Let Me Take Care Of You
12 Parte xi - brighter days
Notas iniciais
Após um jantar tardio e leve, Greg e Mycroft recolheram-se, pois o político sabia que seu descanso seria interrompido cedo pela manhã. O policial praticamente obrigou-o a abrir mão de seu pijama, declarando que esperara muito tempo para dormir sentindo nada além da pele do outro contra a sua. Corando de satisfação, Mycroft aumentou o aquecimento e acomodou-se sob as cobertas, adormecendo com os braços em torno de Greg, a cabeça deste recostada em seu peito.
Uma claridade cinzenta filtrava-se pela fresta das cortinas, quando o som de God Save the Queen interrompeu o sono dos dois. Greg ergueu a cabeça, os olhos inchados, e lançou um olhar sujo para Mycroft.
– Se não for uma emergência de verdade, diga para Anthea que eu vou fazer todos os plantões de Sally coincidirem com as folgas dela. — ele beijou o peito nu de Mycroft e rolou para o lado, enterrando-se completamente sob as cobertas. O político riu de leve e estendeu o braço para o telefone, checando a hora.
– Pontual como sempre, minha cara. — ele murmurou, contendo um bocejo.
– É ressentimento o que ouço em sua voz, senhor?
– Talvez. Eu alimentava a esperança de que o Mundo Livre, talvez, pudesse passar sem mim por mais algumas horas antes de desmoronar. — ele jogou as cobertas para o lado, soltando um grunhido de dor ao erguer-se. A idade o alcançava a passos largos; ele não tinha mais a resistência de sua juventude… — Mas foi apenas uma tolice romântica da minha parte. Quanto tempo eu tenho para aprontar-me?
– Leve o tempo que for necessário, senhor; estou estacionada em frente à casa.
– Claro que está. — Mycroft resmungou, envolvendo-se no roupão e dirigindo-se ao banheiro. — Faça uma gentileza, então, minha cara: entre e prepare um chá, por favor. Estarei com você em dez minutos. Evite ruídos altos; Gregory ainda dorme.
Exatos dez minutos depois, Mycorft juntava-se a sua assistente na sala de jantar, vestido com o aprumo habitual, mas com os cabelos livres de qualquer produto encaracolando-se de leve e deixando uma mecha teimosa pendendo sobre a testa.
– Bom dia, Anthea. — ele sentou-se diante da mulher, que o observava com uma sobrancelha erguida, e serviu-se de chá.
– Bom dia, senhor. Espero que suas horas de folga tenham sido prazerosas. — Mycroft olhou-a por sobre a borda da xícara, sem replicar, até que Anthea começou a sentir-se desconfortável sob o intenso escrutínio. — Céus, chefe, foi só uma piada, não precisa me lançar esse olhar. — Mycroft piscou lentamente, o que só o tornou mais parecido com um predador espreitando um roedor indefeso.
– Que olhar? — Anthea apontou uma unha perfeitamente manicurada para seu rosto.
– Esse mesmo olhar que fez o Primeiro Ministro recuar em algumas decisões muito estúpidas, mais de uma vez.
– Ah, este olhar. — Mycroft falou, com um meio sorriso, terminando de beber seu chá. Anthea riu de leve e pegou uma grossa pasta de arquivos vermelha.
– Bom, posso ver que o senhor está de excelente humor, e muito me arrependo de ter que arruiná-lo com a incompetência de alguns de seus colegas. — Mycroft respirou fundo, apertando a ponte do nariz.
– Por favor, Anthea, não me diga que são os americanos de novo. — A assistente deu um sorriso apologético e confirmou.
– E os japoneses também. — ela prosseguiu, puxando outro arquivo de sua pasta. — Ootori-san, aparentemente, não é adepto de seguir sugestões sensatas, e acabou por piorar a situação junto aos chineses. — Mycroft praguejou em voz baixa e ergueu-se, fazendo sinal para que Anthea o seguisse.
–Vamos para o escritório. Vou ter que procurar com um pouco mais de afinco quaisquer que sejam os segredos certamente sujos que esses dois possuem, a fim de ter uma base decente de negociações. — Mycroft suspirou, pesaroso. E pensar que seu dia tivera um começo tão promissor, acordando aninhado junto ao corpo nu de seu doce Gregory…
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Greg ouviu passos leves e vozes abafadas passando pela porta do quarto. Ele gemeu e afundou sob as cobertas. Seu pobre Mycroft… eles não lhe davam um minuto de sossego; quem quer que fossem eles.
Talves ele devesse levantar-se, em solidariedade ao seu pobre namorado. Mas ele estava tão confortável, e o quarto estava tão agradavelmente aquecido… Greg deslizou pacificamente em direção ao sono de novo. Ele foi despertado agum tempo depois pelo toque insistente de seu celular, e pensou duas vezes antes de emergir de seu casulo de lã e atender, mal humorado.
– Lestrade.
– Ahn, hey, Greg. – a voz de Dimmock soava exausta — Espero não ter acordado você.
– Não, Dimmo, tudo bem. Já passou da hora de tirar meu traseiro velho e preguiçoso da cama. Que houve, parceiro?
– Bom, eu queria saber se você tem o número do doutor Watson. Preciso da ajuda de Sherlock, mas ele não responde as minhas mensagens, nem atende ao telefone… – Greg gemeu, afundando a cabeça no travesseiro.
– Deixe que eu ligo para ele, Dimmo. Só me mande por mensagem o endereço.
– Obrigado, Greg. Ah, eu… ahn… liguei pra Natalie, e nós vamos sair no final de semana. — ele falou, soando tímido.
– Ótimo, muito bom! Dica: ela adora comida indiana. Mas não diga que fui eu que contei! E acho bom você ter lido todos os Harry Potter; vai lhe garantir uns pontos extras.
– E alguém não leu?– quase imediatamente, os dois responderam em uníssono — Sherlock! – Dimmo riu de leve. — Até mais, Greg.
– Até, Dimmo.
Greg desligou o telefone com um suspiro. Maldito Sherlock; aquele bastardo magrelo lhe dava trabalho até quando ele estava afastado do trabalho! Bom, mas ele sempre considerou Sherlock como família, mesmo antes de embarcar em seu relacionamento com Mycroft, e Greg tinha uma regra rígida em relação à família: não importava o pé no saco que eles fossem, não importava o quanto eles tornassem sua vida difícil, ele faria qualquer coisa por sua família. Ponto final.
