Let Me Take Care Of You
13 Capítulo 12 – Me deixa cuidar de você.
Notas iniciais

– Me deixa cuidar de você -
Acordei me sentindo melhor do que nunca. Sentia meus músculos relaxados e era como se minha mente flutuasse. Não lembro a última vez em que me senti assim, mas era gostoso de sentir. Espreguicei-me lentamente e levantei de minha cama, realizando, em seguida, o ritual de dar bom dia à minha mãe. Tomei um banho quente e demorado para despertar meu corpo, me arrumei para ir ao colégio e desci, saltitante, os degraus da escada.
Há alguns dias atrás, se me dissessem que eu acordaria tão animada, com certeza eu desconfiaria e acharia que se tratava de uma piada de muito mau gosto, afinal, minhas manhãs não costumavam ser assim tão tranquilas, mas, aos poucos, eu sinto como se tudo estivesse mudando – e para melhor.
Acabo por me deparar com meu pai sentado em sua poltrona. Ele estava um pouco encolhido, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos cobrindo seu rosto. Aproximei-me lentamente e toquei em seu ombro.
– Pai, o senhor está bem? – levantou seu rosto e então pude fitar seu o quanto estava pálido.
– Sim, só um pouco enjoado. – me lançou um sorriso fraco.
Era a quarta vez nessa semana.
– Quer que eu prepare alguma coisa? Um copo de leite quente, talvez?
– Desculpe querida, mas não estou conseguindo comer nada.
– Eu posso ficar em casa se quiser, posso cuidar do senhor e-
– Nem pensar, você não vai perder um dia de aula só para cuidar de mim, além disso, tenho que ir trabalhar, aqueles investimentos não vão render sozinhos. – deu um sorriso amarelo. – Eu vou melhorar, prometo. – levantou-se e tocou em meu ombro, se dirigindo à cozinha.
Fiquei ali olhando enquanto ele se afastava. Há uns dias venho notado meu pai um pouco debilitado. Ele tem comido pouco, reclamado de algumas dores e sentido bastante enjoo. Não me considero uma expert em chutar diagnósticos – nem os meus próprios –, mas estou realmente preocupada. O fato é que ele está há um tempo sem beber e só ele sabe como essa abstinência está afetando seu corpo.
A partir daquele momento, segui meu caminho para a escola, aproveitando para refletir sobre a minha vida como um todo. Mesmo que negue, sei que a saúde do meu pai não anda muito bem. Já insisti diversas vezes para que ele vá ao médico, mas minhas insistências nunca surtem efeito. O estado de Jude me fez parar pra pensar em quanto a vida é efêmera e a saúde volúvel. Não gosto nem de imaginar o que seria de mim sem meu pai, mas é algo impossível de não ser feito. Provavelmente muitas coisas mudariam em minha vida, e não quero nem tentar pensar no quanto...
...
– Lu-chan, está tudo bem? – Levy, cochichando durante a aula, perguntava pela centésima vez naquele dia.
Natsu, que de uns tempos para cá tem sentado perto da gente, olhou em minha direção de forma interrogativa.
Não queria trazer mais preocupações para nenhum dos meus amigos. Às vezes eu me pego pensando se ser minha amiga vale mesmo a pena. Se eu fosse um investimento da bolsa de valores com certeza seria aquele de risco, onde muitas vezes você pode acabar investindo mais do que ganha. Não quero ser simplesmente aquela pessoa que traz os problemas, queria ser a pessoa a resolvê-los ou, pelo menos, que oferece mais do que ônus.
– Nada de mais, só uma dorzinha de cabeça que não me deixa em paz.
– Quer que eu vá com você até a enfermaria?
– Não precisa, sabe que não tomo remédio até que eu não tenha outra escolha. – sorri amarelo.
– Tudo bem, mas se precisar é só chamar.
– Obrigada.
A aula estava realmente um tédio, então era praticamente impossível conseguir me concentrar nela. Como uma técnica para não dormir, comecei a fazer desenhos aleatórios nas laterais da folha em que eu havia escrito o que estava no quadro – foi a única coisa produtiva que fiz durante todo este horário. Nunca fui muito boa com desenhos, até tentei me arriscar e desenhar um bonequinho de neve (o que seria considerado algo fácil para qualquer pessoa comum), mas ele acabou ficando parecido com o Mr. Hankey de South Park, ou seja, literalmente uma merda, então acabei por desistir.
