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Andamos pelo gramado do pátio sem nos preocupar com as aulas seguintes.

- Dá pra acreditar ? Nós nos vimos no primeiro dia de aula e nem nos demos conta.

- Alguns chamam isso de destino. — Respondi — Mas as mesmas pessoas que falam de destino, acham que não passa de uma bobagem.

Ela se voltou para mim e ficamos parados, um encarando o outro.

- Sabe o que eu acho ?

- O quê ? — Perguntei curioso.

- Que nós somos a prova de que esse negócio de destino existe.

Concordei com um sorriso e ela sorriu de volta. O sinal soou ainda mais alto no pátio, deixando meus ouvidos surdos por um momento e tirando minha concentração dos olhos de Clarisse.

- Vem, quero te mostrar uma coisa.

Ela pegou minha mão e saímos correndo em direção ao prédio da faculdade.

- Espera, mas e a aula ?

- Ela pode esperar.

Nossos passos foram diminuindo o ritmo enquanto chegávamos perto de uma sala silenciosa. Clarisse parou a alguns metros da porta fechada, ela pegou a chave em seu bolso e antes de virar a maçaneta me disse.

- Feche os olhos — Obedeci, mas mantive-os secretamente pouco abertos. Ela cruzou os braços.

- Ethan, eu sei que ainda esta me enxergando — eu ri, e fechei-os totalmente. Estávamos parecendo dois adolescentes.

Ouvi a porta se abrir enquanto Clarisse pegava sutilmente uma de minhas mãos para me conduzir, senti um daqueles choques elétricos que normalmente se tem quando esta com alguém que gosta. Espera, eu estava gostando de Clarisse ?

- Pode abrir agora.

Estávamos na biblioteca da faculdade, era tão grande que de lá de dentro parecia ocupar quase o prédio inteiro. Havia prateleiras e livros para onde quer que você olhasse, com exceção do lugar vazio que julguei ser destinado a balconista e as mesas para que leitores pudessem desfrutar dos inúmeros livros de lá.

- É como o paraíso — Clarisse disse de olhos fechados, inalando o cheiro dos livros e abrindo um sorriso. Pensei em um comentário tão bom quanto o dela mas não tinha o costume de ler.

- É — Respondi, o que fez ela rir.

- Você nunca leu um livro né ? — Assenti. Clarisse sumiu entre as prateleiras e voltou com alguns livros em suas mãos. — Vem.

A acompanhei até a ala feita para crianças, pensei que ela me faria ler Pinóquio ou Peter Pan, esses livros para quem esta começando.

Ela mergulhou nas almofadas postas no chão e me chamou para seu lado, fui sem hesitar.

- Vai ter que fechar os olhos outra vez — Antes que eu pudesse fechar ela resmungou — De verdade

Estávamos ambos deitados quando ela começou a ler para mim, era como estar em um sonho, não só pelo fato de estar deitado ao lado de Clarisse, mas também porque cada parágrafo que ela lia para mim me levava a um mundo diferente, me fazendo sentir emoções por algo que não passava de ficção.

Quando terminou o primeiro capitulo eu abri os olhos e me virei para ela:

- Como o paraíso.

Naquele dia levei cinco livros para casa sem nem mesmo avisar a balconista. Clarisse havia me ensinado a escrever em mesas limpas, faltar aulas e roubar livros, mas nada disso se comparava ao que ela me fazia sentir quando estava por perto. Era como se minha mãe nunca tivesse morrido e nunca houvesse remorso nem por minha parte, nem pela do meu pai. Tudo ficava bem quando ela dava aquele seu sorriso, quando me dizia bons sonhos ao invés de boa noite, e quando me abraçava nos intervalos das aulas.

Quando cheguei na mesa em que eu e Clarisse compartilhávamos, havia algo escrito lá, pensei que iríamos parar depois de ter nos conhecido mas ela era cheia de surpresas.

O que achou de mim ?

A pergunta me fez ter uma nostalgia do dia anterior; enquanto caminhávamos juntos ate o ônibus calados por um tempo ela olhou para mim e suas bochechas ficaram avermelhadas.

- O que aconteceu ? — Perguntei mas ela desviou o olhar.

- É só que, as vezes, sou insegura — Eu ri porque não entendia como alguém como ela poderia ser insegura, então a abracei tentando fazer com que se sentisse melhor.

- Pra mim, você é perfeita.

Percorri minha mochila com a mão procurando por um lápis

Você me lembra um anjo

No corredor só trocamos um sorriso a distancia porque nao tivemos tempo de mais nada. Quando voltei para a aquela sala, Clarisse tinha me respondido:

Terrível comparação