Ele pescou o número de John nos contatos e discou, esperando que nada grave houvesse acontecido. O médico atendeu no segundo toque.
– Hey, Greg. — ele soava exasperado e levemente divertido, e Greg ficou aliviado; se John soava assim, nada realmente sério acontecera ao detetive.
– Hey, John. Como estão as coisas no front do 221B? — John soltou uma risada leve.
– Dimmo ligou pra você, não? Ele passou a manhã mandando mensagens e ligando para Sherlock.
– Exatamente. Onde anda o grande bastardo?
– Escondido no quarto dele. — John grunhiu — Você não vai acreditar no que aconteceu…
– Tente. Nesses cinco anos, eu aprendi a não duvidar da extensão da loucura de Sherlock.
– Bem…– John hesitou um instante — Você sabe como ele é com os experimentos dele, não? Deixa tudo espalhado pelo flat e nunca avisa quando algo perigoso está por aqui.
– Sei… — Greg tinha o pressentimento de que, dessa vez, o incidente era mais cômico do que trágico.
– Pois bem… a sra. Hudson esteve aqui esta manhã, e pegou o açucareiro emprestado. Sherlock saiu do quarto logo em seguida, e quando abriu a geladeira e notou a falta do açucareiro, perguntou se eu havia pego. Era de se esperar que, a essa altura, ele já houvesse notado que eu não tomo meu chá com açúcar, mas nããão… Respondi que a Sra. Hudson havia pego emprestado, e ele congelou… ficou ali parado, me olhando, abrindo e fechando a boca feito um maldito peixinho dourado. Então, depois de uma certa persuasão, consegui arrancar dele que, em vez de açúcar, o que havia no pote era um afrodisíaco extremamente potente, que ele estava testando sabe Deus por quê! — Greg levou alguns segundos para processar completamente a informação, e quando conseguiu, caiu num surto de gargalhadas do qual custou a se recuperar.
– Oh, meu Deus… — ele falou, sem fôlego — E o que diabos aconteceu?
– O que aconteceu é que eu estou com a Sra. Hudson na sala, de camisola e negligé lilás; o que não é um visual nem remotamente adequado para uma senhora da idade dela, me deixe dizer… executando o que só pode ser descrito como um número de dança burlesca, e Sherlock escondido no quarto, como se todas as hordas de cães do Inferno estivessem atrás dele! – Greg caiu vítima de outro acesso de gargalhadas, do qual demorou bem mais tempo para se recuperar. – Pode rir, Greg… minha vida é uma maldita comédia surrealista.
– Escrita pelo Eric Idle, no mínimo — Greg respondeu, sem fôlego — Olha, tente tirar o bastardo da toca, Dimmno tem um caso excelente pra ele, e o pobre garoto está exausto, precisando de toda a ajuda possível. Vou mandar o endereço pra você.
– Eu vou tentar, Greg. Obrigado. E como está a recuperação?
– Melhor impossível. Conto tudo pra você quando voltar a Londres. Sobre um pint. Por minha conta.
– Eu definitivamente vou precisar de mais de um. Nos vemos em duas semanas, então?
– Pode apostar.
Greg não conseguia acreditar que estava perdendo aquilo. Se ele estivesse em Londres, já estaria embarcando no primeiro táxi, câmera em mãos, para assistir ao show de camarote. Se bem que, se estivesse em Londres, possivelmente o caso que foi para Dimmock teria ido parar em sua mesa…
Ele encaminhou o endereço da cena do crime para John e venceu a preguiça, erguendo-se da cama devagar. Um banho quente e um café da manhã perigoso para o coração eram tudo que ele precisava para começar mais um dia.
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Mycroft e Anthea não deixaram o escritório antes da uma da tarde, e o político sentiu-se oscilar entre aborrecimento e prazer aos sentir o aroma rico de carne assada que vinha da cozinha. Anthea despediu-se, voltando ao escritório central para resolver algumas demandas pendentes, e Mycroft seguiu os vapores aromáticos, encontrando Greg sentado em um banco alto, encostado a um dos balcões da cozinha, falando ao telefone.
– Não, Sally. — ele usava o mesmo tom de voz que Mycroft já o vira usar com o pequeno Johnathan, calmo e pausado — Você não pode colocar arsênico no café de Gregson. Nem purgante. — ele ouviu um minuto. — Okay, talvez um pouco de purgante… Eu estou brincando, Sally! — ele deu uma risada rouca — Aguente mais uns dias, eu volto logo. Se a coisa ficar realmente insuportável, peça ao DCI Morgan se você pode ser realocada para outra equipe até eu voltar. Só, por favor, evite ser presa até lá. — ele desligou o telefone, ainda sorrindo, e seu sorriso tornou-se mais amplo ao dar de cara com Mycroft, escorado na entrada da cozinha. — Hey, e aí está meu cavaleiro de armadura brilhante! Ou de terno completo, que seja. E bem em tempo para o almoço!
– E o que, me pergunto, o senhor pensa estar fazendo, Detetive Inspetor? — o político perguntou, aproximando-se com passos lentos até colocar-se diante do policial, entre as pernas afastadas deste.
– Minha famosa carne assada com batatas coradas, e uma salada verde para acompanhar. — Greg pôs as mãos nos ombros de Mycroft e beijou-o de leve. Mas quando ia se afastando, o outro tomou-lhe os lábios num beijo profundo e exigente, as mãos esguias deslizando pelas coxas fortes do policial e ancorando-se por fim na cintura. A necessidade de oxigênio forçou-os a romper o beijo, e Mycroft encostou a testa na de Greg, os olhos fechados e a respiração ofegante.
– Gregory, você não deve se esforçar demais, meu querido… especialmente depois dos excessos de ontem. — Greg sorriu largamente e beijou-lhe a ponta do nariz.
– Bobagem. Fiz toda a peparação sentado, fiquei em pé o mínimo possível…. e não faz nem meia hora que vim para a cozinha. — Mycroft balançou a cabeça, descrente, e com delicadeza ajudou Greg a descer do banco, levando-o até a mesa de jantar.
– E o que você acha que o seu fisioterapeuta vai dizer sobre isso? — o político sentou-se na cadeira ao lado do policial, tomando-lhe a mão e levando-a aos lábios.
