Let Me Take Care Of You
12 Capítulo 11 – Obrigado por me permitir te conhecer.
Notas iniciais

– Obrigado por me permitir te conhecer -
Sempre me considerei uma pessoa um pouco influenciável, mas Ryoko está me mostrando que eu sou bem mais do que eu imaginava. Mesmo que eu tente me convencer de que tudo o que me foi dito não passava de baboseiras, há uma parte em mim que insiste em dizer que tudo faz sentido e que é a verdade com a qual eu tenho que aprender a lidar. Sabe quando você é criança e está louca por um brinquedo, mas aí com o tempo, depois de muito olhá-lo através da vitrine da loja, alguém te convence de que ele não é pra você ou que você não é boa o suficiente para tê-lo? É mais ou menos assim que eu me sinto agora, como se eu não fosse boa o suficiente para encontrar minha mãe ou ter um romance algum dia.
Assim que saí daquela tenda sufocante me deparei com Dan e Juvia me esperando. Sinceramente, não sei dizer qual dos dois mantinha uma expressão mais ansiosa. Só posso dizer que cada uma ali era por um motivo.
Encarei o moreno por um tempo. Nenhum garoto nunca demonstrou interesse por mim sem que fosse uma brincadeira, por que com ele era diferente? Pensando melhor, quem disse que é diferente? Eu mal o conheço afinal.
Corei ao notar que ele me encarava de volta, mas por algum motivo não consegui desviar o olhar.
– E então, como foi? – Juvia me perguntou animada.
Pisquei um pouco para sair de meu transe.
– Nada de mais. – suspirei. – Você sabe que eu não lido muito bem com essas coisas.
– Então por que entrou? – dessa vez foi Dan a fazer uma pergunta.
– Desencargo de consciência talvez? – sorri sem graça.
Ele sorriu de volta. Tudo bem Dan, pode sorrir para mim o quanto você quiser.
– O que vocês pretendem fazer agora? – ele perguntou olhando especificadamente para mim.
– Não sei. O que você acha Juvia?
– Lanchar? – deu um sorrisinho de lado.
– Tirou as palavras da minha boca. – sorri.
– Vem conosco Dan-san?
– Claro.
– Você não tem que procurar pela Erza? – ele me olhou meio sem graça. – Não que eu esteja te expulsando. Quer dizer, eu só queria saber se você não quer ficar junto da sua prima, sabe? Afinal a gente nem se conhece direito e... – fui interrompida.
– Tudo bem Lu, calma, eu já entendi que você não está tentando me expulsar. – riu negando com a cabeça. – E a resposta é não. Eu vejo a Erza quase todos os dias, está bem mais legal aqui. Sem falar que você ainda está me devendo uma resposta. – piscou para mim.
Senti minha respiração falhar um pouquinho.
– Ok. – sorri sem graça.
– O que foi isso? – Juvia me abordou no momento em que o moreno tomou a dianteira, ficando um pouco na frente.
– Ele me chamou para ir ao cinema. – respondi baixinho.
– E você ainda não respondeu?! – perguntou aparentemente chocada.
A repreendi com o olhar.
– Eu não sei o que dizer.
– Simples, apenas diga que sim. – sorriu vitoriosa.
– Não sei. – falei incerta.
– Me diga um motivo para não aceitar.
– Me diga um para aceitar.
– Ele é lindo. – deu de ombros.
Tudo bem, eu esperava um motivo melhor do que esse.
– Vou pensar. – falei para encerrar o assunto.
– Vão mesmo ficar aí atrás cochichando sobre mim? – meus olhos dobraram de tamanho. – Vocês duas não são o que podemos chamar de discretas. – falou ao notar meu espanto.
E nesse momento eu quis me esconder debaixo da terra.
Dei um sorrisinho nervoso.
– Vamos logo lanchar? Tô morrendo de fome.
Passei por todos eles e corri em direção a uma das lanchonetes sem olhar para trás. Como eu ia encará-lo agora?
Juvia acha que eu devo aceitar seu convite, mas mal consigo falar com ele na presença de outras pessoas conhecidas, então imagine só como eu agiria em um ambiente estando sozinha com ele. Eu viraria uma estátua, com certeza. Seria muito constrangedor.
Depois de um tempo Juvia e Dan me alcançaram. Lanchamos juntos e conversamos sobre banalidades, mas lógico que Juvia não deixou de soltar indiretas sobre minha possível ida ao cinema.
