Letras Na Minha Mesa
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— Ethan, eu realmente gosto de você, mas se me ligar outra vez ás cinco da manhã vai ouvir coisas que não vai gostar.
Ri do outro lado da linha, sem nenhum vestígio de sono, havia acordado em plena madrugada e enquanto encarava a noite cheia de estrelas, de alguma forma, sabia que o por do sol seria incrível, e seria ainda mais incrível se Clarisse estivesse do meu lado.
- Você me fez uma surpresa, agora é minha vez. Me encontre no prédio da faculdade em vinte minutos.
- Mas Ethan...
Desliguei. Sabia que seu esforço para acordar plenamente valeria a pena, e ela iria me agradecer. Coloquei alguns últimos alimentos em minha cesta que depois de horas limpando, finalmente tinha ficado novinha em folha. Era a cesta que eu, minha mãe e meu pai usávamos para nossos piqueniques quase diarios, quando meu pai desse falta dela no seu lugar de sempre, sem dúvida, iria se zangar, mas estou feliz demais para me importar agora.
Fui até minha bicicleta que já estava do lado de fora de minha simples casa, eu não sou o tipo de garoto que dirige desde os 17 anos de idade, talvez isso desanime Clarisse em relação a mim, mas não podiamos ir caminhando até os limites da cidade. Prendi a cesta na garupa e pedalei o mais rápido que pude até o local marcado, não me lembro da última vez que estive assim tão ancioso.
Eu a vi a quadras de distância, era impossível não notar Clarisse mesmo com tantas pessoas passando por ali. Fiquei aliviado por ela estar ali, quase nenhuma outra garota, no meu tempo de colegial, comparecia quando eu fazia algum plano.
- Você não me fez acordar cinco horas para dar uma volta de bicicleta. – Seus braços se cruzaram e seu rosto se fechou em um biquinho que me fez rir. Era possível que ela ficasse ainda mais linda nervosa ?
- Bom dia pra você também senhora emburradinha. – Ela curvou seus lábios em um pequeno sorriso e caminhou até mim.
- A sua sorte é que adoro andar de bicicleta. – Peguei um de seus braços mas não precisei puxa-la para se sentar em minha frente com as pernas de apenas um lado esperando que eu desse a partida, me preocupei com o provável, ela poderia cair a qualquer hora sentada ali, daquele jeito. Olhei para o céu que ainda estava escuro, tinhamos tempo. Por falta de espaço , ela colocou suas mãos geladas sobre as minhas no guidão e aquele choque elétrico me atingiu e eu sabia que não era por culpa de sua temperatura baixa. Peguei o embalo necessário e em poucos segundos o vento batia em nossos rostos, mas não violentamente, era sereno e forte na medida certa, aquele vento que fazia os meus cabelos curtos sairem do lugar e os de Clarisse voarem para trás, eu sabia que ela estava sorrindo. Ela tirou suas mãos das minhas, as ergueu para o infinito enquanto deitava sua cabeça no meu ombro e gritou. Eu ri como se não pudesse parar mais.
- Esqueci de pedir para que você fechasse seus olhos.
- Sabe de uma coisa ? Pode me ligar as cinco da manhã quantas vezes quiser. – Seu sorriso se alargou ainda mais, estava deslumbrada com o local tanto quanto eu. Era primavera, portanto, o verde da grama estava mais vívido do que de costume, as flores pareciam não se cansar de brotar porque havia muito mais do que da última vez que estive aqui. Ali, do alto da montanha, era perfeito para ver a noite virar dia.
- Tem mais — Disse estendendo para ela a cesta de café da manhã, ela correu até mim e agarrou a cesta me fazendo rir outra vez.
- É meu primeiro piquenique. — Foi sua resposta a minha risada
- Se for tão bom quanto a primeira vez que li um livro... — Relembrei nós dois, correndo para a biblioteca enquanto os outros corriam para as aulas dias atrás.
Pegamos o pano xadrez de dentro da cesta, o estendemos próximo a uma árvore sem motivo algum, e espalhamos os alimentos sobre ele.
Nós escolhemos primeiro o pão cortado em fatias e o pequeno pote de margarina. Clarisse espalhou a manteiga em seu pão não se preocupando com a quantidade, era bom finalmente encontrar uma garota que não vivia obcecada com a quantidade que comia.
- Não tenho habilidades com faca. – Confessei e ela me olhou como se fosse um louco.
- Como assim ? – Estava quase explodindo em risadas mas notei que se conteve. Não queria explicar quantas vezes tinha me cortado quando era criança e na adolescencia, sem querer e por querer, não que eu fosse depressivo, e não que eu não fosse, mas seria confuso explicar e não queria quebrar aquele clima, assim por dizer.
- Deixa pra lá, fico com as frutas.
- E não provar um tipico pão com manteiga ? Nem pensar ! Posso te ensinar se quiser.
- Você esta louca se pensa que vai me ensinar a passar manteiga no pão, não sou um menino de dez anos ! – Ela riu e deu a volta pelo pano estendido se sentando ao meu lado com aquela faca detestável na mão. – Não seja teimosa.
Ela estendeu o objeto para mim, eu o fitei pensando em milhões de recordações.
- Não podemos ficar presos ao passado, Ethan. – Ela falou como se já soubesse de tudo, como se lesse meus pensamentos, eu a olhei assustado, mas assim que seus olhos alcançaram os meus eu me permiti mergulhar naquela pequena escuridão que me fazia viajar e aquela sua frase dita a segundos atras pareceu evaporar da minha mente.
- E o livro ? Esta gostando ? É um dos meus preferidos. – A faca já não estava na sua mão, na verdade, parecia nunca ter estado nem mesmo na cesta.
- Para falar a verdade – disse com vergonha de concluir a frase – ainda não li.
- Porque ? Eu sei que é um romance mas...
- Mas eu queria que nós lessemos juntos – Senti orgulho da minha resposta assim que seus olhos brilharam – Como temos nossa mesa, nossa sala e agora nosso lugar, achei que seria legal se também tivessemos nosso livro.
Seus lábios se curvaram em um sorriso.
- Gosto disso. – Conclui.
- Do que ? – Ela me perguntou.
- De ter coisas para chamarmos de nossa.
Recolhemos tudo o que espalhamos pelo chão, caminhamos até o começo do morro daquela montanha e nos sentamos entre flores, se você me dissesse a um mês atrás que isso aconteceria, eu certamente não acreditaria.
Sua cabeça estava encostada em meu ombro e finalmente pude sentir o cheiro doce de seus cabelos que se misturavam com o das flores. Seus braços envolveram seu corpo, eu notei que ela estava com frio, então enquanto o sol finalmente aparecia e as nuvens tomavam seus formatos abituais, eu a abracei, mas não um abraço comum, aquele abraço me fez sentir diferente como se fosse apenas eu e ela em todo o mundo.
- É lindo – Disse me dando seu melhor sorriso, mas não cheio de vida como a minutos atras já que toda sua face trazia um expressão cansada. Eu me deitei no gramado a puxando para junto de mim, seus olhos já pesados se fecharam e ela adormeceu. Antes de me deixar cair no sono também, observei cada traço de Clarisse, nossos rostos estavam tão próximos que pude reparar em cada detalhe que compunha sua face, sorri para mim mesmo percebendo pela primeira vez no quanto estava feliz depois de anos. Se não a estivesse envolvendo em meus braços agora, estaria dando pulos como uma criança em uma cama elástica. Não queria adormecer, não queria que a escuridão de meus olhos ternamente fechados me tirassem desse momento perfeito, mas o sono me venceu.
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