– Sobre eu ter tentado a minha mão na cozinha… ou sobre o que as mesmas mãos fizeram ontem na cama a um ruivo alto e sexy? — Mycroft piscou um par de vezes e balançou a cabeça, mas sem tentar esconder o pequeno sorriso que tomava seus lábios.
– Você vai ser a minha morte, Gregory.
– Mas vai valer a pena, totalmente. — o sorriso de Greg falava de promessas de noites futuras, e Mycroft sentiu uma flutuação agradável em seu estômago. Depois da noite anterior, ele se sentia… empoderado. Seu Gregory, ao invés de entregar-se à repugnância velada e às recriminações a que ele estava habituado a receber de seus amantes, idolatrara seu corpo, perdera o controle sob seu toque e fizera com que Mycroft, pela primeira vez em mais de quarenta anos de vida, se sentisse belo, desejável. E pela primeira vez desde que conhecera Gregory, ele sentia que, talvez, fosse digno de estar ao lado do policial. — Hey, Terra para Mycroft! — Mycroft ergueu a cabeça e encontrou o olhar divertido do amante.
– Oh, céus, mil perdões, Gregory, eu me perdi em pensamentos por um instante.
– Que tipo de pensamentos, eu me pergunto… — Greg provocou, uma sobrancelha erguida, direcionando o olhar para o volume visível na virilha de Mycroft. — Eu perguntei se você prefere chá gelado ou um suco. — o político pigarreou e ajeitou-se no assento. Mais tarde, ele prometeu-se. Eles tinham uma longa tarde pela frente; mais tarde haveria tempo para colocar em prática todas as pequenas e deliciosas imagens que o sorriso de Gregory lhe trazia à mente.
O almoço foi, obviamente, um campo de batalha. Greg teve que lutar com unhas e dentes para que Mycroft comesse, além de uma quantidade absurda de folhas verdes temperadas com nada além de algumas gotas de vinagre, uma tira ridícula de carne e duas batatas minúsculas. Claro que ele sabia que, durante aqueles dias, Mycroft estava comendo e dormindo melhor do que fizera, provavelmente, nos últimos vinte anos, mas ainda assim, Greg preocupava-se além da conta com os hábitos nada saudáveis do namorado.
– My, o que você acha de me ajudar na minha recuperação, quando voltarmos à Londres? — Greg falou, de repente, ao levar os pratos de volta para a cozinha. Mycroft ergueu-se para ajudá-lo, uma sobrancelha erguida em questionamento — Você sabe que eu vou precisar adotar uma rotina pesada de exercícios pra recuperar a minha resistência, e também vou precisar cuidar da minha alimentação com um pouco mais de cuidado. Então… quem sabe você podia me ajudar a montar um cardápio balanceado, me ensinar a preparar algumas coisas diferentes e me acompanhar nos exercícios, ao menos nos primeiros tempos…? — ele ligou a lava-louças e virou-se para encarar Mycroft, encostando-se ao balcão da pia. O político o observava com a cabeça inclinada para o lado, um sorriso minúsculo nos lábios.
Mycroft via atráves de Greg como se ele fosse transparente. Ele lia nas linhas fundas de seu rosto, no modo como suas mãos brincavam com a bainha da camiseta, na maneira com que ele mordia o lábio inferior de leve; as intenções de Gregory eram fáceis de ver. O policial era um livro aberto, e Mycroft sentiu seu coração como que inchar dentro do peito. É claro que Gregory sabia que essa era a maneira mais correta de lidar com os problemas de Mycroft: apresentar a situação de uma maneira que parecesse que ele estaria fazendo aquilo pelo bem de Gregory, o que acabaria forçando-o a realmente fazer algo. Tantos terapeutas, tantas tentativas desesperadas de lidar com suas neuroses, tantos tratamentos ortodoxos e bizarros que ele tentara… e, no fim, o que funcionava para ele era a coisa mais simples do mundo: alguém que o amava, que aceitava e tentava compreender seus problemas, e o entendia tão bem que arrumara uma maneira de contorná-los que, talvez, acabasse por funcionar.
– Espero que você não esteja na esperança de que eu vá frequentar aquela academia pavorosa da qual você é membro. — ele avançou até recostar-se em Greg de leve, enlaçando-lhe a cintura. Greg riu, e apoiou as mãos em seu peito.
– Nem em um milhão de anos eu ia deixar aquele bando de bastardos colocar os olhos em você usando roupas de treino. — ele resmungou — E ficando suado, com o cabelo despenteado e essa mechinha teimosa que fica caindo sobre os seus olhos… — Greg estendeu a mão para afastar a dita mecha da testa de Mycroft — Pode me chamar de egoísta, mas há coisas que eu prefiro guardar só pros meus olhos. — Mycroft riu e beijou-o de leve.
– Vou tomar providências para adquirir os equipamentos adequados, Gregory. Também não me agrada exercitar-me na frente de estranhos. Prefiro fazê-lo na privacidade de nosso lar. Ênfase em privacidade, é claro.
– Huuum… — Greg murmurou, acariciando-lhe o pescoço com a ponta do nariz. — Mal posso esperar pra ver você completamente despenteado, suado e ofegante, depois de um bom exercício. — Mycroft beijou-lhe o ponto sensível atrás da orelha antes de murmurar.
– Ora, você não precisa esperar até voltarmos pra casa para isso, meu querido. — ele pressionou o quadril contra o de Gregory, que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo ao sentir a ereção do amante. Mycroft começou a distribuir mordidas muito leves no pescoço e na mandíbula de Greg, deliciando-se com o contato áspero da barba por fazer contra seus lábios e língua. — Doutor Terry não estará aqui por, pelo menos, mais uma hora. — Greg grunhiu, os olhos fechados e as mãos agarrando com força os quadris de Mycroft. Ser humano algum tinha o direito de soar tão sexy, ele pensou. — Talvez um breve aquecimento seja adequado. — ele ronronou, mordendo o lóbulo da orelha do policial. Greg ergueu as mãos e agarrou com força os cabelos de Mycroft, puxando-o para um beijo brutal.
– Eu mal posso esperar para estar em plena capacidade física. — ele grunhiu, entre mordidas no pescoço do político -Porque a primeira coisa que eu vou fazer vai ser prensar você contra um colchão e fazê-lo gritar meu nome, My.
