Let Me Take Care Of You
11 Parte x – throwing away inhibitions
Notas iniciais
Greg submergiu na água quente com um gemido satisfeito. Seus músculos protestavam depois do esforço feito durante a tarde, mas ele sabia que sua resistência melhoraria com o passar dos dias; Terry era durão, mas essa era a melhor maneira de lidar com um velho policial preguiçoso como ele. Ele estava aspirando o vapor perfumado, sentindo-se agradavelmente relaxado, quando um sopro de ar frio entrou no banheiro, acompanhado da voz de Mycroft, estranhamente insegura.
– Eu realmente espero que você tenha analisado corretamente as proporções desta banheira, Gregory. – Greg virou a cabeça com um sorriso preguiçoso, mas sua resposta morrer antes de atingir-lhe os lábios. Mycroft estava parado no centro do cômodo, os braços cruzados atrás das costas, vestindo um roupão atoalhado de banho como se este fosse uma armadura. Ele respirou fundo e sentou-se na borda larga da banheira, tomando a mão de Greg entre as suas. – Você... você se importa de me ouvir por alguns momentos, meu querido, sem me interromper? Eu temo que, se eu parar de falar, não consiga mais reunir a coragem necessária. – Greg puxou as mãos unidas e depositou um beijo nos nós dos dedos de Mycroft, assentindo em silêncio. O político lutou um instante para reunir seus pensamentos, ato que espantou seu parceiro, antes de começar a falar.
– Eu nunca fui o que comumente se chamaria de uma criança bonita. Meus cabelos eram agressivamente vermelhos, meu nariz sempre foi mais longo do que seria corretamente proporcional ao meu rosto, e eu passei minha infância e a maior parte da minha adolescência lutando com meu peso. Minha mãe não tinha nenhum problema em criticar abertamente a minha aparência; ela estava sempre me colocando em dietas rigorosas, programas de exercício, e culpando meu pai pelo aparente desastre genético que viera do lado dele da família. – Greg sentiu um nó formar-se em sua garganta diante da calma com que Mycroft relatara o que, para ele, parecia pura crueldade com uma criança cuja autoestima estava em processo de formação – Então, Sherlock nasceu... um bebê lindo, e ia ficando mais bonito a medida que crescia. A pressão de minha mãe em relação ao meu peso só aumentava, especialmente porque Sherlock sempre foi naturalmente magro. Você consegue imaginar, meu querido, o que era para uma criança de doze anos sentir um fardo insuportável de culpa a cada vez que comia um pedacinho de chocolate depois do almoço, ou quando comia uma porção a mais de purê de batatas no jantar? Eu passei a acreditar firmemente que a minha aparência era revoltante e que, por causa disso, eu não era digno de afeto. – Mycroft parou um instante, apertando de leve a mão de Greg entre as suas.
– My... – Greg começou, mas Mycroft acenou com a cabeça, pedindo-lhe silêncio.
– Quando eu entrei na Universidade, todas as dietas malucas pareciam ter funcionado... ou, mais provavelmente, meu corpo finalmente estava adaptando-se ao final do meu estirão de crescimento. De qualquer forma, o dano estava feito em minha mente, e era irreversível. Eu me olhava no espelho e me via gordo, desengonçado, repugnante. Quando alguém se aproximava de mim, eu sempre acreditava que a pessoa tinha algum motivo oculto. Afinal, quem iria querer ficar comigo por mera vontade, por puro desejo? Se eu estava em uma casa noturna, provavelmente o outro queria bebidas de graça; se fosse uma festa da faculdade ou um evento acadêmico, queria ajuda com alguma matéria; e se fosse um dos terríveis eventos da alta sociedade a que mamãe me obrigava a ir, certamente estava tentando comprar as boas graças da minha família. Não estou afirmando que esses eram os motivos destas pessoas, Gregory; mas era assim que eu, com minha autoimagem distorcida, via as coisas.
Mycroft ficou em silêncio por alguns instantes, esforçando-se para dominar a onda de emoções negativas que aquelas memórias lhe traziam. Greg mexeu-se de leve, e não conseguiu conter um arrepio; o banho esfriara depressa.
– My, você não quer terminar essa conversa no quarto? — ele falou, sobressaltando Mycroft — A água está um pouco fria pro meu gosto. — o rosto do político tingiu-se de vermelho, e ele apressou-se em levantar e ajudar o amante a erguer-se da banheira.
– Eu sinto muito, meu querido. Eu não queria deixá-lo desconfortável, perdão. — ele enrolou Greg em uma toalha, enxugando-o com delicadeza, e enrolou-o em roupão atoalhado semelhante ao que vestia, tomando-lhe o braço e guiando-o para fora do banheiro — Eu… acho melhor nós…
– Nem pense nisso. — Greg atalhou — Se adiarmos, você nunca mais vai reunir coragem suficiente, My. — ele abriu a porta do quarto e mancou até a cama, sentando-se com as costas apoiadas na cabeceira. — Vamos, sente aqui do meu lado e deixe todo esse veneno escorrer pra fora de você, amor.