Alguns minutos de puro tédio depois e o intervalo finalmente chegou. Enquanto caminhávamos, Erza, Levy e Juvia estavam conversando animadas sobre um filme de terror que havia passado na televisão ontem à noite – filme este que eu não havia assistido –, então não podemos dizer que eu estava necessariamente interessada no que elas falavam. Nunca gostei muito de assistir filmes de terror, como a minha mãe costumava falar, esse gênero de filme costuma atrair coisas nada agradáveis, digamos assim. Simplesmente não gosto de mexer com esses assuntos macabros e demoníacos.
De longe avisto Natsu conversando com um rapaz moreno e um loiro que não são de nossa sala, mas penso já os ter visto em algum lugar. É bom saber que ele fez alguns amigos, com certeza ser para sempre o novato da turma não deve ser nada bom.
– Natsu! – Levy chama sua atenção e acena com uma de suas mãos.
Mas no que é que essa baixinha está pensando? Agora ele está vindo pra cá!
Não que eu tenha algo contra ele, todos sabem que não. Na verdade, foi muito bom descobrir um pouco mais sobre sua vida naquele dia enquanto caminhávamos. Depois daquilo não temos conversado muito. Eu posso estar aqui em presença, mas meu pensamento sempre volta para o meu pai e para sua saúde, então não ando muito ativa na escola ultimamente. O rosado às vezes senta perto de mim e das meninas e começa a falar palhaçadas que me fazem rir, mas, infelizmente, a minha timidez ainda não me permite ser eu mesma perto dele, então são raras as vezes em que conversamos diretamente, mesmo que ele esteja sempre por perto.
– E ai?! – seu sorriso está grandioso como sempre.
– Por que não sentamos todos juntos? Você poderia chamar seus amigos e nos reuniríamos naquela mesa ali. – McGarden apontou para uma mesa na lateral do refeitório.
Sinceramente, não estou entendendo qual é a dela.
– Por mim tudo bem, já volto.
– O que deu em você? – por incrível que pareça, Juvia foi a primeira a falar.
– Como assim? Só estou tentando fazer as coisas acontecerem. – respondeu enquanto caminhávamos em direção à mesa.
Não consegui conter meu espanto. A Levy está interessada no Natsu?
– Calma Lu-chan. – falou ao perceber meus olhos arregalados. – Estava falando da nossa amiga Juvia aqui. – olhou maliciosamente em sua direção.
– Perdi alguma coisa?
– A Juvia está interessada no moreno que gosta de tirar a roupa. – Erza respondeu.
Olhei na direção dos rapazes, que agora vinham ao nosso encontro. Agora eu lembrei de onde conhecia o moreno! Acho que já devo ter presenciado uns dos momentos em que minha amiga o seca com olhares indiscretos, mas nunca pensei que Levy fosse ser tão rápida em sua missão cupido.
– Por favor, não me façam passar vergonha.
Pobre Juvia, estava exalando timidez e vergonha pelos poros.
– Falou a pessoa que estava tentando me jogar para cima do Dan. – respondi revirando os olhos.
– Por falar nisso, ele não para de falar de você. – Erza me encarou com um sorriso malicioso brincando em seus lábios.
– Quem não para de falar de quem? – Natsu, como sempre, chegando nos momentos menos apropriados.
– O primo da Erza que está apaixonado pela Lu. – Levy respondeu antes que eu pudesse processar.
O rosado apenas acenou em concordância enquanto olhava em minha direção.
Tive que desviar o olhar.
– Então, esses são meus amigos, Gray e Sting. – apontou para os rapazes, que receberam um aceno de cada uma de nós enquanto se sentavam. – E essas são Levy, Juvia, Erza e Lucy.
– Prazer. – respondi educadamente.
– Então você é a Lu? – o loiro, ou melhor, Sting, perguntou. – Agora eu entendo o motivo do cara estar apaixonado. – sorriu galanteador.
Não consegui deixar de corar.
– Obrigada, eu acho...
– Então... Gray, não é? – Levy se dirigiu ao moreno.
Pude ouvir o momento em que o coração de Juvia parou de bater.
Ele apenas confirmou com a cabeça. Não parece ser do tipo falador.
– Você é comprometido?
Juro que se estivesse bebendo alguma coisa teria cuspido tudo na cara do rosado sentado à minha frente.
– Uau, direta. – Sting deu uma gargalhada.
– Não.
– Que ótimo! A Juvia também não é. – apontou para a azulada sentada ao seu lado.
Coitada, estava praticamente petrificada em sua cadeira.
– Legal. – o moreno respondeu se fazendo de desentendido.
– Com licença. – Juvia simplesmente levantou e foi embora a passos rápidos.
Lancei um olhar de repreensão para McGarden e fui atrás dela. Senti alguém vindo atrás de mim, mas não me virei para ver quem era.
– Juvia, espera!
A azulada entrou no banheiro e se trancou em uma das cabines.
– Abre, por favor.
