Let your heart hold fast

2 02. Boys Don't Cry - The Cure


"Eu tento rir disso tudo, escondendo as lágrimas em meus olhos. Pois garotos não choram."

Quando Robin acordou naquela manhã, ela esperava sentir o calor de Barney, o braço dele ao redor de sua cintura e respiração contra sua nuca. Porque era assim todas as manhãs nas últimas semanas e era assim que ela queria estar pelos próximos anos. Porém quando acordou e seu corpo começou a tomar consciência de tudo ao seu redor, foi que ela percebeu que não sabia onde estava. Ela chamou por Barney, porque esse foi seu primeiro instinto e suspirou aliviada quando ele se sentou ao seu lado e segurou sua mão. Então a médica apareceu e lhe explicou que ela tinha sofrido um acidente, mas Robin não se lembrava de ter sofrido nenhum acidente. Ela se lembrava de estar com Barney dentro do carro, olhar para ele por alguns segundos e pensar em como não queria que aquela sensação de felicidade passasse. Aquilo era o que ela lembrava. Mas não lembrava de estar em um táxi ou de sofrer um acidente.

Então a médica saiu e ela ficou com Barney, foi então que ela percebeu que algo estava errado. Barney não estava usando sua aliança e isso meio que a machucou, se ele tirou para dar em cima de alguma enfermeira, ela o mataria. Mas então ele começou a falar sobre os contatos de emergência e ela ficou mais confusa. Porém sua confusão foi deixada de lado quando a médica voltou e a chamou de sra. Scherbatsky, ela a corrigiu e isso resultou em um troca de olhares estranha entre Barney e a médica, então perguntas começaram e por fim Barney saiu acompanhado da médica.

Robin olhou para a janela imaginando o que estava acontecendo, porque Barney estava agindo estranho e o que a médica estava escondendo dela. Ela então baixou os olhos encarando seus dedos nus na mão esquerda, o gesso em seu braço só ia até metade de seus dedos cobrindo o lugar onde deveriam estar seus anéis. De repente ela ouviu os passos de Barney, ela os reconheceria em qualquer lugar, erguendo a cabeça para esperar o marido, então indagou.

—Barney, onde está minha aliança?

Ele a encarou por alguns segundos como se ela tivesse acabado de dizer que havia estragado seu terno favorito, então ele girou os calcanhares e saiu do quarto. Robin piscou atordoada com aquela súbita ação. A médica, alta, loira que parecia extremamente cansada, soltou um longo suspiro antes de seguir até ela.

—Você está bem?

—Meu corpo dói, minha cabeça dói e meu marido está fugindo como meu tio Ricky depois do nascimento da minha prima. Então acho que estou bem. — Robin deu de ombros, ou pelo menos tentou, cada músculo seu parecia ter sido esmagado como carne em açougue. — Normalmente ele não faz isso, eu juro. Acho que ele está abalado.

—Entendo. Vou chamar algumas enfermarias para lhe ajudar antes do exames. — a médica disse dando-lhe um olhar nervoso para ela. De repente Robin sentiu seu estômago revirar prevendo o pior.

—Você poderia chamar o idiota para mim. — ela pediu, a médica assentiu saindo do quarto. Robin tentou relaxar o corpo na posição que estava, porém, com o efeito dos remédios passando mais rápido do que ela queria, qualquer posição era dolorosa. Fechando os olhos ela tentou lembrar de como havia acontecido o acidente, Barney não estava machucado, então ele não estava com ela no momento em que aquilo aconteceu. Sua mente estava nublada, como o início do inverno no Canadá.

O pouco que Robin lembrava eram pequenos flashes, não acidente, mas de momentos da noite de seu casamento. A mão de Barney em sua cintura enquanto eles dançavam alguma música lenta. O sorriso de Lily quando Marshall disse algo gentil. O abraço apertado de Ted ao se despedir. E as notas do baixo antes da última música acabar. Era disso que ela lembrava ou era o que ela queria lembrar.