Mycroft pegou uma colcha que jazia sobre a poltrona no canto do quarto e acomodou-se ao lado de Greg, cobrindo aos dois. O policial ficou observando enquanto o amante, de cabeça baixa, brincava com a barra do cobertor. Ele nunca vira Mycroft tão frágil, tão… vulnerável. Todas as máscaras haviam caído, e ele conseguia ver a dor crua por trás dos olhos azuis, o medo de uma possível rejeição. Ele passou o braço pelos ombros tensos do político e puxou a cabeça dele para descansar contra seu peito, beijando-lhe os cabelos avermelhados de uma maneira que esperava ser encorajadora.
– O primeiro homem com quem me envolvi — Mycroft recomeçou, numa voz baixa que não se assemelhava nem um pouco a do homem acostumado a equilibrar o destino do Mundo Livre em suas mãos diariamente. — era o filho mais velho de uma família de nossas relações. Se eu lhe falasse o nome, você certamente reconheceria, meu querido. Eu tinha dezessete anos, ele tinha dezenove. Eu terminara o primeiro ano da Universidade, e fora passar as férias em casa. Certa noite, meu pai estava oferecendo uma festa para um colega de trabalho que estava se aposentando, e diversas famílias conhecidas estavam lá, com seus filhos e filhas mimetizando o comportamento dos pais, travando relações e costurando alianças. Eu não suportava esse tipo de festas, normalmente, porque esses garotos… argh. Tão entediantes, tão… unidimensionais. Mas eu estava no final do meu estirão de crescimento e perdera uma grande quantidade de peso, então estava com um desejo de me mostrar, como um jovem pavão. — Greg sorriu, ao pensar em um jovem Mycroft, de terno completo, exercitando sua habilidade de enrolar as mentes mais fracas em torno do seu mindinho. — Este rapaz… vamos chamá-lo de "Jeff", aproximou-se de mim e fez algum elogio bobo aos meus olhos, ou algo clichê assim. Ele era, sem sombra de dúvida, o jovem mais bonito naquela festa. E eu, tolo como todo adolescente, senti-me envaidecido com o fato de que aquele rapaz tão belo tivesse voltado suas atenções para mim. — Mycroft soltou uma risada breve e cansada. — Muito mais tarde, eu descobri que ele usara o mesmo truque em praticamente todos os garotos da festa, tentando fisgar alguém facilmente impressionável e manipulável. Ele passou a noite inteira me cortejando, dizendo coisas que, mesmo aos dezessete anos, eu sabia serem rematadas tolices. Mas, ah, o bom senso pode ser superado pelo desejo de apreciação, de afeto; nem mesmo eu sou imune à galanteria. — Mycroft respirou fundo, e tomou a mão esquerda de Greg com delicadeza — No dia seguinte, ele me telefonou, e isso tornou-se um hábito diário, até que ele me convidou para jantar em um final de semana. E foi aquela mesma coisa… elogios vazio, galanteios ensaiados, e nem um minuto inteiro de conversa aproveitável. — Greg acariciou os cabelos de Mycroft com o nariz.
– Nem todos podem ser conversadores brilhantes como você, amor. — ele murmurou. Mycroft ergueu o rosto, olhando-o com carinho.
– Você pode. Em todos esses anos que nos conhecemos, Gregory, nós nunca ficamos sem assunto. — ele beijou de leve os lábios de Greg antes de prosseguir. — Em todo o caso, ele era arrogante, só sabia falar de esportes e negócios, não gostava de ler ou de ouvir música, mas… e esse é um mas importante, porque eu acabei pautando minha vida amorosa a partir disso… ele parecia interessado em mim, e ele era belo. Para um jovem de dezessete anos, desesperado por um pouco de afeto e com os hormônios rugindo, isso era suficiente para anular qualquer vestígio de consciência que pudesse me perturbar. Nós saímos para jantar mais duas vezes antes que ele me beijasse pela primeira vez… e mais duas vezes depois disso antes que ele me convidasse para "tomar um chá" no apartamento dele. — as mãos de Mycroft tensionaram-se na barra da colcha por um instante, enquanto ele organizava seus pensamentos em silêncio. — A minha primeira vez foi… decepcionante, para dizer o mínimo. Eu esperava que 'Jeff' tivesse um pouco mais de experiência e, quando revelei a ele que aquela era a minha primeira vez, esperava que ele demonstrasse um pouco mais de carinho e cuidado comigo… que ele demonstrasse com ações a ternura e a afeição que ele gostava de apregoar. Ao invés disso, ele fez um comentário bastante grosseiro, que eu não vou repetir. — Greg sentiu uma ardência no estômago e um gosto ruim na boca, e apenas abraçou Mycroft com mais força — Depois de tantos anos lutando com meu peso e com meus problemas de autoimagem, eu finalmente tinha um pouco de orgulho do meu corpo, e me despi na frente dele quase sem temor, e ele… não disse nada. Ao invés disso, ele apagou a luz. Eu fiquei confuso, mas pensei que, talvez, ele preferisse assim, talvez fosse tímido, talvez achasse mais romântico. Ah, as bobagens em que acreditamos na juventude, meu querido… — o político ficou em silêncio por mais um momento, lutando com as memórias — Não houve qualquer espécie de preliminares, e ele não fazia ideia de como preparar adequadamente um parceiro. Houve muita dor e pouco, pouquíssimo prazer. Eu fiquei elaborando desculpas em minha mente sobre como a primeira vez era para ser desconfortável, e que com o tempo nós nos acostumaríamos com o corpo um do outro e aprenderíamos a nos dar prazer… que o importante em si não era o ato, e sim a intimidade que ele proporcionava.