– Não. Eu nunca mais vou conseguir olhar na cara dele. Que vergonha!
– Calma, aposto que ele levou apenas na brincadeira.
– Realmente, uma brincadeira com a minha cara. Não acredito que a Levy fez isso.
– Ela só queria te ajudar.
– E ajudou. Nunca mais conto nada pra ela.
– Juvia... Abre a porta.
– Não vou abrir, desiste. Só quero ficar um tempo sozinha.
– Tem certeza?
– Sim.
– Tudo bem, mas, se precisar de alguma coisa, me manda uma mensagem e eu venho correndo, ok?
– Ok.
Suspirei derrotada e saí do banheiro.
– Como é que ela está? – uma voz soa atrás de mim.
– Céus! Você quer me matar do coração? – mantenho minha mão em meu peito enquanto respiro fundo.
– Foi mal. – ele começa a rir.
– Ela vai ficar bem, só precisa de um tempo sozinha. Não sei o que a Levy tinha na cabeça pra fazer uma coisa dessas.
– Ela provavelmente só queria ajudar. Até eu já tinha notado os olhares da Juvia pro Gray.
E então eu me pergunto, por que só eu ainda não tinha me dado conta disso? Tudo bem que cheguei a notar uma certa vez, mas não consegui dar a devida importância. Talvez eu estivesse muito ocupada pensando nos problemas que tenho em casa para notar que uma de minhas melhores amigas está finalmente interessada em alguém.
– Mas não foi certo ter feito as coisas dessa maneira. A Levy sabe como a Juvia é.
– Foi com a melhor das intenções, relaxa.
Olhei para ele de forma desconfiada.
– Desde quando você e a Levy se tornaram tão amigos?
– Há alguns dias. Lembra que nos sentamos sempre juntos? – pergunta como se eu fosse de outro planeta.
Lógico que eu lembro, só não imaginava que a amizade deles já tinha evoluído a ponto de um defender o outro desta forma.
– Hmm... – me limito a poucas palavras. – Ok, vou indo.
– Vou com você. – começou a me seguir.
– Mas você nem sabe pra onde eu vou.
– Eu descubro no caminho.
– E se eu estiver indo pro banheiro? Você não poderia entrar.
– Então você está pior do que eu imaginava. O banheiro é para lá. Por sinal, é o local onde você estava a menos de dois minutos. Tá com dor de barriga, por acaso? – seu olhar é divertido.
– Claro que não! – coro com a minha estupidez.
– Eu já te disse que queria ficar perto de você, não importa se você converse comigo ou não, eu falo por nós dois. – sorriu de orelha a orelha.
Meu rosto já estava começando a se acostumar com o tom avermelhado.
Não sabia como responder, então apenas dei um sorriso que considerei descente e caminhei em direção à grama que ficava um pouco depois do refeitório. Era uma espécie de jardim muito bem cuidado que possuía algumas árvores e uma pequena fonte. Para o meu azar, era o lugar onde alguns namorados vinham para se pegar, mas esta nunca foi minha intenção. Aqui é o lugar em que consigo colocar meus pensamentos em ordem.
– Então, o que está havendo contigo?
– Cadê aquela história de que você fala por nós dois?
– Aquilo era só pra você me deixar ficar. Agora desembucha.
Respirei fundo.
– Não é nada de mais.
– Então me conta.
– Não sei se devo. – desviei o olhar.
– E por que não? Nós somos amigos, lembra?
Suas palavras me fazem lembrar naquele dia no parque da cidade e um sorriso nostálgico se abre em meus lábios.
– É sobre o meu pai...
– Ele... Te fez alguma coisa? – posso perceber a desconfiança e raiva contida por trás de suas íris esverdeadas.
– Não, não foi nada disso. – falo na defensiva. – Ele não é daquele jeito sempre. – encaro a grama ao redor dos meus pés.
– Então você confessa que há um problema?
– Você é psicólogo por acaso?!
– Não. – é sua vez de desviar o olhar.
– Desculpa, eu sei que você só quer ajudar.
– Então...
– Se eu te disser a verdade você me conta o que ouviu a meu respeito?
Não sei o motivo, mas eu realmente me importo com o que Natsu pensa de mim. Não sei concretamente quais são os boatos, mas sempre tive curiosidade sobre eles.
– Negócio fechado. – estendeu sua mão para que eu apertasse. O fiz com um sorriso tímido.
– Promete que não vai me julgar? – sinto meus olhos começarem a marejar. – E nem ter raiva de mim?
Sei que aos olhos dos outros posso parecer fraca pela forma com que suporto o comportamento do meu pai. O que essa garota estúpida tem na cabeça pra aguentar o comportamento agressivo do pai? Por que simplesmente não sai de casa e vive uma vida feliz? A resposta é simples, eu simplesmente não posso.
