanto o chefe do espetáculo levantou e a cena inteira não durou um minuto, mas para mim, foi uma vida inteira.

—Você está fora da produção, Sofia Song. Vá para vestíbulo e troque de roupa. Muito obrigada. Vamos continuar. Você, você é a substituta não é? Vá se trocar. Você vai fazer o papel principal.

Eu fiquei parada ali até perceber que meu tempo tinha acabado. Eu troquei de roupa e deixei o figurino pendurado. Só me permiti chorar quando sentei no banco do parque. Onde eu tinha conhecido Ashley e o Daniel, que era meu irmão, depois de tudo isso. As lembranças do acampamento voltaram como uma avalanche e eu não consegui parar um soluço quando o rosto de Dioniso veio à minha mente.

Eu estava sentada e uma mulher se sentou ao meu lado. Eu demorei um tempo para olhar para ela, e então ela mesma se apresentou.

—Achei que uma deusa iria reconhecer outra.

Levantei o rosto e lá estava ela. Loira e muito bonita, não como minha mãe, era bonita de um jeito diferente. Forte e puro. Eu a reconheçi na hora.

—Ártemis. O que faz aqui?

—Sua mãe tem falado e resmungado tanto de saudade de você que eu resolvi vir te ver. Ela acha que você não quer vê-la. Bom, esse é um dos motivos.

—Minha mãe deveria saber porque eu contei a ela o motivo de eu não ter ficado no Olimpo e no acampamento. Mas enfim, tudo bem Ártemis? Está em alguma caça agora?

—Eu dei uma paradinha para ver você mas...sim. Eu e minhas caçadoras estamos atrás de um veado prateado. Eu vou passar suas notícias a sua mãe. Adeus pra vocês.

Ela disse enquanto passava a mão na minha barriga e logo depois virou fumaça na minha frente. Eu fiquei sem noção do que ela tinha falado. Mas assim que parei para pensar, fez todo sentido. A fome, o aumento de peso. A descoordenação. Não estava acreditando. Levantei na mesma hora e fui até a farmácia do outro lado da rua. Comprei quatro testes e voltei correndo para casa.

Quando cheguei saí correndo na direção do banheiro. Eu fiz dois de cada vez. Os quatro deram positivo. Eu estava ferrada.