– Nesse ponto, você estava certo, amor. — Greg murmurou, acariciando o ombro de Mycroft. — Mas não parece que ele fosse muito melhor neste departamento. Acertei? — Mycroft soltou uma risada desprovida de humor.
– Bem no alvo, meu querido. Após ele ter se recuperado do próprio orgasmo, ele voltou-se para mim e disse "Venha, vou levá-lo para casa". Eu sinceramente esperara que ele pedisse que eu passasse a noite com ele. Fiquei devastado, mas fiz o possível para não demonstrar... fiquei deitado no meu quarto, insone, me culpando por isso o resto da madrugada. Eu não era atraente o suficiente, não era belo o suficiente… não era magro o suficiente. Todo a pouca autoestima que eu recuperara foi-se em uma questão de horas. Imagine a minha surpresa, e a minha alegria, quando ele ligou para mim no dia seguinte, querendo sair novamente no próximo final de semana? Eu passei aquela semana inteira praticamente em jejum, fazendo exercícios como um maníaco e, me envergonho de dizer, colocando para fora cada pouco de comida que eu me forçava a ingerir na frente de Sherlock e de meus pais, na tentativa de não levantar suspeitas… — Greg fez força para engolir o nó que se instalara em sua garganta, mas absteve-se de fazer qualquer comentário. Mycroft precisava tirar esse peso de dentro de si, e quanto antes ele terminasse, antes Greg poderia fazer a sua parte em ajudar seu amante a sentir-se melhor. — Para encurtar o conto, eu entrei em um relacionamento com Jeff. Nós nos encontrávamos aos finais de semana, e ele me ligava algumas vezes durante a semana. Na segunda vez em que dormimos juntos, e dormir é apenas força de expressão, porque no momento em que terminávamos de fazer sexo ele me levava pra casa, começaram os comentários. "Você deveria fazer algum esporte na Universidade, Mike". "Tem certeza que vai comer sobremesa?". "Este casaco parece apertado em você". "Você fica sem fôlego muito fácil". Até mesmo os elogios eram críticas disfarçadas. As férias acabaram e eu voltei ao meu alojamento na Universidade, e caí novamente em uma espiral autodestrutiva, alternando semanas de anorexia com episódios de bulimia. Quando eu saía com meu namorado, beliscava uma salada e nada mais. Quando jantava com meu colega de quarto, Harry, fingia comer normalmente mas, assim que fosse possível, ia ao banheiro e… me livrava de tudo o que havia ingerido. Eu me tornara ainda mais consciente das falhas do meu físico, se é que isso era humanamente possível. Minhas roupas pendiam do meu corpo como de um cabideiro, mas quando eu me olhava no espelho, me via imenso, inchado, deformado… repugnante. Eu sabia que aquele relacionamento era prejudicial, tóxico… mas era um relacionamento. Havia alguém disposto a sair comigo, a estar em minha companhia, a compartilhar um pastiche de intimidade comigo. E era nisso que eu focava meus pensamentos.
Mycroft deixou o corpo cair até que ele estivesse deitado, enroscado em posição fetal, com a cabeça apoiada na coxa direita de Greg, a mão esquerda do policial ainda firmemente presa entre as suas. Greg enroscou a mão livre nos cabelos dele em uma carícia consoladora. Mycroft respirou fundo antes de prosseguir.
– Ele ia me ver nos finais de semana, e desfiava um rosário de críticas à minha aparência, me deixando cada vez mais paranóico…Então, depois de uns poucos meses de relacionamento, eu fui passar um feriado prolongado em casa, sem avisar a ninguém; cheguei no início da noite e fui direto até onde 'Jeff' morava. Quando o taxi virou a esquina na rua onde ficava o prédio dele, eu o vi atravessando a rua… de mãos dadas com outro homem. Pedi ao motorista que parasse e observei os dois entrarem juntos no prédio. Paguei a corrida como um autômato e atravessei a rua, onde fiquei um tempo vigiando as janelas do apartamento. Vi a luz da sala acender-se e, alguns minutos depois, a do quarto. Fui até o prédio e pedi, pelo interfone, que uma das vizinhas abrisse a porta para mim, e então…. eu arrombei a fechadura do apartamento. A sala estava coberta de roupas espalhadas, e eu conseguia ouvir os gemidos e gritos vindos do quarto. — A voz de Mycroft baixou até pouco mais que um sussurro — É tão… clichê, não é? Tão banal. Era como uma cena saída de um romance barato de banca de jornal, mas ainda assim eu não conseguia reunir forças para simplesmente sair porta afora, sem olhar para trás. Era como se eu estivesse hipnotizado pelo ridículo da situação, e pela dor absurda que ela me provocava. Eu estava como que em transe quando fui até o quarto dele e fiquei parado na porta, em silêncio, sem ser percebido… olhando em silêncio enquanto meu dito namorado fazia sexo com outro homem no mesmo quarto onde nós costumávamos fazer… na mesma cama. Eu não conseguia desgrudar os olhos da cena, e nem evitar comparar meu corpo com o do outro. Quão doentio foi isso, Gregory? — Greg apenas continuou acariciando os cabelos de Mycroft, fazendo força para segurar as lágrimas que ameaçavam escapar de seus olhos. Seu pobre My… ele começara a se arrepender de ter praticamente forçado essa confissão de seu amante.