—Robin? — ela abriu os olhos encarando o homem alto de cabelos escuros e olhos castanhos parado na porta do quarto, ele tinha o olhar preocupada e suas roupas estavam amassadas. Robin o encarou com a testa franzida. Ele então se moveu até ela com um sorriso aliviado no rosto. — Grazie a Dio, você está bem. — ele sussurrou se inclinando sobre ela, Robin arregalou os olhos quando notou o que ele estava preste a fazer, então antes que os lábios dele se encontrassem com os seus, ela fechou a mão livre e com toda força que ainda lhe restava, e prevendo que a dor iria piorar, ela o socou. O homem cambaleou para trás segurando o nariz que parecia sangrar. — Porra Robin! Que merda é essa?

Ela o encarou em choque, sua mão doía tanto quanto sua cabeça. E ela já podia sentir as lágrimas escorrerem pelo seu rosto tocando as feridas abertas.

—Robin! — Barney adentrou no quarto, mas parou perto da porta ao notar o cara perto dela. Robin então o encarou quase suplicando, desta vez Barney não hesitou em correr até ela e abraçá-la. Robin envolveu o braço bom ao redor dele e fechou os sentindo o coração pulsar contra o dele.

[×××]

Barney tinha que lembrar que ela não era sua. Aquela não era mais sua Robin. Mesmo que tivesse o mesmo olhar apaixonado e o sorriso doce. Ela não era a Robin.

Ele deixou se guiar pelos instintos enquanto caminhava pelo corredor para longe do quarto, se sentou em uma das cadeiras de plástico que ficavam perto da recepção, colocou os cotovelos nos joelhos e segurou o rosto entre as mãos. Que merda de dia. Além de ter perdido o recital de suas sobrinhas, sua ex-esposa agora tinha amnésia.

—Barney? — ele nem precisava erguer os olhos para saber que Thea estava parada à sua frente, talvez com o rosto contorcido de raiva. — Você é um idiota, Stinson.

—Me conte uma novidade. — ele disse ironicamente.

—Robin, está assustada. E embora eu não a conheça bem, acho que isso não é normal para ela.

—Robin não se assusta fácil. Eu já a vi assustar ladrões e gritar com motoqueiros tatuados no meio da rua. Ela é a mulher mais corajosa que eu conheço. — Barney disse levantando a cabeça, seus olhos se fixaram na parede branca atrás de Thea, ele não queria olhar para ela agora.

—Mas mesmo estando assustada e confusa, ela ainda está mais preocupada com você do que consigo mesma. Eu não sei o que realmente aconteceu entre vocês nos últimos oito anos, mas você tem que superar isso e ajudá-la. Robin pode ser forte, mas quando descobrir o que aconteceu, quando descobrir que vocês não estão mais juntos, ela vai desabar.

Barney fechou os olhos mais uma vez pensando no que fazer a seguir. Sim, Robin podia ser forte. Mas ele a conhecia bem o suficiente para saber qual era o limite dela e que estava bem próximo de ser ultrapassado.

—Droga! — ele bufou se levantando da cadeira. — Ela deve ter me dado alguma droga canadense, porque é impossível o fato de eu simplesmente não conseguir me afastar.

—Essa droga se chama amor, querido. E você já está viciado há um bom tempo. — Thea disse sorrindo com uma certa arrogância. Barney revirou os olhos diante da frase ridícula dela, então se afastou e voltou pelo corredor até o quarto de Robin.

—Porra Robin! Que merda é essa? — o grito alto foi o suficiente para fazer Barney correr o resto dos metros que o separava do quarto, ele entrou esperando ver qualquer coisa, menos aquela cena. Um homem alto de cabelo escuro segurava o nariz com uma das mãos, o sangue escorria entre seus dedos manchando a manga de sua camisa social. Barney olhou para ele por alguns segundos antes de se voltar para Robin, ela tinha o olhar assustado e tremia levemente, tão vulnerável. Ele não hesitou em correr até ela e lhe tomar em seus braços. Robin soltou um suspiro aliviado apertando o tecido do terno dele entre os dedos.