Natsu mantém uma feição confusa, provavelmente sem entender do que eu estou falando.
– Prometo. Eu nunca teria raiva de você. – uma de suas mãos vai para o meu ombro, onde ele faz movimentos circulares com seu polegar.
Era o que eu precisava ouvir.
– Como eu já te disse, minha mãe saiu de casa quando eu tinha seis anos. – Natsu confirma com a cabeça. – O que eu não te falei é como a minha vida mudou depois disso. – respiro fundo, não quero começar a chorar aqui.
– Tudo bem, você não precisa contar.
– Não, eu quero. – respiro fundo novamente. – Eu preciso.
– Ok. – ele pega a minha mão e fica segurando-a firme, como se quisesse demonstrar que estava ali comigo.
– Depois que ela foi embora, meu pai virou outra pessoa. Começou a beber praticamente todos os dias, quase perdeu o emprego diversas vezes e, principalmente, começou a ter alguns comportamentos agressivos. – os olhos de Natsu se arregalaram. Fechei meus olhos e pude rever uma das cenas que atormenta meus pesadelos, aquela que resultou nas cicatrizes que mantenho escondidas de todos. Um arrepio correu pela minha espinha.
– Não precisava ter exatamente um motivo concreto, qualquer desentendimento, palavra dita na hora errada ou então até um objeto fora de lugar já era motivo para... Você sabe... – abri meus olhos e percebi que ele entendia.
– Ele batia em você. – era uma constatação.
– Sim. Com o tempo eu já estava acostumada com a dor física. O que mais me machucava era ver o monstro com quem eu morava, o monstro que havia tomado o lugar do meu pai.
– Então quer dizer que no primeiro dia de aula, quando você apareceu aqui daquele jeito...
Confirmei com a cabeça.
Natsu fechou os olhos e respirou pesadamente.
– Mas ele nem sempre é daquele jeito! De uns tempos pra cá ele tem se mantido sóbrio, eu juro! Está um pouco debilitado, mas eu consigo sentir que meu pai está voltando, aos poucos, mas está voltando. Eu tenho fé que um dia ele vai se recuperar.
– E você nunca pensou em sair de casa?
– Claro que não! Quem iria cuidar dele? Ele tem cura, Natsu. Ele ainda pode voltar a ser o pai carinhoso que conheci.
– Ele bateu em você de novo? Por isso que você está assim?
– Não! Ele está com a saúde debilitada, só estou preocupada, só isso. Ele está sendo legal comigo e tem se preocupado...
– Por quanto tempo, Lucy? Ele pode estar bonzinho agora, mas, por quanto tempo você acha que isso vai durar? – simplesmente não consegui responder. Essa é uma pergunta que a parte mais sombria de mim grita em minha mente de vez em quando. Prefiro simplesmente ter fé de que vai durar. – Isso já tinha acontecido antes? Ele já tinha melhorado antes?
Novamente não respondi.
– Já tinha, não é? E então você se alegrou, pensando que tudo ficaria bem, até que em um belo dia ele voltou a ser esse monstro que você tanto teme.
Só agora me dou conta de que estou chorando.
– Você prometeu...
– Eu sei, me desculpe. – Natsu me puxa para um abraço e eu não tenho forças para negar. – Agora você é que vai ter que me prometer uma coisa.
– O que? – minhas mãos estão em torno de sua cintura e minha cabeça está apoiada em seu peito. Consigo sentir as batidas do seu coração.
– Promete que da próxima vez em que ele for agressivo com você, você vai me contar.
Meus músculos ficam tensos.
Eu posso prometer isso? O que Natsu faria se soubesse?
É tão humilhante ter que demonstrar a minha fraqueza desse jeito, não só a minha, mas também a do meu pai. Sua fraqueza em não conseguir cumprir a promessa que ele me faz sempre que fica sóbrio após uma crise de bebedeira.
– Por favor, Lucy, me deixa cuidar de você... Eu preciso cuidar de você.
Ele intensifica um pouco o aperto ao redor da minha cintura.
– Tudo bem, eu prometo.
Natsu suspira e sinto seus músculos relaxarem. Era tão importante assim que eu aceitasse sua ajuda?
– Fico feliz que você tenha confiado em mim. – me dá um beijo na testa que faz com que eu desperte do transe em que me encontrava. Delicadamente, mesmo que contra minha vontade, saio de seu abraço.
– Acho que você meio que fez por merecer. – dou um sorriso sem graça enquanto enxugo minhas lágrimas.
– Você também. E é por isso que eu tenho que te mostrar uma coisa.
Fale com o autor