– My… por favor, me desculpe. Vamos parar por aqui. Vamos… vamos só ficar aqui, quietos, um momento. Eu não quero que você tenha que passar por tudo isso de novo, me desculpe, me desculpe… — as lágrimas que ele tentava segurar escapavam, silenciosas, pelo rosto áspero. Mycroft virou-se de barriga para cima, os olhos repletos de ternura, e enxugou o rastro úmido no rosto do outro com a ponta dos dedos — Eu não quero ouvir mais nada, se isso for fazer você sofrer desse jeito, Mycroft. Ele era um idiota estúpido, e todos os outros que vieram depois e te magoaram eram idiotas estúpidos, e merecem uma morte lenta e dolorosa. — o político soltou uma risada pequena e ergueu-se, sentando-se ao lado do policial. de frente para ele+ — Se eles não souberam ver a sua beleza, pior pra eles e melhor pra mim. Eu só lamento que você teve que passar por tudo o que passou. Leve o tempo que for preciso, My, eu vou esperar até que você se sinta realmente confortável para… nós vamos superar seus problemas aos poucos, amor. Eu só quero que você saiba que… — Greg respirou fundo e segurou o rosto de Mycroft entre as mãos, olhando-o firme; embora já houvesse demonstrado com ações e falado de maneira indireta, aquela era a primeira vez que ele diria as palavras — Eu amo você, Mycroft Edwin Holmes. Amo você exatamente do jeito que você é, e vou amar você independente de como for sua aparência, porque foram a sua alma, a sua mente e o seu coração enorme que me conquistaram. O fato de você ser lindo e sexy é só um bônus. — Greg tentou terminar numa nota mais leve, e preocupou-se quando o silêncio estendeu-se, sem que Mycroft respondesse. — My? Você está bem? — O político parecia… em choque. A expressão de surpresa em seus olhos, a boca levemente aberta, e Greg começara a temer que ele não estivesse respirando — Mycroft, você está me preocupando; diga alguma coisa, por favor!
Mycroft piscou um par de vezes e ergueu-se, ficando em pé ao lado da cama, olhando para o chão. Greg ouvia sirenes de alarme em sua mente, mas tentou manter-se calmo.
– A primeira vez que vi você, Gregory, — Mycroft começou, a voz suave — em uma imagem borrada de CCTV, eu só conseguia pensar no seu papel na vida do meu irmão. Então me trouxeram seu arquivo, e eu pensei: aqui está um homem bom, um homem que pode fazer a diferença na vida das pessoas e, quem sabe, na vida de Sherlock. — ele sorriu de leve, ainda sem erguer os olhos, colocando as mãos no cinto do roupão. — Então você foi ao meu encontro naquele armazém, contra a sua vontade, e eu pude ler em você tudo o que eu deduzira do seu arquivo e muito mais. Eu pude ver o homem honesto, generoso, compassivo e passional que você era e é, meu querido. No instante em que olhei nos seus olhos pela primeira vez, quando tudo o que havia neles, ainda, era irritação, rancor e curiosidade, eu me perdi. Quando você foi embora, naquele dia, eu tentei de tudo para me convencer que você não era digno da minha atenção. E é claro que falhei miseravelmente, graças aos céus.- Mycroft ergueu o olhar e encarou Greg com os olhos toldados de emoção — Eu passei os últimos cinco anos apaixonado por você, Gregory Johnatan Lestrade, e ainda que eu viva mais cinco mil anos, assim eu vou permanecer. Eu também amo você, meu querido. E acho que chegou a hora de jogar fora minhas inibições e me desprender do passado. — Com essas palavras, ele estendeu as mãos para Greg, fazendo com que ele sentasse na borda da cama, de frente para si. Ele beijou de leve os lábios do amante e deu um passo para trás, desamarrando o roupão e livrando-se dele em um só gesto.
Greg sentiu sua respiração falhar, presa em sua garganta.. Parado diante dele, com um rubor que descia pelo pescoço e ameaçava tomar-lhe o peito, Mycroft parecia esculpido em alabastro. As pernas longas eram esguias, e alargavam-se suavemente na direção dos quadris. O abdômen era plano, porém macio, sem definição, coberto com uma penugem avermelhada. A cintura estreita implorava por seu toque, e foi o que ele fez, enlaçando-a com as duas mãos e puzando Mycroft para mais perto de si. O peito amplo era também coberto de pelos macios, e os ombros largos eram completamente cobertos de sardas, que Gregory mal podia esperar para traçar uma a uma com dedos, lábios e língua. Vendo o olhar reverente nos olhos de Greg, e a evidência clara de seu desejo sob o roupão que ele ainda vestia, Mycroft sentiu sua confiança aumentar, e virou-se de costas devagar, ouvindo o arquejo surpreso de Greg.
– Mycroft… isso é lindo… — Greg ergueu a mão, traçando os contornos da tatuagem enorme que tomava as costas do político. De ombro a ombro, havia uma fênix de asas abertas, o bico aberto como se cantasse. No pescoço da ave havia um grilhão, preso a uma corrente grossa, do qual pendia um relógio de bolso idêntico ao de Mycroft, representado com o visor rachado. Greg acariciou cada milímetro da imagem, provocando arrepios na pele pálida, e deixou que a mão deslizasse até a curva arredondada do traseiro de Mycroft, repousando ali.