“Dan-san, sabia que a Lucy adora filmes de aventura?” “Lembra, Lucy, daquele filme que você queria assistir? Continua em cartaz, mas acho que não por muito tempo.”. Azulada alcoviteira.
No fim das contas eu acabei esquecendo que estava em um parque de diversões, já que não fui em praticamente nenhum brinquedo, mas a noite em si foi muito boa.
É bom ver como quase tudo está indo bem na minha vida, pelo menos por enquanto.
– Não acredito que acabamos nos separando da Erza e da Levy. – Juvia disse em um suspiro.
– Nem eu. – falei observando o local.
Era uma lanchonete simples, com um cardápio pouco variado e apenas poucos clientes, porém muito aconchegante com uma decoração em azul escuro e branco.
A noite foi ótima, mas a esta altura já estava me dando sono.
– Gente, acho que já vou para casa. O dia foi muito cansativo. – dei um pequeno sorriso exausto e comecei a me levantar.
– Posso te levar em casa? – Dan imitou meu movimento.
– Não precisa, você já tem que levar a Erza.
– Ela pode dar um jeito e... – o interrompi.
– Seria ótimo se você me levasse só até a saída do parque. – não queria que ele deixasse Erza para trás, sem falar que não sei o que aconteceria caso ele me levasse.
– Tudo bem então. – sorriu sem graça.
– Nos vemos depois Juvia. – me aproximei para abraçá-la. – Diga para as meninas que não pude esperá-las, estou realmente muito cansada.
– Tudo bem, acho que elas entenderão. – me respondeu com um sorriso. – Até logo.
Eu e Dan fomos caminhando em silêncio, um silêncio nada confortável que me fazia querer falar sobre qualquer besteira possível só para extingui-lo.
– E então, já sabe se aceita ir ao cinema comigo?
– Não sei...
– Qual é Lulu? É só um cinema, juro que te devolvo inteira.
O olhei por uns segundos e notei que seus olhos brilhavam em expectativa.
– Tudo bem, você venceu.
– Ótimo! Me dá seu número?
Sorri timidamente e acabei por dar o bendito número.
Senti meu celular vibrar e um número desconhecido apareceu na tela do aparelho. Fiz o sinal de um minuto com o dedo indicador e atendi a ligação.
– Alô?
– Só para me certificar de que você havia me dado o número certo. – ouvi a voz de Dan soar pelo telefone e também ao meu lado.
Desliguei a ligação.
– Achou mesmo que eu fosse te dar o número errado?
– Nunca se sabe. – sorriu divertido.
Sorri junto.
– Então a gente se vê outra hora. Eu vou te ligar. – balançou o celular em sua mão.
– Tudo bem. – me aproximei e beijei sua bochecha. – A gente se vê. – acenei com a mão e me virei.
Comecei a refletir a respeito. Eu não tinha o hábito de dizer “não” para as pessoas, é algo com o qual eu nunca soube lidar. Espero não me arrepender de ter aceitado sair com o Dan. Tenho que perguntar sobre ele para Erza depois.
– Lucy?
Me virei ao ouvir meu nome e me surpreendi.
– Natsu. – não foi uma pergunta, era uma constatação. – O que faz aqui?
– Estava visitando uma pessoa.
– Hm...
– Só assim pra você falar comigo.
– O que?! – exagerei em minha reação. – Não sei do que você está falando.
– Tudo bem, podemos fingir que você não estava me ignorando por esses dias.
E lá estava o clima desconfortável que começava a se instalar.
– Quem era o moreno? – suas mãos estavam nos bolsos e ele olhava para qualquer lugar, menos para mim.
– Hã?
– O cara que não tirava o sorriso do rosto e ficava te encarando.
– Ah, você viu? – ele assentiu com a cabeça. – O nome dele é Dan. Primo da Erza.
– E vocês tem alguma coisa?
– Como assim?
Ele revirou os olhos e começou a andar. O acompanhei.
– Você e ele tem alguma coisa?
– Não do jeito que você está pensando. Quer dizer, ele me chamou para uma espécie de encontro, mas...
– Talvez você não devesse ir.
– E por que acha isso?
– Por causa do jeito que ele te olhava, tipo um psicopata.
– E quem você é pra estar me falando isso? – perguntei querendo soar brincalhona, porém cheia de curiosidade.
– Um amigo que não tem nada a ganhar com isso.