– Promessas, promessas… — suspirou Mycroft, enquanto as mãos de Greg afrouxavam o nó de sua gravata, arrancando-a sem cerimônia e jogando-a no chão da cozinha. Mycroft tomou-o pela mão e levou-o até a sala de estar, fazendo-o sentar-se no grande sofá diante da televisão.
– O quê? — Greg provocou — Ficou com vontade de ver um filme, de repente? — Mycroft sorriu de lado, os olhos escaneando a figura de Greg devagar.
– Não… mas você não vai ficar desprovido de entretenimento, meu querido. — ele tirou a jaqueta do terno devagar, colocando-a com cuidado sobre a mesinha de centro, e começou a desabotoar o colete vagarosamente, sem deixar de olhar nos olhos de Greg nem um instante.
Greg engoliu em seco, sentindo-se subitamente muito quente. Mycroft se despia de forma lenta e metódica, quase como faria normalmente. Mas maldito fosse se aquela não era uma das visões mais eróticas que ele já vira. As mãos esguias de dedos longos trabalhando calmamente em botões e zíperes, os tecidos sofisticados deslizando devagar pela pele pálida e macia, antes de serem cuidadosamente dobrados — tudo isso sem que o contato visual se quebrasse nem mesmo por uma fração de segundo. Mycroft despiu-se por completo e ajoelhou-se diante de Greg graciosamente, segurando as mãos do policial, que já agarravam a bainha da própria camiseta.
– Nada disso, Detetive Inspetor. — ele ronronou, as mãos subindo pela parte interna das coxas musculosas numa carícia lenta. — Eu quero que você fique vestido, Gregory. — ele puxou a cintura da calça de moletom apenas o suficiente para libertar a ereção de Greg, lambendo os lábios como um gato diante de um pires de leite.
– Pervertido — Greg murmurou, provocativo. Mycroft deu-lhe um sorriso lento e, sem aviso, engolfou-lhe o membro com a boca morna, arrancando-lhe um gemido — M-merda, My. — ele gaguejou, arfando — Você é bom demais com essa boca, isso não pode ser legal. — Mycroft arranhou-lhe a glande com os dentes antes de soltá-lo e erguer-se.
– Ora, Detetive Inspetor, então é seu dever fazer algo a respeito disso. Quebrar a lei, certamente, não pode ficar sem a punição adequada. — Os olhos de Greg eram poças escuras, o marrom quente substituído quase totalmente pelo negro profundo de suas pupilas dilatadas.
– Certamente que não, Sr. Holmes. — a voz rouca e baixa provocou arrepios em Mycroft, como se uma brisa fria lhe acariciasse a pele. Greg puxou-o pelas mãos até que ele estivesse ajoelhado sobre seu colo, uma perna de cada lado das suas, mas sem sentar-se propriamente. — Mãos nos meus ombros; e não se mexa. Preciso revistar você. — Mycroft plantou as mãos nos ombros de Greg com delicadeza, buscando equilíbrio, sentindo sua ereção pulsar quase dolorosamente. Quando as mãos calejadas de Greg tocaram seu pescoço, ele fechou os olhos e mordeu os lábios para refrear um gemido. — Eu disse para ficar parado, não para ficar calado. — Mycroft abriu os olhos e deu um suspiro quando as unhas de Greg arranharam de leve seus ombros, traçando padrões entre as sardas que salpicavam a pele clara. Ele acariciou os ombros de Greg com as pontas dos dedos, e pulou quando um tapa estalou em sua coxa. — Eu disse parado. — Greg grunhiu. As mãos ásperas voltaram à exploração cuidadosa do peito de Mycroft, parando para beliscar levemente um mamilo, e depois o outro. Mycroft gemeu e conteve o impulso de mexer os quadris contra a ereção de Greg. As unhas voltaram a arranhar-lhe, dessa vez na pele sensível das costas, e Mycroft sentia que Greg tentava traçar de memória as linhas de sua tatuagem.
Greg acariciou cada milímetro da pele de Mycroft ao seu alcance — exceto onde este mais queria ser tocado. Os toques firmes, porém gentis, arrancavam-lhe gemidos cada vez mais altos, e Mycroft estava achando cada vez mais difícil manter-se estático. Pequenos tremores percorriam suas coxas, tanto do esforço para suportar seu peso, quanto da força para conter a necessidade desesperada por contato. Subitamente, uma das mãos de Greg acariciou-lhe levemente a pele sensível por trás dos testículos,e Mycroft soltou um gemido alto e agradecido, fechando os olhos. Os dedos firmes massageavam a região quando Mycroft sentiu um toque em seus lábios. Ele abriu osolhos e viu que Greg tocava-lhe a boca com a mão direita. Ele tomou dois dedos na boca, sugando-os com força e cobrindo-os de saliva, sentindo-se satisfeito quando Greg fechou os olhos e soltou um gemido rouco.
Os dedos deixaram sua boca, e as mãos de Mycroft deixaram os ombros de Greg, segurando-se com força no encosto sólido do sofá; ele temia que pudesse prejudicar a recuperação do policial se colocasse muito peso em seu ombro injuriado. Greg sorriu de leve para ele e avançou, beijando-o lenta e profundamente. Mycroft perdeu-se na sensação da língua morna de Greg invadindo-lhe a boca, até sentir a ponta do dedo que circundava devagar sua entrada penetrar-lhe de leve. Ele grunhiu em meio ao beijoao sentir uma pontada de dor, e Greg afastou-se.
– Tudo bem, My? — Greg ofegou, preocupado. Mycroft assentiu.
