Let your heart hold fast

1 01. Haven - The Walkmen


"Lembre-se, lembre-se

De tudo pelo que lutamos…"

Quando Barney acordou naquela manhã, ele esperava ouvir o choro alto de Ellie ou a cantoria descontrolada de sua empregada mexicana, Perlla. Porém foi o barulho estridente de seu celular vibrando e tocando ao som de "I Want To break free" da banda Queen, que o fez levantar, Barney rolou na cama até pegar seu celular no criado-mudo.

Ele esperava que fosse Lily gritando por ele estar atrasado para o recital de Daisy ou Ted gritando por ele estar atrasado para o recital Penny (era o mesmo recital, mas nenhum dos dois parecia entender isso), não importava, ele realmente esperava que fosse um dos seus amigos lhe atacando por algo fútil de suas vidas, porque pelos assim ele não iria sentir o que estava se sentindo naquele momento.

Seus passos eram apressados enquanto ele passava pelos corredores do hospital, branco demais para seu gosto com um cheiro que incomodava seu nariz e Katie fazia se sentir enjoado. Para afastar a incômoda sensação que lhe atacava a barriga, uma mistura de medo e agitação, ele pensou em Ellie, em sua filha de três meses que havia ficado com a vizinha, porque sua babá só chegaria depois das dez. Barney deixou sua mente vagar para sua lista de tarefas diárias, pelo menos assim aquele desespero que havia entalado em sua garganta amenizava. Ele chegou em frente ao quarto que a recepcionista havia indicado, o médico já para estar lhe esperando, seu rosto sério apenas aumentou o nervosismo dele.

—Sou Barney Stinson, nos falamos por telefone. O que houve com ela? — ele indagou olhando diretamente para dentro do quarto onde a bela mulher estava deitada na cama ainda inconsciente, ela parecia estar em um sono profundo, como uma princesa de um dos livros que ele lia para Ellie. Havia sido longos minutos entre a ligação e a chegada ao hospital, Barney não lembrava muito bem do caminho, apenas de olhar fixamente para o celular torcendo para que não houvesse uma segunda ligação. — É muito grave?

—Ainda não sabemos ao certo. A batida foi grave, ela teve alguns cortes no rosto e o braço esquerdo está quebrado. Mas não posso adiantar nada até ela acordar e passar por uma tomografia. — O médico explicou e então se aprofundou nos termos técnicos, Barney tentou focar no que ele falava, tentar compreender os termos médicos, porém seus olhos sempre se voltavam para Robin, sua Robin deitada na cama, os cortes em seu rosto, principalmente em sua bochecha.

Ele segurou as lágrimas em seus olhos pensando apenas no melhor. Mas merda! Era difícil quando a única mulher que você amou por toda sua vida jazia imóvel em uma cama de hospital.

—Você quer entrar? — o médico indagou parecendo notar que ele já não prestava atenção. Barney assentiu seguindo para dentro do quarto, ele então puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela. — Vou deixá-los a sós.

Barney não notou quando o médico saiu, ele apenas estendeu a mão e segurou a de Robin tomando cuidado para não mover a agulha do soro.

—Eu ainda sou contato de emergência. — ele sussurrou depois de algum tempo em silêncio. — Mesmo depois de tudo, eu ainda sou contato de emergência… mas você ainda é o meu. Então podemos concluir que nós dois somos péssimos em seguir em frente — Barney riu baixinho enquanto acariciava o dorso da mão dela com o dedão. Ele sabia muito bem que se ela estivesse acordada aquela proximidade seria estranha, tudo entre eles era estranho.

—Barney? — ele se virou buscando quem havia chamado seu nome e se surpreendeu ao encontrar Thea parada na porta do quarto, ela usava um jaleco branco por cima de um pijama azul e segurava uma prancheta. Às vezes Barney esquecia que a mãe de sua filha não era apenas uma mulher burra e excitada que ele conheceu em um bar, Thea era uma médica especializada e era muito boa no que fazia. — O que diabos você está fazendo aqui? Aí meu Deus! É Ellie? O que houve? Ela está bem?

Barney rapidamente soltou a mão de Robin e caminhou até a mulher que estava visivelmente nervosa. Ele conhecia Thea bem o suficiente para saber as paranóias que lhe ocupavam a mente.

