Letras e Vinhos
29 Jardim
Dioniso
Mais um dia. É ótimo ser imortal, menos quando você acorda todos os dias querendo morrer. Minha vida estava por um fio literalmente e todo dia eu sentia que morria um pouco. Minha barba estava grande e eu passava o dia preso no quarto bebendo whisky. Eu precisei enviar uma carta muito sucinta dizendo a Zeus que por motivos de Sofia, eu precisava beber alguma coisa que não fosse coca diet. Sofia. Eu sentia saudade dela quando olhava para qualquer coisa que meu olhos podiam ver, e quando eles estavam fechados, sonhava com ela. Sentia seu cheiro quando sentia qualquer perfume. Não tinha forças nem para brigar com os meio sangues. Eu não saia daquele quarto desde que ela foi embora naquele carro. Quando eu olhei para a Colina e vi Argo voltando com os campistas, por um segundo tive esperança de que ela desceria do carro e viria correndo em minha direção e nós ficaríamos juntos para a eternidade. Quando todas as crianças desceram e Argo guardou o carro, eu fechei as cortinas e elas permaneceram desse jeito. Quiron as vezes subia para contar algum assunto banal para me distrair, pelo menos até eu expulsar ele do meu quarto. Todo dia era a mesma coisa. Ficar bêbado, sentir falta dela, encontrar Quiron. Eu já não sabia quantas semanas tinham passado. Eu estava deitado na cama e então Afrodite entrou no meu quarto com a mão em cima de seus olhos.
—Dioniso estou entrando, eu bati na porta e você não atendeu.
—Afrodite! Você não bateu.
—Não bati né? Enfim, perai. Você está de pijama? E de barba! Di Immortalis.
Eu sentei na cama e olhei para ela.
—O que você faz aqui, Afrodite?
—Vim ver como você estava. Eu fico muito sozinha naquele templo. Resolvi visitar meus filhos e vim ver você.
—Ótimo. Quer whisky?
—Você está bebendo de novo?
—Relaxa, não é de uva. Zeus aceitou. Agora fala de verdade o que você veio fazer aqui.
—É sobre Sofia, Dioniso. Eu tive um sonho com ela. Eu não sei o que é, mas acho que algo aconteceu.
—Ela não quer me ver. Por que você não vai atrás dela?
—Por que você não vai atrás dela?
—Eu já disse. Ela não quer me ver.
—E nem a mim eu acho. Senão ela iria ter ficado no Olimpo.
—Me desculpe Afrodite se eu parecer rude, mas isso não teve nada a ver com você. Nem sempre tem a ver com você entende?
—Então você tem que tomar alguma atitude. Nos filmes de romance, o mocinho sempre vai atrás da amada quando ela vai embora.
Eu engoli o resto de whisky no copo e levantei o rosto para ela.
—Eu não sou o mocinho.
Eu não aguentaria mais ficar naquele quarto com a deusa do amor. Eu fugi para o único lugar onde eu ficava em paz, que ironicamente era o jardim de Afrodite. Aquele seria o último lugar onde ela me procuraria. Lembro de Sofia aqui, sentada no chão mexendo nas plantas, tomando suco, relaxada e meu coração apertou de saudade. Eu não iria aguentar aquilo por muito tempo. Eu não fiquei assim quando me separei de Ariadne. Acho que é isso que acontece então quando um coração é quebrado. Paro e penso que ela deve estar sentindo o mesmo. Ela não me deu tempo de explicar, mas a cena que ela viu mostrava claramente que eu a estava traindo. Eu não deixaria ela pensar aquilo de nós. Eu faria ela ouvir. Ela poderia até não ficar comigo, mas devia saber a verdade. Do mesmo jeito que eu apareci eu sumi daquele lugar cheio de lembranças.
Fale com o autor