Barney virou o rosto para Thea e silenciosamente pediu que ela tirasse o cara estranho do quarto. Ela assentiu e puxou o homem pelo braço falando algo para acalmá-lo. Barney acariciou o cabelo de Robin sussurrando palavras tranquilas e carinhosas, ela pareceu se acalmar, ou pelo menos havia parado de tremer.

—O que houve? — Barney indagou se sentando na cama ao lado dela, Robin piscou deixando as lágrimas escorrerem. Foram raras as vezes que ele havia visto Robin chorar, na maior parte do tempo eram apenas ameaças, com olhos avermelhados, mas nunca lágrimas de verdade. Ele podia contar nos dedos quantas vezes ela tinha chorado de verdade e quantas vezes a culpa havia sido dele.

—Esse cara entrou aqui e tentou me beijar. — ela disse ainda nervosa. Com o acidente e a falta de memória, aquela nova situação apenas aumentava o nervosismo deles. — Mas eu juro que não o beijei.

—Eu sei que não. — ele sussurrou beijando a testa dela, Robin segurou sua mão prevendo que ele se afastaria. — Eu vou resolver isso e já volto.

—Amor… — a voz dela saiu como um sussurro baixo, quase como se implorasse para ele ficar.. Barney se afastou dela seguindo para a porta do quarto. No corredor ele encontrou Thea e o cara estranho que segurava um chumaço de algodão contra o nariz.

—Barney, esse é Nicolas Marchese, o namorado da Robin. Ela estava indo buscar ele no aeroporto quando o acidente aconteceu. — Thea disse, Barney o encarou sem saber exatamente o que falar. Ele não esperava que Robin passasse o resto da vida solteira, claro que ela irá namorar e Robin merecia mais do que ninguém ser feliz. Mas ele não esperava que essa felicidade doesse tanto nele. — Já expliquei a situação para ele.

—Ela realmente não lembra de nada? — Nicolas indagou, sua voz anasalada até poderia soar engraçada se o momento não fosse trágico.

—Nada dos últimos oito anos.

—Então ela não lembra de mim.

Barney negou com a cabeça, o homem soltou um suspiro entristecido.

—Acho melhor voltar, Robin está nervosa e eu tenho que acalmá-la antes de contar a verdade. — ele disse fazendo Nicolas o encarar intrigado.

—Você é o ex-marido dela, Barney, não é? — Nicolas indagou semicerrando os olhos. — Você é o motivo dela evitar passar muito tempo em New York.

—E ela é o motivo pelo qual eu nunca mais assisti ao jornal. — Barney murmurou antes de dar meia-volta e entrar no quarto.

Robin olhava fixamente para a parede branca à sua frente, seus olhos se tornaram inquietos quando se voltaram para ele.

—Você vai me dizer o que está acontecendo ou eu terei que te bater para isso?

Barney soltou um suspiro antes de fechar a porta atrás de si e caminhar até a cama dela. Robin mordeu o lábio inferior parecendo notar que algo estava errado, ela sempre sabia quando algo estava fora do lugar.

—Robin, não estamos em 26 de maio de 2013. — ele disse, ela franziu a testa confusa. — Estamos em 17 de novembro de 2020.

—Do que você está falando?

—Por causa do acidente você perdeu a memória dos últimos oito anos.

—Barney, por mais que eu aprecie uma boa risada, não estou me sentindo muito bem para encarar essa sua brincadeira. — Robin falou encarando-o séria. — Então, pare com isso e me diga o que está acontecendo de verdade.

—Mas essa é a verdade Robin, você não está em 2013. E acredite, eu daria qualquer coisa para isso ser apenas uma brincadeira. — Barney segurou a mão dela meio hesitante. — Eu sinto muito.

Robin respirou fundo algumas vezes, Barney não soltou a mão dela em nenhum momento, nem mesmo quando ela se virou para ele e indagou.

—Onde está sua aliança?

Barney fechou os olhos por alguns segundos pensando em uma resposta adequada para a situação, porém, no fim apenas suspirou e disse.

—Eu não uso mais ela, porque não estamos mais juntos.