– Sim, apenas… apenas não pare, por favor. — ele falou, com um suspiro, fechando os olhos e encostando a testa na de Greg, que continuou a penetrá-lo devagar com apenas um dedo, até sentir que o corpo de Mycroft começava a relaxar um pouco. — Mais… — ele murmurou, e Greg inseriu um segundo dedo cuidadosamente, movimentando-os de maneira lenta. Ele mordiscou-lhe a mandíbula, apreciando os gemidos e murmúrios de incentivo que o outro sussurrava. Uma camada fina de suor começava a formar-se na testa de Mycroft, enquanto os dedos de Greg continuavam a mover-se dentro dele, o desconforto cedendo cada vez mais espaço para aquele prazer agridoce, êxtase temperado com uma pitada de dor. Greg curvou os dedos de maneira a apenas roçar de leve a próstata de Mycroft, que gemeu alto e tentou enterrar-se mais contra a mão que o atormentava. Greg segurou-lhe o quadril com a mão esquerda, e inseriu um terceiro dedo, continuando a roçar-lhe a próstata muito de leve de vez em quando. Mycroft abriu os olhos, as íris azuis apenas um halo fino em torno das pupilas — Gregory… — ele rosnou, em tom de advertência. Greg continuou a provocá-lo, com um sorriso maroto nos lábios.
– Algum problema, My? — ele perguntou, ao mesmo tempo em que atingia a próstata do amante em um golpe seco. Mycroft gritou e contraiu os músculos ao redor dos dedos, arrancando um grunhido de Greg. — Você quer que eu pare, amor? — ele acertou-lhe a próstata mais uma vez. Mycroft soltou-se do sofá e segurou o rosto de Greg entre as mãos, beijando-o ferozmente.
– Pelo amor do que lhe é mais sagrado, Greg, pare de me provocar e me foda de uma vez! — Greg soprriu e beijou-o mais uma vez; Mycroft praguejara e o chamara de Greg, sinal de que já perdia o controle. O político soltou-lhe o rosto, segurando-se no sofá com uma mão enquanto lambia a palma da outra, cobrindo-a de saliva e levando-a até o membro de Greg, que gemeu ao contato, continuando a mexer os dedos vagarosamente. Quando achou que a lubrificação era minimamente adequada, Mycroft soltou-o e tornou a segurar-se com ambas as mãos, erguendo um pouco o corpo.Greg removeu os dedos com cuidado e segurou o próprio membro, usando a outra mão para guiar o amante pelo quadril. Ele encostou a cabeça na entrada de Mycroft que, sem aviso, largou seu peso, empalando-se completamente com um grunhido. Os dois ficaram parados, as respirações ofegantes, enquanto Greg tentava controlar o impulso de se mover e enterrar-se ainda mais no calor apertado que o envolvia, e Mycroft tentava acostumar-se à ardência que a invasão súbita (e sem lubrificante) lhe provocara. Depois de alguns momentos, ele começou um movimento lento, mexendo os quadris em estocadas vagarosas e curtas, até que o desconforto foi substituído pela sensação quente que se acumulava em seu ventre, incitando-o a acelerar seus movimentos. Inclinando-se para a frente, ele capturou os lábios de Greg, beijando-o no mesmo ritmo em que ondulava seus quadris.
Greg rompeu o beijo em busca de ar, trincando os dentes e observando Mycroft com olhos entrecerrados. A visão do amante completamente nu, cavalgando-o num ritmo crescente, o aroma que se desprendia do corpo de Mycroft, o modo como ele mexia os quadris de forma a que, a cada três ou quatro estocadas, Greg acertasse sua próstata, o olhar de absoluto êxtase nos olhos azuis, os gemidos e murmúrios de encorajamento que lhe escapavam dos lábios… Greg sentiu a pressão quente do orgasmo construir-se em seu ventre, e envolveu o membro de Mycroft com uma mão, masturbando-o no mesmo ritmo das estocadas. Os movimentos de Mycroft foram tornando-se mais desesperados, mais erráticos, sua respiração cada vez mais ofegante enquanto ele movia-se de forma a que Greg acertasse impiedosamente sua próstata uma vez em seguida da outra.
– My… — Greg ofegou, seu quadril erguendo-se de encontro a Mycroft, enquanto ele sentia sua visão sair de foco nas bordas — Eu não aguento muito mais, amor… — ele agarrou com força o quadril de Mycroft e deixou-se levar pelo orgasmo, sem cessar os movimentos de sua mão. Mycroft continuava movendo-se de forma cada vez mais frântica, murmurando impropérios em francês, até que arqueou as costas e derramou seu gozo na mão e sobre a camiseta de Greg, gritando o nome dele.
Os dois permaneceram estáticos, as testas encostadas enquanto tentavam recuperar o fôlego. Greg ergueu a mão e lambeu as gotas de sêmen que a cobriam, provocando um sorriso em Mycroft, que acariciou-lhe o cabelo suado com a ponta do nariz. Mycroft ergueu-se com cuidado, sentindo uma fisgada de dor quando Greg escorregou para fora dele, e jogou-se sem cerimnônia no sofá, deitando a cabeça no colo do policial com cuidado.
– Você está bem, meu querido? — Greg enredou a mão nos cabelos de Mycroft numa carícia terna.
– Eu não acho que bem seja uma palavra nem remotamente apropriada. — ele respondeu, com um sorriso preguiçoso. Mycroft riu de leve e espreguiçou-se cuidadosamente, antes de erguer-se e estender uma mão para Greg.
– Vamos tomar um banho, Gregory. Não seria apropriado receber seu fisioterapeuta nesse estado, não é? — Greg aceitou a mão e levantou-se com cuidado, acariciando as costas do amante e beijando-o de leve.
–Vá na frente, lindo. Quero apreciar mais um pouco a vista. — Mycroft riu, balançando a cabeça em descrença, mas foi adiante. E, se ele requebrou um pouco os quadris ao andar, bem… quem poderia culpá-lo?
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Quando Terry chegou, Mycroft abriu a porta com um sorriso polido. Ele vestia apenas calça, camisa e colete, tinha os cabelos ainda úmidos do banho e as mangas da camisa dobradas, mostrando os antebraços pálidos.
– Doutor McAllister, boa tarde. — o médico deu um sorriso largo, e o brilho de algo que podia ser divertimento acentou-se em seus olhos.
– Senhor Holmes. Já disse pra me chamar de Terry. — ele estendeu a mão — Como Greg passou depois de ontem? — Mycroft ergueu uma sobrancelha, tomando o pesado casaco das mãos de Terry e pendurando-o no cabideiro atrás da porta. — Nenhuma dor, nenhum desconforto… rigidez muscular… — o sorriso do homem era positivamente maldoso, e Mycroft agarrou-se a anos de treinamento para manter a pose.
– Apenas o cansaço que, imagino, seja habitual após uma sessão intensa de… exercícios. — ele gesticulou em direção ao corredor — Gregory já está lhe aguardando, Terrence. Peço que me dê licença, tenho algumas ligações para fazer.