—Ellie está bem. Eu a deixei com a senhora Russell, minha vizinha de baixo, aquela senhora fofa que te dá biscoito toda vez que te vê, lembra?

Thea assentiu parecendo um pouco mais aliviada, porém ainda confusa.

—O que você está fazendo aqui? No quarto da minha paciente? — ela questionou arqueando a sobrancelha. Barney colocou as mãos nos bolsos e rapidamente olhou para Robin, ele e Thea tinham quase que um acordo silencioso que consistia em não se meter na vida do outro, suas únicas interações eram apenas referentes a Ellie, então ele nunca teve que contar a ela sobre Robin e toda a história deles.

—Sua paciente? Cadê aquele outro médico?

—Nós trocamos. — Thea disse sem dar muita importância. — Como você conhece Robin Scherbatsky?

—Ela era minha amiga, minha melhor amiga, depois minha esposa e por fim minha ex-esposa. — ele disse forçando um sorriso ao se voltar para ela. Thea abriu a boca surpresa e coçou atrás da orelha, coisa que fazia quando estava incomodada.

—Você era marido de uma das maiores repórteres dos Estados Unidos e não me contou?

—Você nunca perguntou. — Barney deu de ombros e Thea revirou os olhos antes de bater nele com a prancheta. — Aí!

—Seu babaca. — ela grunhiu e Barney não entendeu porque ela estava tão irritada. — Eu não acredito que você foi casado com Robin Sparkles e nunca me disse?

—Espera, o quê?! — ele olhou para ela perplexo. Poucas pessoas na América sabiam que era Robin Sparkles e Barney podia muito bem contar nos dedos quem eram essas pessoas.

—Barney. — a voz já familiar, mas um tanto fraca e arrastada, o fez virar, Barney caminhou de volta para a cadeira que minutos antes ocupava. Robin abria os olhos com um certa dificuldade, ele estendeu a mão para pegar a dela e se surpreendeu quando ela lhe deu um pequeno sorriso.

—Está tudo bem. — ele sussurrou levando a mão dela até os lábios. — Vai ficar tudo bem.

—Onde eu estou? — ela indagou, seus olhos dançaram pelo quarto buscando ao familiar, por fim eles voltaram a se fixar em Barney.

—Em um hospital. Você sofreu um acidente há poucas horas. Um carro descontrolado bateu contra o seu táxi. — Thea disse adotando a postura de médica exemplar. — Sou a doutora Evans e vou cuidar do seu caso. Seu braço esquerdo está quebrado e houve algumas contusões, faremos alguns exames daqui a pouco para checar como você está por dentro, mas não se preocupe, tenho certeza que tudo estará ok.

Robin olhou para ela apenas por um segundo, a testa levemente franzida e olhar perdido. Barney a encarou sem conseguir desviar o olhar, os cortes em seu rosto ainda estavam vermelhos e pela gaze ele podia notar que ainda sangravam. A maquiadora dela teria um grande trabalho nos dias que se seguiriam.

—Eu estou com sede. — Robin falou apertando a mão de Barney, ele demorou um pouco para entender o que ela queria dizer. Era o código deles, quando queria ficar à sós diziam que estavam sede e saiam da sala, mas naquele momento ela não podia se mover, então o código para tirar Thea da sala.

—Thea, você poderia pegar um pouco de água para Robin? — ele pediu indicando com a cabeça a porta, ela semicerrou os olhos por alguns segundos antes de revirá-los e sair do quarto.

Robin soltou um longo suspiro se acomodando na cama, Barney a observou notando cada detalhe que havia mudado nos últimos quatro anos.

—Não era exatamente assim que eu queria começar isso. — Robin murmurou forçando o corpo para frente como se quisesse se sentar, porém Barney rapidamente a interrompeu segurando seus ombros e a colocando para baixo.

—Não se esforce, Scherbatsky. Você pode ter vivido metade da vida enfrentando ursos e seja lá o que se tem nas florestas do Canadá, mas você não é de ferro.

—Sinto como se tivesse sido atropelada por uma manada de búfalos raivosos da fazenda da minha tia. — ela brincou arrancando um sorriso dele.

—Eu fiquei surpreso por ainda ser seu contato de emergência. — Barney revelou se encostando na cadeira.