– Como nós podemos ser amigos se não sabemos nada um do outro? – perguntei com a sobrancelha arqueada. Nesse exato momento lembrei do pouco que ele sabia sobre o meu pai e resolvi me corrigir. – Ou quase nada.
– Ok, então, já que insiste... Me conte algo que nunca disse a ninguém. – falou enquanto colocava as mãos nos bolsos de sua calça jeans.
– Hã? Pra quê?
– Não quer que sejamos amigos? Então vamos começar pelos segredos. – sorriu abertamente.
Nunca me senti muito a vontade em compartilhar segredos, isso é algo com o qual eu sempre tive de lidar. Sempre preferi guardar as coisas para mim tanto para poupar os outros dos meus problemas quanto para preservar a mim mesma. Quando eu compartilho algo com alguém é porque realmente confio nessa pessoa e ainda não estou totalmente certa de que posso confiar em você, Natsu.
– Aceita fazer um desvio? – o fitei sem entender. – Só vamos caminhar um pouco por aquele parque, – apontou para uma direção – relaxa.
– Ok. – afirmei sem responder o que ele realmente queria.
Nem sabia por onde começar.
– Tudo bem, eu começo. – o rosado falou ao notar meu desconforto.
Suspirei aliviada.
– Eu tenho um gato de pelúcia e... – respirou fundo. – Eu só consigo dormir se estiver com ele. – olhou para os lados de forma desconfiada e com as bochechas coradas.
Não consegui conter minha surpresa.
– Tá brincando não é?
– Não. – revirou os olhos.
Tive que me conter para não sorrir.
– E como ele se chama?
– Happy. Ele é azul.
– Happy?
– Sim, Happy. – revirou os olhos novamente. – E eu sei exatamente o que você está tentando fazer. Já contei o meu, agora é a sua vez.
Comecei a mexer em meu cabelo demonstrando meu nervosismo.
Sobre o que eu falaria? Tinha que ser algo que ninguém soubesse. Mas o que?
– Calma, estou pensando.
– Não precisa ser realmente algo que ninguém saiba, pode ser algo que você só contaria para um amigo...
E lá estava uma indireta super direta que fez minha respiração acelerar. Com certeza ele queria falar sobre aquilo.
– Tem algumas coisas que eu não estou pronta para falar, mas... – mordi meu lábio inferior com força.
– Ei, – tocou meu braço de leve – isso era pra ser um momento de descontração e desabafo, e não de tortura. Não precisa falar nada se não quiser.
– Não! Eu quero, é só que... Por algum motivo eu... – o olhei nos olhos.
– Não consegue confiar em mim.
– Desculpe. – o lancei um sorriso triste.
– Tudo bem. – deu um sorriso fraco, bem diferente do que tinha dado mais cedo. – O que eu tenho que fazer pra você confiar em mim?
O fitei com curiosidade. Era tão importante assim para ele que eu lhe contasse a minha história? Não é algo bonito, contagiante ou motivador, e muito menos algo bom o suficiente para se falar em um passeio tranquilo pelo parque da cidade.
– Não sei. Não existe uma receita, sabe? É algo que simplesmente se conquista.
– Tudo bem Lucy, eu vou conquistar você. – me conquistar? Corei instantaneamente. – Quer dizer, conquistar sua confiança. Não pense besteiras. – deu uma tossida forçada e passou a mão por trás da nuca.
– Estarei esperando por isso. – sorri.
– Pode esperar.
– Então... Qual é a do Happy? – não consegui conter minha curiosidade.
Natsu sorriu ao parecer se lembrar de algo.
– O ganhei da minha mãe quando eu tinha 10 anos. Ela disse que ele era uma espécie de anjo da guarda que afastaria todos os meus pesadelos, então não nos desgrudamos desde então.
– E ela não acha estranha essa sua mania? Afinal você já está bem grandinho.
– Não vejo como. Ela morreu de câncer quando eu tinha 12 anos.
Fiquei sem palavras. Então ele sabia como era não ter uma mãe por perto.
– Eu sinto muito.
– Tudo bem, eu meio que já superei.
Nós dois sabemos que isso não é verdade, Natsu.
– Sabe... – respirei fundo. – Eu meio que sei como você se sente. – comecei a mexer na barra de meu vestido.
– Como?
– Os meus pais... Não estão mais juntos. – resolvi simplificar.
Ele parou de andar.
– E como isso poderia ser parecido? A minha mãe morreu Lucy, você entende isso? Não a vejo mais desde aquele dia e nunca mais a verei de novo. – seu olhos estavam opacos.