Terry seguiu até a sala de exercícios e encontrou Greg fazendo alguns alongamentos que ele lhe ensinara na véspera. Ele largou a bolsa no chão e foi corrigir a postura do policial, que deu um pulo ao sentir a mão do médico sobre o ombro.
– JESUS! Será que as pessoas não fazem mais barulho quando caminham? Entre você, Mycroft e Sherlock, eu estou sujeito a um ataque cardíaco a qualquer momento. — Terry riu e apertou-lhe a mão.
– Você é que estava distraído, Greg. Pensando no seu ruivo? — ele apontou com a cabeça em direção ao escritório — Ele parece mais relaxado, hoje. Seguiu à risca as recomendações do seu médico. Sr. Lestrade? — Greg sentiu seu rosto pegar fogo, mas não conseguiu conter o sorriso largo que tomou seus lábios.
– Sou um paciente muito obediente. — Terry deu uma gargalhada enquanto arrumava o som.
– Claro que é… — ele sentou-se no chão diante de Greg — Não houve nenhum problema com você? — Greg balançou a cabeça, sorrindo de lado.
– Não, fiz exatamente o que você mandou… deixei o esforço por conta dele.
– E pela sua cara, foi um esforço e tanto. — Terry riu. — Ele é um camarada mais forte do que aparenta, não? E atraente, também; se meu barco flutuasse pra esse lado, você teria competição. — Greg fechou a expressão de imediato.
– Oe! Menos, Terry, bem menos. — o médico gargalhou da demonstração de ciúme do outro. Num dia, era Mycroft tentando explodir suia cabeça com a força do olhar; no outro, era Greg, parecendo pronto para lhe dar um tiro.
– Relaxa, Greg. Eu disse se, o que não é o caso. Sou completamente hetero, e além disso, muito bem casado. — Greg grunhiu algo ininteligível, e Terry deu-lhe um tapinha no joelho. — Vamos lá, deixe de bobagem. Você sabe que ninguém tem a menor chance com seu ruivo. Se o que ele sente por você não é amor, então eu sou a Duquesa da Cornualha. — Greg explodiu numa risada súbita, e Terry sorriu de lado. — Estava me imaginando de mãos dadas com o Príncipe Charles, não estava, seu bastardo? — Greg olhou-o, maldoso.
– Não exatamente de mãos dadas…
– Urgh, nem termine essa frase. — Terry estendeu a mão e ligou o iPod. — Vamos deixar de enrolação e começar.
Duas horas depois, Mycroft saiu do escritório e ouviu vozes vindas da cozinha. Greg estava sentado numa das cadeiras da mesa de jantar, um copo alto de um líquido verde e espesso diante dele, enquanto Terry, sem cerimônia, lavava o copo da centrífuga.
– Hey, My. — Greg fez menção de levantar-se, mas Mycroft sinaçlizou para que ele ficasse sentado e aproximou-se, beijando-o de leve. — Quer um pouco? A aparência é repugnante, mas o sabor não é nada mau. — ele olhou o copo nas mãos de Greg e virou-se para Terry.
– Suco desintoxicante? — o médico assentiu.
– Minha receita pessoal. Se você quiser, eu deixo anotada. — Mycroft pegou o copo em mãos, cheirando-o com cuidado, e tomou um pequeno gole, rolando o líquido na boca por um tempo antes de engolir, como se degustasse um vinho.
– Couve, pepino, agrião… deixe-me ver… — ele tomou mais um gole. — Maçã verde, lima da pérsia e hortelã. — ele ergueu a sobrancelha em questionamento, e Terry olhou-o, boquiaberto.
– Mas que paladar o senhor tem, Sr. Holmes! Impressionante.
– Por favor, me chame de Mycroft, Terrence. — ele sorriu educadamente.
– Eu confesso que a única pessoa a me chamar assim é minha esposa, quando está furiosa comigo. — Greg riu junto com o médico.
– Mycroft se recusa a usar apelidos. — ele falou, sorrindo para o namorado. — Ele é a única pessoa que me chama de Gregory; nem meus superiores na Yard não me chamam assim.
– Ora, me perdoem se eu acho mais polido referir-me às pessoas pelos seus nomes de batismo. — ele falou, em tom de deboche. Terry foi até Greg e apertou-lhe o ombro amigavelmente.
– Bom, eu vou deixar vocês descansarem. Até amanhã, Greg. — Mycroft acompanhou-o ao sair da cozinha.
– Eu o levo até a porta, Terrence.
Greg deixou-se ficar sentado, exausto, ouvindo as vozes suaves de Mycroft e Terry discutindo seu progresso. Ele terminou de tomar o suco, fazendo uma careta com o amargo que o último gole deixou em sua língua, e ergueu-se com cuidado, espreguiçando-se lentamente. Mycroft já voltara, trazendo consigo a bengala que Greg deixara na sala de estar, e deixou-se ficar na entrada da sala de jantar, apreciando a maneira como a camiseta de Greg subia e deixava uma faixa do abdômen bronzeado à mostra.
– Gostando do que vê? — Greg provocou, apoiando-se na mesa.
– Sempre. — Mycroft aproximou-se e beijou-o com ternura, logo afastando-se e franzindo o nariz. — Acho que você precisa de outreo banho, meu querido. — Greg fez beicinho e colocou a mão no peito, em uma expressão fingida de mágoa.
– Mas eu achei que você apreciasse meu cheiro viril! — Mycroft riu e deu-lhe um tapinha carinhoso no braço.
– Existe uma linha tênue entre um aroma viril e o cheiro de um vestiário de escola secundária. — ele falou. — Banho, Gregory.
– Me acompanha? — ele perguntou, levantando sugestivamente as sobrancelhas. Mycroft apenas encarou-o, e Greg suspirou. — Você corta toda a minha diversão. — Mycroft continuou encarando-o, dessa vez com um olhar sugestivo. — Okay, você só corta um pouquinho da diversão. Mas quando resolve compensar, o entretenimento é de primeira. — com uma piscadela, ele saiu mancando em direção ao banheiro, e Mycroft apenas balançou a cabeça, com um sorriso pequeno nos lábios.