– Eu tenho essa tatuagem desde os dezenove anos — Mycroft falou, em voz baixa — Fiz após a morte do meu pai; a hora que o relógio marca é o horário exato que Sherlock ligou para me contar o que havia acontecido.
– E a fênix é você. — Greg completou, para surpresa dele, fazendo-o virar-se até que os dois pudessem se olhar. — Acorrentado pela responsabilidade que a morte de seu pai deixou em seus ombros, forçado a calar sua voz… mas pronto a renascer das cinzas assim que possível. — Greg depositou um beijo suave na barriga macia de Mycroft, que sorriu.
– Você me entende melhor do que qualquer um, Gregory… algumas vezes melhor do que eu mesmo. — ele fechou os olhos ao sentir que Greg continuava a beijar-lhe a área sensível do estômago, as mãos firmemente plantadas em seu traseiro, dirigindo os beijos cada vez mais para baixo — Gregory… — ele falou num suspiro, as mãos segurando os ombros sólidos do policial e começando a trabalhar para livrá-lo do incômodo roupão.
– Eu nunca mais vou deixar você ficar vestido em casa, My. — Greg murmurou, os lábios contra o osso proeminente do quadril de Mycroft — Você é o homem mais lindo em que eu já coloquei meus olhos, e eu não quero tecido nenhum no caminho de tamanha visão de perfeição. — os beijos foram avançando em direção à virilha — Eu não posso fazer nem metade do que eu gostaria de fazer com você, amor, mas se tem algo que eu sou, é criativo. — ele ergueu o olhar para Mycroft, que o observava com olhos entrecerrados, o lábio inferior entre os dentes, e deu um de seus sorrisos marotos.
– Disso eu não tenho dúvidas, meu querido — o político murmurou, com a voz rouca — Mas acho melhor ficarmos mais confortáveis para o que eu tenho em mente. — ele ajoelhou-se diante de Greg e desamarrou-lhe o roupão, arrancando-o com um pouco mais de força do que era estritamente necessário, fazendo o sangue de Greg ferver; ele adorava quando Mycroft ficava todo dominante pra cima dele.
– E isso seria…? — ele sussurrou, apoiando a testa contra a do amante, cujas mãos agora subiam com lentidão enlouquecedora por suas coxas. Mycroft sorriu predatoriamente, e respondeu com a voz levemente trêmula, empurrando Greg para que deitasse de costas na cama.
– Eu quero que você me foda, Gregory. — o cérebro de Greg entrou em curto-circuito; Mycroft só falava assim quando estava muito excitado, e quando queria enlouquecê-lo rapidamente. — Eu quero você dentro de mim, quero enlouquecer você, quero montar você até você implorar por misericórdia. E então quero sentir você gozar dentro de mim.
– Puta merda. — Greg xingou, a voz fraca — Se você falar mais alguma coisa, eu não vou durar nem 30 segundos, My. — o policial sentou-se na cama, arrastando-se até estar sentado com as costas apoiadas na cabeceira, as pernas abertas, olhando o amante com olhos gulosos. Mycroft ignorou a interrupção e prosseguiu.
– Você deve ter notado o quão sólida é a cabeceira desta cama, não é, meu querido? — Mycroft ajoelhou-se no meio da cama, de frente para Greg, acariciando preguiçosamente sua própria ereção, as pontas dos dedos roçando os pelos vermelhos bem aparados que a cercavam — Ela é feita exatamente para o que eu tenho em mente. — ele ronronou.
Greg estava paralisado pela visão extremamente erótica diante de si. Ele levou a mão até sua ereção, começando a acariciar-se, mas parou ao levar um tapa na perna do amante.
– Nada disso, Detetive Inspetor. — o policial engoliu em seco, uma onda crua de excitação e calor em suas entranhas. — Não precisamos apressar as coisas, não é? — ele aproximou-se de Greg, fazendo-o fechar as pernas e estendê-las, retas. — Procure embaixo do travesseiro, meu querido.
Greg levou a mão atrás de si, e extraiu de sob as almofadas um tubo de lubrificante. Ele encarou o amante com uma sobrancelha erguida.
– E quando será que isso veio parar aqui?
– Antes de eu ir ao seu encontro, é claro. — Mycroft falou, ajoelhando-se com cuidado sobre as coxas de Greg, uma perna de cada lado, colocando o mínimo possível de peso sobre o outro. — A esperança é o que move a humanidade. — ele sorriu, tomando o tubo das mãos de Greg e beijando-lhe as pontas dos dedos. Greg acariciou o rosto liso do amante sem soltar-lhe a mão, ainda maravilhado e incrédulo. Mycroft abriu o lubrificante e espalhou uma quantidade generosa nos dedos da mão direita do policial, erguendo-se sobre os joelhos e aproximando-se até que pudesse segurar com as duas mãos a cabeceira larga da cama, depositando um beijo suave na testa de Greg. — Com cuidado, meu querido. Já faz muitos anos desde… — ele foi interrompido pela boca ávida que tomou a sua. Greg beijou-o sem sutileza, sem delicadeza, um beijo repleto de fome e ânsia. A mão esquerda dele segurou com força a cintura de Mycroft, as unhas cravando-se na carne tenra, enquanto a direita deslizava com cuidado por trás dos testículos, cobrindo a região com o gel frio. Ele circulou a entrada apertada com a ponta do dedo, testando, acariciando, e penetrou Mycroft devagar, sentindo as costas do outro tensas por um instante. Greg mordiscou o lábio inferior de Mycroft e acariciou-lhe a língua com a sua, até senti-lo relaxar, e inseriu o dedo por completo, começando movimentos circulares, lentos e ternos. Mycroft arfou de leve em meio ao beijo e afastou os lábios, apenas o suficiente para murmurar, numa voz frágil.