– A sua mãe quis ir embora?
– Lógico que não!
Fiquei alguns segundos em silêncio.
– Sabe a última vez em que eu vi minha mãe Natsu? – ele negou com a cabeça. Meus olhos começaram a ficar úmidos. – Eu tinha 6 anos. – seu olhar demonstrou surpresa. – E sabe do que mais? Ela quis partir e pelo visto escolheu nunca mais voltar. Realmente não tem como ser parecido.
Voltei a andar.
Sempre me reprimo a ponto de não usar a palavra “nunca” quando me refiro a minha mãe, sempre prefiro pensar que houve um contratempo e que este é o motivo para eu nunca tê-la visto de novo, mas meu lado racional grita em minha mente que ela pode ter escolhido não voltar, que ela pode nunca mais voltar.
Enxugo uma lágrima insistente que escorre pelo meu rosto.
Por que toda a vez em que eu falo com Natsu tudo termina em briga? Não sei se eu poderia realmente considerar isso que acabou de acontecer como uma briga, mas eu não conseguia mais ficar encarando-o frente a frente. Eu precisava de uma válvula de escape, por isso fugi.
– Lucy, espera! – ouvi a voz do rosado soando um pouco atrás de mim.
Parei meus movimentos.
– Já somos amigos, não vê? – se aproximava cada vez mais. – Eu te contei algo importante e você também. Discutimos como amigos e agora estamos fazendo as pazes.
Virei meu corpo lentamente e percebi que ele sorria, mas seu sorriso diminuiu ao encarar meus olhos vermelhos.
– Desculpa ok? Mesmo que seus pais fossem só divorciados eu não tinha o direito de julgar o seu sofrimento. Cada um sabe onde lhe aperta o sapato não é mesmo? – sorriu sem graça.
– Tudo bem. – dei um sorrisinho mínimo.
– Posso te levar em casa?
Parei um pouco para refletir. Meu pai estava sóbrio ultimamente, então acho que não teria problema.
– Ok, mas só dessa vez. – falei brincalhona.
Ele deu aquele sorriso incrivelmente radiante e se pôs ao meu lado.
Era engraçado ver como Natsu conseguia ser uma boa pessoa quando não estava tentando ser extremamente irritante. Suas piadas até que eram engraçadas – quando eu não era o alvo delas, lógico. Todo o caminho até minha casa passou voando. Quando dei por mim já estávamos na porta.
A janela do quarto do meu pai mostrava que a luz estava acesa, então ele provavelmente ainda estava acordado. Olhei para Natsu e vi que ele olhava para o mesmo local que eu, mas parecia estar viajando em pensamentos.
– É aqui. – falei.
– Eu sei, já vim aqui antes, lembra? Até te pus na cama. – sorriu maliciosamente após acordar de seu transe.
– E já até... – me contive antes de falar besteira.
A cena de nosso quase beijo viajava em minha mente.
– Até o que?
– Nada de mais. – dei um risinho nervoso.
Me olhou de forma desconfiada.
– Ok, então está entregue.
– Obrigada. – sorri e me inclinei para beijar seu rosto.
– Lucy! – ouvi a voz do meu pai vindo de dentro da casa. – Não fique conversando do lado de fora, está tarde.
– É o seu pai? – a voz do rosado pareceu um pouco fria.
– Sim, ele deve estar preocupado. – sorri sem graça.
Natsu sibilou algumas palavras que não consegui compreender, mas sinto que não foi nenhum elogio.
– Então a gente se vê depois.
– Ok, o mais breve possível. – sorriu, piscou para mim e se foi. E lá estava o Natsu de sempre.
– Ah, e Lucy... – me virei e o fitei curiosa. – Obrigado por me permitir te conhecer.
Um sorriso instantâneo se abriu em meus lábios.
Abri a porta e entrei em casa ainda com um sorriso bobo. Meu pai estava na cozinha com um copo vazio na mão.
– Se divertiu?
– Bastante. – falei sorrindo. Até mais do que eu esperava.
– E quem era o rapaz?
– Como você...?
– A voz e o olho mágico. – falou simplesmente.
– Um amigo que quis garantir que eu chegasse bem em casa.
– Bom rapaz. – ele sorriu.
Mal sabe o que ele pensa de você, papai.
– Vou para o meu quarto. Boa noite.
– Boa noite querida.
E, como eu suspeitava hoje mais cedo, minha noite foi realmente surpreendente.
Fale com o autor