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Greg estava acostumado, desde que entrara para a Polícia e, principalmente, desde que sua vida se cruzara com a dos irmãos Holmes, à rotina de não ter rotina. Sua vida cotidiana até poderia aparentar uma certa regularidade, vista de longe, mas de perto ela era uma bagunça completa e intrincada de horários irregulares e arranjos inesperados. Então foi realmente esquisito para ele quando os dias na casa de Surrey começaram a seguir um certo padrão.
Ele acordava pela manhã, um par de horas depois de Mycroft ter se levantado; tomava café da manhã na companhia do namorado, caso este não estivesse preso em alguma ligação urgente para prevenir uma guerra ou impedir que mais um membro da Família Real fosse massacrado pelos tablóides por alguma atitude estúpida; recebia ligações desesperadas de Sally, Dimmock, ou John, ou de todos eles quase ao mesmo tempo, quase todos reclamando exatamente da mesma coisa (Sherlock, obviamente); espiava se Mycroft estava em teleconferência antes de invadir o escritório e trocar amassos com ele como se eles fossem dois adolescentes; fazia fisioterapia com Terry à tarde; tentava arrastar Mycroft para o quarto antes ou depois do jantar para um pouquinho de diversão sem roupas… mesma coisa, todos os dias.
Mycroft continuava com seus horários erráticos e humanamente impossíveis de sono. Greg ia para a cama um pouco antes da meia noite, e Mycroft não se juntava a ele antes das três da manhã, e muitas vezes, ainda mais tarde. Ele escorregava para debaixo das cobertas vestindo apenas sua roupa íntima, afirmando que dormia melhor sentindo a pele de Greg diretamente contra a sua. Invariavelmente, antes das seis da manhã, ele escapava do abrigo quente dos cobertores e começava seu dia. Quando, ao final daquela primeira semana, no café da manhã de domingo, Greg questionou-o sobre a falta de sono, Mycroft deu de ombros.
– Isso não afeta a minha saúde ou o meu rendimento, Gregory. Antes de você ir morar comigo, eu costumava dormir seis horas por semana, quando muito. Além do mais, — ele sorriu, pesaroso — as intrigas políticas, assim como o crime, nunca dormem.
E elas realmente não dormiam. Embora seus dias parecessem relativamente tranquilos, com a presença constante de Mycroft, ainda assim havia refeições interrompidas por telefonemas que deixavam o político nervoso e irritado (e, num dia particularmente ruim, com uma enxaqueca que custou a retroceder, deixando Greg preocupado e com vontade de socar quem quer que fosse que estivesse deixando seu amante naquele estado deplorável — mesmo se fosse o Primeiro Ministro), reuniões urgentes com Anthea em horas estranhas, e teleconferências que entravam madrugada adentro. E, após uma semana em Surrey, Greg confessava a si mesmo que sentia falta de seu próprio trabalho. Já estava afastado há mais de um mês, e os telefonemas constantes de Sally e Dimmo faziam com que ele sentisse saudades da correria constante, da loucura diária — ele até sentia falta dos intermináveis relatórios e das brigas constantes com Sherlock! Nem ele nem Mycroft haviam nascido para uma vida tranquila, de empregos nove-às-cinco de segunda à sexta.
Então, não foi um acontecimento inesperado Mycroft ter que se retirar no meio do jantar naquela quarta-feira, após receber um e-mail em seu Blackberry que o deixou positivamente fumegando de irritação. Greg terminou de comer e de limpar a cozinha sozinho, e resolveu estirar-se para assistir um filme. Ele estava quase no fim de Licence to Kill, secando descaradamente Timothy Dalton, quando ouviu a voz de Mycroft vindo pelo corredor, falando calmamente no que ele reconheceu ser japonês (tendo duas filhas obcecadas com Sailor Moon e Saint Seiya desde os dez anos de idade, Greg acabou aprendendo uma coisa ou outra da língua). Ele parou o filme e endireitou-se no assento em tempo de ver Mycroft entrar na sala com uma expressão de absoluto desgosto na face, as mãos quase arrancando os cabelos em frustração; mas pela suavidade e polidez de seu tom de voz, o interlocutor nunca adivinharia seu estado de irritação.
Greg perguntou-se até que ponto iria o controle aparentemente perfeito de Mycroft sobre sua voz…
O político aproximou-se, parando diante de Greg e acariciando-lhe o rosto com um sorriso doce.
– Ootori-san wa kenmeina kettei wa nakatta. Anata wa korera no hiritsu to no gaikō jiken o akka sa se koto naku Nihon to Chūgoku no ma ni jōkyō wa sudeni jūbun ni derikētodesu.[1] — Greg puxou Mycroft pelos quadris e abraçou-o, encostando o rosto no abdômen macio, inalando o aroma de colônia que se despredia das roupas. Mycroft olhou para baixo, uma parte da tensão em seu corpo esvaindo-se.
– Watashiniha michi no nanrakano riyū de, kare wa watashi ga kono fukōna jiken ni kan'yo shi teru to kangaete irunode, mā, soreha Cheng-san ga denwa o kakete iru yō ni watashiniha aru.[2] — Greg começou a beijar a barriga de Mycroft, ao mesmo tempo que deixava as mãos deslizarem pelo traseiro e pelas coxas dele. Mycroft olhou-o com uma expressão que claramente dizia “O que diabos você pensa que está fazendo?”. Greg apenas deu-lhe um sorriso feroz, e começou a remover a camisa de dentro da cintura das calças.
– Ootori-san-tachi no shigoto wa akirakadesu. Watashitachiha kaunserādesu. Sore wa anata ni jogen ya orokana kettei o surukara sorera o omoitodomara seru tame ni watashitachi no shigotodesu.[3] — Mycroft fechou os olhos quando as mãos mornas de Greg subiram por dentro de sua camisa, acariciando-lhe as costas e o abdômen; o policial estava admirado com o domínio férreo dele.
– Dono no kunshu Ootori-san no sakuhin no tōbu o oshie shiyou to shimasen. Watashi wa joō ni watashi no zentai no kyaria o atsukatte kimashita. Kanojo wa kazoku no soto no hito kara no shiji o uketsuke, sono meikakuna hinin nimokakawarazu, watashi o kikunara, soshite tashika ni anata jishin ga jibun no kōtei ni kika-saku tte miru koto ga dekimasu.[4] — opa, o cara do outro lado falara alguma besteira. A voz até então polida de Mycroft tornara-se fria como gelo. Greg aproveitou para abrir vagarosamente o botão e o zíper da calça de Mycroft, que olhou-o e moveu aboca, perguntando um mudo “O que você está fazendo?”. Greg respondeu da mesma forma silenciosa com um “Fique olhando.”.