– Mais… — Greg tomou-lhe os lábios de novo, a mão esquerda subindo e descendo pela lateral do corpo febril do amante, e inseriu com cuidado um segundo dedo, movimentando-os devagar. Mycroft arquejou e gemeu, agarrando-se com mais força na cabeceira da cama, rompendo de vez o contato dos lábios. Greg beijou-lhe o peito, ouvindo satisfeito os arquejos e pequenos ruidos que Mycroft fazia. Tentativamente, ele curvou os dedos, e foi recompensado com um pulo e um gemido mais profundo.
– Ora, o que temos aqui? — ele falou, rouco, atingindo a próstata de Mycroft mais uma vez e vendo o outro fechar os olhos e morder o lábio com força. — Posso tentar mais um dedo, amor? — Mycroft assentiu, incapaz de falar. Greg inseriu um terceiro dígito, com um pouco mais de facilidade. Mas ele sabia que, mesmo assim, precisaria de toneladas de lubrificante; a última coisa que queria era machucar seu My.
– Gregory… eu não vou aguentar muito, meu amado… por favor… — a voz de Mycroft estava tão baixa quanto a sua, rascante, quase irreconhecível. Greg olhou nos olhos azuis do amante; as pupilas estavam tão dilatadas que a cor era apenas um halo em torno do negro.
– Então me ajude. — ele respondeu, num sussurro rouco. Mycroft soltou-se da cabeceira e pegou o lubrificante, com dificuldade de manter-se na posição por causa das coisas maravilhosas que os dedos grossos e ásperos de Greg faziam com seu corpo. Ele espremeu uma grande quantidade de gel na palma de sua mão direita, e, firmando-se na cabeceira com a esquerda, cobriu o membro de Greg com o gel, acariciando-o com lentidão. — My… não provoque, ou eu também não vou durar muito… — Mycroft parou e limpou os dedos cobertos de gel no peito do policial com um sorriso provocativo. Greg soltou um resmungo falso e esperou até que ele estivesse na mesma posição anterior — Pronto, amor? — o político assentiu, os olhos fechados — Abra os olhos, Mycroft. Quero estar olhando dentro deles quando entrar em você.
Mycroft abriu os olhos em choque, encarando o olhar castanho repleto de reverência e desejo de Greg. O policial, com muito cuidado, removeu os dedos de dentro de Mycroft, que não teve tempo de ressentir a perda, pois Greg já segurava seu próprio membro, guiando-o com a mão, a outra mão firmemente plantada no quadril de Mycroft enquanto dava um pequeno aceno encorajador. Mycroft abaixou-se, alinhando os corpos, e Greg penetrou-o lentamente, apenas um pouco. Ele teve que respirar um par de vezes para dominar-se; Mycroft era apertado, e quente, tão quente que ele sentia que, se não ficasse parado por um instante, ia gozar imediatamente. Mycroft, por sua vez, segurava a cabeceira da cama com tanta força que as juntas dos dedos destacavam-se, brancas. Gregory estava dentro dele — aparentemente também se concentrando ao máximo para que as coisas não terminassem rápido demais. Ele prendeu o olhar de Greg com o seu e, em um movimento fluido, fez Greg entrar completamente dentro de si.
– My… — ele suspirou — Oh, céus, Mycroft… — sem deixar que seus olhares se desconectassem, Mycroft começou a mexer-se devagar, superando o desconforto e extraindo prazer até mesmo da ardência e da dor leve que ainda sentia. As mãos de Greg alternavam entre arranhar de leve suas coxas e segurar com força seus quadris, acompanhando os movimentos lentos e ritmados; ele tinha os lábios entreabertos e soltava uma série de elogios suspirados e palavras entrecortadas, fascinado pela visão do rosto corado de Mycroft, os cabelos em desalinho, aquele cacho adorável que escapava e caía sobre a testa. Mycroft sentia o membro grosso de Greg preenchê-lo de uma maneira maneira deliciosa, as mãos calejadas friccionando a pele sensível de suas pernas enlouquecedoramente, e tudo o que Mycroft queria era poder cravar as unhas nos ombros fortes do policial e puxá-lo para si, enlaçando-lhe a cintura com as pernas longas e implorando que Greg fosse mais rápido, mais forte, mais fundo… mas haveria tempo, haveria muito tempo para isso mais tarde, quando seu querido estivesse melhor. Por enquanto, ele contentou-se em acelerar seus movimentos e mudar o ângulo de seu corpo de forma que Greg atingisse sua próstata a cada estocada, fazendo-o estremecer. — Amor, eu não vou aguentar muito tempo. Se você continuar assim… — Mycroft acelerou ainda mais sua cavalgada errática, os músculos das pernas tremendo do esforço de mantê-lo firme enquanto seu corpo inteiro parecia desmanchar-se sob o toque de Greg, cujas estocadas foram tornando-se mais firmes, mais desesperadas. Ele encostou a testa na de Greg, forçando-se a manter o contato visual enquanto sentia o orgasmo construir-se em seu ventre, seu corpo tomado por tremores, apertando-se em torno do outro.