—Pensei que já tivéssemos falado sobre isso. Você é o meu contato de emergência e eu sou o seu.

—É, mas isso foi antes. Você deveria ter mudado.

Robin franziu a testa, ou pelo menos tentou antes de gemer de dor.

—Por que eu mudaria? Você é a primeira pessoa que eu quero ver depois de acordar. — ela disse dando um pequeno sorriso para ele. Foi a vez de Barney a encarar confuso. Ele não podia negar que da última vez que eles haviam se visto, há mais ou menos três meses, tinha rolado algo. Eles meio que não conseguiram tirar os olhos um do outro e até havia conversado um pouco, mas fora isso, nada parecia ter mudado tanto assim.

—Por que? — ele indagou, mesmo que por dentro quisesse dizer que também queria isso, mas optou por ficar calado.

—Porque sim. — ela afirmou o encarando com aquele olhar desconfiado que ela sempre tinha quando ele surgia com algo incrivelmente ridículo. — Barney, você está bem?

—Sim. — ele sussurrou sem tirar os olhos dela. Neste momento Thea resolveu entrar no quarto e agir de acordo com seu trabalho.

—Senhora Scherbatsky...

—Stinson. — Robin a interrompeu. — Um padre teve que morrer para eu ter esse sobrenome.

Thea a olhou intrigada antes de virar para Barney com as sobrancelhas arqueadas.

—História verdadeira. — ele afirmou antes de notar o que Robin havia dito. Barney encarou sua ex-esposa com os olhos arregalados e a expressão confusa. — Ah, Robin...?

—O quê, baby? — ela indagou com a voz doce reservada apenas para ele. Barney desviou o olhar dela para Thea que ainda encarava Robin com curiosidade.

—Senhora Sche… Stinson. — Thea rapidamente se corrigiu quando Robin abriu a boca para protestar. — Vou fazer algumas perguntas e espero que responda com sinceridade. — Robin assentiu mantendo o rosto calmo, Thea então se aproximou e levantou três dedos. — Quantos dedos tenho aqui?

—Três?

—Em que cidade você mora?

—New York City.

—Quando você nasceu?

—23 de Julho de 1980.

—Qual o seu nome?

—Robin Charles Scherbatsky Stinson. — ela disse com tanta convicção que Barney quase acreditou novamente.

—E que dia é hoje?

—26 de maio de 2013.

—Oh! — Barney exclamou. O ar ao seu redor pareceu denso, mal chegando ao seus pulmões.

—Sr. Stinson, podemos conversar um instante, lá fora? — Thea indagou dando um calmo sorriso a Robin. Barney assentiu se levantando da cadeira e seguindo-a para fora do quarto. — O que aconteceu dia 26 de maio de 2013?

—Foi um dia depois do nosso casamento. — ele disse curvando o corpo para frente e respirando profundamente.

—Robin sofreu algum acidente naquele dia?

—Não.

—Aconteceu algo de estranho?

—Não. Apenas saímos do hotel em Farhampton e voltamos para New York, para pegar nosso vôo. Nada aconteceu.

—Deve haver um motivo para Robin se lembrar apenas desse dia.

—Por que? O que aconteceu com ela? — ele indagou olhando para Robin que tinha seu olhar fixo nas janelas abertas observando a cidade.

—Com um diagnóstico superficial posso dizer que é amnésia anterógrada, devido o acidente ela perdeu parte da memória dos últimos sete anos.

—Quanto tempo isso vai durar? Quando ela vai recuperar a memória?

—Eu não sei ao certo, em algumas horas, em alguns dias, ou talvez nunca recupere. — Thea disse, Barney respirou fundo mais uma vez.

—Tudo bem. Tudo bem. Tudo bem. Eu posso lidar com isso. Eu posso e vou lidar com isso. — ele afirmou voltando para dentro quarto com Thea ao seu lado.

—Barney, onde está a minha aliança? — Robin indagou olhando para ele.

Barney a encarou por alguns segundos, observando a mulher de sua vida o encarar com aquele mesmo olhar com que ele havia sonhado durante os últimos anos. Então se virou e saiu apressado do quarto. Não. Ele não podia lidar com aquilo. Não naquele momento.