– Watashi wa shōjiki ni watashi wa kono yōna jōkyō ni doraggu shimatta ka o rikai shite inai.[5] — Greg tomou-lhe o membro na mão e começou a acariciá-lo lentamente, sentindo-o enrijecer contra seu toque. Mycroft fechou os olhos novamente, a atenção dividida entre seu interlocutor e a mão que tentava enlouquecê-lo.
– Watashi wa shinjite…[6] — Mycroft interrompeu-se com um arquejo surpreso quando Greg tomou-o na boca. “Aha! Um a zero pra mim!”, Greg pensou, olhando para o amante com um ar maroto enquanto circundava-lhe a glande com a ponta da língua. Mycroft segurou-lhe os cabelos com a mão direita, enterrando as unhas no escalpo, numa tentativa de ancorar-se.
– Īe, watashi wa daijōbuda yo. Watashi no me no mae ni kyūzō kitsune to hon'nosukoshi sawagi.[7] — o político olhou para baixo com um sorriso insinuante nos lábios, um rubor começando a formar-se em seu rosto. — Hai, watashi wa bun'ya ni iru yo. Kokode wa kitsune ga takusan arimasu. Dono yō na watashi ni tobitsui kyūzō utsukushī shirubāfokkusu datta.[8] — ele lançou uma piscadela para Greg, que não havia entendido uma palavra do que ele dissera, mas ainda assim capturara a insinuação por trás do tom de voz, e o policial continuou a sugá-lo lentamente.
– Hai, watashi wa sore ga tekisetsuna shiseidearou to shinjite imasu.[9] — o aperto de Mycroft em seus cabelos intensificou-se, e Greg arranhou-lhe a glande de leve com os dentes. Mycroft sentia seu corpo esquentar cada vez mais, mas manteve um controle admirável sobre sua voz. — O toiawase Cheng-san to ikutsu ka no yori ōku no ozzu wa, kare ga futatabi watashi ni renraku shite hassei shite iru.[10] — Greg segurou com força os quadris de Mycroft e acelerou os movimentos de sua boca; queria ver até que ponto o outro conseguiria dominar-se.
– Anata no ashisutanto Kino-san ni yoroshiku o okuru. Kanojo wa bijindesu ka, ne… Dakara, wakakute totemo yūga. Soshite mochiron, anata no tsuma ni yoroshiku o sōshin shimasu.[11] — Oooh, Greg não queria ser o cara do outro lado da linha; o tom de voz de Mycroft lembrara-o de armazéns escuros e ameaças veladas ditas em tom cordial. — Jikai made, Ootori-san.[12]
Mycroft desligou o fone bluetooth e jogou o dispositivo com toda a força no chão, agarrando os cabelos de Greg com as duas mãos e estocando com força contra a boca que o atormentava. Greg relaxou a mandíbula e deixou que Mycroft abusasse de sua boca à vontade; ele sentia seu próprio prazer aumentar a cada movimento dos quadris do outro, a cada gemido ou suspiro que ele arrancava do amante quando conseguia deslizar a língua ou os dentes pela glande ou sugá-lo com força enquanto ele se afastava. Ele segurou firme o quadril de Mycroft com a mão direita para estabilizar-se, enquanto tomava seu próprio membro na mão esquerda, masturbando-se no mesmo ritmo brutal que Mycroft impunha em sua boca. Mycroft sentiu seu corpo tensionar-se, no limite, e fez menção de afastar-se, mas Greg segurou-o com força, e continuou-o sugando através de um orgasmo que fez o político gritar seu nome, deixando-o com os joelhos trêmulos e a testa porejada de suor. Enquanto engolia o gozo de Mycroft, lambendo-o com perícia, Greg alcançou o próprio ápice, derramando-se sobre sua mão e sobre as calças impecáveis de Mycroft.
Greg jogou-se contra o encosto do sofá, arfante, e Mycroft sentou-se pesadamente ao seu lado, lutando para recuperar o fôlego. Ele tomou as mãos de Greg nas suas, sem importar-se com a sujeira, e beijou-lhe os nós dos dedos.
– Me desculpe pela minha… rispidez, meu querido. Mas você realmente se esmerou no trabalho de minar meu autocontrole. — Greg virou-se com um sorriso tolo.
– Não ouse pedir desculpas. Isso foi incrível. — ele apertou levemente a mão de Mycroft — Adoro quandovocÊ fica todo dominante e brusco na cama. Ou no sofá, que seja. — ele brincou. Mycroft corou de leve e puxou-o de maneira que a cabeça de Greg descansasse em seu peito. — o que foi que você falou naquele momento em que piscou para mim, hein? — Mycroft riu de leve, acariciando os cabelos grisalhos de Greg.
– Apenas um jogo de palavras adequado, e bastante divertido. Uma… anedota particular. — Mycroft não explicou, e Greg não pressionou o assunto. Ele acariciou a perna do namorado por um momento, e grunhiu quando ouviu o bipe alto e irritante do dispositivo bluetooth, indicando que havia uma ligação. Mycroft suspirou e desvencilhou-se de Greg, arrumando da melhor maneira as roupas amarrotadas, e juntando o aparelho do chão em frente à televisão, onde ele fora parar ao ser arremessado. — Bom, o dever chama e ele é impaciente. Não me espere acordado, Gregory. — ele encaixou o fone na orelha e foi se retirando.
– My, suas calças. Estão arruinadas. — Greg falou. Mycroft ergueu uma sobrancelha, apertando o botão de espera do fone e olhando para suas coxas, onde uma mancha visível de sêmen secava,
– Não estão, não. — ele falou, sorrindo de lado e retirando-se para o escritório. Greg balançou a cabeça, rindo, e estirou-se no sofá, colocando o filme para rodar novamente. Mas quando James Bond apareceu na tela, ele já não prestava tanta atenção no charme do espião fictício; ele tinha seu próprio homem misterioso e perigoso com quem fantasiar.
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