– Greg… — ele murmurou, sentindo os olhos úmidos enquanto seus movimentos tornavam-se mais e mais erráticos, até que ele explodiu, sentindo como se seu corpo se partisse em um milhão de pedaços sobre o de Gregory, ancorado apenas pelos olhos castanhos que seguravam os seus. Enquanto seu corpo convulsionava através do orgasmo, ele sentiu as lágrimas correrem livres de seus olhos, caindo sobre o peito de Greg, coberto com seu sêmen. Enquanto seus músculos apertavam-se, ele continuou no mesmo ritmo alucinado, até que sentiu o corpo de Greg tensionar sob o seu, e as mãos dele cravarem-se de tal maneira em seus quadris que, certamente, deixariam marcas. Greg mordeu-lhe o ombro com força, abafando um grito que soava como seu nome, e sentiu o gozo do amante preenchê-lo.
Eles continuaram mexendo-se em uníssono, preguiçosamente, até que seus corpos se acalmaram. Mycroft beijou de leve os cabelos úmidos da testa de Greg, acariciando-os com o nariz.
– Isso foi… transcendental.- Greg murmurou, erguendo o olhar para Mycroft — Não sei se vou ser capaz de me mexer pelas próximas horas. — ele acariciou levemente as pernas do outro — E nem você, meu pobre My… — Mycroft beijou-o suavemente antes de erguer-se devagar, fazendo uma careta quando Greg deslizou para fora dele. Ele deixou-se cair na cama, de bruços, ao lado do outro, a cabeça apoiada na coxa morna. Greg sorriu para ele e sinalizou para o próprio peito — Acho que preciso de outro banho. — ele falou, acariciando as costas de Mycroft. — Nós precisamos.
– Talvez, se algum dia eu recuperar o pleno domínio das minhas pernas. — Mycroft retrucou, a voz cheia de preguiça. — Huum… eu realmente espero que não haja nenhuma emergência amanhã, porque eu não terei a resistência necessária para sentar por horas a fio durante uma videoconferência.
– Ou para simplesmente sentar — Greg provocou, levando um tapa no braço. — Vamos lá, amor; um longo banho quente vai aliviar as dores. — Mycroft rolou até ficar de costas, erguendo o olhar para Greg com carinho. O policial afastou a mecha teimosa da testa suada, e por um instante os dois ficaram em silêncio, apenas se observando. Com um suspiro de desconforto contido, Mycroft ergueu-se, enrolando o corpo no roupão e dirigindo-se ao banheiro para preparar o banho — E já pode jogar este roupão pela janela, eu estava falando sério! — Greg gritou em direção ao banheiro, antes de se levantar com dificuldade, os músculos doloridos de uma maneira mais que agradável. Ele sabia que seu sorriso devia parecer mais que tolo, mas não podia se importar menos com isso.
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Depois de uma ducha rápida, Greg e Mycroft relaxavam em um banho quente de imersão. O político sentara-se com as costas apoiadas na ponta da banheira, e puxara o policial para que sentasse entre suas pernas, as costas apoiadas em seu peito. Por um longo tempo eles apenas ficaram em silêncio, Greg apreciando a sensação das longas pernas de Mycroft enroladas em torno dele, o corpo dolorido relaxando na água tépida, o toque das mãos esguias em seus braços removendo qualquer tensão.
– Meu pai morreu três meses depois daquilo. — Mycroft falou de repente, em voz baixa, retomando a conversa anterior quase que do ponto exato onde parara. — Foi uma das épocas mais difíceis da minha vida… eu estava em depressão por causa de todo o incidente com 'Jeff', afundado em provas e trabalhos na Universidade, e me vi de repente sem meu maior pilar de apoio, jogado no papel de chefe de família, tendo que cuidar dos negócios, da posição de meu pai no governo e da criação de Sherlock. Minha mãe levou um longo tempo para superar a perda, e eu acabei assumindo a maior parte da responsabilidade sobre meu irmão… Foi um período tenso e doloroso, que só piorou meus problemas. — Greg apoiou a cabeça no ombro de Mycroft, que beijou-lhe a têmpora. — Eu passei a frequentar, com um nome falso, boates underground, em busca de sexo. Eu não queria entrar em outro relacionamento, não queria me arriscar novamente, mas também não pretendia ficar celibatário.
– Talvez nós tenhamos nos cruzado em alguma delas. — Greg brincou, beijando a curva da mandíbula do político.
– Ah, meu querido, se eu alguma vez tivesse posto meus olhos em você antes de Sherlock nos aproximar, eu jamais teria esquecido. Uma beleza como a sua, Gregory, não escapa da mente de alguém facilmente. — foi a resposta carinhosa, que arrancou um sorriso de Greg — Eu passei apenas uns dois anos nesse meio, antes que minhas responsabilidades aumentassem ao ponto de eu raramente conseguir uma noite livre para dormir, que dirá uma noite de farra…os homens com quem saí naquela época até hoje não fazem ideia de quem eu era. A única pessoa que sabia, ou melhor, que sabe, é Harry, que costumava me acompanhar. Ele era o único a me ouvir, a me entender sem julgamentos… até eu conhecer você. — Greg ergueu o rosto e beijou Mycroft de leve. — Depois que comecei a ascender dentro do Serviço Secreto, eu me envolvi com um agente de campo… foi a pior coisa que eu poderia ter feito. Ele era um homem extremamente charmoso e inteligente, mas também era um dos maiores conquistadores do MI6. Nosso caso foi breve, e muito passional, e quando acabou, comigo sendo outra vez trocado por um rapaz que se encaixava melhor no estereótipo tradicional de beleza, eu novamente cai na mesma espiral autodestrutiva de antes… Eu recém completara 22 anos, e estava lidando com muito mais do que eu conseguia. Minha mãe finalmente vencera a terrível depressão que a morte de meu pai provocara, mas Sherlock estava ficando, a cada dia, mais distante de mim. Eu sabia que uma escola interna não era a melhor opção para o meu irmão, mas era a única escolha que eu tinha. Então, após este segundo fracasso em uma tentativa de relacionamento, durante muitos anos, eu abracei uma vida solitária... Se os apelos da carne tornavam-se insuportáveis, eu recorria a serviços pagos. Ainda assim, ainda que eu pagasse pela companhia e pela intimidade, eu notava olhares desdenhosos acompanhando os elogios vazios, e o desconforto de ser, ocasionalmente, visto em público comigo. Foi a gota d'água, Gregory. Se nem mesmo aqueles que recebiam dinheiro para se engajarem em uma farsa, em uma paródia de relação, não escondiam seu repúdio, então tudo o que eu sempre pensara, no mais profundo da minha mente, era verdade: eu era repugnante, eu era incapaz de despertar desejo, portanto eu não era digno de amor.
Mycroft encostou a testa no ombro de Greg, respirando fundo. Era como remover um fardo de duas toneladas de suas costas. Ainda que a confissão lhe provocasse ânsias, uma ardência na boca do estômago e uma dor absurda no peito, era um alívio purgar todo este veneno de dentro de si. Era um alívio poder confessar para Gregory o quão indigno ele se sentia, o quão desmerecedor da dádiva que era seu Detetive Inspetor ele se considerava. Ele tinha fé na constância e nos sentimentos de seu Gregory; só isso o levara a se abrir, a confessar a ele algo que não gostava de admitir nem a si mesmo. Com os lábios encostados na pele sensível do pescoço do policial, ele continuou.
– Eu me abstive completamente de me engajar em qualquer tipo de relacionamento, fosse romântico ou sexual. Provavelmente foi daí que veio o epíteto de "Homem de Gelo". Se as pessoas soubessem a verdade… — ele deu uma risada desmotivada. — Mas houve um lado positivo nesta situação: minha aparente imperturbabilidade e frieza foram os pilares que sustentaram a minha ascensão no Governo. Minha aparente ausência de vida pessoal levava meus superiores a delegarem cada vez mais tarefas para mim, e foi assim que cheguei onde estou hoje: à custa de muito sofrimento e dor, mas eu considero que foi tudo pelo bem do Reino. Minha única… fraqueza, meu ponto de pressão, sempre foi meu irmão. Quando Sherlock começou a usar drogas, ele descobriu minhas vulnerabilidades e começou a usá-las como uma forma de me atingir, de sentir-se superior. Eu sabia que aquele não era, realmente, meu irmão falando; que aquilo era fruto do rancor, do sentimento de abandono que ele trazia, e que seu vício apenas trazia à tona. Meu irmão, emocionalmente, ainda é uma criança de oito anos, Gregory. Eu não guardo ressentimento de suas palavras, ou de suas ações. Sei que, um dia, ele vai perceber a verdade. E sei que John é uma influência positiva extremamente poderosa nesse sentido. — ele jogou a cabeça para trás com um suspiro, alongando o pescoço. Céus, seu corpo inteiro doía. Mas quando ele lembrava o porquê de tanto desconforto, tudo o que ele conseguia fazer ela sorrir tolamente. Greg virou-se, beijando-lhe o ombro.
– Acho que é hora de sair da água, amor. Você parece desconfortável. — Mycroft fez uma careta, mas concordou, ajudando o outro a erguer-se e sair da água.
– Creio que é hora de um jantar tardio e, quem sabe, um pouco de relaxamento em frente à lareira. — ele enxugou-se displicentemente e vestiu o roupão, oferecendo o braço a Greg, que sorriu e beijou-lhe o rosto.
– Sabe, My, seu irmão pode ser um bastardo que me enlouquece a maior parte do tempo, mas eu vou ser eternamente grato a ele em pelo menos um aspecto. — Mycroft ergueu a sobrancelha, sabendo o que viria a seguir mas, ainda assim, querendo ouvir as palavras deixarem os lábios de Greg.
– E o que seria isso, eu me pergunto? — o sorriso de Greg ampliou-se enquanto eles iam em direção à cozinha.
– Se não fosse a mania doida que ele tem de se meter em cenas de crimes, eu nunca teria conhecido você.
– Que os Céus abençoem a obsessão detetivesca de Sherlock.
– Amém.
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